segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Marie des Vallées no cerne de uma rede de santos

Nas pegadas de Marie des Vallées, São Joãu Eudes pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Nas pegadas de Marie des Vallées, São João Eudes
pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Deus promete os Apóstolos dos Últimos Tempos e um dilúvio do Espírito Santo




Durante toda sua vida Sœur Marie des Vallées foi um signo de contradição. E depois de sua morte os apaixonamentos contra ela não se apaziguaram. Seus amigos, colegas e defensores continuaram sendo perseguidos.

Muitos vinham a rezar sobre seu túmulo em Coutances. O Sr Langry se fez enterrar perto dela. Vários jesuítas defenderam sua memória.

Era venerada em numerosos conventos, disputava-se suas relíquias e fragmentos de suas roupas.

Os inimigos ficaram mais agressivos, e sempre mais pérfidos. Mas os milagres se multiplicavam. Aparições lhe foram atribuídas.

Duas personalidades católicas se destacaram entre os filhos espirituais da mística de Coutances.

Um deles foi um leigo: o barão Gaston de Renty. Casado e pai de cinco filhos, o nobre Renty não pode realizar seu sonho de se tornar cartuxo.

O barão Gaston de Renty sobre quem Nossa Senhora aconselhou “Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho”
O barão Gaston de Renty sobre quem Nossa Senhora aconselhou:
“Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho”
Mas com o influxo e participação de São Vicente de Paulo foi exímio articulador da Companhia do Santíssimo Sacramento, um grande fruto da Contrarreforma Católica, promovida pelo Concílio de Trento.

Com seu talento oratório, Bossuet em 1652 dizia que a Companhia pretendia “construir uma Jerusalém em meio à Babilônia”.

A Companhia funcionou como uma sociedade secreta católica, reconhecida pela hierarquia, devotada a honrar a Eucaristia e combater a revolução cultural libertina espalhada pelas sociedades de pensamento e que tinha seu foco central na Corte de Versailles e preparava as condições para a Revolução Francesa.

O primeiro presidente da Companhia foi Henri de Lévis, duque de Ventadour. O barão de Renty assumiu a liderança em 1640, mas foi dissolvida em 1666 pelo rei Luis XIV, 17 anos depois da morte do próprio Renty.

A Companhia era elitista e nela ingressaram até bispos, além de nobres e santos, abadessas, teólogos e juízes.

A Companhia se tornou célebre e muito odiada porque se opunha ativamente aos erros das Luzes e das influencias morais nocivas que desciam da Corte na forma de modas, “luzes” e pretextos culturais. Era o cerne daquilo que o célebre memorialista duque de Saint-Simon descreve como "cabale des dévots" ("partido dos devotos", católicos é claro).

Especialmente lembrada é a polêmica contra as frívolas, mas revolucionárias, comédias de Molière.

Esse autor incluiu virulentos ataques à piedosa Companhia em sua escandalosa obra Tartuffe. As proibições, processos e excomunhões dessa comédia revolucionária acabaram sendo pretexto para fechar a piedosa Companhia.

Mons.Pierre Lambert de la Motte, um dos fundadores das Missões Estrangeiras.
Mons.Pierre Lambert de la Motte,
um dos fundadores das Missões Estrangeiras.
Da Companhia emanou a inspiração e o impulso para a benemérita Missions Étrangères de Paris em 1658, (“Seminário para a Conversão dos Infiéis nos Países Estrangeiros”) fundada por dois bispos, então simples sacerdotes, Pierre Lambert de la Motte (1624 - 1679) e François Pallu (1626 - 1684) com o apoio de São Vicente de Paulo e da Compagnie du Saint-Sacrement da qual eram membros.

Foi um verdadeiro foco de mártires, e um poderoso estímulo à Escola Francesa de Espiritualidade com incontáveis exemplos de heroísmo e martírio em continentes pagãos em oposição aos libertinismo que se espalhava na França.

Até Santa Teresinha séculos depois participou espiritualmente nessa onda de heroísmo apostólico com seus sacrifícios e orações que ficaram registrados.

Gaston de Renty foi apresentado a Marie des Vallées pela mediação de sóror Marie du Saint-Sacrement, do Carmelo de Pontoise. São João Eudes também o estimulou a se relacionar com ela.

Em novembro de 1641, Sœur Marie perguntou à Nossa Senhora:

– Quem é esse ai?

– É aquele que eu te prometi. Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho. Ele é meu, e eu o associo com todos os que te procuram.

Marie des Vallées e São João Eudes


São João Eudes foi confessor, discípulo e anotador de Soeur Marie des Vallées
São João Eudes foi confessor, discípulo
e anotador de Soeur Marie des Vallées
Outra pessoa chave na vida de Marie foi São João Eudes. Ele nasceu em 1601 em Ri, perto de Argentan, diocese de Séez.

Foi ordenado sacerdote em Paris no dia 20 de dezembro de 1625, e ingressou no instituto do Oratório onde ficou perto de vinte anos.

Em 26 de outubro de 1640, São João Eudes foi eleito superior do Oratório de Caen, na Normandia.

Em 1641 ele conheceu a Sœur Marie des Vallées, e, por pedido de Mons. Léonor Goyon de Matignon (1604-1680), bispo de Coutances (1627 – 1646), assumiu sua direção espiritual que duraria até a morte da “santa de Coutances”.

 Lembrando-se desse período, São João Eudes escreveu:

“No mesmo ano de 1641, no mês de agosto, Deus me deu um dos maiores favores que já recebi de sua bondade infinita.

“Porque foi nessa época que tive a felicidade de começar a conhecer a Sœur Marie des Vallées, por quem a divina Majestade me concedeu um número muito grande de graças muito notáveis.

“Depois de Deus, devo esse favor à Santíssima Virgem Maria, minha muito honrada Senhora e minha querida Mãe, a Quem nunca poderei agradecer suficientemente”.

Essas insignes graças de Deus vieram acompanhadas por dolorosas perseguições por parte de seus irmãos no sacerdócio.

Santa Maria Eufrásia Pelletier
Santa Maria Eufrásia Pelletier
São Vicente de Paulo, Basilica St Elizabeth Ann Seton, Emmitsburg, EUA
São Vicente de Paulo, basílica S.Elizabeth Seton,
Emmitsburg, EUA
São João Eudes acabou se desligando do Oratório em março de 1643 para fundar a Congregação de Jesus e Maria, mais conhecida como padres Eudistas.

Também fundou a Ordem de Nossa Senhora da Caridade destinada a prostitutas arrependidas que, após a reforma de Santa Maria Eufrásia Pelletier ficou conhecida como o Bom Pastor.

Nossa Senhora mostrou a Marie des Vallées o hábito que deviam usar essas religiosas.

Sœur Marie des Vallées dizia a São João Eudes que fizera essas fundações porque inspiradas pelo próprio Cristo.

João Eudes e seus sacerdotes privilegiavam as pregações populares com o método que depois seria retomado por São Luis Maria Grignon de Montfort.

Em 1643, São João Eudes fundou a Sociedade dos Filhos do Sagrado Coração da Mãe Admirável, na qual ingressou Marie des Vallées.

A confraria voltada para mulheres não casadas que guardavam a castidade no mundo, agiu clandestinamente durante a Revolução Francesa dando refúgio aos sacerdotes “refratários” que não haviam jurado a ímpia Constituição.

Há quem defenda que essa fundação foi fortemente encorajada por revelações a Marie des Vallées.

São Luís Grignion de Montfort aplicou a 'troca de vontades' de Soeur Marie e pregou a escravidão a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora
São Luís Grignion de Montfort aplicou a 'troca de vontades' de Soeur Marie
e pregou a escravidão a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora
São João Eudes foi declarado pelos Papas Doutor e Apóstolo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, precedendo a Santa Margarida Maria Alacoque que entrou no convento da Visitação em Paray-le-Monial no ano 1671, onde teve sua primeira visão em 1673.

No ano seguinte, 1674, foi celebrada por primeira vez a festa do Sagrado Coração pelas beneditinas do Santíssimo Sacramento em Montmartre, Paris, com o Ofício composto por São João Eudes.

São João Eudes e Gaston de Renty se tornaram conhecidos enquanto cuidavam dos doentes atingidos por uma epidemia de peste em 1631. Gaston de Renty tinha vinte anos e São João Eudes, trinta.

O Papa Clemente X aprovou as Congregações e Institutos fundados por São João Eudes e, no 4 de janeiro de 1903, o Papa Leão XIII o reconheceu solenemente como o autor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, fazendo alusão “à Santa de Coutances”

São João Eudes foi beatificado pelo Papa São Pio X quem também, no 11 abril de 1909, o proclamou “Pai, Doutor e Apóstolo das devoções aos Sagrados Corações”. Foi canonizado por Pio XI em 1925.

Sœur Marie des Vallées não sabia ler nem escrever e São João Eudes redigiu de punho e letra tudo o que ficou registrado do que ela disse e fez.

A Revolução Francesa fez questão de queimar todos os manuscritos que estavam na casa dos padres eudistas em Paris. Então se achou que estavam perdidos para sempre.

Porém, ninguém, ou muito poucos, sabiam que São Francisco Xavier de Montmorency-Laval, partindo para o Canadá do qual imaginava nunca mais retornar, encomendou uma cópia manuscrita dos registros da “santa de Coutances” caligrafados por São João Eudes. 

Essa cópia histórica foi recuperada em 1894 durante o processo de beatificação de São Francisco Xavier de Montmorency-Laval e enviada aos padres eudistas da França.

São Francisco Xavier de Motmorency Laval, 1º bispo do Canadá copiou todos os apontamentos de Soeur Marie
São Francisco Xavier de Motmorency Laval, 1º bispo do Canadá
copiou todos os apontamentos de Sœur Marie
São João Eudes tinha dividido a coleção de apontamentos num conjunto de dez volumes que intitulou “A vida admirável de Marie des Vallées” acrescidos de mais dois, que escreveu após a morte de Marie.

O conjunto foi editado em abril de 2013 por Les Editions Paroisse et famille – Centro Saint-Jean-de-la-Croix (Mers-sur-Indre, 696 páginas) a única fonte em que nós nos baseamos.


Todos os escritos de São João Eudes relativos a Sœur Marie passaram por severo exame nos processos diocesano e romano de beatificação e canonização dele.

Em 25 de abril de 1909 foram aprovados em sua totalidade pela Santa Sé deixando o terreno livre para sua canonização em 1925.

Sœur Marie des Vallées pareceu santa demais e os escritos ficaram guardados zelosa e silenciosamente, porém foram cuidadosamente estudados e anotados. Até que o grande tempo transcorrido favoreceu que fossem publicados com rico apoio documental e crítico.

Por isso, voltou-se a falar dela no fim do século XX, após três séculos de esquecimento, e esse é um dos eventos que marcam a vida post-mortem de Sœur Marie des Vallées. E é o que passaremos a ver nos posts seguintes.


Continua no próximo post: Sœur Marie des Vallées, Luís XIV e o destino da França


Nota : Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Deus promete os Apóstolos dos Últimos Tempos
e um dilúvio do Espírito Santo

Soeur Marie des Vallées
Soeur Marie des Vallées
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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webmaster de
diversos blogs








Continuação do post anterior: Sociedade secreta de feiticeiros se volta contra Soeur Marie des Vallées




Marie manifestou muitas vezes o dom de profecia em suas visões, que jamais eram exteriores, mas sempre interiores.

Ela parecia investida da missão de abrir os olhos dos eclesiásticos e das almas consagradas para suas graves falências, escreveu seu grande anotador São João Eudes.

Essa missão fez com que seus historiadores se perguntassem se não teria sido análoga à dos profetas do Antigo Testamento em relação à decadência da classe sacerdotal hebreia.

Marie deplorava as negligências das pessoas consagradas e a acumulação de benefícios eclesiásticos, o enriquecimento pessoal com os bens da Igreja, a corrida atrás de cargos hierárquicos mais lucrativos, o abandono das regras de moral e da disciplina religiosa...

Pela voz de Marie, Jesus mandou mensagens muito claras:

Eles serão julgados com maior severidade do que os outros.

Aqueles que não cumprirem sua missão serão punidos por todos: pelo povo, pelos nobres e pelos magistrados (ou oficiais de justiça);

Os nobres e os homens de justiça serão punidos pelo povo;

O povo comum será apenas o flagelo de si próprio.

Os infortúnios estão prontos para cair sobre a Igreja, advertia, porque há mais justiça entre a soldadesca do que entre os sacerdotes; e os religiosos enchem os infernos em maior número que as outras classes sociais.

Ela insistia com força que os bispos terão de responder pelo rebanho todo de uma maneira prodigiosamente exata.
Nosso Senhor lhe mostrava com frequência a ferida que mais profundamente afligia seu Coração. Por exemplo, no dia 14 de janeiro de 1645, quando lhe disse:

– “Eu tenho um anel no dedo que me machuca, eu o jogarei no fogo”.

E esclareceu: “Esse anel são as Ordens religiosas que serão purificadas pelo fogo da tribulação...” (p. 561)

Marie também anunciava um outro “dilúvio de fogo” diferente que cairia sobre o mundo. Porque seria fogo do Espírito Santo.

São Luís Maria Grignion de Montfort eccou amplificado o anúncio da vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos
São Luís Maria Grignion de Montfort ecoou amplificado
o anúncio da vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos
Enunciava um conceito que seria retomado depois por São Luís Maria Grignion de Montfort:


“O terceiro dilúvio é o dilúvio do Espírito Santo, que será um dilúvio de fogo, mas será triste porque encontrará muita resistência e uma quantidade de madeira verde que será difícil de queimar”, disse ela.

O barão Gaston de Renty, reproduzindo palavras de Marie, esclarecia, em termos que prenunciam São Luís Maria Grignion de Montfort.

O grande pregador da escravidão de amor a Nossa Senhora, por sua vez, se inspirou nas profecias de Soeur Marie des Vallées, como está consignado no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem:

“Disse que isto acontecerá especialmente no fim do mundo, e em breve.

“Porque o Altíssimo e a sua Santa Mãe devem suscitar grandes santos, que ultrapassarão tanto em santidade a maior parte dos outros santos, quanto os cedros do Líbano excedem os pequenos arbustos.

“Assim foi revelado a uma santa alma [Marie des Vallées], cuja vida foi escrita pelo Sr. de Renty”. (Tratado nº 47)

Devemos, portanto, preparar-nos para as grandes tribulações, anotava São João Eudes:

“Nosso Senhor e a Santíssima Virgem disseram-lhe muitas vezes que haverá uma grande e horrível aflição que limpará todos os pecados da terra, em comparação com a qual todas as aflições do nosso tempo não são nada”.

A depuração pelo fogo é necessária, dizia, porque Deus quer renovar a Criação – Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem Terra.

E nisto consiste a grande Obra de sua Misericórdia:

“Será minha Misericórdia a que aplicará todos os castigos que virão então, mas não será recebida como tal porque virá revestida de Justiça”.

O Sagrado Coração quer todas as almas e por isso numa visão falou a Marie de uma “conversão geral”.

Em 1645, Nossa Senhora anuncia a Soeur Marie que “a divina vontade já pronunciou o decreto de morte contra o pecado. Falta apenas executá-lo”.

E em abril de 1650, Jesus disse-lhe novamente: “O que aflige e abala teus demônios (que possuíam a Marie) é que eles estão sendo solicitados a destruir sua própria obra”.


A conversão geral que se aproxima será como uma fogueira universal que abrasará o universo inteiro. 

Esse será recriado sob a signo de uma humanidade reconciliada com Deus, cujo amor arderá nos corações com um fogo que os homens ainda não conhecem.

A terra será povoada por santos. Essa regeneração é a obra dos mártires e das vítimas do amor que hoje sofrem acumulando méritos para esse dia. Após a grande tribulação, a Terra será povoada por santos!!!

Marie des Vallées na vida quotidiana


Marie morava num quarto da casa episcopal e trabalhava como doméstica durante o dia.

O Pe. Lelièvre a descreve como “uma mulher com uma trintena de anos, grande, forte, digna, majestosa até, e mais bem severa. Suas roupas eram simples e muito limpas.

“Sua presença era enérgica. No fundo de seus traços fisionômicos muito doces percebiam-se sofrimentos íntimos pouco comuns.

“Seu olhar era vivo e penetrante: ela sondava logo o visitante e descobria o motivo que o trazia.

“Parecia ler até o mais fundo das disposições das almas. O mero curioso era afastado. Mas aquele que fosse em nome de Deus, trazendo um tema edificante ou pedindo um conselho, era acolhido com a mais extrema benevolência”.
Quando completava seu serviço, ficava fiando ou tecendo na cozinha, compondo canções populares, cânticos e complaintes. Nesses momentos, os padres Lerouge e Potier testemunharam fenômenos místicos sobrenaturais sensíveis.

Numerosos eclesiásticos, incluídos bispos, contemplativos, personalidades do Reino da França e pessoas do povo iam vê-la e pedir seus conselhos.

Capuchinhos, franciscanos, agostinianos e até algum jesuíta foram receber conselhos.

Marie não suportava tibieza nos que se aproximavam dela. Semelhante inconsciência suscitava nela reações por vezes truculentas.

Ela se insurgia contra as modas do tempo e a atitude dos padres ou dos fiéis que celebravam ou acompanhavam a Missa sem se interessarem profundamente.

Para amigos ou inimigos, ela foi um enigma, explica São João Eudes. Seus inimigos não podiam combatê-la abertamente, de tal maneira sua vida era inatacável, então multiplicavam as insinuações depreciativas ou caluniosas.

Segundo seu diretor espiritual, Marie possuía uma espécie de poderoso atrativo natural que lhe conferia um grande ascendente sobre todos os que se aproximavam dela.

Catedral de Coutances, capela onde está enterrada
Catedral de Coutances, capela onde está enterrada

Sua lucidez era excepcional, possuía um grande conhecimento do mal. Sua paciência era imensa, sua lealdade, infalível.

Um de seus biógrafos, Émile Dermenghem, escreveu em 1926:

“Essa iletrada tem uma surpreendente percepção da metafísica e da dedução, um espírito de síntese unido à mais colorida das imaginações [...] Ela vai, como sempre, direto ao centro”.


Após acompanhar a recitação do Rosário com aqueles que a rodeavam, assistida por São João Eudes, Marie des Vallées partiu para o Céu no dia 25 de fevereiro de 1656.

Foi enterrada na capela de São José da igreja de São Nicolas, em Coutances. Várias Ordens disputaram a honra de velar seus restos.

Com aquiescência do Parlamento – tribunal de alta alçada –, seus restos mortais acabaram sendo depositados na capela do seminário dos padres eudistas.

Até serem trasladados no dia 5 de agosto de 1919 para junto do altar da capela du Puits, na catedral de Nossa Senhora de Coutances, onde repousam atualmente.





Nota importante: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Sociedade secreta de feiticeiros
se volta contra Soeur Marie des Vallées

Soeur Marie des Vallées, dita La Sainte de Coutances
Soeur Marie des Vallées, dita A Santa de Coutances
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Continuação do post anterior: Soeur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”



Soeur Marie des Vallées nasceu o dia 15 de fevereiro de 1590 em Saint-Sauveur-Lendelin, aldeia perto de Coutances, Normandia. Foi a terceira criança de um casal católico pouco praticante.

Desde criança Marie foi muito voltada para a religião. Após a morte de seus pais, sua juventude foi um calvário, passando de lar em lar, confiada a tios relaxados moralmente e/ou brutais no tratamento.

Aos dezenove anos era bonita e inteligente, não faltando candidatos para casamento. Nos costumes da região, ficar celibatário era considerado uma maldição e até sinal de possessão, mas Marie queria conservar sua virgindade.

Um pretendente recusado apelou para uma feiticeira. Essa soltou sobre ela um bruxedo que a atormentou durante três anos. Assanharam-se contra ela vários sorciers (bruxos ou feiticeiros), entre os quais um sacerdote.

Marie apelou então para o bispo diocesano de Coutances, Dom Nicolas de Briroy, que a acolheu em instalações do bispado e recomendou que fosse exorcizada.

As sessões foram muito penosas e os exorcistas constataram uma inusual insistência dos assaltos demoníacos decorrentes de sortilégios lançados incessantemente contra ela por assembleias de bruxos.

Soeur Marie des Vallées foi acusada de feiticeira e conduzida ao Parlamento de Rouen, que a processou com métodos semelhantes aos da tortura, reconhecendo-a possessa, porém sem culpa própria, concedendo até que se tratava de uma pessoa virtuosa.

Saint-Sauveur-Lendelin, a cidade onde nasceu a mística
Saint-Sauveur-Lendelin, a cidade onde nasceu a mística
Os eclesiásticos retomaram os exorcismos em condições muito penosas, porque os demônios se recusavam a abandoná-la devido à incessante conjuração dos bruxos contra ela.

São João Eudes, que haveria de ser seu confessor, confidente e anotador de sua vida, de suas obras e doutrinas, certa feita atendeu um satanista arrependido que lhe contou:

“Conheço um homem que infelizmente esteve envolvido nesse detestável partido pelo espaço de dez anos [...]

“Ele me garantiu que, quando se faz algo na terra para a glória de Deus, os maiores inimigos são os feiticeiros, que organizam reuniões para tramar os meios de impedi-lo, destruí-lo [...]

“Por causa disso, eles tentavam destruir a obra que a Divina Bondade fazia através da Sœur Marie”.

De 1609 a 1614, Marie foi como um campo de combate onde se travava grande batalha da guerra das trevas contra a Luz.

Na história da Igreja há santos que foram possuídos ou especialmente assediados pelo demônio.

No caso dela, por permissão divina, os exorcismos tinham pouco efeito, pois Deus desejava essa provação devido a uma grande obra que lhe desvendaria depois.

Paradoxalmente, Marie rezava pelos sorciers (bruxos), seus inimigos mais cruéis, que ela chamava de “os religiosos de Satanás”, pelas razões que veremos.

Marie não temia os demônios, porque sua experiência lhe tinha feito ver que são “as mais impotentes de todas as criaturas”, e instrumentos de que Deus se serve até para a conversão dos impenitentes.

Soa assombroso, mas acabaremos vendo o poder que ela adquiriu sobre os príncipes dos abismos.

Marie queria aniquilar os efeitos dos sortilégios nos homens que conduziam a França. E, inclusive, converter os feiticeiros em função de uma imensa batalha que se daria na Terra.

Madre Mechtilde (Matilde) do Santíssimo Sacramento fundou a primeira ordem consagrada à Adoração Perpetua
Madre Mechtilde (Matilde) do Santíssimo Sacramento OSB
fundou a primeira ordem consagrada à Adoração Perpétua.
Praticava os conselhos de Soeur Marie des Vallées
A serva de Deus Madre Mechtilde do Santíssimo Sacramento (1614 – 1698), fundadora da Ordem das Beneditinas da Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento, a primeira do gênero no mundo, iniciou a Adoração Permanente na colina de Montmartre (hoje Paris), aconselhada por São Vicente de Paulo. Não era ainda a famosa basílica de Montmartre, construída no século XIX.

A Madre teve de enfrentar os bispos jansenistas e galicanos, e manteve estreitas relações com Soeur Marie des Vallées, porque sua comunidade de Paris padecia muito por causa de ataques preternaturais provenientes dos bruxos e de seus sortilégios.

Soeur Marie des Vallées recomendou à congregação da Madre Matilde, como missão importante, a reparação pelos crimes dos magos.

Para salvar as almas que se perdem, Marie aceitou sofrer durante muitos anos os tormentos do inferno. No meio desta provação apareceu em sua vida São João Eudes.

A natureza das penas infernais era intelectual, mas repercutia em seu corpo com sentimentos de ódio, fome, morte e desespero.

Ela passaria ainda por outro período, que denominou “mal de douze ans”, e que foi um inferno pior. Afligiram-na sete estranhas febres, representando os sete pecados capitais.

Nessas circunstâncias adversas, segundo São João Eudes, Nossa Senhora conduzia “seu sacrifício até a perfeição”. 
Naquela época, muito provavelmente Marie já estava estigmatizada e as chagas sanguinolentas eram visíveis.


Das visões de Soeur Marie: vítima expiatória pelos pecados dos homens

Cristo fazendo Justiça, Fairford, Inglaterra
Cristo fazendo Justiça, Fairford, Inglaterra
Um dia, cuja data São João Eudes não precisa, Soeur Marie des Vallées viu a Justiça divina descendo dos Céus para cobrar dos homens o que devem.

Atrás dEla vinha a Ira de Deus como uma enchente que ia submergir o mundo por culpa de seus pecados. Ela tinha na mão uma espada, flechas e um raio.

Mas, a Caridade saiu a seu encontro e a convidou a uma refeição e lhe ofereceu um vinho tão precioso que a Justiça se adormeceu. Então a Caridade pegou suas armas e as cravou em Soeur Marie.

Quando a Justiça acordou se mostrou tão satisfeita que desistiu do castigo que ia aplicar ao mundo e convidou à Caridade a um festim que Ela iria lhe oferecer no Céu.

O que é que isso significava? Escreve São João Eudes:

“É que a Justiça divina estava pronta para condenar a todos por causa de seus pecados; mas a Caridade divina lhe ofereceu uma refeição que são os sofrimentos da Soeur Marie, em cujo sangue a espada e as flechas da justiça divina foram embebidas. (...)

“mas depois que Nosso Senhor os abençoou e os converteu, inundou toda a Terra com um dilúvio de graças e bênçãos”. (p. 331-332)

E ainda outra vez, Nosso Senhor lhe falou dos três dilúvios comentando o Libro da Sabedoria (1, 7) onde diz Spiritus Domini replevit orbem terrarum [O Espírito do Senhor encheu a Terra toda], porque isso se deve entender do momento em que o Espírito Santo ateará o fogo do amor divino pela terra toda e fará seu dilúvio.

“Pois há três inundações que são tristes, todas enviadas para destruir o pecado.

“O primeiro dilúvio foi do Pai Eterno, e foi um dilúvio de água.

“O segundo foi o dilúvio do Filho, que foi um dilúvio de sangue.

“O terceiro, o dilúvio do Espírito Santo, será um dilúvio de fogo, mas será triste como os outros, porque encontrará muita resistência e muita madeira verde que será difícil de queimar”. (p.332)

E em 1639 completou: “sabei que quando a minha misericórdia virá no tempo da grande tribulação, ela jogará todas as criações dos homens pelas janelas e as esmagará, quer dizer os pecados que são produto dos pecadores.

“Será minha divina Misericórdia que fará esse massacre e que executará todos esses castigos, mas não a reconhecerão enquanto tal; acreditar-se-á que foi a Justiça porque Ela vira revestida com as roupagens da Justiça”. (p. 335)





Nota importante: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Nossa Senhora do Carmo, guia da luta dos profetas

Nossa Senhora do Carmo, Filipinas. Fundo: Monte Carmelo
Nossa Senhora do Carmo, Filipinas. Fundo: Monte Carmelo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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diversos blogs







No 16 de julho a Igreja comemora a festa de Nossa Senhora do Carmo.

Sua invocação Virgem Flor do Carmo é a mais antiga e remonta a oito séculos antes de seu feliz natalício.

Como pode ser que a Mãe de Deus fosse venerada oitocentos anos antes de nascer?

A história é maravilhosa e intimamente ligada à montanha do Carmelo em Terra Santa.

Para aparentemente complicar mais as coisas, arqueólogos e historiadores registram que civilizações pagãs também cultuavam uma virgem que daria à luz o salvador do mundo.

Na elevação onde fica a cidade de Chartres, França, sede de uma das mais belas catedrais de Nossa Senhora, em tempos pré-cristãos, os bruxos dos pagãos druidas, ditos charnuts, tinham essa crença e a chamavam “Virgo Paritura” (“A virgem que dará a luz”).

De onde viera essa noção e quem a levou?

Os romanos invocavam a deusa Ceres que designavam como “Rainha dos Céus” e “Santa Virgem” e diziam que seria mãe de Baco, o salvador executado, mas que ressuscitou três dias depois.

A mesma saga aparece com nomes diversos e mitos deturpados na Babilônia, na Índia e nos egípcios para citar os principais. Cfr Montmin.

Como isso pode ser?

Não é tão difícil responder. A explicação está nos capítulos iniciais da Bíblia e foi dada por Deus Criador a Adão e Eva sendo endereçada também à serpente Satanás.

‘15. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar’”. (Gênesis, 3)
‘15. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela.
Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar’”. (Gênesis, 3)
Igreja de Laguardia, Álava, Espanha.
Após terem cometido o pecado original, Deus profetizou aquilo que seria a coluna vertebral da História:

“Então o Senhor Deus disse à serpente:

“‘15. Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar’”. (Gênesis, 3)


Esta profecia foi conhecida pela humanidade que toda ela procede do primeiro casal.

Os pagãos a foram retransmitindo de geração em geração mas introduziram fantasias e deformações. Ela só ficou íntegra no povo eleito.

Por isso lemos Isaías profetizando a Virgem Mãe, a Natividade do Messias, seus atributos divinos, seu Reino Universal, seu Sacrifício salvador, aproximadamente sete séculos antes da vinda do Cristo. Isaías viveu entre 740 e 681 a.C.

Isaías profeta, Aleijadinho, Congonhas. “Uma virgem conceberá
e dará à luz um Filho, e ele será chamado Emmanuel,
isto é, Deus Conosco”
“Pois por isso o mesmo Senhor vos dará este sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um Filho e o seu nome será Emmanuel” (Isaías, 7,14).

São Mateus, em seu Evangelho destaca que o nascimento de Jesus é o cumprimento da profecia de Isaías:

“Uma virgem conceberá e dará à luz um Filho, e ele será chamado Emmanuel, isto é, Deus Conosco”. (Mt 1,22-23)

Ainda o profeta Isaías que nos retrata a alma de Maria Santíssima e nos diz que terá sua sede no Monte Carmelo:

“No deserto habitará a equidade, e a justiça terá o seu assento no Carmelo (vergel).

“A paz será a obra da justiça e o fruto da justiça é o silêncio e a segurança para sempre.

“O meu povo repousará na mansão da paz, nos tabernáculos da confiança”. (Isaías, 32, 16-18)


Carmo, ou Carmelo, em hebreu significa jardim. A alma de Nossa Senhora é um jardim de virtudes, é um oásis de silêncio e de paz, onde reina a justiça e a santidade, oásis de segurança, todo cheio de Deus.

Israel é a terra prometida, mas o Carmo é sua parte mais bela e perfumada porque é Nossa Senhora. É a parte reservada onde Deus encontra suas delícias. É o jardim de um requinte único.

Só uma alma completamente desprendida e que domina inteiramente as suas paixões, poderia, como Maria Santíssima, ser o verdadeiro Carmelo, onde Nosso Senhor Jesus Cristo faz suas delícias e esmaga a serpente que tem em grau insuperável todos os vícios opostos.

Perto do topo do Monte Carmelo há uma venerada gruta. Nela moraram o profeta Santo Elias (século IX a.C.) e seus primeiros discípulos, segundo as Escrituras.

Nossa Senhora do Carmo, Sao Joao del Rey
Nossa Senhora do Carmo, São João del Rey
Santo Elias foi o fundador da Ordem do Carmo e o primeiro a ver profeticamente a Nossa Senhora.

E foi o primeiro a presta-lhe culto junto com seus primeiros seguidores, os primeiros carmelitas.

Elias e os seus iniciaram a devoção à Virgem Flor do Carmo.

A Ordem do Carmo – Ordem dos Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo – nasceu no Antigo Testamento e é a mais antiga instituição monástica. Ao mesmo tempo, está destinada a durar até o fim do mundo.

Seu fundador nasceu em Tesba, da tribo de Gad, no século IX a.C.

Ele criou comunidades na Terra Santa. A mais famosa morava no Monte Carmelo com vista para o Mar Mediterrâneo (hoje periferia de Tel Aviv-Haifa).

Os seguidores de Elias foram chamados “filhos dos profetas”. O mais conhecido foi Santo Eliseu (cf. I Re, XIX, 19-21; II Re, II, 1 e segs.).

Nossa Senhora do Carmo. Espanha
Na segunda metade do século XII, um grupo de cruzados adotou a vida eremita no Monte Carmelo, ao redor da “fonte de Elias” se consagrando a Nossa Senhora à imitação do grande profeta do Antigo Testamento.

O primeiro superior geral no Novo Testamento foi São Bertoldo de Malefaida. O segundo, São Brocardo († 1220), inspirou a Regra Carmelita aprovada por Santo Alberto, Patriarca de Jerusalém, no início do século XIII.

Mas, os carmelitanos só têm como fundador a Santo Elias. Na Basílica de San Pedro, entre as estátuas dos santos fundadores, está a de Santo Elias como pai e chefe do Carmo.

Sete papas – Sisto IV, João XXII, Júlio III, São Pio V, Gregório XIII, Sisto V e Clemente VIII – em respectivas Bulas, dizem que os Carmelitas “preservam a sucessão hereditária dos santos profetas Elias e Eliseu e dos outros pais que moravam perto da fonte de Elias no santo monte Carmelo”.

Sisto V autorizou o culto de Elias e Eliseu como patronos da Ordem, dias de festa em sua honra e Ofícios em sua memória (cf. RP Cornelio a Lapide SJ, Commentaria in Scripturam Sacram, In librum III Regum - cap. XVIII, Ludovicus Vivès Bibliopola Editor, Paris).

Quando os sectários de Maomé invadiram a Palestina, os carmelitanos se refugiaram na Europa. A partir daí, por meios providenciais, se expandiram pelo mundo.

São Simão Stock recebeu o escapulário de Nossa Senhora em Cambridge, Inglaterra, e Santa Teresa de Jesus iniciou uma gloriosa restauração da Ordem em Ávila, Espanha.

O futuro retorno do profeta Elias, o arqui-devoto de Nossa Senhora do Carmo, está aludido no livro do Apocalipse. Esse fala das duas testemunhas que virão lutar contra o Anticristo no fim do mundo.

A quase totalidade dos autores interpreta que o primeiro será Santo Elias. Há disparidade de opiniões sobre quem será o segundo, uma boa metade defende com respeitáveis argumentos que será o patriarca Henoc.

Bem antes do fim do mundo, na nossa crise atual, Nossa Senhora do Carmo inspirará a vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos. Esses Apóstolos foram antevistos sobrenaturalmente por numerosos santos com luzes proféticas.

Santa Teresa de Jesus, em 1615 Peter Paul Rubens (1577-1640)
Kunsthistorisches Museum, Viena
Merece especial destaque as visões da restauradora do Carmelo Santa Teresa de Ávila, quem assim os viu misticamente e descreveu:

“12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja.

“Deu-se-me a entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há-de fazer uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão-de sustentar a Fé.

“13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento, apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:

“Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim:

“‘Nos tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires’.

“14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, apareceram-me e se puseram diante dos [meus] olhos seis ou sete religiosos que me parece seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão.

“Penso que nisto se dá a entender que hão de defender a Fé; porque, de outra vez, estando em oração, se me arrebatou o espírito e pareceu-me estar num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta Ordem, pelejavam com grande fervor.

“Tinham os rostos formosos e abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.

“15. Tenho visto algumas vezes este glorioso Santo, e tem-me dito algumas coisas, e agradecido pela oração que faço pela sua Ordem e prometido de me encomendar ao Senhor.

“Não declaro as Ordens, para que não se agravem outras; se o Senhor for servido, que se saiba, Ele o declarará.

“Mas cada Ordem, ou cada membro de per si, deveria procurar que por seu intermédio fizesse o Senhor tão ditosa a sua Ordem que, em tão grande necessidade como agora tem a Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!”

(Santa Teresa de Jesus O.C.D., “Libro da Vida”, cap.40, apud Obras Completas, BAC Nº 212, Madrid, 1979, 6ª ed. revisada, 1184 págs, pp. 186-187).

Estátua de Santo Elias e Beato Palau. Fundo Monte Carmelo
Estátua de Santo Elias e Beato Palau. Fundo Monte Carmelo
Um outro carmelitano dotado de luzes proféticas – o Beato Pe. Francisco Palau – deduz de um diálogo espiritual com a Ssma. Virgem do Carmo que a Mãe de Deus fará surgir esses enviados de Deus das gloriosas hostes carmelitanas :

“Definirei tua missão em três pontos. (...): 1º. a revelação de minhas glórias ao mundo, 2ª a restauração da Ordem do grande profeta Elias, 3ª a missão deste profeta na terra.

“1. Com relação ao primeiro, (...) vou direcionar tua caneta, pincel e lápis; e por trás das sombras, das figuras, das espécies e dos enigmas, me darei a conhecer àqueles que escolhi para que, quando chegar a tremenda hora de combate, me amem e sejam fiéis.

“2. Distribui as armas do santo Monte do Carmelo, para os escolhidos serem filhos do grande profeta Elias e se acolham à sua proteção e os prepararm para receberem o espírito duplo desse grande profeta. (...)

“Entende-te sobre eles com teu pai Santo Elias; e diz a eles que estão sob sua proteção e direção, que o reconheçam como seu general, e que peçam que Deus lhes dê o espírito forte do Profeta” (Pe. Francisco Palau, “Mis relaciones con la Iglesia”, in “Obras Selectas”, Editorial Monte Carmelo, Burgos, 1988, 818 págs., pp. 457-458).

O prof. Plinio Corrêa de Oliveira comentou a respeito que o mais nobre e mais alto apostolado consiste em levar a Humanidade inteira para a Igreja.

O Bem-aventurado carmelitano Francisco Palau via que na nossa época se jogava a salvação eterna da Humanidade constituída por nações que são corpos morais.

Os demônios e a Revolução tratam de conquistar as nações. Os filhos da luz querem conquistar a Humanidade inteira para Nossa Senhora e, por meio dEla, para Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quer dizer, o objeto mais nobre e mais alto do apostolado hoje não consiste em levar para a Igreja esta ou aquela alma, mas as nações e a Humanidade inteira para Deus.

Nossa Senhora do Carmo, São João del Rey, Procissão
Nossa Senhora do Carmo, São João del Rey, Procissão
Ligado a Nossa Senhora pela sagrada escravidão a Ela há o filão dos escravos dEla, cujo alfa e ômega é o profeta Elias.

Seria uma bela réplica à Revolução que tentou destruir a Cavalaria, que irrompesse na História essa família de almas angélica e cavalheiresca dos Apóstolos dos Últimos tempos.

Essa cavalaria angélica tem sua cabeça em Elias Profeta e seus continuadores.

Ao longo dos milênios Nossa Senhora do Carmo comanda esse filão espiritual. Filão inaugurado por Santo Elias nos primeiros séculos da História que esse varão do Carmelo, e que depois virá ele próprio no encerramento.

Compreende-se então, que Nossa Senhora tenha querido aparecer em Fátima no dia do milagre do sol revestida também com o manto do Carmo, além de Fátima e do Rosário.

Nesse contexto, o prof. Plinio Corrêa de Oliveira compôs uma oração pessoal a Nossa Senhora do Carmo, que reza assim:

“Senhora do Carmo que, por desígnio de Deus, mesmo antes de nascer foste fundadora do grande veio de profetas que começou com Elias e que irá até o fim do mundo com o carisma da profecia na Santa Igreja Católica.

“Vós que ensinastes antes mesmo de existirdes;

“Vós que fostes o modelo daqueles que creram no Salvador que viria;

“Vós que fostes o apogeu da esperança daqueles varões de Deus, porque Vós fostes a nuvem da qual choveu o Salvador;

“Vós sois hoje a Arca da Aliança, da qual virá a vitória sobre o mundo.

“Enchei-me, ó minha Mãe, da certeza dessa vitória, da coragem de estar de pé na derrota e na adversidade, esperando o dia da glória. Assim seja”.




terça-feira, 6 de julho de 2021

Soeur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes.
Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs










O chamado Século das Luzes foi também uma época de grandes santos e almas de escol que opuseram uma luta heroica ao trabalho oculto das sociedades secretas.

Além dos santos mencionados no post anterior poderíamos acrescentar São Vicente de Paul (1581 – 1660), e a venerável Marguerita do Santíssimo Sacramento O.C.D. (1619-1648) a quem o Menino Jesus e São Luis denunciaram a corrupção reinante na França, se oferecendo ela como vítima para afastar a cólera celeste.

A carmelita iniciou o culto ao Menino Jesus de Beaune conhecido como “le petit Roi de grâce”, devoção que se espalhou na nobreza e atraiu ao próprio Luis XIII.

Essa devoção ao Menino Jesus se espalhou pela França contrariando o jansenismo reinante, sendo Santa Teresinha do Menino de Jesus no século XIX uma de suas mais proeminentes figuras.

Entre essas almas de escol houve leigos como o barão Gaston de Renty (1611 - 1649) muitas vezes presidente da Companhia do Santíssimo Sacramento.

>Essa era composta por membros da nobreza e elites análogas e combatia no campo cultural-moral a revolução cultural que preparava a Revolução Francesa.

O barão de Renty quis ser cartuxo, mas as circunstâncias o levaram a fazer um casamento exemplar e ser pai de uma família numerosa.

Dotado de uma extraordinária capacidade articuladora expandiu a Companhia do Santíssimo Sacramento pela França, inspirou sua fundação de Montreal no Canadá – terra que jamais pisou.


Gaston de Renty e o Menino Jesus de Beaune. Vídeo, clique a foto para ver



Ele doou a imagem milagrosa do Menino Jesus de Beaune, e acredita-se que possa tê-la entalhado ele próprio.

“Sua devoção ao Menino Jesus, tão característica da espiritualidade do final do século XVII e dos séculos seguintes, não foi, no entanto, uma devoção ao “pequeno Jesus” pedindo que as crianças fossem boazinhas como as imagens.

“Sua devoção à Infância é a de um abandono radical de si mesmo, retomando o tema da Infância de Jesus, o que os quietistas condenados designavam erroneamente com os termos do abandono a Deus, da expropriação de si mesmo para quem alcançou o fim do caminho espiritual. (...)

“Encontramos em Gaston de Renty o misticismo medieval e do início da reforma católica ligada ao Concílio de Trento que no final do século XVII não era mais reconhecida”. Cfr. Gaston de Renty

O próprio Menino Jesus fez saber à venerável Margarida do Santíssimo Sacramento, carmelita em Beaune, que desejava lhe pedisse um filho para o rei Luis XIII e a rainha Ana de Áustria, casal que não tinha sucessão, com grave perigo para a unidade da França.

O nascimento de Luis XIV foi uma graça da Santa Infância, segundo relembrou o próprio Sagrado Coração de Jesus numa das mensagens ao rei por intermédio de Santa Margarita Maria Alacoque.

Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento OCD
Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento OCD
Em 1658 Luis XIV foi a Beaune para visitar a imagem, dada no meio termo pelo barão de Renty, em agradecimento pela graça de sua concepção.

As vidas e apostolado destas figuras cresceram admiravelmente com os ensinamentos e exemplos de Soeur Marie des Vallées.

Em ocasiões diversas a mística lhes desvendou uma via espiritual que até então não tinha sido excogitada pelo pela generalidade das almas melhores.

Assim figuras chaves da História giraram em volta da problemática da trocada de vontades com o Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora.

Uns agindo para o bem, outros infelizmente recusando, e outros ainda hesitando. E esse jogo condicionou o rumo da História.

A luta entre a Luz e as trevas


O racionalismo e o racionalismo reinantes nos séculos XVI, XVII e XVIII encobriram com enganosas aparências, por contraditório que possa parecer, a expansão em proporções surpreendentes da bruxaria e da magia – branca ou negra, no seio dos arautos do laicismo.

Esses apelavam ao poder de Satanás e seus anjos de perdição que infestavam a Europa desde a Renascença, especialmente na Itália, na Alemanha e na França.

A ânsia imoderada de riquezas, prestigio e cargos – sociais e/ou eclesiásticos – além dos prazeres carnais fazia que um número importante de pessoas que perderam a fé apelasse aos poderes ocultos.

Esse recurso cresceu tanto que e 1586, o Papa Sixto Quinto promulgou a bula “Cœli et terra creator Deus” proibindo todas as práticas ocultas: adivinhação, astrologia, necrologia, bruxaria, etc... que iam associadas naturalmente com o relaxamento dos costumes e eram cultivadas até nos conventos.

Paradoxalmente, a Normandia – terra de Soeur Marie des Vallées e de São João Eudes – era uma região gravemente perturbada pelo desenvolvimento do satanismo.

Especialmente, a diocese de Coutances, que era a de Soeur Marie des Vallées.

Sabbat das bruxas. Francisco Goya (1746 – 1828),
Museu del Prado, Madri
A floresta do Monte Étenclin era o lugar escolhido para sabbats que reuniam centenas de praticantes da bruxaria. As reuniões se passavam muito perto de onde vivia a Soeur.

Batalhas espirituais tremendas haveriam de acontecer, como veremos.

Foi também uma época em que as perturbações materiais e ideológicas reinavam por todo lado. Guerras incessantes, fomes, epidemias enchiam o clima de angústias.

E junto com a bruxaria e o satanismo pululavam “profecias” abstrusas e perturbadoras: anunciava-se uma nova monarquia, o retorno de Cristo a começar por 1584; corriam como água pestilenta as profecias de Paracelso e Nostradamus, etc.


Das visões de Soeur Marie: os espíritos malignos destruirão suas próprias obras
“É por isso que se cumprirão estas palavras do Espírito Santo: Salutem ex inimicis nostris et de manu omnium qui oderunt nos. Deus, por um poder admirável e por uma bondade incomparável, forçará nossos inimigos a contribuir para nossa salvação.

“Certa vez, ela ouviu as três pessoas divinas e a Virgem Maria falando aos demônios, impondo-lhes os seguintes mandamentos.

“Deus Pai disse: ‘Ide, eu vos envio como trombetas para acordar meus filhos que dormem na sombra da morte”, isto é, do pecado.

“Deus Filho disse-lhes: “Ide, Eu vos envio como núncios para anunciar a todos os homens que venham a Mim e que Eu tenho meus braços abertos para recebê-los.

“E o Espírito Santo lhes dizia: “Ide, Eu vos envio como servos para dizer a todas as almas que elas venham porque o festim de casamento está preparado e que todas as coisas estão prontas”.

“E também ouvi a Virgem Maria dizer a eles: ‘Ide, Eu vos envio como pregadores para anunciar a todos os homens que o reino de Deus está próximo pregando a penitência para eles’.

“Finalmente, ouvi a Santíssima Trindade dizendo a eles: ‘Ide, Eu vos mando como sargentos e arqueiros armados pela cólera para prender aqueles que não querem se converter’.

“Os demônios cumprirão todos esses mandamentos, porque possuirão todos aqueles que não desejarão se converter.

“Eles tornarão públicos seus pecados e os farão sofrer tantos tormentos que ficarão constrangidos a fazer penitência.

“Naquele momento, se um sacerdote quiser subir ao altar em pecado mortal, ficará possuído.

“Se ele confessar com dor, ele será liberado.

“Se ele voltar ao pecado, a possessão recomeçará.

“Aqueles que zombem dos possessos, dizendo ‘Ha! Como eles mereciam!’ ficarão possuídos.

“Por causa dos suplícios que os demônios aplicarão sobre eles, muitos quererão se matar por desespero, mas os diabos impedirão.

“São Rafael será enviado por Deus para curar os desesperados.

“São Miguel será enviado para liderar e levar as almas para Deus”. (p. 311-312)

Continua no próximo post: Sociedade secreta de feiticeiros se rebela contra Soeur Marie des Vallées


Nota : Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


segunda-feira, 28 de junho de 2021

Soeur Marie des Vallées e a troca de vontade com Deus

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Soeur (Irmã) Marie des Vallées (15 fevereiro 1590 – 25 fevereiro 1656) foi uma leiga mística estigmatizada, conhecida como “a santa de Coutances”.

Nasceu no povoado de Saint-Sauveur-Lendelin, periferia da cidade de Coutances que ficou ligada a seu nome. Foi filha de camponeses, supõe-se que de pequenos nobres arruinados.

Foi chamada pela Providência para praticar e ensinar uma via espiritual de união da alma com Deus que foi adotada pelos maiores santos da França no século XVI e posteriores: a troca de vontades.

Os santos que adotaram essa via constituíram a espinha dorsal da guerra espiritual contra um aspecto desapercebido da Revolução gnóstica e igualitária que desde a renascença e o protestantismo estava tomado conta da França.

A mesma Revolução hoje devasta o mundo com subersões culturais, políticas, econômicas, sociais, etc.

Esses santos, muitos deles bem conhecidos por nós, adotaram a posteriormente denominada Escola Francesa de Espiritualidade que animou todas as reações contrarrevolucionárias e as impulsiona em nossos dias, e da qual Marie des Vallées foi uma excepcional inspiradora.

A Escola Francesa de Espiritualidade – termo do século XX – define a corrente francesa da Contra-reforma católica que tomou forma no Concílio de Trento.

Ela se distingue pelo acento na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e na Infância Espiritual, concebida esta última não num sentido infantil, mas de saída radical de si, que retoma a mística medieval. Santa Teresinha do Menino de Jesus seria a máxima expressão desta Infância Espiritual.

Entre esses destacamos pela sua projeção mundial a São Vicente de Paulo (1581 — 1660); a São João Eudes (1601 — 1680), doutor da devoção ao Coração de Jesus, ao Coração de Maria; a São Luis Maria Grignon de Montfort (1673 — 1716), apóstolo da escravidão de amor a Nossa Senhora e profeta dos Apóstolos dos Últimos Tempos; a São Francisco Xavier de Montmorency-Laval (1623 –1708), bispo de Quebec que organizou a Igreja Católica no Canadá e na Nova França que incluía a região central dos EUA, New Orleans e Louisiana. E ainda falaremos de outros ao longo dos próximos posts.

Marie des Vallées foi chamada de Irmã Soeur em francês – não por pertencer a alguma ordem, mas seguindo um costume popular de aplicar as mulheres o apelativo de Irmã ou Mãe em sinal de consideração.

São João Eudes foi o único anotador e grande difusor da espiritualidade de Soeur Marie des Vallées
São João Eudes foi o único anotador
e grande difusor da espiritualidade de Soeur Marie des Vallées
São João Eudes seu diretor espiritual, foi o anotador de todas as visões e fenômenos místicos e, paradoxalmente, discípulo na troca de vontades.

A Irmã Marie des Vallées foi uma pobre camponesa sem escolaridade escolhida por Deus para fazer brilhar a luz divina.

Mas essa luz brilhou numa era que se vangloriava de ser o Século das Luzes, aliás naturalistas, laicistas e anticatólicas, mas no qual lavrava uma espantosa Revolução.

Portanto, numa era em que progredia o processo das trevas da iniquidade que haveria de estourar nas Revoluções Francesa e Comunista

Os fenômenos sobrenaturais, e também preternaturais, que marcaram sua vida foram tão extraordinários que os espíritos medianos do Grand-Siècle, século de esplendor cultural, mesmo católicos tenderam a nega-los de vez.

Em toda sua vida, na sua posteridade e até no presente Soeur Marie des Vallées foi objeto de furacões de descrédito, contestação, críticas e até furor progressista e revolucionário.

Esses vagalhões não provieram só dos arraiais heréticos ou revolucionários, mas também dos ambientes católicos relaxados ou eivados de erros.

Em sentido contrário, grandes santos e figuras do catolicismo assumiram sua defesa, adotaram seus conselhos e ensinamentos contidos em visões e revelações, fenômenos místicos extraordinários, possessões diabólicas, perseguições de toda espécie, milagres e profecias cumpridas e a se cumprir.

Essa incompreensão continua, mas diminuída pela percepção de que o mal que ela denunciou agora se mostra em patamares que prefiguram eventos apocalípticos.

A Soeur foi a inspiradora mística da reação católica numa Franca que culturalmente e religiosamente afundava por obra da conspiração de sociedades secretas impregnadas de iluminismo, neopaganismo e satanismo.

A decadência vinha de longe propulsada por um processo que eclodiu na Renascença e que haveria de dar na fúria igualitária e anticatólica da Revolução Francesa e tudo o que se seguiu, notadamente o socialismo, o comunismo e Maio de 68.

Soeur Marie des Vallées foi uma mística do fogo que pregou um incêndio de amor divino para reerguer o Reino de França e a Igreja afundados em assustadora decadência de costumes e nas piores abominações com forte infiltração satanista.

É claro que nosso século XXI que retorna a passos de gigantes ao paganismo ocultista haveria de tentar apagar sua mensagem, ou se voltar contra ela.

Soeur Marie des Vallées e o decreto divino contra o Pecado


Nos registros de São João Eudes encontramos a menção a um Supremo Conselho que teve lugar no Céu e do qual só participaram as três pessoas da Santíssima Trindade.

Enquanto esse estava reunido
se fez um imenso silêncio no universo, no Céu e também no inferno.

Sabia-se que se discutia um assunto da máxima importância, e até os demônios na terra ficaram estarrecidos porque percebiam que lhes concernia e queriam saber de toda forma o que estava sendo falado.

Afinal, Nosso Senhor comunicou a Soeur Marie a resolução tomada: o Pecado – portanto o processo universal de pecados – tinha sido julgado e sua condena fora proferida.


A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo Deus e Homem, ficou encarregada de executar a sentença.

Mas eis que Nosso Senhor disse a Soeur Marie que não iria executá-la, ao menos logo, porque três grandes obstáculos O impediam.

A razão do paradoxo é que Nosso Senhor na hora de extinguir o Pecado e os maus não queria exterminar os bons misturados com os maus, como na parábola do joio misturado com o trigo.

Quais eram os obstáculos?

Nosso Senhor explicou: se Ele fosse cumprir a ordem ao pé da letra não sobrariam nem os bons.

Então ele queria remover neles os fatores que os mantinham enleados com os maus e assim poupar os salváveis.

Esses fatores são essencialmente três. E contra esses três tinha três frechas simbólicas. Para essa tarefa Ele queria o engajamento de Soeur Marie.

O primeiro obstáculo que é preciso remover é a moleza dos bons.

Para dar-lhe fim, o Pai Eterno preparava uma flecha que daria à alma do bom decadente uma força sobrenatural pela qual ele se ergueria generosamente da terra em que o pecado o mantém chafurdado.

O segundo empecilho é o desconhecimento da gravidade do Pecado que há nos bons. Nosso Senhor prepara uma flecha que comunicará a essas almas um raio de luz que as acordará do sono ao qual se entregaram, ficando moral e intelectualmente adormecidas nas trevas de uma ignorância culpada.

O terceiro é a falta de percepção por parte dos bons da malícia que há no Pecado. Contra isso o Espírito Santo prepara um sopro divino que acenderá suas inteligências e seus raciocínios.

Esse sopro fará que seu entendimento lhes apresente os terríveis juízos de Deus e a razão natural lhes faça ver a indignidade de uma criatura chamada a tantas belezas e perfeições eternas se revolver na lama como animal imundo.

Então as almas que jazem como corpos putrefatos mortos, malcheirosos e insuportáveis lavar-se-ão nas águas da contrição.

A Soeur Marie, em 12 de fevereiro de 1645, Nosso Senhor lhe prometeu uma marca que se imprimiria nela e que ficaria gravada em tudo o que ela dizia de tal maneira que ninguém poderia duvidar que era a Verdade.

O decreto trinitário da morte do Pecado, disse Marie, foi pronunciado na meia-noite do Natal de 1645, segundo comunicação de Nossa Senhora (p. 279).

Em abril de 1650, Nosso Senhor lhe explicou que a besta do Apocalipse de sete cabeças simboliza o pecado original e todos os pecados que procedem dele como consequência.

Mas desde aquele momento os dias dessa besta estavam contados porque o Pai Eterno fará descer sobre ela um dilúvio de fogo e enxofre para aniquila-la. (p. 280)

Soeur Marie tinha impulsos tremendos contra o Pecado visto como um todo, e os pecados individuais, e queria exterminá-los logo. Mas Nosso Senhor lhe explicou que não seria no século XVII em que vivia.

Nosso Senhor a tranquilizou dizendo sobre esse século que as “aflições daqueles dias não eram grande coisa e atingiam só os pequenos pecadores. Não eram mais do que uma preparação e uma disposição para uma outra tribulação espantosa que vai vir”.

Mostrou-lhe então uma taça de vinho estragado, acrescentando que faria os ruins beber até a borra (p.281).


Nota importante: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.