segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Conselhos finais de Sœur Marie a São João Eudes

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: A troca de vontades em Sœur Marie: um trabalho do Espírito Santo




Após centenas de páginas de anotações, São João Eudes julgou prudente fazer um resumo da ‘troca de vontades’ praticada e pregada por Sœur Marie des Vallées:

Falando da ‘troca de vontades’, explica, esta Serva de Deus me disse muitas vezes: você está a caminho, Deus te leva até lá.

Ela me disse que a aniquilação é geralmente muito longa e que muitas vezes não sabemos onde estamos; e que a incerteza e as penas nos levam a um bom progresso rumo à graça da aniquilação.

Ela me disse muitas vezes que a autoestima, a autoindulgência e a vaidade perdem tudo. Pela aniquilação, Deus entra na alma e, chegando lá, fá-la morrer para si mesma.

Ela também me disse que, por vezes, a alma busca a Deus e não o percebe; porém Deus não cessa de olhar para ela, e ela não deve se cansar de seguir procurando, pois Deus está lá, e isso é suficiente.

Não se deve nessa via deplorar as aridezes, as quais, pelo contrário, nos ajudam. O que buscamos não são nossos gostos, mas a operação de Deus.

Nós tínhamos uma grande alegria falando juntos dessa via. É como um leite que restaura nossa alma com uma felicidade inestimável.

Mas não devemos querer que outros entrem nela, pois é uma operação de Deus. E se não for d’Ele, será inútil.

Não se deve falar dessa via para pessoas que não são chamadas, de medo a perturbá-las ou levá-las a algum julgamento imprudente, condenando levianamente o que não entendem.

A caridade com elas é ficar em silencio, falar apenas da prática das virtudes e da maneira comum de servir a Deus.

A maneira de conhecer a verdade das coisas não é conhecê-las pela inteligência, mas pelo gosto experimental, que abre o fundo da alma, na qual a verdade entra e reina pela aprovação do verdadeiro.

Pelo contrário, uma tristeza que aperta o coração e o fecha de maneira que nada pode entrar nele, é um sinal de que Deus não aprova o que é proposto.

Alguns que falaram com uma alma que trocou sua vontade com a de Deus, experimentaram Jesus Cristo vivo nela, e que Ele reina nela.

Mas essa alma não sabe nada disso: de tal maneira que possuindo tudo, ela acha que não tem nada.

Ela está tão perdida neste Nada que não tem a capacidade de distinguir ou discernir no interior dos outros senão o que Deus lhe faz ver.

Ela fala a várias pessoas de diferentes graças, e é sempre esse Nada que sugere tudo e a faz agir de acordo com as necessidades de cada uma, sem premeditar nada.

As almas mal aconselhadas não se satisfazem com o dom da fé que Deus dá de maneira insensível e invisível, mas muito verdadeira e real.

Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246),
primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus.
Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Todas as outras luzes, consolações e transportes servem apenas para consolar o amor particular do homem.

As almas são mal ensinadas fazendo-lhes acreditar que no estado escuro e nu estão perdendo sua união quando, pelo contrário, essa está aumentando.

Se tivéssemos que escolher algum estado nesta vida, seria o de puro sofrimento e da nudez total.

Deus lhe fez saber que por essa via Ele dá aos homens e mulheres do mundo a graça dos velhos religiosos e eremitas.

Não devemos nos surpreender se os grandes dons da oração não se encontram nos claustros, porque os religiosos dão as costas a Deus com a pouca fidelidade que mostram.

O amor próprio carregado de méritos, riquezas espirituais, favores e dons vai devagar e pesadamente: o amor divino, pelo contrário, é rápido e leve.

O amor divino, quando perfeito, reduz a alma à nudez total.

A alma despedaçada não exige nada para si ou para o próximo, nem mesmo a conversão; mas ela apenas diz:

Senhor, deixai vossa graça fazer tal e tal efeito, não sendo capaz de se misturar no caminho do mundo, mas deixando tudo para Deus que é, e ela não é mais.

A última conversa


No ano de 1654 — relata São João Eudes —, nossa última entrevista foi sobre a luz divina, e como vermos tudo em Deus é ver Jesus Cristo e desfrutar de Jesus Cristo.

Eu disse a ela que no momento havia no meu interior uma presença da realidade de Jesus Cristo.

“E ela respondeu que a presença de Deus faz chegar ao que São Paulo descreve assim: Não sou mais eu; mas é Jesus Cristo quem vive em mim [Gal. 2, 20].

“Essa presença de Jesus Cristo está no espírito puro, que comunica a mesma pureza aos sentidos, e ele se transforma em como que uma extensão de Jesus Cristo.

“Ao contar a ela sobre minha mudança de estado para o próximo, ela me disse que é porque meu estado interior está se afastando em direção ao espírito santo e puro, e que os sentidos florescem em direção ao próximo; o que eu vi ser muito real.

“Ela ficou muito feliz com essa mudança e por manter a mesma solidão interior, independentemente do que o meu exterior viva para o próximo”.

Assim encerrou seus apontamentos o santo Doutor dos Sagrados Corações de Jesus e Maria.



Fim da série de posts sobre Sœur Marie des Vallées


Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A troca de vontades em Sœur Marie: um trabalho do Espírito Santo

Espírito Santo, capela do Rosário, Puebla, México
Espírito Santo, capela do Rosário, Puebla, México
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: A troca de vontades vivida por Sœur Marie des Vallées





São João Eudes, doutor da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, julga ver nela claramente o dedo de Deus e a marca do caráter de seu Espírito divino.

O grande ódio ao pecado e o amor muito particular de seguir em tudo e por tudo a vontade divina, numa época em que nada levava a isso, reinando pública e impunemente na Terra a corrupção e as abominações dos vícios mais execráveis.

O Espírito de Deus lhe deu desde a infância um extraordinário amor à castidade e uma proteção tão especial, que milagrosamente a libertou dos precipícios e da sujeira do pecado.

Quando soube que estava possessa, aceitou de bom grado esse estado de sofrimento e humilhação como tendo sido escolhido e dado a ela por Deus como o meio mais limpo para sua salvação.

Os feiticeiros lhe jogavam encantos todos os dias, mas ela os atraía sobre si por compaixão das moças que via se perderem por esse influxo diabólico.

Sœur Marie aceitou a troca de vontades por uma determinação puramente intelectual.

Ela não a viu em nenhuma forma ou figura, mas como uma verdade presente, tipo de visão que não está sujeita à ilusão, como ensina São Tomás, quem diz que a visão intelectual é o terceiro céu para onde São Paulo foi levado
(2.2, q. 173, art. 3 ad. 4).

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes
na Chapelle Notre Dame de la Roquelle
O santo diretor afirma que não pode ver nela pecado algum, embora ela nunca acreditasse estar totalmente isenta.

E para provar como isso era possível, cita o exemplo de vários grandes santos.

São Clemente Alexandria diz que os Santos Apóstolos — confirmados na graça de Deus em Pentecostes — depois de receberem o Espírito Santo não cometeram nenhum pecado.

Alega-se que Nosso Senhor tirou do coração de Santa Catarina de Siena e colocou o Coração divino no lugar do dela.

Em outra ocasião, Ele lhe garantiu ter retirado a sua vontade e lhe dado a d’Ele, da qual ela nunca se separaria.

Segundo relatado no capítulo 5 de sua vida, Deus tomou posse total da alma, do coração, da vontade e de todos os poderes de Santa Catarina de Gênova, transformando tudo em Si mesmo, e foi Ele quem controlou e guiou todos os seus movimentos.

No capítulo 16, lê-se que Ele assumiu o livre arbítrio dela, que não fazia mais o que queria, mas apenas o que Ele gostava.

Santo Ambrósio (lib. 1 em Lucas: in initio), Santo Agostinho (De peccatorum meritis et remissione, lib. 2, cap. 6) as Escrituras todas que dizem que os justos caem sete vezes por dia, devem ser entendidos com esta restrição: se não houver um privilégio especial de Deus - nisi ex speciali Dei privilegio – como professa o Santo Concílio de Trento.

Esse Concílio, após anatematizar aqueles que digam que o homem pode evitar durante toda a vida todos os pecados, até veniais, acrescenta essas palavras: “senão por um privilégio especial de Deus”.



Continua no próximo post: Conselhos de Sœur Marie a São João Eudes


Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A troca de vontades vivida por Sœur Marie des Vallées

Santa Catarina de Siena trocando seu coração com Cristo, Giovanni di Paolo (1403 — 1482), Metropolitan Museum of Art, New York
Santa Catarina de Siena trocando seu coração com Cristo,
Giovanni di Paolo (1403 — 1482), Metropolitan Museum of Art, New York.
Essa santa foi uma das raras almas que ganharam esse privilégio
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Sœur Marie sobre o estado da Igreja




O oferecimento do Pe. Pierre Coton SJ


Como é que a “santa de Coutances” chegou à convicção de trocar sua vontade com a do próprio Jesus? São João Eudes no-lo explica.

Durante quase dois anos, Sœur Marie rezou todos os dias diante do Santíssimo Sacramento uma oração do Manual de devoção (p.71 e ss.), de autoria do Rev. Pe. Pierre Coton S.J. (1564-1626).

O Pe. Coton foi confessor dos reis Henrique IV e Luis XIII, além de Provincial da Companhia de Jesus na França.

Nele o ilustre jesuíta oferece a Deus sua própria vontade de maneira irrevogável, renunciando a todos seus direitos com o fim de nunca pecar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Sœur Marie sobre o estado da Igreja

Madonna delle Milizie, Sicilia. Fundo: anjos por Guariento di Arpo
Madonna delle Milizie, Sicilia. Fundo: anjos por Guariento di Arpo
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Sœur Marie e a conversão universal vindoura



Nossa Senhora comanda a guerra ao mal


Um dia em que Sœur Marie caminhava para o santuário de Notre-Dame de la Délivrance junto com outras almas piedosas, as forças lhe faltaram.

Jesus então lhe disse que ela tinha necessidade da carruagem de Nossa Senhora, ao que Sœur Marie respondeu que não tinha coragem de fazer tal pedido.

Nosso Senhor lhe respondeu que Ele próprio pediria a carruagem à Sua Mãe.

E Sœur Marie “recebeu uma força tão grande, que era como se ela nunca se tivesse cansado, porque essa carruagem, que é a força divina, lhe foi dada para andar quando toda a força natural desfaleceu, embora conservasse sempre as mesmas sensações de cansaço, como se essa força não lhe tivesse sido dada”, registrou São João Eudes. (p. 369)

Nossa Senhora a chamava no dialeto da Normandia, minha ‘grande servidora’ e uma vez Cristo lhe apareceu perguntando para onde tinha ido sua Mãe.

Sœur Marie foi procurá-la e “viu-a vir sobre um carro de triunfo repleto de armas de toda espécie.

“Ela [Sœur Marie] se voltou para Nosso Senhor e disse: ‘Eis que vossa Mãe vem sobre um carro cheio de armas. O que Ela vai fazer com tudo isso?

“É que Ela vai para a guerra. (...)

“O que Ela vai fazer dessas armas?

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Sœur Marie e a conversão universal vindoura

Bem-aventurados, Fra Angelico, Berlin (1395 – 1455)
Bem-aventurados, Fra Angelico, Berlim (1395 – 1455)
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: A “grande tribulação” que purificará o mundo



Nosso Senhor também lhe fez ver o gáudio universal que tomaria conta do mundo pela conversão geral que viria após a “tribulação espantosa” que Lhe anunciava e que foi abordada no post anterior: A “grande tribulação” que purificará o mundo.

Assim o registra São João Eudes: “Tendo sido destruído o pecado por toda parte, todo o mundo se converterá a Deus, segundo o oráculo do Espírito Santo: Et convertentur ad Dominum fines terrae”.

Foi isso que Nosso Senhor fez saber à Sœur Marie através de numerosas palavras, várias figuras e explicando o significado de um grande número de passagens das Sagradas Escrituras.

“Ele lhe disse muitas vezes que chegará um tempo em que fará chover um dilúvio de graças que inundará o mundo todo, e que naquele momento embriagará com o vinho do Seu amor um grande número de pessoas.

“Mais especialmente aquelas que trabalharão pela salvação das almas, e que Ele dará belos vasos de ouro a todas as igrejas, isto é, bons pastores e bons sacerdotes, como Ele mesmo explicou, e que converterá todas as almas que levam impressa a imagem de Deus” (p. 283).

Ele também lhe disse: “Não sou rei da terra, porque não reino sobre ela; o rei dela é o pecado, pois é ele que reina sobre ela; mas Eu virei em breve e destruirei esse monstro e reinarei em todo o universo”. (p. 293)


Em 20 de dezembro de 1644 Deus lhe ordenou ir à igreja rezando um rosário completo com versículos específicos em cada conta. E lhe explicou:

“Este rosário pede pelo mundo todo. O primeiro terço representa a Igreja, o segundo a nobreza, o terceiro o povo. Foi-lhe pedido rezar assim para pedir a conversão de todos”. (p.285)

No dia 6 de maio de 1646, Nosso Senhor lhe prometeu: “Aplanarei as montanhas e as farei frutificar com toda espécie de bons frutos. Encherei os vales com leite e mel. Das minhas cinco feridas farei manar cinco rios que inundarão a terra inteira”. (p. 287)

Esses cinco rios serão de misericórdia, brotarão das cinco chagas e simbolizam: a chaga da mão direita: o poder de Deus; a chaga da mão esquerda: a Igreja; a chaga do pé direito: os judeus; a chaga do pé esquerdo: a gentilidade. 

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Há 175 anos apareceu Nossa Senhora em La Salette

Mélanie e Maximin, os dois videntes, desceram para ver uma grande luz, dentro da qual havia uma Dama
Mélanie e Maximin, os dois videntes,
desceram para ver uma grande luz, dentro da qual havia uma Dama
Luis Dufaur
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Na manhã do 19 de setembro de 1846 Maximin acompanhou Mélanie para cuidar do gado. Era um dia bonito, o céu estava sem nuvens e o sol brilhava intensamente.

Subiram o morro de La Salette (França) até uma altura de 1.800 metros, sem poderem imaginar o evento sobrenatural que haveriam de testemunhar.

Maximin queria brincar. Ela lhe propôs seu entretenimento preferido: fazer o que ela chamava de paraíso, isto é, uma casinha de pedras toda recoberta de ramalhetes feitos com flores silvestres, que desabrocham naturalmente nas alturas.

Chegando a uma curva do terreno protegida dos ventos, começaram a levantar o paraíso. No local há muita ardósia, pedra que forma placas e se prestava para o brinquedo.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A “grande tribulação” que purificará o mundo

A “grande tribulação” que purificará o mundo
A “grande tribulação” que purificará o mundo.
Triunfo da morte, detalhe, Pieter Bruegel  (1525-1530 — 1569)
Museo del Prado, Madri
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Sœur Marie obtém a promessa dos Apóstolos dos Últimos Tempos



Truculência pelo bem dos pecadores


Sœur Marie des Vallées apelava a Deus animada do desejo ardente de exterminar o pecado e salvar as almas dos pecadores.

Embora falasse truculentamente contra o pecado e os pecadores, não desejava a sua perdição, mas a sua conversão.

Sœur Marie chegou a se interpor entre Deus encolerizado e o mundo em perdição, a fim de impedir que Deus o castigasse como merecia – o que equivaleria à sua destruição.

Assim o testemunhou, entre outros, à venerável Madre Maria do Santíssimo Sacramento do Carmelo de Amiens onde também entrou a bem-aventurada Maria da Encarnação O.C.D. (1566-1618) considerada “mãe e fundadora do Carmelo (descalço) na França”.

Seus trabalhos e financiamentos renderam quatorze Carmelos reformados segundo a regra de Santa Teresa de Jesus.

Fez essa obra quando ainda leiga casada, mãe de sete filhos, sendo lembrada pelo nome civil Barbara Acarie, ou Madame Acarie e até a “belle Acarie” pela sua beleza.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Sœur Marie obteve a promessa dos Apóstolos do Últimos Tempos

Sagrado Coração de Jesus, col. part.
Sagrado Coração de Jesus, col. part.
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: A via de Marie des Vallées, esperança para o mundo em desvario



São João Eudes entabulou relações religiosas com Sœur Marie des Vallées, em agosto de 1641.

Tal aconteceu porque naquela data o santo pregador fora enviado pelo bispo de Coutances, Mons. de Matignon, para acompanhar o caso de uma possessa.

Em contato com ela, o Doutor do Sagrado Coração logo percebeu tratar-se do caso extraordinário de uma alma de escol perseguidíssima pelo demônio e por seus asseclas feiticeiros.

Devemos, portanto, ao Santo todos os escritos que dispomos sobre Sœur Marie des Vallées, pois ele foi seu confessor e diretor espiritual até a morte.

Paradoxalmente, o diretor acabou sendo o dirigido, no sentido de que ela lhe transmitiu da parte de Deus a missão de difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, ao Coração de Maria, aos dois Corações considerados como um só, e a ‘troca de vontades’ do fiel com esse Coração, como veremos.

No mesmo ano — 1641 — em que as duas santas almas entravam em contato, Santa Margarida Maria Alacoque, confidente e intermediária das mensagens do Sagrado Coração ao rei Luís XIV, ingressava no convento das visitandinas em Paray-le-Monial, na Borgonha, assaz distante da Normandia.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A via de Marie des Vallées, esperança para o mundo em desvario

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes.
Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: A mensagem do Sagrado Coração de Jesus e o SIM real que poderia ter mudado a História



Uma das horríveis consequências da recusa do rei Luís XIV ao convite do Sagrado Coração de Jesus foi a demolição da obra que os grandes santos mencionados vinham realizando.

São Luís Grignion de Montfort morreu limitado a pregar em apenas duas dioceses e viu a sua derradeira obra – o Calvário de Pontchâteau – demolida por ordem do próprio rei.

Tudo pareceu perdido. Até seu famoso Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem ficou esquecido e perdido após a morte do santo autor em 1716.

Somente por volta de 130 anos depois foi redescoberto. Foi achado em 1842 poucos anos antes da Santíssima Virgem aparecer em La Salette em 1846.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A mensagem do Sagrado Coração de Jesus
e o SIM real que poderia ter mudado a História

Santa Margarida Maria Alacoque recebe apelos do Sagrado Coração de Jesus a Luís XIV, San Rufo, Rieti, detalhe
Sta Margarida Maria Alacoque recebe apelo do Sagrado Coração de Jesus a Luís XIV,
San Rufo, Rieti, detalhe
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Continuação do post anterior: Sœur Marie des Vallées, “o caso dos venenos” e o drama de Luís XIV



O “Caso dos Venenos” desvendou que a Corte do Rei Sol estava luciferinamente infestada pelo iluminismo, que prolongava o naturalismo renascentista neopagão e sensual.

O rei esplêndido ficou abalado em seu laicismo ao descobrir a influência do preternatural na Corte das Luzes por ele criada.

Um mundo preternatural no qual aparentemente ele não acreditava agia em volta dele na surdina e com procedimentos estarrecedores.

Ao mesmo tempo, algo inimaginável acontecia longe de Versailles: o Sagrado Coração de Jesus aparecia a uma humilde religiosa de um convento pouco conhecido e enviava históricas mensagens a Sua Majestade.

As mensagens — hoje famosas — foram comunicadas a Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa no convento da Ordem da Visitação em Paray-le-Monial, na Borgonha.

A Ordem da Visitação foi fundada por São Francisco de Sales, um dos precursores da Escola Francesa de Espiritualidade, a qual Sœur Marie des Vallées elevou a um novo requinte com a doutrina sobre a “troca de vontades”.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Assunção de Nossa Senhora: auge de glória que culminará no Juízo Final

Assunção de Nossa Senhora. Ambrogio Bergognone (1470 - 1523-1524), Metropolitan Museum of Art, NYC
Assunção de Nossa Senhora.
Ambrogio Bergognone (1470 - 1523-1524),
Metropolitan Museum of Art, NYC
Luis Dufaur
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Os antigos falavam de festa de Assunção de Nossa Senhora como a de Nossa Senhora da Glória.

No Rio de Janeiro, a Igreja lindíssima sobre o Outeiro da Glória é dedicada à Nossa Senhora da Assunção levando esse apropriado título.

Isso porque a Assunção de Nossa Senhora não é apenas o fato físico dEla deixar a terra, mas porque tendo ressuscitado, ou acordado da dormição, por virtude de seu Divino Filho e ir para o Céu, foi a maior glorificação dEla neste vale de lágrimas.

Ela passou na terra, humilde, desconhecida, apenas tendo um papel mais relevante depois da morte de Nosso Senhor, como rainha e mãe da Igreja Católica.

Depois de ter padecido toda espécie de sofrimentos, angústias, dilacerações, humilhações, foi glorificada por Nosso Senhor aos olhos dos homens, por meio de um privilégio único na história do mundo.

Foi a única mera criatura levada aos Céus pela força dos anjos.

Atravessando o céu astronômico foi conduzida de um modo misterioso para o Paraíso Celeste onde Ela está neste momento gozando de modo inenarrável da visão beatífica de Deus Nosso Senhor.

Essa glorificação foi acompanhada de indizíveis manifestações de glória.

Ela foi levada pelos mais altos querubins e serafins, portanto, pelas mais nobres criaturas puramente espirituais que servem a Deus.

Depois de se despedir dos seus, Ela foi se elevando e a certa altura, quando Ela estava num êxtase elevadíssimo começou a ação dos anjos.

Na Assunção de Nossa Senhora a natureza toda se rejubilou de um modo esplêndido.

Os céus que colorido tomaram! As estrelas como brilharam! Se em Fátima o sol pulou e mudou de cores, na Assunção de que forma se terá manifestado!

Que cânticos de anjos, que perfumes, que harmonias, que consolações interiores nas almas! A glorificação já na terra deve ter sido inefável!

O fato essencial é que Nossa Senhora deixou transparecer toda a sua glória interior.

Em sua alma santíssima Ela possuía uma dignidade, uma majestade e uma afabilidade inexprimíveis, que se externaram nesse momento de modo extraordinário, como a grandeza de Nosso Senhor transpareceu no Monte Tabor.

Como que deitava chispas de luz que apagavam o céu enquanto Ela efundia sua enorme ternura.

Nossa Senhora da Glória, Bulacan, Filipinas
Nossa Senhora da Glória, Bulacan, Filipinas
Como todas as mães que se despedem dos filhos, nesse momento deve ter derramado uma misericórdia e uma bondade supremas, porque Ela nunca mais viveria na terra e começava sua grande missão do alto do Céu.

Santa Teresinha do Menino Jesus disse que ela queria passar o Céu fazendo o bem sobre a terra.

E se isso disse Santa Teresinha, quanto pode dizer Nossa Senhora!

De lá para cá a glória de Nossa Senhora no alto do Céu não se escondeu; pelo contrário se evidencia por exemplo na construção de um número enorme de Igrejas.

São Luís Grignon de Monfort observa que não há uma Igreja na terra onde não haja um altar dedicado à Nossa Senhora.

Não há uma alma que se tenha salvo sem que tenha sido devota de Nossa Senhora.

Não há uma graça que os homens tenham recebido sem ter sido obtida pela mediação de Nossa Senhora.

A glória dEla foi crescendo e continuará fazendo-o até o fim dos séculos quando vier o Juízo Final.

No dia do Juízo Final todos vão ser julgados. Ela também.

Mas como Ela não é sujeita a nenhuma dívida e não tem falta, apenas haverá uma suprema glorificação dEla.

Vão ser evidenciadas as virtudes e os defeitos, de todas as criaturas.

O que vai ser o cântico de louvor a Ela de Nosso Senhor Jesus Cristo, do Padre Eterno e do Divino Espírito Santo, no dia do Juízo Final?

Ela vai fazer a alegria do juízo da humanidade toda. Quando a vida dos homens tiver cessado e o ponto final dos acontecimentos do gênero humano tiver terminado, Ela vai receber uma glorificação insondável.

Antes disso, ainda na nossa história terrena, Ela tem uma misteriosa comunicação com os escravos dEla.

Assunção de Nossa Senhora, Johannes, Wielki, Master of the Olkusz Poliptych, 1466-1497
Assunção de Nossa Senhora, Johannes, Wielki, Master of the Olkusz Poliptych, 1466-1497
Ela lhes comunica o amor, a coragem, a compostura, a afirmatividade, e a fé que os leva a desafiar o paganismo hodierno do mundo inteiro.

Nossa Senhora se compraz em fazer valer a glória dEla através daqueles que não são muito numerosos, mas que valem pela união interior com Ela.

Não eram muitos os que estavam presentes na Assunção dEla. Mas o fato deitou uma tal raiz na memória dos homens, que perto de vinte séculos depois um Papa proclamou o dogma de Assunção dEla num ato que vai reboar até o Fim do Mundo.

Os filhos e escravos de Nossa Senhora são uma continuidade de um passado bom que obstinadamente prossegue para frente e com a graça de Nossa Senhora há de vencer.

Essa continuidade irá até o Fim de Mundo afirmando a fidelidade do Brasil a Nossa Senhora para obter a vitória da Contra-Revolução num plano mundial.

Com a glória de Nossa Senhora nos corações, os escravos dEla afirmam que nesta meia noite do reino do demônio, já começaram a aparecer os primeiros clarões do Reino de Maria.

E que algo de irreversível está na promessa de Fátima: “No fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. Sim, seu Coração que subiu aos Céus naquela data bendita que os católicos nunca cessarão de comemorar.



A Assunção está anunciada em maravilhosos versos poéticos das Sagradas Escrituras, notadamente do Cântico dos Cânticos, que inspiraram inumeráveis sequencias, motetes e cânticos gregorianos na Idade Média.

Esses foram retomados de forma magnífica pela música polifônica em peças hoje universalmente famosas.

Escolhemos entre muitas a sequência “Vidi speciosam sicut columbam ascendentem desuper” gregoriana que se canta na Missa da festa da Assunção pelo menos no rito tradicional.


Vidi, speciosam sicut columbam,
Eu a vi, formosa como uma pomba /

ascendentem desuper rivos aquarum, /
Subindo pelos córregos de água. /

cuius inaestimabilis odor erat nimis in vestimentis eius, /
A fragrância de seus vestidos era incomensurável. /

Et sicut dies verni circumdabant eam flores rosarum et illia convallium. /
Ela ia rodeada pelas flores das roseiras e pelos lírios dos vales Como nos dias da primavera./

Quae est ista, quae ascendit per desertum /
Quem é esta que sobe pelo deserto /

sicut virgula fumi ex aromatibus myrrhae et thuris? /
Como uma coluna de fumaça que exala odor de mirra e incenso? /

Et sicut dies verni circumdabant eam flores rosarum et lilia convallium./
la ia rodeada pelas flores das roseiras e pelos lírios dos vales Como nos dias da primavera.
Vidi speciosam. Solesmes 1934
Vidi speciosam. Solesmes 1934

Antifona

Quae est ista quae ascendit sicut aurora consurgens pulchra ut luna electa ut sol terribilis ut castrorum acies ordinata?/

Quem é esta que vai subindo como aurora nascente, bela como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército formado em ordem de batalha?

Aleluia.
Antiphonale synopticum
Antiphonale synopticum



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Tomás Luis de Victoria (1548 - 1611)




segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Sœur Marie des Vallées, “o caso dos venenos” e o drama de Luís XIV

Luís XIV quando criança
Luís XIV quando criança. Concebido como que por milagre,
estava chamado a uma altíssima união com o Sagrado Coração de Jesus
pela qual muitas almas santas ofereceram sacrifícios incomparáveis.


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O século de Sœur Marie – o Grand Siècle, auge do Ancien Régime – culturalmente brilhante estava carunchado pela frivolidade, a decadência religiosa, a indiferença ostentada e o cinismo erigido em virtude, notadamente nos meios intelectuais, nobiliárquicos e clericais.

Pela Concordata de Bolonha (1516) a Igreja estava subordinada ao poder temporal. Esse designava os bispos em função de interesses políticos e benesses econômicas, com desinteresse pelo bem das almas.

O Parlamento julgava a nobreza e aqueles beneficiados com privilégios, bispados e mosteiros muito procurados como fontes de renda. Era um triunfo do galicanismo.

Nesse século, que é o de Sœur Marie des Vallées, o Rei Sol Luís XIV reuniu um conjunto de artistas, arquitetos e artesãos de excepcional qualidade e inspirou uma expansão cultural que conquistou o mundo civilizado.

Até hoje, todo ano, milhões de pessoas vão visitar as maravilhas de Versailles e outras realizações do “Rei Sol”.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Marie des Vallées no cerne de uma rede de santos

Nas pegadas de Marie des Vallées, São Joãu Eudes pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Nas pegadas de Marie des Vallées, São João Eudes
pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Continuação do post anterior: Deus promete os Apóstolos dos Últimos Tempos e um dilúvio do Espírito Santo




Durante toda sua vida Sœur Marie des Vallées foi um signo de contradição. E depois de sua morte os apaixonamentos contra ela não se apaziguaram. Seus amigos, colegas e defensores continuaram sendo perseguidos.

Muitos vinham a rezar sobre seu túmulo em Coutances. O Sr Langry se fez enterrar perto dela. Vários jesuítas defenderam sua memória.

Era venerada em numerosos conventos, disputava-se suas relíquias e fragmentos de suas roupas.

Os inimigos ficaram mais agressivos, e sempre mais pérfidos. Mas os milagres se multiplicavam. Aparições lhe foram atribuídas.

Duas personalidades católicas se destacaram entre os filhos espirituais da mística de Coutances.

Um deles foi um leigo: o barão Gaston de Renty. Casado e pai de cinco filhos, o nobre Renty não pode realizar seu sonho de se tornar cartuxo.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Deus promete os Apóstolos dos Últimos Tempos
e um dilúvio do Espírito Santo

Soeur Marie des Vallées
Soeur Marie des Vallées
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: Sociedade secreta de feiticeiros se volta contra Soeur Marie des Vallées




Marie manifestou muitas vezes o dom de profecia em suas visões, que jamais eram exteriores, mas sempre interiores.

Ela parecia investida da missão de abrir os olhos dos eclesiásticos e das almas consagradas para suas graves falências, escreveu seu grande anotador São João Eudes.

Essa missão fez com que seus historiadores se perguntassem se não teria sido análoga à dos profetas do Antigo Testamento em relação à decadência da classe sacerdotal hebreia.

Marie deplorava as negligências das pessoas consagradas e a acumulação de benefícios eclesiásticos, o enriquecimento pessoal com os bens da Igreja, a corrida atrás de cargos hierárquicos mais lucrativos, o abandono das regras de moral e da disciplina religiosa...

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Sociedade secreta de feiticeiros
se volta contra Soeur Marie des Vallées

Soeur Marie des Vallées, dita La Sainte de Coutances
Soeur Marie des Vallées, dita A Santa de Coutances
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Continuação do post anterior: Soeur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”



Soeur Marie des Vallées nasceu o dia 15 de fevereiro de 1590 em Saint-Sauveur-Lendelin, aldeia perto de Coutances, Normandia. Foi a terceira criança de um casal católico pouco praticante.

Desde criança Marie foi muito voltada para a religião. Após a morte de seus pais, sua juventude foi um calvário, passando de lar em lar, confiada a tios relaxados moralmente e/ou brutais no tratamento.

Aos dezenove anos era bonita e inteligente, não faltando candidatos para casamento. Nos costumes da região, ficar celibatário era considerado uma maldição e até sinal de possessão, mas Marie queria conservar sua virgindade.

Um pretendente recusado apelou para uma feiticeira. Essa soltou sobre ela um bruxedo que a atormentou durante três anos. Assanharam-se contra ela vários sorciers (bruxos ou feiticeiros), entre os quais um sacerdote.

Marie apelou então para o bispo diocesano de Coutances, Dom Nicolas de Briroy, que a acolheu em instalações do bispado e recomendou que fosse exorcizada.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Nossa Senhora do Carmo, guia da luta dos profetas

Nossa Senhora do Carmo, Filipinas. Fundo: Monte Carmelo
Nossa Senhora do Carmo, Filipinas. Fundo: Monte Carmelo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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No 16 de julho a Igreja comemora a festa de Nossa Senhora do Carmo.

Sua invocação Virgem Flor do Carmo é a mais antiga e remonta a oito séculos antes de seu feliz natalício.

Como pode ser que a Mãe de Deus fosse venerada oitocentos anos antes de nascer?

A história é maravilhosa e intimamente ligada à montanha do Carmelo em Terra Santa.

Para aparentemente complicar mais as coisas, arqueólogos e historiadores registram que civilizações pagãs também cultuavam uma virgem que daria à luz o salvador do mundo.

Na elevação onde fica a cidade de Chartres, França, sede de uma das mais belas catedrais de Nossa Senhora, em tempos pré-cristãos, os bruxos dos pagãos druidas, ditos charnuts, tinham essa crença e a chamavam “Virgo Paritura” (“A virgem que dará a luz”).

De onde viera essa noção e quem a levou?

terça-feira, 6 de julho de 2021

Soeur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes.
Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O chamado Século das Luzes foi também uma época de grandes santos e almas de escol que opuseram uma luta heroica ao trabalho oculto das sociedades secretas.

Além dos santos mencionados no post anterior poderíamos acrescentar São Vicente de Paul (1581 – 1660), e a venerável Marguerita do Santíssimo Sacramento O.C.D. (1619-1648) a quem o Menino Jesus e São Luis denunciaram a corrupção reinante na França, se oferecendo ela como vítima para afastar a cólera celeste.

A carmelita iniciou o culto ao Menino Jesus de Beaune conhecido como “le petit Roi de grâce”, devoção que se espalhou na nobreza e atraiu ao próprio Luis XIII.

Essa devoção ao Menino Jesus se espalhou pela França contrariando o jansenismo reinante, sendo Santa Teresinha do Menino de Jesus no século XIX uma de suas mais proeminentes figuras.

Entre essas almas de escol houve leigos como o barão Gaston de Renty (1611 - 1649) muitas vezes presidente da Companhia do Santíssimo Sacramento.

Essa era composta por membros da nobreza e elites análogas e combatia no campo cultural-moral a revolução cultural que preparava a Revolução Francesa.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Soeur Marie des Vallées e a troca de vontade com Deus

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Soeur (Irmã) Marie des Vallées (15 fevereiro 1590 – 25 fevereiro 1656) foi uma leiga mística estigmatizada, conhecida como “a santa de Coutances”.

Nasceu no povoado de Saint-Sauveur-Lendelin, periferia da cidade de Coutances que ficou ligada a seu nome. Foi filha de camponeses, supõe-se que de pequenos nobres arruinados.

Foi chamada pela Providência para praticar e ensinar uma via espiritual de união da alma com Deus que foi adotada pelos maiores santos da França no século XVI e posteriores: a troca de vontades.

Os santos que adotaram essa via constituíram a espinha dorsal da guerra espiritual contra um aspecto desapercebido da Revolução gnóstica e igualitária que desde a renascença e o protestantismo estava tomado conta da França.

A mesma Revolução hoje devasta o mundo com subersões culturais, políticas, econômicas, sociais, etc.

Esses santos, muitos deles bem conhecidos por nós, adotaram a posteriormente denominada Escola Francesa de Espiritualidade que animou todas as reações contrarrevolucionárias e as impulsiona em nossos dias, e da qual Marie des Vallées foi uma excepcional inspiradora.

A Escola Francesa de Espiritualidade – termo do século XX – define a corrente francesa da Contra-reforma católica que tomou forma no Concílio de Trento.

Ela se distingue pelo acento na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e na Infância Espiritual, concebida esta última não num sentido infantil, mas de saída radical de si, que retoma a mística medieval. Santa Teresinha do Menino de Jesus seria a máxima expressão desta Infância Espiritual.

Entre esses destacamos pela sua projeção mundial a São Vicente de Paulo (1581 — 1660); a São João Eudes (1601 — 1680), doutor da devoção ao Coração de Jesus, ao Coração de Maria; a São Luis Maria Grignon de Montfort (1673 — 1716), apóstolo da escravidão de amor a Nossa Senhora e profeta dos Apóstolos dos Últimos Tempos; a São Francisco Xavier de Montmorency-Laval (1623 –1708), bispo de Quebec que organizou a Igreja Católica no Canadá e na Nova França que incluía a região central dos EUA, New Orleans e Louisiana. E ainda falaremos de outros ao longo dos próximos posts.

Marie des Vallées foi chamada de Irmã Soeur em francês – não por pertencer a alguma ordem, mas seguindo um costume popular de aplicar as mulheres o apelativo de Irmã ou Mãe em sinal de consideração.

São João Eudes foi o único anotador e grande difusor da espiritualidade de Soeur Marie des Vallées
São João Eudes foi o único anotador
e grande difusor da espiritualidade de Soeur Marie des Vallées
São João Eudes seu diretor espiritual, foi o anotador de todas as visões e fenômenos místicos e, paradoxalmente, discípulo na troca de vontades.

A Irmã Marie des Vallées foi uma pobre camponesa sem escolaridade escolhida por Deus para fazer brilhar a luz divina.

Mas essa luz brilhou numa era que se vangloriava de ser o Século das Luzes, aliás naturalistas, laicistas e anticatólicas, mas no qual lavrava uma espantosa Revolução.

Portanto, numa era em que progredia o processo das trevas da iniquidade que haveria de estourar nas Revoluções Francesa e Comunista

Os fenômenos sobrenaturais, e também preternaturais, que marcaram sua vida foram tão extraordinários que os espíritos medianos do Grand-Siècle, século de esplendor cultural, mesmo católicos tenderam a nega-los de vez.

Em toda sua vida, na sua posteridade e até no presente Soeur Marie des Vallées foi objeto de furacões de descrédito, contestação, críticas e até furor progressista e revolucionário.

Esses vagalhões não provieram só dos arraiais heréticos ou revolucionários, mas também dos ambientes católicos relaxados ou eivados de erros.

Em sentido contrário, grandes santos e figuras do catolicismo assumiram sua defesa, adotaram seus conselhos e ensinamentos contidos em visões e revelações, fenômenos místicos extraordinários, possessões diabólicas, perseguições de toda espécie, milagres e profecias cumpridas e a se cumprir.

Essa incompreensão continua, mas diminuída pela percepção de que o mal que ela denunciou agora se mostra em patamares que prefiguram eventos apocalípticos.

A Soeur foi a inspiradora mística da reação católica numa Franca que culturalmente e religiosamente afundava por obra da conspiração de sociedades secretas impregnadas de iluminismo, neopaganismo e satanismo.

A decadência vinha de longe propulsada por um processo que eclodiu na Renascença e que haveria de dar na fúria igualitária e anticatólica da Revolução Francesa e tudo o que se seguiu, notadamente o socialismo, o comunismo e Maio de 68.

Soeur Marie des Vallées foi uma mística do fogo que pregou um incêndio de amor divino para reerguer o Reino de França e a Igreja afundados em assustadora decadência de costumes e nas piores abominações com forte infiltração satanista.

É claro que nosso século XXI que retorna a passos de gigantes ao paganismo ocultista haveria de tentar apagar sua mensagem, ou se voltar contra ela.

Soeur Marie des Vallées e o decreto divino contra o Pecado


Nos registros de São João Eudes encontramos a menção a um Supremo Conselho que teve lugar no Céu e do qual só participaram as três pessoas da Santíssima Trindade.

Enquanto esse estava reunido
se fez um imenso silêncio no universo, no Céu e também no inferno.

Sabia-se que se discutia um assunto da máxima importância, e até os demônios na terra ficaram estarrecidos porque percebiam que lhes concernia e queriam saber de toda forma o que estava sendo falado.

Afinal, Nosso Senhor comunicou a Soeur Marie a resolução tomada: o Pecado – portanto o processo universal de pecados – tinha sido julgado e sua condena fora proferida.


A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo Deus e Homem, ficou encarregada de executar a sentença.

Mas eis que Nosso Senhor disse a Soeur Marie que não iria executá-la, ao menos logo, porque três grandes obstáculos O impediam.

A razão do paradoxo é que Nosso Senhor na hora de extinguir o Pecado e os maus não queria exterminar os bons misturados com os maus, como na parábola do joio misturado com o trigo.

Quais eram os obstáculos?

Nosso Senhor explicou: se Ele fosse cumprir a ordem ao pé da letra não sobrariam nem os bons.

Então ele queria remover neles os fatores que os mantinham enleados com os maus e assim poupar os salváveis.

Esses fatores são essencialmente três. E contra esses três tinha três frechas simbólicas. Para essa tarefa Ele queria o engajamento de Soeur Marie.

O primeiro obstáculo que é preciso remover é a moleza dos bons.

Para dar-lhe fim, o Pai Eterno preparava uma flecha que daria à alma do bom decadente uma força sobrenatural pela qual ele se ergueria generosamente da terra em que o pecado o mantém chafurdado.

O segundo empecilho é o desconhecimento da gravidade do Pecado que há nos bons. Nosso Senhor prepara uma flecha que comunicará a essas almas um raio de luz que as acordará do sono ao qual se entregaram, ficando moral e intelectualmente adormecidas nas trevas de uma ignorância culpada.

O terceiro é a falta de percepção por parte dos bons da malícia que há no Pecado. Contra isso o Espírito Santo prepara um sopro divino que acenderá suas inteligências e seus raciocínios.

Esse sopro fará que seu entendimento lhes apresente os terríveis juízos de Deus e a razão natural lhes faça ver a indignidade de uma criatura chamada a tantas belezas e perfeições eternas se revolver na lama como animal imundo.

Então as almas que jazem como corpos putrefatos mortos, malcheirosos e insuportáveis lavar-se-ão nas águas da contrição.

A Soeur Marie, em 12 de fevereiro de 1645, Nosso Senhor lhe prometeu uma marca que se imprimiria nela e que ficaria gravada em tudo o que ela dizia de tal maneira que ninguém poderia duvidar que era a Verdade.

O decreto trinitário da morte do Pecado, disse Marie, foi pronunciado na meia-noite do Natal de 1645, segundo comunicação de Nossa Senhora (p. 279).

Em abril de 1650, Nosso Senhor lhe explicou que a besta do Apocalipse de sete cabeças simboliza o pecado original e todos os pecados que procedem dele como consequência.

Mas desde aquele momento os dias dessa besta estavam contados porque o Pai Eterno fará descer sobre ela um dilúvio de fogo e enxofre para aniquila-la. (p. 280)

Soeur Marie tinha impulsos tremendos contra o Pecado visto como um todo, e os pecados individuais, e queria exterminá-los logo. Mas Nosso Senhor lhe explicou que não seria no século XVII em que vivia.

Nosso Senhor a tranquilizou dizendo sobre esse século que as “aflições daqueles dias não eram grande coisa e atingiam só os pequenos pecadores. Não eram mais do que uma preparação e uma disposição para uma outra tribulação espantosa que vai vir”.

Mostrou-lhe então uma taça de vinho estragado, acrescentando que faria os ruins beber até a borra (p.281).


Nota importante: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.