segunda-feira, 1 de julho de 2019

O B.Palau estudado em Roma:
“a Igreja esmagará a cabeça da Revolução que é o diabo”

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Continuação do post anterior: Congresso em Roma: o beato Palau e o imperativo da guerra ao demônio





Soror Josefa Pastor CMT, em conferência no Congresso Francisco Palau, Pontifícia Faculdade Teológica Teresianum, Roma, focou a “denuncia profética” dos escândalos do mal feita pelo Beato Palau para alertar o mundo:

“Os argumentos palautianos encabeçados pelo brado “Glória a Deus! Quem como Deus?” do arcanjo São Miguel foram denúncia profética dos escândalos de seu momento histórico, aproveitados pelo demônio para estender o reino do mal”.

Por isso mesmo o inspirado religioso pedia com urgência um esforço de guerra espiritual e sacerdotal contra as legiões infernais e contra suas conspirações em que tomavam parte muitos homens.

Guerra essa que pedia a organização em ordem de combate do ministério do Exorcistado comandado pelo Papa e os bispos e secundado pelo clero universal com o encargo específico de enxotar os espíritos imundos espalhados pela Igreja e pelas nações.

A Igreja tinha no ministério do Exorcistado um instrumento ótimo e eficaz para combate-lo, diz literalmente Palau, para socorrer às famílias que em sua opressão procuram o auxílio da religião.

Aspecto da mesa principal do Congresso em Roma.
Aspecto da mesa principal do Congresso em Roma.
“Com apaixonada convicção asseverava: “constituído o Exorcistado em seu devido ordem e estado, o triunfo da Igreja é infalível. E esse triunfo é a conversão a Deus das nações e de seus reis”.

“Enganou-se o beato Francisco Palau?, pergunta Sor Josefa.

“Foi fanática sua crença?

“Foi uma visão desproporcionada da intervenção do diabo na vida da pessoa e dos acontecimentos da História?”

A resposta da teóloga é “não”. O beato Palau via muito melhor que sua época o mal que flagelava o mundo e empregava sua talentosa oratória para denunciá-lo.

“Entra pelos olhos adentro a linguagem tremenda e apocalíptica de Palau, mas também o lado radical e heroico de suas ações na assistência a doentes, necessitados e endemoniados. (...)

“No caos de uma florescente Catalunha industrial, de fortes raízes cristãs e arraigados costumes fetichistas e crenças espíritas, Palau sofreu sendo qualificado de excêntrico e de visionário.

“Conheceu o espiritismo de Allan Kardec e os centros de Barcelona onde se ensinavam, praticavam e propagavam doutrinas esotéricas em detrimento e perigo de aqueles que acudiam a eles procurando consolação, ajuda e solução para suas carências e doenças físicas e morais”.

À vista dos males causados, seu amor pelas almas e pela Igreja moveu-o a escrever com paixão ao bem-aventurado Papa Pio IX, em dezembro de 1866:

“Santíssimo Padre se estas minhas visões não têm objeto nem realidade, se são delírios, ilusões de meu espírito, são produzidas pela pena que me devora vendo o triunfo dos inimigos de Deus.

“Comunicando-as à Vossa Santidade cumpro um dever imposto pelo amor ao Sumo Pontificado e à Igreja Santa de que é cabeça visível sobre a terra”. (...)

“A Igreja é a Mulher que esmaga a cabeça da Revolução que é o diabo. A Mulher que salva o povo de sua opressão”.

Nossa Senhora de Quito esmaga o demônio. Bernardo de Legarda (1700-1773).
Também conhecida como Virgem do Apocalipse. Museu Etnográfico de Berlim.
Sim, Jesus Cristo comunicou com exuberância à sua Igreja todos os poderes necessários para derrotar as ciladas do maligno e enxotá-lo ao inferno.

Esses poderes estão centralizados no Exorcistado, que tem a missão de expulsar o diabo das almas e dos locais que infesta.

Explicando a necessidade de organizar o clero em ordem de batalha para exercer esse exorcistado, assim concluía a extensa exposição que dirigiu por escrito ao Papa e a cada um dos bispos reunidos em Roma para o Concilio Vaticano I:

A Revolução não cairá até que não seja esmagada sua cabeça, que é o diabo.

“Quem vai esmagar essa cabeça? Aquela de quem está escrito: uma mulher esmagará tua cabeça. Quem é essa Mulher? A Igreja”. (...)

“Defendemos o Exorcistado porque acreditamos que envolve entre sombras e profundos mistérios aquele terrível ato por onde a invicta Judite corta a cabeça do colosso Holofernes (...)

“ficando salvo de vez só o verdadeiro povo que hoje espalhado pela face da Terra geme na mais horrorosa escravidão”.

Já no século XIX grandes massas de católicos estavam penetradas por um conceito amolecido do catolicismo.

Esse via a religião mais como uma respeitável sensibilidade e até um nobre discurso teórico teológico, mas afastado da luta contra o inimigo dissimulado mas perceptível pelos que quisessem ver.

Nesse ambiente, as palavras profeticamente inspiradas do Beato Palau soavam a alguns como exageros “apocalípticos” no sentido desmerecedor do termo.

Percebendo a moleza ou tibieza desse tipo de católicos muito maioritários, o beato carmelitano escolheu uma linguagem literária florida que no hesitava em construir verdadeiros contos que fazem sorrir.

E explicou que pintava essas cenas pitorescas com o intuito de passar sua mensagem.

Alguns sim entenderiam o significado profundo.

Mas, ele previa que um dia no futuro quando os cenários “apocalípticos” se acabariam tornando incontornável realidade.

Ali sim muitos católicos abrindo os olhos entenderiam e diriam: “o Padre Palau tinha razão”.

Sor Josefa falou também disso:

“Predominou em Palau a dimensão apocalíptica.

“O termo ‘noite’, ‘noite escura’, ‘noite tenebrosa’ é recorrente (...) na sua correspondência epistolar a referência à ‘noite’ se reveste de tons de dramática confissão pessoal: ‘noite negra’, ‘de noite’, ‘sem caminho’, ‘minha vida foi uma longa sucessão de penas’. (...)

“Apenas conhecia o sucesso, sua obra esboroava vítima de injustificadas confabulações e interesses políticos (...).

“Nessas conjunturas Palau via a intenção demoníaca”.

O mês de julho de 1865 foi especialmente trágico para Barcelona e redondezas. Uma grave epidemia de cólera se abateu sobre a população.

Foram fechadas as escolas públicas e privadas.

As estatísticas registravam entre 60 e 80 mortes diárias.

A população fugia em massa para áreas montanhosas, particularmente o Tibidabo, o ponto mais alto nas proximidades da cidade, e Horta, então cidade afastada do núcleo barcelonês.

Foi lendo os escritos do Beato Palau que o célebre Pe. Amorth, exorcista da diocese de Roma,, iniciou sua cruzada pelo exorcismo
Foi lendo os escritos do Beato Palau que o célebre Pe. Amorth,
exorcista da diocese de Roma,, iniciou sua cruzada pelo exorcismo
A chacra de Els Penitens (Os Penitentes) criada pelo sacerdote em Vallcarca, acolhia aos que não tinham onde se refugiar.

O beato discernia que os diabos sempre à procura de fazer mal ajudavam a espalhar a epidemia, que então era mortal em devastador número. A medicina não tinha ainda dado com um remédio definitivo.

A epidemia espalhada deu ocasião ao bem-aventurado para insistir ante o arcebispo em favor do Exorcistado.

“A cada dia, explicou a teóloga carmelita, ansiava receber resposta de seu prelado enquanto escutava a voz imperiosa de sua amada Virgem do Carmo, modelo perfeito da Igreja.

“’Jogarás fora Satanás da presença da imagem que me representa sobre o altar. Em meu nome expulsarás os demônios dos corpos que possuem e atormentam’”.

“A resposta episcopal chegou em 31 de julho de 1865.

O bispo Dom Monserrat lhe impôs sérias medidas restritivas: fechar a capela logo após terminar a Missa, cessar o exercício de exorcismos, não acolher mais indigentes.

“A razão alegada foi que a concorrência de pessoas na capela de sua casa de Vallcarca podia dar lugar a maldosas interpretações”.

Pe. Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma

Pe. Gabriele Amorth, famoso exorcista de Roma (1925 - 2016) sobre o Beato Palau:

Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX.

“Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas.

“Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto sequer foi levantado.”

A resposta acabou sendo uma recusa de todo oposta ao bem implorado.

Mas, o Beato Palau já tinha sofrido muitas outras negativas episcopais quando se tratava de expulsar os diabos por meio do exorcismo.

Em seus escritos encontramos numerosas ocasiões em que ele eleva a Deus a trágica situação de impotência em que estava a Igreja e a massa dos fiéis pela inação daqueles que deviam defender o rebanho do pior dos inimigos.

Mas sua fidelidade à autoridade lhe deu forças para se manter submisso. Por isso disse Sor Josefa Pastor Meirelles:

“E obedeceu Palau, cessou sua atuação como exorcista e se limitou a assistir humanamente aos atribulados que já residiam na sua casa de Vallcarca.

“Foram inúteis as petições dos moradores para que o bispo revogara suas medidas proibitivas”.

O drama do fim da vida do santo religioso se aproximava.





11 comentários:

  1. Estou gostando muito desses textos sobre a Conferência da Soror Josefa sobre o Beato Palau! De modo, especial estou achando muito interessante os relatos da atividade de exorcista que o Beato Palau exerceu!
    Ele exerceu o ministério do exorcistado por quanto tempo?
    Foi durante toda a sua vida de sacerdote e religioso ou foi somente durante algum período?

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  2. Interessante essa influência que o Beato Palau exerceu na cruza pelo exorcismo que o Pe. Gabriele Amorth emprendeu!

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  3. O Padre Fortea, que é um famoso exorcista espanhol, fala na sua Summa Daemoniaca, Questão 173, sobre as dificuldades que os exorcistas enfrentam no exercício do ministério do exorcistado; inclusive perseguições. Por outro lado, há casos também em que os exorcistas são apoiados pelos seus respectivos bispos. Mas, enfim, infelizmente, a prática do exorcismo ainda enfrenta muitas incompreensões nos dias de hoje. No Brasil, sobretudo há uma grande falta de exorcistas.

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  4. Eu estava relendo o texto e me chamou a atenção esta parte:
    “O bispo Dom Monserrat lhe impôs sérias medidas restritivas: fechar a capela logo após terminar a Missa, cessar o exercício de exorcismos, não acolher mais indigentes.
    “A razão alegada foi que a concorrência de pessoas na capela de sua casa de Vallcarca podia dar lugar a maldosas interpretações”.
    Eu estava tentando entender a decisão do bispo e me veio a pergunta: a casa El Penitens acolhia pessoas dos dois sexos? Se esse era o problema, por que não ter duas casas? Uma para cada sexo?
    Enfim, isso já ficou no passado, mas por que não refletir sobre o passado para aprender lições para o futuro, para encontrar soluções para os problemas do presente?

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  5. Recebia a família dos possessos ou possessas. Algumas senhoras que depois constituíram um ramo das carmelitas (na época estavam proibidas pelo governo) ajudavam.

    A única foto das ruínas de Els Penitens exibe dois prédios separados pela igreja.

    As "maldosas interpretações" a que faz referência Sor Pastor eram de origem anticlerical ateu, maçom, socialista, etc. mas nunca mencionam casos morais.

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    1. Obrigado pela resposta! Como disse só estava tentando entender a situação. Lamentável que a intolerância revolucionária fechou a casa El Penitens!

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  6. Que pena que a intolerância revolucionária fechou a casa El Penitens!!!

    Será que alguém nos dias atuais já tentou recriar uma nova El Penitens???!!!

    Os relatos dos exorcistas são bem contundentes no sentido de afirmar o aumento dos casos de exorcismo. Por outro lado, temos também os casos de doenças mentais, que são difíceis de tratar; mas alguns casos podem estar comprometidos por questões espirituais. Daí a importância de não negar o exorcismo também para pessoas com problemas mentais. Esse é um assunto que é pouco tratado até mesmo por exorcistas, talvez por estar na zona limítrofe entre religião e ciência (medicina).

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  7. Um vídeo interessante sobre exorcismo e psiquiatria, em italiano.
    É uma entrevista com um frade exorcista, Fra Benigno, da Sicília.
    Ele comenta no início como alguns países têm poucos exorcistas, ao passo que Sicília, com um território bem menor, tem 25 exorcistas!
    Conta um caso de uma jovem que estava internada em uma clínica psiquiátrica, mas que tinha sinais de possessão e que foi liberta através do exorcismo.
    Veja o vídeo!
    Lotta alla possessione, incontri a Poggio San Francesco
    https://youtu.be/uiIXQTFKIeA

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  8. O Pe. Gabriele Amorth, no seu livro com o jornalista Marco Tosatti, MEMÓRIAS DE UM EXORCISTA, conta o caso de uma moça de 17 anos que tinha sido internada em várias clínicas psiquiátricas da Europa "e ninguém sabia o que ela tinha". Mas depois de ter sido exorcizada ela ficou libertada. O padre diz que o caso dessa moça levou muito tempo até ela ficar liberta. Mas ele não conta muita coisa sobre esse caso além disso.

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