Beato Francisco Palau y Quer O.C.D.

Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872)
Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872)
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs














Um profeta de ontem

para hoje, para amanhã,

e para o fim dos tempos










O beato Francisco Palau y Quer O.C.D. anteviu para nossa época
a irrupção de Satanás anunciada no Apocalipse


O bem-aventurado Francisco Palau y Quer O.C.D. nasceu no dia 20 de dezembro de 1811 em Aitona, na província espanhola de Lérida, e faleceu 20 de março de 1872 socorrendo as vítimas de uma epidemia em Tarragona.

Fundou em Barcelona a “Escola da Virtude”, modelo de ensino catequético. Em 1860-61 fundou congregações de irmãos e irmãs carmelitanas terceiras, que deram origem posteriormente às congregações de Carmelitas Missionárias Teresianas e às Carmelitas Missionárias.

Pregou missões populares e difundiu a devoção a Nossa Senhora. Foi beatificado em 24 de abril de 1988. Sua festa litúrgica se celebra em 7 de novembro.

O Beato Palau professou solenemente seus votos na Ordem Carmelitana em 15 de novembro de 1833, tempo de perseguição religiosa. Em 25 de julho de 1835 as turbas republicanas, socialistas e comunistas incendiaram os conventos e as casas religiosas, inclusive o convento do Beato.

Ele teve que partir para o exílio e usou o resto de sua vida o hábito carmelita por baixo de uma batina de padre secular.

Escolheu para morar uma gruta a dois quilômetros de Aitona, hoje conhecida como Cueva del Padre Palau e transformada em santuário mariano.

Mas a perseguição chegou até ali. Ele sofreu atentados de morte e teve de partir para o exílio na França, onde residiu por onze anos até 1851. Na França, a sua fama de santidade se espalhou entre o povo e a nobreza, pelo que também foi perseguido pelo anticristianismo.

Gruta de Aitona, onde foi ermitão, hoje é local de romaria
Gruta de Aitona, onde foi ermitão, hoje é local de romaria
Voltou à Espanha em 13 de abril de 1851. Nomeado diretor espiritual do seminário diocesano de Barcelona, ele organizou a “Escola da Virtude” na paróquia de Santo Agostinho.

O extraordinário sucesso da Escola em tirar o povo da influência revolucionária anticristã motivou arruaças socialistas e comunistas.

O governo liberal desterrou então o Beato Palau para a ilha de Ibiza. Ali ele permaneceu durante seis anos e fundou uma ermida e um oratório consagradas à Mãe de Deus do Carmo. A igreja hoje restaurada, em sua época foi um centro de romarias na ilha.

É autor de vários livros. No fim de sua vida retornou a Barcelona, após ser inocentando pela Justiça das difamatórias acusações contra ele levantadas.

Mas a Escola da Virtude continuou proibida pelo governo liberal. Logo España entrou em guerra civil. Os religiosos que saíssem na rua com suas batinas ou hábitos podiam ser assassinados.

Então, ele concebeu, dirigiu e foi o principal redator do semanário “El Ermitaño” de categórica posição católica e contrarrevolucionária. Nele publicou até morrer suas reflexões sobre o presente e o futuro da Igreja. Seus escritos se destacam pelas suas luzes proféticas.

Nos anos finais da vida, o Beato Palau trabalhou muito como exorcista. Até concebeu o projeto de uma Ordem de exorcistas e enviou ao Concilio Vaticano I um amplo escrito sobre o tema.

Muitas das formulações mais caras ao Beato encontram-se incluídas no exorcismo para uso público e privado aprovado por S.S. Leão XIII em 18 de maio de 1890 (Cfr. Acta Sanctae Sedis vol. XXIII, pp. 743-746).

 O famoso Pe. Gabriele Amorth, exorcista de Roma recentemente falecido, teria se inspirado no Beato Palau na prática e na apologia do exorcismo.


Em seu jornal “El Ermitaño”, o Beato Palau tratou especialmente dos eventos de sua época.

Ele via os problemas religiosos, políticos, sociais, econômicos – e até tecnológicos – como fazendo parte de um só e imenso movimento que, animado por Lúcifer e seus sequazes, procurava derrubar a Igreja Católica e a ordem social cristã.

Arguto e intenso analista das informações que chegavam a Barcelona através dos telégrafos e dos jornais, ele teceu visualizações da política humana inspiradas pela Fé e pelos seus estudos teológicos às quais é difícil recusar uma inspiração profética.

Sua linguagem, como era usual em seu tempo, utiliza muitas figuras e símbolos.

Por exemplo, no artigo citado a continuação, intitulado “Um cometa”, publicado em 25 de agosto de 1870 em seu boletim “El Ermitaño”. O cometa simboliza a Satanás livre para fazer ao mundo o dano previsto no Apocalipse:

Exilado a Ibiza, ia ao rochedo Vedrà (foto) a fazer retiro espiritual
Exilado a Ibiza, ia ao rochedo Vedrà o fazer retiro espiritual
“Eu vi um cometa, o mesmo cometa, aquele sinal misterioso, sobre o qual fiz tantas reflexões.

“Sua cauda tinha forma de espada, de uma espada de fogo que lançava bolas de fogo em direção à terra.

“Eu fiquei atento olhando para a espada. Horrivelmente fiquei tomado de espanto, porque apareceu uma mão misteriosa que empunhou a espada,

“e na hora pelo orbe inteiro se ouviram hinos de guerra: guerra no mundo oficial político, guerra entre os reis, guerra por razões de interesse puramente material.

“Enquanto eu olhava a mão que empunhava a espada de aço voltada contra a cabeça dos reis, saiu do cometa outra cauda, e apareceu na hora uma outra mão que pegou a cauda do cometa que era toda de fogo e em forma de espada,

“e entre trovões e relâmpagos a espada jogava raios e faíscas contra o globo terrestre, e as duas espadas, batendo entre elas, acendiam sobre a terra a mais encarniçada guerra que os séculos já viram: na política e na religião: uma guerra universal. (...)

“O cometa era um sinal colocado no firmamento do mundo espiritual. Ele joga uma luz que ilumina a história presente e vindoura deste mundo material visível onde acontece a atividade humana. (...)

“A luz desse cometa ilustra o cumprimento desta profecia: ‘Satanás será solto da prisão. Sairá dela para seduzir as nações dos quatro cantos da terra’ (Apoc. cap. XX, 7-8).

A obra suprema de Satanás é uma trama contra Cristo e sua Igreja: a Revolução.
“À luz deste cometa se vê a obra de Satanás, aquele mistério de iniquidade que começou a se tramar contra a Igreja, quando Ela estava ainda em seus primórdios.

“Satanás desencadeado seduziu todos os reis e todos os príncipes da terra; ele voltou suas espadas e cetros contra a Igreja: esta é a sua obra.

“O cometa mostra duas mãos e as duas empunham uma espada, e as duas vão contra Cristo e sua Igreja, e anunciam uma guerra igual à dos primeiros séculos, porém mais horrorosa, sem comparação. (...)

“Satanás desencadeado consumou sua maldade, porque obteve nesta ordem material política a apostasia de todos os reis e governos.

“Eu, o Ermitão, percebendo este fato, peguei dois pedaços de madeira, fiz uma Cruz e escrevi nela Quis ut Deus? (...)

“O cometa significa e desvenda o desencadeamento e a libertação do diabo e, em consequência, a apostasia predita pelo apóstolo: um reino de trevas e de maldade, uma época de incredulidade e de erros.

“O cometa descobre anátema, maldição, morte, guerra anarquia social, dias de luto e pranto; e quando o Ermitão vir este sinal, quer dizer, o diabo desencadeado, vos dirá, e vos repetirá sempre a mesma coisa, certo de que o tempo confirmará a verdade destes fatos.”




Lúcifer, autor da revolta no Céu, instiga uma Revolução análoga na Terra


Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872)
Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872)
As antevisões do Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872) impressionam pela penetração e riqueza de panoramas.

As suas previsões referentes aos dias de hoje são surpreendentemente detalhadas, abrangentes, fruto de longos estudos dos autores sagrados, Doutores e grandes teólogos da Igreja.

O Beato via os eventos históricos futuros imediatos se desenvolvendo segundo uma sequência fundamental:

1°. A marcha do mundo em direção à dissolução social e ao estabelecimento de uma anti-ordem caótica como fruto de uma Revolução anticristã;

2°. A denúncia dessa Revolução por um enviado de Deus e seus discípulos, seguida da justa punição divina da iniquidade;

3°. A restauração da Igreja e das nações por obra do Espírito Santo e o advento de um período em que as pessoas imbuídas do espírito do Evangelho dariam uma glória a Deus historicamente inigualável. Esse período histórico duraria até o fim do mundo.

Lúcifer, autor da revolta no Céu,
instiga uma Revolução análoga na Terra


Pe. Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma

Pe. Gabriele Amorth, famoso exorcista de Roma (1925 - 2016) sobre o Beato Palau:

Eu procuro seguir a linha iniciada por um santo espanhol, o Beato Francisco Palau, carmelitano, que já em 1870 veio a Roma falar sobre o exorcismo com o Papa Pio IX.

“Voltou depois a Roma durante as sessões do Concílio Vaticano I, para que se tratasse da necessidade de exorcistas.

“Com a interrupção daquele Concílio em razão da tomada de Roma, o assunto sequer foi levantado.”

O bem-aventurado frade deplorava as sucessivas quebras das instituições fundamentais da ordem cristã como a família e a propriedade.

Lamentava a demolição da moralidade e dos estilos de vida tradicionais, minados pela revolução industrial. Condenava a derrubada das formas tradicionais de governo por constantes golpes políticos.

Não aceitava que todas essas demolições convergentes fossem resultado do acaso. Pelo contrário, a variedade imensa das crises era para ele resultante de uma causa única.

Ele se perguntava se por detrás delas, no comando, não havia alguma inteligência forçosamente diabólica.

Sim, respondia ele, o próprio Lúcifer, que seduziu um terço dos anjos no céu, apoderou-se do coração de uma série de homens-chave na Terra e mais uma vez ergueu a bandeira da revolta.

Esse novo Non serviam (“Eu não servirei”) é a grande causa das crises no mundo, concluía. E essa para ele tinha um nome: “Revolução”.

O que é a Revolução? – explicou – É hoje na Terra aquilo mesmo que aconteceu no Céu quando Deus criou os anjos: Satanás (...) seduziu todos os reis e governos da terra e com a bandeira ao vento dirige seus exércitos na guerra contra Deus, (...) isto é revolução, isto é anarquia entre os homens e guerra contra Deus” (“Triunfo de la Cruz”, El Ermitaño, Nº 125, 30-3-1871.).

Satanás é o pai da Revolução – ensinava, parafraseando um célebre escrito de Mons. de Ségur –, essa é a obra dele, iniciada no Céu e que vem se perpetuando entre os homens de geração em geração.<

Nossa Senhora das Virtudes, grande devoção do Beato Palau
Nossa Senhora das Virtudes, grande devoção do Beato Palau
“Por primeira vez após seis mil anos ele teve a ousadia de proclamar diante do Céu e da Terra o seu verdadeiro e satânico nome: Revolução!

“A Revolução tem como lema, a exemplo do demônio, a famosa frase: não obedecerei! Satânica em sua essência, ela aspira a derrubar todas as autoridades e seu objetivo derradeiro é a destruição total do reino de Jesus Cristo sobre a terra” (“Adentros del catolicismo – abominaciones predichas por Daniel profeta en el lugar santo: Apostasía”, El Ermitaño, Nº 21, 25-3-1869.).

Segundo o bem-aventurado, essa Revolução realiza os anúncios das Sagradas Escrituras relativos à apostasia dos últimos tempos. A análise racional, tranquila e vigorosa dos acontecimentos sóciopolíticos contemporâneos o confirmava nesta sua convicção.

A Revolução leva a uma catástrofe
que o Beato Palau queria evitar

No século XIX a humanidade imergia de modo displicente e veloz na anarquia, impelida pelas tendências desordenadas que alimentam a Revolução, especialmente o orgulho e a sensualidade. Por isso, o Beato Palau concluiu que a dinâmica revolucionaria impulsiona o mundo de modo implacável ao caos e ao desaparecimento da ordem social.

O beato usava como exemplo um acidente ferroviário que abalou seus contemporâneos. Um temporal derribara uma ponte na Catalunha, e um trem expresso – naquela época símbolo embriagador do progresso industrial – sem saber do acontecido, precipitou-se no abismo durante a noite.

Ele viu no acidente uma parábola do mundo superficial e despreocupado, portador de restos de cultura e religião, sendo conduzido pela Revolução rumo a uma catástrofe que o bem-aventurado desejava evitar, mas que ninguém queria ouvir falar:

Guerra Civil Espanhola: um passo na marcha da Revolução
Guerra Civil Espanhola: um passo na marcha da Revolução
“Uma horrorosa catástrofe anunciada pelos profetas, por Cristo, pelos Apóstolos e por todos os porta-vozes mais autorizados do catolicismo. A sociedade atual, conduzida em massa pelo poder das trevas e pelo poder político, subiu num trem.

“Mas os maquinistas a levam para os infernos. A estação de onde saiu chama-se Revolução, a próxima estação chama-se Catástrofe Social.

“Agora o trem circula entre uma estação e outra. Os passageiros não pensam, o Ermitão dá berros fortíssimos: ‘Parem, voltem atrás!’.

“Mas essa voz, que é a própria voz do catolicismo, é sufocada pelo ruído do trem. (...) A tempestade levou a ponte. Era noite e o trem que partiu de Gerona ia em frente. Os viajantes não sabiam do perigo, mas a ponte não estava ali.

“As trevas escondiam o risco, até chegar no abismo. A locomotora deu um pulo e não tinha asas, faltavam os trilhos, só havia o precipício. Ela caiu, arrastando consigo os carros e os passageiros. E as águas os engoliram.

“Eles não acreditaram no perigo, mas ele existia, era verdadeiro, e a incredulidade não os salvou, mas os perdeu.

“Os maquinistas e condutores do trem para onde vai a sociedade atual estão ébrios, perderam o juízo. Não vedes que não acertam uma?

“Descei enquanto puderdes, e jogai-vos nos braços da Igreja vossa Mãe, e assim vos salvareis" ("Catástrofe social", El Ermitaño, Nº 40, 5-8-1869).




Como a Revolução satânica se infiltrou na Igreja


Conspiração de Claudius Civilis,
Rembrandt (1606 – 1669), Nationalmuseum, Estocolmo
O Bem-aventurado Francisco Palau e Quer O.C.D. tomava como ponto de partida em seus escritos proféticos os fatos políticos, sociais e religiosos que lhe tocava assistir no dia-a-dia. E os analisava conscienciosamente à luz da Fé e dos ensinamentos dos doutores da Igreja.

Ele expunha suas conclusões através de uma linguagem rica em imagens, visando torná-las acessíveis aos leitores de seu jornal “El Ermitaño”.

Assim, ele apresentou uma conversação figurada do personagem principal de sua revista – “o ermitão” – com o próprio Deus, sobre o Concílio Vaticano I, que tantos benefícios trouxe para a Igreja.

Nela, o Beato põe nos lábios de Deus a seguinte explicação:

Por causa da corrupção dos costumes [Satanás] se introduziu no Sancta Sanctorum e, enquanto comanda todos os reis e poderes políticos da terra em batalha contra Mim desde o exterior da Cidade Santa, paralisa de dentro a minha ação, entorpece minhas empresas e frustra meus projetos” (“Roma vista desde la cima del monte”, El Ermitaño, Nº 58, 9-12-1869).

Entre os instrumentos desta ofensiva interna contra a Igreja ele apontava uns estranhos “sacerdotes” do demônio:

“Alguns destes homens e mulheres exibem uma virtude religiosa aparente, vão se confessar, ouvem a missa, comungam com frequência, mas o que há com eles? Horror!

Sabat das bruxas. Francisco Goya (1746 – 1828),
Museu del Prado, Madri
“Recolhem as formas eucarísticas, levam-nas para casa e as apresentam em sessões satânicas para serem espezinhadas. Esses são os Judas dentro do próprio santuário, que introduziram os demônios no local onde não tem direito, e encheram o templo de Deus de abominações” (“El maleficio”, El Ermitaño, Nº 103, 27-10-1870).

Satanás entrou no santuário – acrescentava o religioso carmelitano – e o encheu de abominações, sustentado por poderes que se intitulam católicos, e que de dentro do próprio santuário fazem guerra contra nós, uma guerra atroz, a mais perigosa que a Igreja já teve que enfrentar. (...)

“(...) porque ao inimigo convém nos combater a partir de dentro da fortaleza, e por isso ele usa a roupagem e o nome de católico, e com essa fachada se apresenta em certos atos religiosos para fascinar as turbas e criar confusão até no céu” (“Campamento de epidemia en Vallcarca”, El Ermitaño, Nº 99, 29-9-1870).

Em 1968, S.S. Paulo VI afirmou que “a fumaça de Satanás entrou no lugar sagrado” (Discurso ao Pontifício Seminário Lombardo, 7-12-68, Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, 1968, vol. VI, p. 1188; e Homilía “Resistite Fortes in fide”, 29-6-1972, ibid., 1972, vol. X, p. 707).

Cem anos antes, o bem-aventurado carmelita já denunciava com horror esta infiltração na Igreja.



O Beato Palau e o rochedo do Vedrà.



Todo ano, o Bem-aventurado Pe. Francisco Palau O.C.D. ia fazer seu exame de consciência, despachar correspondência e meditar, num quase inacessível rochedo perto da Ilha de Ibiza, conhecido como Es Vedrà.
Esse grandioso local ficou associado à santidade e à visão profética do santo carmelita a respeito de sua época, de nossos dias e do fim do mundo.





Misteriosa estirpe espiritual de Judas agindo na Igreja


Judas negocia a traição de Jesus., Giotto
Em numerosas ocasiões, o bem-aventurado alude à existência de um “Judas” enquistado na Igreja.

Com esta expressão ele não se referia a um indivíduo em particular, mas a uma espécie de estirpe espiritual que ao longo dos séculos trabalha dentro da Igreja contra Ela.

Segundo ele, essa linhagem do mal se manifestou de modo patente em certos heresiarcas, mas na maior parte do tempo agiu em segredo, escondida da massa do clero e dos fiéis.

No quê consiste essa estirpe? Como entrou na Igreja sacrossanta? Como pôde manter-se n’Ela? Como age? Qual é o seu sinal distintivo?

O santo religioso não se estendeu muito em pormenores históricos. Ele via, porém, que ao longo dos séculos sempre houve manobras diabólicas para infiltrar agentes e organizá-los dentro da Igreja.

O primeiro instrumento foi o próprio Judas Iscariotes, que dá o nome a esta estirpe do mal.

Mas o Iscariotes acabou se autodenunciando quando vendeu o Cordeiro Imaculado ao Sinédrio.

Porém, poucos anos depois, nos tempos apostólicos, este filão da perdição já estava agindo.

É o que diz São João em sua primeira epístola:

“18. Filhinhos, esta é a última hora. Vós ouvistes dizer que o Anticristo vem. Eis que já há muitos anticristos, por isto conhecemos que é a última hora.

“19. Eles saíram dentre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, ficariam certamente conosco. Mas isto se dá para que se conheça que nem todos são dos nossos.” (I Jn, II, 18-19)

O Apostolo amado acrescenta que “o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, já está agora no mundo”. (I Jn, IV, 3)

Simão o Mago subia aos céus e São Pedro (de joelhos)
o fez se espatifar no chão na presença do imperador Nero (no trono).
São João faz o sinal da cruz. Bennozo Gozzoli
Os Atos dos Apóstolos (cfr. Act, VIII, 9-24) narram a história de Simão o Mago, que Santo Irineu qualifica de pai de todas as heresias (“Adversus Hereses”, livro I, cap. 23).

O bem-aventurado carmelita atribui a gestação dos erros e desordens na Igreja a esta estirpe de Judas:

“Judas e o diabo se combinaram contra Cristo, mas os dois foram expulsos do colégio apostólico. (...) o diabo buscou então portas para entrar no seio do catolicismo, e as encontrou nos heresiarcas. As portas lhe foram abertas pelos próprios cristãos que lhe entregaram as chaves da incredulidade e da corrupção das doutrinas.

“Agora ele está dentro. Desejais vê-lo? Entrai, e o que vereis?

“Vereis homens que se intitulam católicos, mas blasfemam como demônios e perseguem com furor o catolicismo. (...)

“Vereis o diabo dentro do próprio santuário, desafiando a onipotência de Deus com blasfêmias proferidas diante de seus altares.

“Vereis no povo católico as abominações prenunciadas por Daniel profeta. Vereis o anticristianismo instalado no poder.

“Vereis que o diabo se introduziu no lugar sagrado, e corrompe, perverte, tenta, prova” (“El suicidio”, El Ermitaño, Nº 87, 7-7-1870).

O Beato punha na boca de um demônio as seguintes palavras, falando desta linhagem de heréticos:

Martinho Lutero, máscara mortuória
“Nossa obra que com tanta cautela urdimos desde Judas traidor até esta data, encobrindo o plano com que foi concebida e que com sumo prazer vemos consumada na apostasia de todas as nações” (“Un misterio de iniquidad”, El Ermitaño, Nº 111, 22-12-1870).

Esse plano – segundo a profética previsão do frade carmelitano – iria atingir sua plenitude por uma misteriosa permissão divina:

“Ermitão, (...) escuta: deixa que o diabo e o ímpio completem o mistério de iniquidade que ele iniciou dentro do próprio santuário com Judas traidor” (“Adentros del catolicismo”, El Ermitaño, Nº 21, 25-3-1869).

Contra essa pérfida linhagem lutaram os grandes santos da Igreja, sem nunca terem conseguido extirpá-la completamente.

São Pio X, na célebre encíclica Pascendi Dominici Gregis, de 8 de setembro de 1907, condenou com luxo de detalhes a conspiração dos heréticos modernistas, antecessores diretos dos atuais progressistas.

A descrição feita pelo Santo Pontífice da conjuração modernista concorda admiravelmente com a ideia que o Beato Palau havia formado dessa sibilina estirpe de Iscariotes:

“Os fautores do erro – ensina São Pio X – já não devem ser procurados entre os inimigos declarados; mas, o que é muito para sentir e recear, se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se destarte tanto mais nocivos quanto menos percebidos.

São Pio X denunciou a conspiração modernista,
mas não teve tempo para extinguí-la
“Aludimos, Veneráveis Irmãos, a muitos membros do laicato católico e também, coisa ainda mais para lastimar, a não poucos do clero que, fingindo amor à Igreja e sem nenhum sólido conhecimento de filosofia e teologia, mas, embebidos antes das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, blasonam, postergando todo o comedimento, de reformadores da mesma Igreja;

“e cerrando ousadamente fileiras se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo, sem pouparem sequer a mesma pessoa do divino Redentor que, com audácia sacrílega, rebaixam à craveira de um puro e simples homem. (...)

“Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja.

“Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem.

“Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que meneiam eles o machado. (...)

“(...) continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar (...) com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há consequências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos (...)

“Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera.

“Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação” (São Pio X, Encíclica Pascendi Dominici Gregis).










Ver a Revolução para entender o que está acontecendo


Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872)
Beato Francisco Palau y Quer O.C.D. (1811-1872)

Nota biográfica do Beato Francisco Palau O.C.D.

O bem-aventurado Francisco Palau y Quer O.C.D. nasceu no dia 20 de dezembro de 1811 em Aitona, na província espanhola de Lérida, e faleceu em 20 de março de 1872 socorrendo as vítimas de uma epidemia em Tarragona, Espanha.

Fundou em Barcelona a “Escola da Virtude”, modelo de ensino catequético, e em 1860-61 as congregações de irmãos e irmãs carmelitanas terceiras, que deram origem às congregações de Carmelitas Missionárias Teresianas e às Carmelitas Missionárias.

Pregou missões populares e difundiu a devoção a Nossa Senhora. Foi beatificado em 24 de abril de 1988. Sua festa litúrgica se celebra em 7 de novembro.

O Beato Palau professou seus votos na Ordem do Carmo em 15 de novembro de 1833, tempo de perseguição religiosa.

Em 25 de julho de 1835 as turbas republicanas, socialistas e comunistas incendiaram os conventos e as casas religiosas, inclusive o convento do Beato. Ele se exilou numa gruta conhecida como Cueva del Padre Palau que hoje é santuário mariano objeto de romarias.

Mas tendo ali sofrido atentados de morte, ele partiu para o exílio na França, onde residiu por onze anos, até 1851, e sua fama de santidade atraiu a perseguição do laicismo anticristão.

Voltou à Espanha em 13 de abril de 1851. Nomeado diretor espiritual do seminário diocesano de Barcelona, ele organizou a “Escola da Virtude” nos bairros operários.

O extraordinário sucesso da Escola para tirar o povo da influência revolucionária anticristã motivou arruaças socialistas e comunistas.

O governo liberal desterrou então o Beato Palau para a ilha de Ibiza, onde residiu durante seis anos e fundou um eremitério consagrado a Nossa Senhora das Virtudes, primeiro santuário mariano da ilha.

Autor de vários livros, no fim de sua vida criou e foi o principal redator do semanário “El Ermitaño”, onde publicou suas reflexões sobre o presente e o futuro da Igreja.

Seus escritos se destacam pelas luzes proféticas. Sua linguagem utiliza muitas figuras e símbolos.

Também no fim de vida o Beato fez muitos exorcismos. Até concebeu o projeto de uma mobilização em massa do clero para exorcizar os demônios que possuem o mundo. Enviou ao Concilio Vaticano I uma raciocinada petição sobre o tema.

Em “El Ermitaño” o Beato Palau tratou dos eventos de sua época, do futuro e do fim do mundo.

Ele via os problemas religiosos, políticos, sociais, econômicos – e até os tecnológicos – como fazendo parte de um só e imenso movimento que, animado por Lúcifer e seus sequazes, procurava derrubar a Igreja Católica e a ordem social cristã.

Arguto e intenso analista das informações que chegavam a Barcelona através de jornais e telégrafos, ele teceu panoramas inspirados pela Fé e pela teologia nos quais é difícil recusar a inspiração profética.

O bem-aventurado Palau julgava que o conhecimento da Revolução, de sua existência, suas metas, seus métodos e agentes, é a chave para decifrar o aparentemente tão caótico acontecer moderno.

Ele dizia que se não se considerasse a realidade à luz dela, perder-se-ia a noção do que se está dando em torno de nós.

Mas seus contemporâneos mal viam a Revolução. Esta tinha cegado suas vítimas, estava se apossando dos poderes temporais e espirituais e imprimia o rumo dos fatos na terra. Explicava ele:

“o miserável mortal não vê (...) que há uma combinação para o mal, (...) sustentada e defendida por todos os poderosos da terra, animados, dirigidos e ordenados sob as ordens de um só príncipe, que é o diabo.

“Não vê esse anjo revolucionário que, executando um plano coerente que vai percorrendo os séculos, conseguiu fazer-se coroar com a glória e o poder de todos os reis do mundo civilizado” (“El reino de Satán sobre la tierra”, El Ermitaño, Nº 32, 10-6-1869).

O bem-aventurado deplorava que as boas iniciativas sofressem frustrações uma após outra. A causa disso radicava em que os seguidores das causas justas não atinavam para a unidade e a universalidade da Revolução:

“O que é a revolução da Espanha? – Um chifre, uma coroa sobre uma das sete cabeças do dragão infernal, essa cabeça se tornou visível nos atos de demolição e destruição de toda a ordem social; (...)

“essa cabeça vai formando um mesmo corpo de delito com as demais nações, formando em todas elas uma maldade única, um exército único, um só dragão, uma coisa só, e essa unidade e sustentada pelo príncipe tenebroso” (id. ibid).

“Se a revolução da Espanha é olhada segundo os cálculos da política, seu triunfo não tem explicação. Se julgamos com as leis da prudência humana aquilo que noticia a imprensa, tudo aparece tenebroso, incerto e movediço.

“Porém, se consideramos que a Revolução está combinada desde séculos passados com a da Itália, com a da França, com a dos protestantes, (...) nossos juízos e cálculos serão mais acertados e proveitosos” (“España: la esperanza de los católicos”, El Ermitaño, Nº 10, 7-1-1869).

A Revolução e os efeitos da Redenção

Queda dos anjos rebeldes, detalhe. Pieter Bruegel "O Velho" (1525/1530 — 1569), Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica, Bruxelas.
Queda dos anjos rebeldes, detalhe.
Pieter Bruegel "O Velho" (1525/1530 — 1569),
Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica, Bruxelas.
Para ele, a Revolução não é apenas uma matéria para belas dissertações em livros e que se usa para coordenar ideias e conectar aparências.

Tampouco é um fenômeno apenas prático surgido do nada ou do jogo dos interesses da política e da economia humanas.

Ela é o resultado de um longo processo histórico que tem profundas raízes teológicas e morais.

É uma tentativa de revanche do príncipe das trevas contra a obra inefável da Redenção da humanidade decaída com o pecado original, a qual nos obtida pelo Filho de Deus no alto do calvário.

Ele explicava que o fruto específico da Redenção foi a conversão de numerosos povos à verdadeira religião de Nosso Senhor Jesus Cristo, no Oriente e no Ocidente.

Porém, vista desde a perspectiva anticristã, a Redenção pratica um “roubo” ao império de Satanás.

Então, ele não podia fazer outra coisa senão “recuperar” seu reino de perdição. Foi quando excogitou a Revolução na Terra.




A Revolução é a fase atual da ofensiva do demônio contra a Igreja e a Cristandade


A Revolução é o assalto de Satanás contra a Igreja e a Cristandade
A Revolução é o assalto de Satanás contra a Igreja e a Cristandade


Retrospectivamente, o Beato Palau identificava quatro grandes ofensivas históricas sucessivas perpetradas pelo inferno contra a Igreja e a Civilização Cristã, visando erradicar os efeitos abençoados da Redenção.

1. A primeira consistiu no islamismo. Por meio dele, o inimigo da humanidade conseguiu arrebatar da Igreja a Terra Santa e enormes extensões cristianizadas da Ásia e da África.

Essa ofensiva continua, mas como não conseguiu completar sua meta na História por meio dela, o demônio desencadeou uma ofensiva diversa.

2. A segunda grande ofensiva foram os cismas – principalmente o grego –, que desgarraram da Igreja colossais setores da Cristandade outrora pertencentes ao império greco-bizantino com sede em Constantinopla e a totalidade da Rússia.

Salvo gloriosas exceções, o Oriente evangelizado sucumbiu aos assaltos. Porém ainda ficava o Ocidente.

3. Veio então o terceiro grande assalto infernal. A ponta de lança foi o protestantismo, que arrastou na sua revolta a maior parte da Europa do Norte e importantes setores da Europa Central.

Sem embargo, nações católicas como a França, a Itália, a Espanha, a Áustria e outras resistiram.

4. A ofensiva final começou com a Revolução Francesa de 1789, que é um desdobramento do protestantismo na ordem política e social.

Essa Revolução teve como filho o malfadado movimento socialo-comunista, o qual, por sua vez, deverá preparar o caos final que é o ambiente em que se manifestará o Anticristo.

Na batalha das Navas de Tolosa, os reis espanhóis conseguiram segurar a ofensiva islâmica com sobrenatural vigor militar
Na batalha das Navas de Tolosa, os reis espanhóis
conseguiram segurar a ofensiva islâmica com sobrenatural vigor militar
“[1º] no século VI – explicou o bem-aventurado – Satanás saiu de seu cárcere em pé de guerra e apresentou batalha contra a Igreja. Fundou o império da Turquia. (...)

[2º] Depois desse combate, Satanás apresentou outro sob forma diversa. (...) Tendo-se adentrado no próprio santuário, promoveu um cisma. (...) então o Oriente se separou da Igreja latina e sobre essas ruínas ergueu seu segundo império ainda mais terrível que o primeiro, quer dizer, o da Rússia.

[3º] Satanás passou despercebido nessas duas primeiras batalhas e preparou um terceiro ataque contra o centro da Europa católica. Lutero foi o escolhido; (...) o protestantismo erigiu no seio da Europa o terceiro império de Satanás (...)

[4º] Triunfante nessas três batalhas, montou o quarto ataque. A Itália, a Espanha, a França: essas três nações tinham se salvado, e a Áustria ainda não havia sucumbido. (...)

“o catolicismo ainda se mantinha firme sobre essas quatro colunas. Satanás organizou todas suas legiões e deu o assalto. E depois da luta mais sangrenta jamais vista, ele venceu.

“Sobre as ruínas da Igreja na França apareceu no fim do século passado [N.T.: século XIX] uma bandeira: e era aquela mesma que ondejou no Céu sobre as cabeças das legiões revolucionárias: Guerra a Deus! Revolução!” (“Una ilusión funesta”, El Ermitaño, Nº 156, 2-11-1871).

Encadeamento processivo protestantismo-Revolução Francesa-comunismo

As duas primeiras ofensivas – do islamismo e dos cismas – foram desencadeadas separadamente, com pouca ou nenhuma relação ostensiva entre si.

Mas entre a terceira, a quarta e suas derivadas, a conexão é patente, segundo o bem-aventurado. Ele considerava o protestantismo como o verdadeiro pai da Revolução Francesa e esta a verdadeira mãe do comunismo.

E via que no futuro – portanto hoje, nos presentes dias – o comunismo geraria o caos universal, preparando a vinda do Anticristo.

Paris incendiada pelos "communards" (adeptos do comunismo) em 1871.
Paris incendiada pelos "communards" (adeptos do comunismo) em 1871.
Ele explicou essa geração progressiva de revoluções comentando o esmagamento da Comuna de Paris – primeira revolução comunista da História – pelas tropas republicanas:

“Desaparecerão de Paris os Vermelhos, mas ela [N.R.: a Revolução] tornar-se-á rainha e senhora dos vencedores, adorada por todos os que na aparência a combatem.

“Por acaso o vermelho [N.R.: o comunismo] e o tricolor [N.R.: o seguidor da Revolução francesa] não são filhos de uma mesma mãe?

“Essa mãe cruel que queima vivos seus filhos não é a Revolução Francesa de 1793, concebida no século XV pelo protestantismo alemão?” (“La Revolución en París”, El Ermitaño, Nº 135, 8-6-1871).

Profanação das igrejas durante a Comuna (1ª revolução comunista) de Paris
Profanação das igrejas durante a Comuna (1ª revolução comunista) de Paris
E comentando a aparente derrota da Internacional socialo-comunista na Comuna de Paris, ele sublinhava:

“A Revolução que estourou na França acaba de receber um golpe, à primeira vista mortal.

“Mas não é assim: a Revolução tem cabeça de serpente, que permanece oculta, escondida nos clubes maçónicos, e desde ali ataca toda autoridade visível.

“Como lei fundamental, a Revolução não tem rei nem cabeça, porque seu rei e sua cabeça é o diabo.

“O diabo encarnado no protestantismo alemão, vendo que Napoleão III dava forma de império à Revolução sua filha (...) invadiu a França e com pasmo e admiração do orbe inteiro, num abrir e fechar de olhos pôs a rodar pelo chão estrangeiro essa cabeça [N.T.: de Napoleão III] e agora apresenta sua obra tal como ela é. Isto é, sem cabeça, sem rei, com a forma que ele lhe deu quando nasceu em 1792” (“La causa de la religión: defensa”, El Ermitaño, Nº 126, 6-4-1871).




“Sacerdotes” da Revolução anticristã promovem o retorno ao paganismo


Na reunião da quase totalidade dos chefes de governo do mundo na Rio+20 (2012)
cerimônias esotéricas para atrair "energias escuras" sobre os políticos reunidos
Na medida em que a Revolução demole os restos da civilização cristã, ela vai afundando o mundo nas águas estancadas e fétidas de um novo paganismo, pior que o da Antiguidade ou dos povos mais decadentes:
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“Dominados os reis, as massas do povo indo atrás de seus governos, resulta que neste mundo político material visível voltou a se constituir o paganismo antigo, embora acomodado em sua forma à especialíssima situação da época” (“Relaciones entre los espíritus y el hombre”, El Ermitaño, Nº 117, 2-2-1871).

Essas afirmações podiam parecer ousadas no século XIX, que avançava alegremente deslumbrado pelo progresso das invenções. Mas ainda não se proclamava abertamente o culto de Gaia – a deusa terra dos ecologistas.

Tampouco se generalizavam, como agora, os sombrios cultos pagãos do Oriente – budismo, hinduísmo etc. – nem as práticas e crenças supersticiosas ou fetichistas de tribos africanas ou americanas sob o rótulo de uma Nova Era.

E os arraiais “católicos-progressistas”, missionários comuno-tribalistas ou carismáticos, não andavam em busca de “novas formas” de oração ou energias vindas das profundezas, ou nas tribos mais primitivas da Amazônia!

Para o Pe. Palau, adotar os decadentes cultos pagãos representa uma apostasia radical do doce jugo de Nosso Senhor Jesus Cristo. E o bem-aventurado comparava essa deserção de massa a um novo deicídio executado na pessoa da Igreja:

“As nações (...) disseram oficialmente pela boca de seus representantes: ‘não reinarás’. Disseram isso a Cristo e à sua Igreja, a Cristo e ao Papa, o dizem ao catolicismo e, abusando de seu poder e autoridade, expulsam ignominiosamente de seu seio, isto é, do mundo oficial, a Esposa do Cordeiro Imaculado. (...)

“Não é isto um matricídio? Sim. É um matricídio cem vezes mais feio e abominável que o deicídio cometido pelos judeus” (“Adviento de 1871”, El Ermitaño, Nº 161, 7-12-1871).

Dom Cristian Contreras, bispo de Melipilla (Chile), ajoelhado diante do altar com os sacrifícios oferecidos por um bruxo andino à Pachamama, 17 de janeiro 2015
Dom Cristian Contreras, bispo de Melipilla (Chile), ajoelhado diante do altar
com os sacrifícios oferecidos por um bruxo andino à Pachamama, 17 de janeiro 2015
Por tudo isso, o Beato Palau estava convencido de que no combate apostólico contra a Revolução se jogam os frutos da Redenção.

Renunciar à luta contra a Revolução ou se omitir equivale a se render ao mundo, ao demônio e à carne, a abandonar a Igreja num lance decisivo:

“Pois não é possível transigir nem concordar, salvo para nos prepararmos uns e outros para um golpe decisivo. Entre estes dois extremos não há meio termo: ou a Revolução acaba com o catolicismo, ou este devora a Revolução” (“Cuento de mi sombra”, El Ermitaño, Nº 28, 13-5-1869).

Os agentes da Revolução

Desde um prisma meramente material, a Revolução parece obra de minorias ativas, capazes de remover com astúcia e vigor que excedem as forças naturais, os obstáculos que encontra em seu caminho.

Se assim fosse – perguntava o Pe. Palau – como explicar que minorias revolucionárias possam impressionar e mudar o destino de nações inteiras?

Como interpretar a espécie de fatalidade e as estranhas coincidências e casualidades que sistematicamente, nos momentos decisivos, se voltam contra as boas iniciativas e favorecem as piores?

O efeito não pode ser maior que a causa e a fatalidade não existe.

Logo, concluía, devem existir potências impalpáveis muito superiores ao homem que influenciam decisivamente as vitórias da Revolução.

Sem elas, os agentes revolucionários não perpetrariam seu labor demolidor com a velocidade e a sincronização com que o fazem:

“Há entre nós, – explicava – residindo no próprio ar que respiramos, um vastíssimo império, cujos príncipes reconhecem um rei, e é um rei absoluto. (...)

“são espíritos puramente tais, inteligências que subsistem como o homem, mas independentemente da matéria, superiores ao homem em força física e espiritual, considerando o homem enquanto ser puramente natural. Excedem ao homem em ciência, inteligência, malícia e astúcia. (...)

“o homem que vive na terra, desde que apostata de Deus e da Igreja Católica, forma com esses seres espirituais família, povo, nação, império, transformando-se em súdito de seu poder.

“Esses homens, apóstatas de Deus, soldados de Satanás, em união com os demônios, constituem na terra o reino visível da maldade que chamamos mundo. (...)

“os príncipes e potestades superiores regem a partir dos ares os reis da terra que se renderam a eles pela apostasia, e os conduzem a uma anarquia completa, a uma dissolução social universal, e à guerra contra Cristo e sua Igreja” (“El reino de las tinieblas”, El Ermitaño, Nº 122, 9-3-1870).

Do ponto de vista natural, não faz sentido que as obras revolucionárias se mantenham em pé, desafiando as leis da natureza, observava o P. Palau.

A anarquia deveria produzir desabamentos irreparáveis na Babel revolucionária. Porém, esta sobe, sempre mais caoticamente, escarnecendo toda lógica e razão:

Estátua de Satanás concebida para ser montada em local aberto diante da prefeitura de Oklahoma City nos EUA
Estátua de Satanás concebida para ser montada em local aberto
diante da prefeitura de Oklahoma City nos EUA
“Esses poderes políticos – perguntava – que impuseram aos povos um jugo tão pesado, (...) quem lhes dá esse poder?

“Que força os sustenta, não um, mas muitos anos, escravizando, destruindo, desorganizando, dissolvendo até a ordem da natureza?

“Como podem prevalecer na Espanha 200 mil homens em pugna contínua contra 18 milhões?

“Como a massa de povos não se levanta qual mar enfurecido e afunda essa frágil piroga onde navegam uns quantos homens tidos em abominação e execração pela multidão?

“Explicai-me este enigma. Sem a fé católica é impossível! (...)

Esses homens famosos, (...) que vemos à testa da Revolução na Espanha, na Itália e na França, formam um só corpo moral, um só exército, um só e mesmo império com aqueles anjos rebeldes que no Céu empíreo fundaram a Revolução.

“A única diferença é que essas inteligências, por serem superiores ao homem que venceram, são as potestades e os poderes verdadeiros que dirigem essa guerra.

“E o homem alucinado pela sedução é um instrumento que serve para a execução de projetos combinados muitos séculos atrás por esses espíritos de maldade” (“La causa de Don Carlos”, El Ermitaño, Nº 78, 5-5-1870).

O “sacerdócio” da Revolução

O bem-aventurado esclarecia que nem todo e qualquer sequaz da Revolução entra em contato explícito e formal com demônios que se apresentam enquanto tais.

Pelo contrário, um importante número de revolucionários se horrorizaria, e talvez abandonaria a Revolução, caso lhes fosse proposto semelhante relacionamento.

Por isso o bem-aventurado afirmava que os espíritos das trevas se comunicam diretamente apenas com um número restrito de líderes da Revolução.

Esses geralmente não aparecem dirigindo a política, mas submetidos a essas inteligências tenebrosas e respaldados por seu influxo ativo, comandam a Revolução com maligna precisão.

Para o bem-aventurado, essa categoria seleta e oculta constitui uma espécie de sacerdócio da Revolução. E age como uma caricatura monstruosa e antagônica do único sacerdócio verdadeiro, instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo:

"A festa das bruxas". Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) Museu de Lázaro Galdiano, Madri, Espanha.
"A festa das bruxas", detalhe. Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828)
Museu de Lázaro Galdiano, Madri, Espanha.
“Assim como o Verbo encarnado tem seus sacerdotes e um pontífice para se relacionar oficialmente e se comunicar por seus órgãos aos povos e nações, [assim também] os demônios, nossos adversários, têm estabelecido (...) uma espécie de sacerdócio para entrar por meio dele em relação oficial com a sociedade humana” (“Programa del Ermitaño”, El Ermitaño, Nº 33, 17-6-1869).

Para a Revolução, esta categoria de súditos tem importância análoga à dos magos do paganismo.

“Destruída a idolatria – escreveu o beato – e levantada publicamente a religião católica das ruínas, os demônios conceberam outro plano de ataque contra a Igreja.

“Não lhes convinha apresentar seu sacerdócio de público e oficialmente, porque não seria tolerado pelo poder da Igreja. Foi assim que começou a fundação do maçonismo. (...)

“Conveio aos desígnios de Satanás esconder o seu sacerdócio; não tendo ele cor oficial, assumia e assume formas várias e esconde o seu operar nas trevas da noite, lá dentro das cavernas da terra.

“Então as pessoas não acreditam que existem e não os conhecem, e seu agir está a coberto do braço da lei e da autoridade.

“Existem falsos sacerdotes, falsos doutores e escritores, existem agora mais do que nunca maléficos magos que dispõem de exércitos invisíveis que matam, envenenam, corrompem, seduzem e pervertem” (“El maleficio”, El Ermitaño, Nº 103, 27-10-1870).




Os “sacramentos” da Revolução e a possessão diabólica


O Beato Palau sofreu atroz perseguição das forças das trevas, angélicas e humanas
O Beato Palau sofreu atroz perseguição
das forças das trevas, angélicas e humanas.
Teve larga experiência pastoral com as possessões
O bem-aventurado Palau considerava que assim como os verdadeiros sacerdotes de Nosso Senhor Jesus Cristo distribuem os Sacramentos, esses ministros da Revolução recorrem às artes mágicas numa escala inimaginável.

Suas manobras políticas ou sociais embutem bruxedos que funcionam como anti-“sacramentos” revolucionários, portadores de uma influência de Satanás.

O Ritual Romano (Rituale Romanum, Titulus XI, caput I, De exorcizandis obsessis a daemonio, n. 20, Desclée et socii, Romae-Tornaci-Parisiis, 1926, p. 446) adverte que nos casos de malefícios, possessões e práticas mágicas, o mago ou a feiticeira manda entregar à vítima algum fetiche ou objeto embruxado.

A esse objeto está unida tal o qual influência diabólica. Certos chefes revolucionários que estão em contato com os demônios recorrem a práticas análogas.

Mas eles não se servem de feitiços vulgares. Em lugar disso, a influência diabólica está ligada a leis ou normas anticristãs ou antinaturais.

Isso não é de espantar. Por exemplo, em nossos dias, Lucien Greaves, porta-voz do grupo Satanic Temple dos EUA, reivindicou o “casamento” homossexual como um “sacramento” da religião diabólica, segundo informou o site LifeSiteNews.

Assim explicava o bem-aventurado Palau:

“Se o malfeitor é um homem da política, (...) eis o malefício político. Consiste ele em danificar não o indivíduo ou a família, mas diretamente uma nação inteira.

“Como? Por meio de leis ímpias, bárbaras, que despojam a nação de tudo quanto há nela de santo e sagrado. Desses centros procedem os decretos emitidos contra os prelados, contra as Ordens religiosas, contra a religião. (...)

“o malefício político tem o apoio do poder dos demônios de hierarquia superior. (...) o malefício político é o mais terrível porque pega em massa uma ou mais nações, o mundo inteiro” (“El dogma católico con referencia a la redención de la sociedad actual”, El Ermitaño, Nº 170, 8-2-1872).

Nas camadas mais subterrâneas do “sacerdócio” revolucionário, a entrega da alma ao demônio é voluntaria:

“Nesta associação abominável o segredo de tudo quanto se pratica é imposto sob pena de morte, sendo os demônios encarregados de castigar o perjuro. O sigilo raras vezes é rompido.

“Esses homens e essas mulheres são uma espécie de energúmenos, mas voluntários, e porque já em vida fizeram entrega de sua alma, corpo, pessoa e bens ao diabo, é raro o caso de que algum deles possa se converter a Deus” (“Relaciones entre los espíritus e el hombre”, El Ermitaño, Nº 119, 16-2-1871).

O P. Palau identificava o centro desse sacerdócio na atividade de sociedades secretas.


O Beato Pio IX alertou muitas vezes sobre as conspirações secretas contra a Igreja
O Beato Pio IX alertou muitas vezes sobre as conspirações secretas contra a Igreja
Excede os limites do presente trabalho entrar em questão tão vasta . Remetemos os interessados às obras de Mons. Henri Delassus, especialmente: “La conjuration antichrétienne – Le Temple Maçonnique voulant s'élever sur les ruines de l'Église Catholique”, Société Saint-Augustin – Desclée De Brouwer et Cie, Lille, 1910, 3 vol.

O Papa Leão XIII, de feliz memória, resumiu o ensino dos Papas sobre a maçonaria nos seguintes termos:

“’Dois amores formaram duas cidades: o amor de si mesmo, atingindo até o desprezo de Deus, uma cidade terrena; e o amor de Deus, atingindo até o desprezo de si mesmo, uma cidade celestial’ [Santo Agostinho].

“Em cada período do tempo uma tem estado em conflito com a outra, com uma variedade e multiplicidade de armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e assalto.

“Nesta época, entretanto, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo, e estar combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida chamada os Maçons.

“Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o próprio Deus.

“Eles estão planejando a destruição da santa Igreja publicamente e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso Salvador. (…)

“Os Pontífices Romanos nossos predecessores, em sua incessante vigilância pela segurança do povo Cristão, foram rápidos em detectar a presença e o propósito desse inimigo capital tão logo ele saltou para a luz ao invés de esconder-se como uma tenebrosa conspiração; e, além disso, eles aproveitaram e tomaram providências, pois a eles isso competia, e não permitiram a si mesmos serem tomados pelos estratagemas e armadilhas armadas para enganá-los.

“A primeira advertência do perigo foi dada por Clemente XII no ano de 1738, e sua constituição foi confirmada e renovada por Bento XIV.

“Pio VII seguiu o mesmo caminho; e Leão XII, por sua constituição apostólica, Quo Graviora, juntou os atos e decretos dos Pontífices anteriores sobre o assunto, e os ratificou e confirmou para sempre. No mesmo sentido pronunciou-se Pio VIII, Gregório XVI, e, muitas vezes, Pio IX.

“Tão logo a constituição e o espírito da seita maçônica foram claramente descobertos por manifestos sinais de suas ações, pela investigação de suas causas, pela publicação de suas leis, e de seus ritos e comentários, com a frequente adição do testemunho pessoal daqueles que estiveram no segredo, esta Sé Apostólica denunciou a seita dos Maçons, e publicamente declarou sua constituição, como contrária à lei e ao direito, perniciosa tanto à Cristandade como ao Estado; e proibiu qualquer um de entrar na sociedade, sob as penas que a Igreja costuma infligir sobre as pessoas excepcionalmente culpadas.

“Os sectários, indignados por isto, pensando em eludir ou diminuir a força destes decretos, parcialmente por desprezo, e parcialmente por calúnia, acusaram os soberanos Pontífices que os passaram ou de exceder os limites da moderação em seus decretos ou de decretar o que não era justo.”

(Leão XIII, Encíclica Humanum Genus, 20 de abril de 1884, apud Acción Católica Española, Colección de Encíclicas e documentos pontificios, 4ª ed., Publicaciones da Junta Técnica Nacional, Madrid, 1955, LXI+1644+351 págs., págs 36 e ss. No site do Vaticano).

“Nos antros tenebrosos das lojas, os franco-maçons constituem com os demônios uma família e uma sociedade, comunicando-se com eles sob mil formas e meios.

“O diabo-rei está com o Grande Oriente à testa da franco-maçonaria como Cristo com Pio IX à frente de toda a Igreja: Pio IX é a cabeça visível da Igreja, e Cristo é a cabeça invisível.

“O Grande Oriente é a cabeça visível do império do mal, e o diabo-rei é sua cabeça invisível. Não há soberano na terra que não esteja iniciado nos segredos da franco-maçonaria” (“Milagros del espiritismo”, El Ermitaño, Nº 138, 29-6-1871).

Também de modo mais difuso, porém mais perceptível ao homem comum, dito “sacerdócio” se exerce através das práticas supersticiosas e mágicas que procuram entrar em contato com espíritos do além.

Estas últimas apresentavam no século XIX formas que hoje se metamorfoseiam. E também incluem a camaleônica proliferação de satanismo, com rótulos genéricos como New Age e suspeitas “medicinas alternativas”.

“O espiritismo – dizia o bem-aventurado – é o sacerdócio do paganismo moderno, e seus apóstolos fazem coisas deveras prodigiosas. Entre outras, têm o poder de curar, não pela graça, mas um poder comunicado por Belzebu, príncipe de todos os demônios” (id. ibid.).

Monumento público ao Anjo Caído, Madri, Espanha
Monumento público ao Anjo Caído, Madri, Espanha
O Beato Palau identificava três níveis de demônios em função de seu contato com os homens.

Em geral, os que se apossam dos corpos humanos pertencem a categorias menos relevantes.

Os demônios de um grau superior tomam conta de figuras revolucionárias de destaque como, por exemplo, Lutero, Robespierre ou Lenine.

Por fim, a terceira e pior categoria está em conúbio com os máximos dirigentes da Revolução, que habitualmente agem despercebidos do comum dos homens e inclusive de muitos revolucionários.

“Eu vejo – explicava – todas as forças inimigas divididas em três grandes corpos de exército: cada um dele dispõe de milhões de combatentes.

Um deles está alojado nos corpos humanos, (...)

Outro corpo de exército ocupa (...) as altas regiões da política. Destronados todos os Reis católicos, seus tronos estão ocupados por homens possuídos pelo diabo (...)

“Há outro exército, que é o que dirige os dois primeiros. Seu quartel-general está montado numa sociedade de homens que se intitulam espíritas, ou com o nome de magos e maléficos. (...)

Os demônios (...) dirigem desses clubes maçônicos todas suas forças engajadas na batalha contra Cristo e sua Igreja” (“Crónica del teatro de la guerra”, El Ermitaño, Nº 85, 23-6-1870).

A experiência pastoral, especialmente a prática de exorcista, permitia ao B. Palau denunciar com documentos e exemplos concretos essa colusão de homens e demônios.

Em numerosos artigos de “El Ermitaño” estão descritos exorcismos praticados pelo Beato Palau com confissões dos demônios possuidores, e/ou a transcrição de pactos com Satanás.

A consideração do recurso revolucionário aos demônios em nada desanimava o bem-aventurado que, acreditava firmemente que os anjos da luz combatem do lado do bem.

Tais anjos, além de seus incalculáveis poderes naturais, são portadores da graça divina.

E acima deles o Beato Palau venerava a Santíssima Virgem, Rainha dos Anjos e general supremo, que ordena as milícias celestes a iniciarem os movimentos para o esmagamento da Revolução, de seus chefes e sequazes.

Se os fiéis se voltarem para Ela e para as coortes celestes invocando o seu socorro, terão aliados invencíveis.

A Revolução infiltrada na Igreja

As mencionadas associações mais ou menos secretas estavam amplamente disseminadas e articuladas na sociedade civil, a partir da qual se introduziram na esfera eclesiástica.

Detalhe do Juízo Final. Stefan Lochner (1410-1451), Wallraf-Richartz-Museum, Colônia
Detalhe do Juízo Final. Stefan Lochner (1410-1451), Wallraf-Richartz-Museum, Colônia
Num diálogo figurativo a respeito do Concilio Vaticano I, o Beato Palau põe nos lábios de Deus a seguinte explicação:

“Pela corrupção dos costumes [Satanás] entrou no Sancta Sanctorum, e enquanto dirige todos os reis e poderes políticos da terra em batalha contra mim lá no lado de fora da cidade santa, de dentro de meu próprio alcácer paralisa minha ação, entorpece minhas empresas e frustra meus projetos” (“Roma vista desde la cima del monte”, El Ermitaño, Nº 58, 9-12-1869).

Referindo-se aos aludidos “sacerdotes” do demônio, escreveu:

“alguns desses homens e mulheres apresentam uma virtude religiosa aparente, confessam, ouvem missa, comungam frequentemente.

“Mas, o que digo? Horror! Recolhem as hóstias, levam-nas para casa e as apresentam em suas satânicas funções para pisoteá-las.

“Esses são os Judas dentro do próprio santuário, que introduziram os demônios no lugar que não lhes corresponde, e enchem o templo de Deus de abominações” (“El malefício”, El Ermitaño, Nº 103, 27-10-1870).

“Satanás entrou no santuário – acrescentava –, e o encheu de abominações, sustentado por poderes que se dizem católicos, e de dentro do próprio santuário faz a guerra contra nós, uma guerra atroz, a más perigosa que a Igreja jamais teve de travar. (...)

“porque convêm ao inimigo nos combater de dentro da própria fortaleza, por isso leva o uniforme de católico, e o nome, e com o nome apresenta certas realizações religiosas, para fascinar as turbas e levar a confusão até o Céu” (“Campamento de epidemia en Vallcarca”, El Ermitaño, Nº 99, 29-9-1870).

Em 1968, S.S. Paulo VI afirmou que “a fumaça de Satanás entrou no lugar sagrado” (Discurso para o Pontifício Seminário Lombardo, 7-12-68, Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, 1968, vol. VI, p. 1188; e Homilia “Resistite Fortes in fide”, 29-6-1972, ibid., 1972, vol. X, p. 707).

Cem anos antes, o Beato Palau já denunciava com horror essa penetração na Igreja.














A rede de intercomunicação global e a marcha alucinada do mundo apressam a vinda do Anticristo


Triunfo da morte, detalhe. Pieter Bruegel  (1525-1530 — 1569) Museo del Prado, Madri.
Triunfo da morte, detalhe. Prefigura da marcha enlouquecida da Revolução.
Pieter Bruegel  (1525-1530 — 1569) Museo del Prado, Madri.
O Beato Palau via a Revolução avançando como um bólido descontrolado, impedido de se deter:

“o império do mal pegou velocidade, e corre com tanta maior rapidez quanto maior é o crime que pesa sobre ele, tendo-lhe ficado impossível se deter.

“Na sua corrida, quebra, esmaga, destrói, esfrangalha, vence todos os obstáculos que lhe opomos para fazer que retroceda.

“Progresso! Para frente! Progresso! Bradam seus condutores” (“Faraón y el Anticristo”, El Ermitaño, Nº 77, 28-4-1870).

O B. Palau não tinha ilusões. Se o mundo encharcado de orgulho e sensualidade não se convertesse, a catástrofe prefigurada pelo desastre do trem de Gerona tornar-se-ia espantosa realidade.

Quando sucederia isso?

Ele não estabelecia datas, mas antecipava sinais certeiros. Entre eles, a reação dos homens quando o desastre fosse iminente:

“Na medida em que a sociedade humana se aproximar do cataclismo, sentirá convulsões, comoções horríveis, terá um pressentimento seguro, que lhe anunciará a desgraça.

“Dirá em voz baixa, surda, mas forte: Estamos indo mal! (...) Atrás! Alto! Parem o trem!

“Clamará aos condutores da sociedade inteira, com voz rouca e de trovoada: Alto!!! Estou perdida! Deitai-vos, maquinistas, pisai no freno! Ai de mim! Perco-me!

“e os motoristas contestarão em tom arrogante: Não! Maldita, tu vens conosco aos infernos: nós te formamos à imagem dos vícios que te merecem este castigo (...)

“o fogo voraz de tua concupiscência é o que produz na máquina o vapor de tuas doutrinas ímpias, obscenas, impuras, blasfemas, e esse vapor, que tu mesma respiras, essa respiração imunda é o motor que fornece impulso a todo o trem aonde tendes subido. Desce, raça maldita, comigo ao abismo!” (“¡Horrorosa Catástrofe!”, El Ermitaño, Nº 40, 5-8-1869).

A rede de intercomunicação global: condição para o reinado do Anticristo

Procissão na Universidade de Harvard, EUA, pedindo o cancelamento de "Missa Satânica" no local de estudos. O ato luciferino foi suspenso.
Procissão na Universidade de Harvard, EUA,
pedindo o cancelamento de "Missa Satânica" no local de estudos.
O ato luciferino foi suspenso.
À medida que a humanidade – argumentava o B. Palau – for submersa no caos, sentirá calafrios e poderá resistir ao passo final.

Quando o caos parecer total, a Revolução terá atingido um auge. Porém, ao mesmo tempo, o horror que ela provocará vai gerar condições máximas para a sua ruína.

Prevendo este dilema mortal, a inteligência propulsora da Revolução teria preparado uma cilada: suscitar um pseudo salvador ou pseudo profeta.

Este surgiria como que “miraculosamente”, oferecendo-se como única opção para evitar o caos. Em troca de uma miragem de ordem, pediria a rendição das vontades a seu influxo pessoal.

As redes de comunicação irradiariam ao mundo os desiderata do pseudo salvador. Ele manipularia perspectivas enganosas de paz e prosperidade e sugeriria poderosamente aos últimos fiéis cessarem a resistência à Revolução, convidando-os a adorar seu ídolo.

Na prática, semelhante poder estaquearia o reinado da Revolução, que ameaçaria desabar.

O imperador Napoleão I, que espalhou as doutrinas e derrubou as monarquias, como tinha desejado sem consegui-lo a Revolução Francesa, foi prefigura de uma manobra do gênero.

Segundo o bem-aventurado, no tempo dele estavam postas quase todas as premissas para que a Revolução alcançasse esse sinistro objetivo: uma ditadura universal e a adoração coletiva do ser mais oposto a Cristo que haverá na História.

Porém, no século do bem-aventurado, o XIX, faltava que o progresso nas comunicações e nos transportes permitisse uma conexão tão instantânea e global que um só ente – seja um homem ou uma organização sem rosto – pudesse comandar o planeta com a ascendência de um supremo guia universal.


A inauguração do túnel de São Gotardo, na Suíça, o maior do mundo, foi feita com um ritual de tipo satânico em 1 de junho de 2016.
A inauguração do túnel de São Gotardo, na Suíça, o maior do mundo,
foi feita com um ritual de tipo satânico em 1 de junho de 2016.
“As ferrovias e os fios elétricos – explicava o P. Palau – aproximaram os povos uns dos outros, (...) de maneira que hoje um só homem pode governar e dirigir toda a sociedade humana com mais facilidade do que outrora um rei reger uma só nação.

“Aproximadas as nações umas às outras, a união jogará entre si todos os programas, tanto em política como em religião.

“E o choque no mundo das ideias e da moral será como o dos trens que chocam vindos de direções opostas e provocam uma explosão horrorosa.

“sendo livres e fáceis a imprensa, a litografia e outros meios de comunicação, criar-se-á uma confusão tal de doutrinas, que podemos afirmar sem temor de sermos desmentidos, que a sociedade humana atingiu a meia-noite no momento que foi descoberto o vapor e a eletricidade.

“A confusão de ideias nas inteligências deu como resultado a revolução em todos os países. Sobre a ruína das monarquias se levantam repúblicas, (...)

“cada nação percebe em seu seio horríveis convulsões, causadas por programas de governo que se destroem mutuamente.

“Um rei não pode confiar na palavra de outro rei, e olhando-se como inimigos uns dos outros, se armam até os dentes, excogitando novas máquinas de morte.

“Para evitar um conflito convocam-se congressos europeus, e neles não se entendem nem se põem de acordo, e saem deles em desacordo, e cada um faz por si próprio preparativos de guerra que arruínam a nação.

“E essa ruína é a miséria do país. O país se insurge em revolução e nesta situação a sociedade humana anda de mal a pior. (...)

“Aqui tendes tudo quanto convinha preceder o estabelecimento de um império universal no orbe.

“O advento ao trono de um imperador que reduza a uma todas as nações do globo, e a um só todos os programas políticos e religiosos que agora nos dividem, será o ponto final de todas estas revoluções que agitam horrivelmente os povos e os chafurdam pelo chão como como serpentes feridas de morte.

O anticristo quererá reinar como rei e ditador universal. Vitral na igreja de Santa Maria, Frankfurt, Alemanha.
O anticristo quererá reinar como rei e ditador universal.
Vitral na igreja de Santa Maria, Frankfurt, Alemanha.
“Um só Deus, um único rei, uma religião só: este é o programa que gravado nas bandeiras imperiais, encherá um dia de espanto o mundo inteiro, e no dia seguinte lhe dará a paz e a prosperidade.

“Esse dia está tão perto, como perto sentimos estar a dissolução social universal em todos os sentidos e em todas as partes do corpo social” (“La cuestión del Oriente: un imperio universal”, El Ermitaño, Nº 11, 14-1-1869).

Por vezes, o B. Palau qualifica como “império” o ilusório e enganador regime final da Revolução.

Visa assim caracterizar seu perfil ditatorial.

Mas outras vezes o define como uma república federal universal, para ressaltar a nota de recusa a toda forma de autoridade e desigualdade legítima.

A coexistência contraditória do absolutismo odioso com o espírito libertário radical é intrínseca à Revolução.

Essa contradição é uma das características da tirania caprichosa e desapiedada de Satanás sobre o caos da eterna noite infernal.

Com uma mão ele persegue os bons e com a outra favorece os maus.

Podem-se ver exemplos nos momentos ápices das revoluções: no anabatismo de Münster, no Terror durante a Revolução Francesa ou nos extermínios em massa do regime stalinista na ex-URSS.








Beato carmelita: a convergência ecumênica favorece o ambiente para a ditatorial religião universal do Anticristo


Para o santo e clarividente carmelita, uma confusão imprudente entre as religiões, favorece o ambiente para o Anticristo instaurar sua ditatorial religião universal. Foto: encontro ecumênico de Assis, em 27 de outubro de 1986
Para o santo e clarividente carmelita, uma confusão imprudente entre as religiões,
favorece o ambiente para o Anticristo instaurar sua ditatorial religião universal.
Foto: encontro ecumênico de Assis, em 27 de outubro de 1986
O império ou república universal planetária, que o bem-aventurado Palau via se formar segundo planos luciferinos anticristãos, deverá ter como consequência e pilar fundamental o afloramento de uma religião universal.

Há hoje um ecumenismo imprudente que parece caminhar para esse fim.

“Oficialmente não haverá outra religião senão a do Estado. Um só Deus, uma só religião. E esse Deus será o Anticristo, e essa religião, a anticristã” (“Incendio de barracas en Barcelona”, El Ermitaño, Nº 170, 8-2-1872), escreveu.

Nela deverão se amalgamar todas as crenças, numa convergência caótica favorecida e até estimulada pelas transformações globalizantes que acontecerão na esfera temporal.

Tudo isso sem muitas preocupações pela verdade ou pelo erro, pelo que é moral ou imoral, no ambiente consagrado pela expressão “ditadura do relativismo”.

Mas, previa o B. Palau, essa confluência não trará a verdadeira paz.

Pelo contrario, disfarçada de conhecimento e compreensão recíproca entre religiões, seitas e filosofias, levará o desentendimento e a discórdia da humanidade ao paroxismo, beirando o desespero:

“Unidos pelo vapor e pela eletricidade num mesmo vagão, ficarão o cristão, o mouro, o judeu, o protestante, o cismático, o missionário, a monja, o frade, a prostituta.

“Postos lado a lado todos os programas religiosos de todas as nações, na religião será inevitável outro choque, mais terrível sem comparação que o político.

“Essa guerra religiosa jogará o pai contra o filho, um vizinho contra outro, um povo contra outro povo e uma nação contra outra.

“Completar-se-á a dissolução social no orbe inteiro a partir do seio da família, e chegará até o trono do rei nos palácios” (id. ibid.).

Em encontro ecumênico, ídolo de Buda sobre o sacrário do altar. Assis, 27 de outubro de 1986.
Em encontro ecumênico, ídolo de Buda sobre o sacrário do altar. Assis, 27 de outubro de 1986.
O bem-aventurado discerniu o fundo satânico dessa religião universal num convite lançado pelo espiritismo:

“Essa seita acaba de fazer um convite geral a todas as religiões por ordem dos espíritos superiores, para que todas, inclusive o catolicismo, se unam e constituam uma só religião sob a direção dela.

“Podemos chegar mais longe? O que é que é isto? Aonde iremos a parar?” (“Plan del espiritismo”, El Ermitaño, Nº 29, 20-5-1869).

Um século antes da perfuração do túnel debaixo do Canal da Mancha, o bem-aventurado comentou um projeto de unir a Grã-Bretanha ao Continente:

“Pensa-se criar uma ponte gigantesca entre Calais e Douvres, que porá a Inglaterra em comunicação com o continente. Segundo o plano apresentado pelo engenheiro francês M. Boutet, a ponte se apoiará sobre vinte e nove arcos, e se tem completa segurança de colocar os pilares correspondentes, rodeados além do mais de cabos, que em vez de serem um perigo, servirão de abrigo para os buques nas terríveis tempestades do estreito.

“No Istmo de Suez será inaugurado um canal que põe em comunicação as águas do Mediterrâneo com o mar das Índias, em outubro do ano em curso.

“Damos estas noticias porque os fatos a que se referem desenvolvem e explicam as profecias relativas ao império universal, primeiro sobre a terra do Anticristo, e depois de Cristo e de sua Igreja.

“Pela monstruosa ponte teremos a Inglaterra unida às demais nações da Europa, e pelo canal de Suez o presidente da república federal comunicará com as quatro partes do globo” (“Monarquía democrática”, El Ermitaño, Nº 32, 10-6-1869).

Na inauguração do Canal de Suez, o bem-aventurado registrou outro indício premonitório dessa religião universal:

A inauguração do Canal de Suez foi comemorada com leviana euforia. Pareceu prenuncio de paz globalizada pela confluência comercial dos povos e o encontro das religiões. O Beato previa um gigantesco desentendimento entre povos e crenças.
A inauguração do Canal de Suez foi comemorada com leviana euforia.
Pareceu prenuncio de paz globalizada
pela confluência comercial dos povos e o encontro das religiões.
O Beato previa um gigantesco desentendimento entre povos e crenças.
“O canal de Suez já foi aberto para a navegação de todas as nações. No momento de comunicar o Mediterrâneo com os mares da Índia, as águas foram abençoadas simultaneamente por um sacerdote católico, um pope grego, um pastor protestante, um armênio, um ulema e um budista” (“El Istmo de Suez”, El Ermitaño, Nº 58, 9-12-1869).

Um século antes, o B. Palau discernia em gestos como esse – hoje repetitivamente banais – um ecumenismo imprudente, penetrado pelo espírito da Revolução.

O fim último da religião planetária em gestação não era levar todas as almas para a única Igreja verdadeira.

Pelo contrario, gestava-se uma falsa convergência ecumênica que preparava para adorar Satanás como que habitando em alguma figura que se fará conhecer como sumo representante da Revolução.


Como é que conceitos como “ecumenismo” podem ser distorcidos a ponto de transmitir o oposto do que significam? A este respeito veja-se a obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira Baldeação ideológica inadvertida e diálogo, Editora Vera Cruz, 5ª ed. 1974.

“A palavra “ecumenismo” – explica o Prof. Corrêa de Oliveira – tem, de si, um sentido excelente.

“No entanto, ela é susceptível também de um significado irênico. Admitidas todas as religiões como “verdades” relativas, postas entre si num diálogo hegeliano, o ecumenismo toma o aspecto de uma marcha dialética de todas elas para uma religião única e universal, integrada sinteticamente pelos fragmentos de verdade presentes em cada uma, e despojada das escórias das contradições atualmente existentes.

“Visto assim, o ecumenismo é uma imensa preparação de todas as religiões, feita através do diálogo hegeliano, para, uma vez unificadas, entrarem em ulterior diálogo com a antítese comunista.” (op. cit., p. 101).

O império da Revolução e o Anticristo

Para o clarividente Beato Palau, a república federal universal que estava sendo preparada consistiria num estado de coisas edificado em desafiante abstração do Criador.

Contemplando a imensa – mas periclitante – Babel revolucionária, fruto de suas mãos, os homens seriam tomados de uma autossatisfação raiando na adoração.

Essa república universal sem fronteiras e sem autoridades respeitáveis seria a realização mais ousada do “Não servirei!” de Lúcifer, entoado por vozes humanas.

Surgiria um mundo que se levanta caprichosamente segundo leis dadas pelos homens a si próprios, desconhecendo a autoridade do Legislador Supremo.

Assim sendo, o bem-aventurado estava certo de que os tempos do Anticristo profetizados no Apocalipse estavam se tornando realidade já na sua época, mas que haveria de atingir sua plenitude proximamente:

“Aquilo que São João viu em visão profética [N.R.: Apocalipse] nós o olhamos com os nossos próprios olhos. Satanás, diz no capítulo XX, será desencadeado, sairá de seu cárcere e seduzirá as nações que vivem nas quatro partes do mundo Essa corrupção, sedução e apostasia é já um fato consumado” (“Antonia”, El Ermitaño, Nº 81, 26-5-1870).

O império ou república universal concretizaria o sonho do filho da perdição previsto por São Paulo na sua segunda epístola aos Tessalonicenses (II Tess, 1-12).

Veja o comentário de Santo Tomás de Aquino a essa epístola em: O Anticristo, segundo Santo Tomás de Aquino


Comentando essa epístola, o Beato Palau escreveu:

“No que se refere à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo (...) antes deve vir a apostasia e deve se manifestar o homem da iniquidade, o filho da perdição, que se opõe e se insurge contra tudo o que se chama Deus ou é adorado, até se sentar no templo de Deus e se proclamar Deus a si próprio” (II Tes, II, 1-12).


Na encíclica E supremi apostolatus, de 4 de outubro de 1903, São Pio X ensina:

“Quem pesa estas coisas tem direito de temer que uma tal perversão dos espíritos seja o começo dos males anunciados para o fim dos tempos, e como que a sua tomada de contato com a terra, e que verdadeiramente o filho de perdição de que fala o Apóstolo (2 Tess 2,3) já tenha feito o seu advento entre nós, tamanha é a audácia e tamanha a sanha com que por toda parte se lança o ataque à religião, com que se investe contra os dogmas da fé, com que se tende obstinadamente a aniquilar toda a relação do homem com a Divindade!

“Em compensação, e é este, no dizer do mesmo Apóstolo, o caráter próprio do Anticristo, com uma temeridade sem nome o homem usurpou o lugar do Criador, elevando-se acima de tudo o que traz o nome de Deus.

“E isso a tal ponto que, impotente para extinguir completamente em si a noção de Deus, ele sacode entretanto o jugo da sua majestade, e dedica a si mesmo o mundo visível à guisa de templo, onde pretende receber as adorações dos seus semelhantes.

“Senta-se no templo de Deus, onde se mostra como se fosse o próprio Deus (2 Tess 2,2)”.

(San Pio X, Encíclica E supremi apostolatus, in Escritos Doctrinales, Ediciones Palabra, Madrid, 4ª ed., 1975, 557 págs., pp. 19-21).

Para os espíritos superficiais, desinteressados face à existência e aos objetivos da Revolução, a instalação desse poder de atração universal terá algo de repentino.

Para dar uma ideia de um fato tão surpreendente, o B. Palau apelava para os exemplos das fulgurantes campanhas militares de Napoleão I e de Guilherme de Prússia.

O mundo ainda não conhecia as conquistas desconcertantes de que a guerra psicológica revolucionária é capaz, nem os bruscos surgimentos de líderes políticos e mudanças da opinião pública operadas pelos meios de comunicação social:

“O Anticristo vai nos pegar de surpresa – dizia.

“Hoje somos aquilo que somos, mas amanhã na hora de acordar ser-nos-á anunciado que um gênio guerreiro desfez as potências mais fortes do globo, e que tendo nós perdido a nacionalidade, estamos sob o seu domínio.

“No dia seguinte um decreto imperial anunciará a supressão do culto católico em todo o universo.

“Em outro dia serão publicadas as penas em que incorrem aqueles que não se rendam às leis do imperador” (“Roma”, El Ermitaño, Nº 12, 21-1-1869).




Como será a pessoa do Anticristo


O Anticristo recebe as instruções de Lúcifer. Luca Signorelli (1445 - 1523), basílica de Orvieto, Itália
O Anticristo recebe as instruções de Lúcifer.
Luca Signorelli (1445 - 1523), basílica de Orvieto, Itália
Em todas as coisas, especialmente nas considerações sobre eventos futuros, o Beato Palau amava as verdades solidamente ancoradas nas anfractuosidades da vida concreta, as verdades vistas de frente, por mais duras ou complicadas que fossem, e as hipóteses cuidadosamente analisadas.

Ele sabia objetar contra seus próprios raciocínios e fazia seu o melhor dos contra-argumentos.

Nada de mais contrário a ele do que as simplificações fáceis ou os panoramas alegremente descolados da realidade ou do razoável.

Por isso mesmo abordava os assuntos mais delicados e complexos, que pedem a mais cautelosa e matizada resposta.

Entre esses temas estava discernir de modo prudente mas preciso o perfil do Anticristo, para o qual a Revolução prepara os caminhos.

Seus escritos refletem a diversidade de opiniões existentes sobre o assunto entre os melhores intérpretes tradicionais das Escrituras.

Para ele, era indubitável que o Anticristo receberá, numa paródia da Encarnação, o poder de Satanás. Mas essa paródia blasfema de Cristo poderia se realizar num indivíduo ou também num grupo:

“O Anticristo é o triunfo do diabo e do pecado em guerra contra Cristo e sua Igreja no terreno da política e da força brutal. É o diabo encarnado e tornado visível no poder comunicado a homens” (“El Anticristo”, El Ermitaño, Nº 16, 18-2-1869).

Não espanta, pois, que em muitas ocasiões ele chame de Anticristo ao conjunto da Revolução e seus seguidores, considerando-os um só ente moral:
'El Ermitaño' foi o jornal do Beato nos últimos anos de vida. Na foto o nº 59
'El Ermitaño' foi o jornal do Beato nos últimos anos de vida. Na foto o nº 59
“O Anticristo é o império do mal sobre a terra, protegido, escudado, e auxiliado pelos poderes políticos dos reis. O Anticristo é o dragão encarnado neles, personificado em suas doutrinas e em sua autoridade.

“E o Anticristo se revela e se revelará cada dia mais em signis et portentis mendacibus, entrando em comunicação familiar com todos aqueles que queiram encontrar abrigo sob suas bandeiras” (“El dragón”, El Ermitaño, Nº 46, 16-9-1869).

O B. Palau supunha também que um indivíduo de carne e osso haveria de ser exaltado como expressão suprema da Revolução. A ele se aplicaria por antonomásia o nome de Anticristo.

O demônio é um puro espírito e, enquanto tal, não pode ser percebido fisicamente pelos homens.

Para fazer-se adorar por uma humanidade ateizada e carnal na etapa última da Revolução, ele precisa se manifestar através de algum ser visível e palpável.

O demônio, então, escolheria um ser humano no qual faria transparecer suas energias infernais como sendo “divinas”. Seria uma paródia extrema e blasfema da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Por causa disso é estigmatizado como Anticristo.

De onde sairia esse demiurgo? Assim responde, falando sobre os revolucionários iniciados nas artes que manipulam energias ocultas:

“Esses homens têm suas escolas normais ou lojas (...) e nelas os demônios se tornam visíveis não enquanto tais, mas sob a aparência de anjos de paz, guardiães dos interesses sociais. Dessas lojas sairá treinado o Anticristo. (...)

“Essa sociedade maléfica (...) terá sempre maior incremento, até que apareça sem máscara, visível, à testa do Anticristo” (“El dogma católico con referencia a la redención de la sociedad actual”, El Ermitaño, Nº 170, 8-2-1872).

Terá, pois, íntimas relações com formas de satanismo tipo Nova Era ou certas “medicinas alternativas” mais ou menos empapadas de parapsicologia ou ocultismo.

Procederá da estirpe de Judas enquistada na Igreja? Não encontramos no bem-aventurado nada que permita afirmá-lo ou negá-lo taxativamente.

Numa cova em Aitona, Espanha, o Beato montou sua ermida perseguido pelo ódio anticlerical.
Numa cova em Aitona, Espanha, o Beato montou sua ermida perseguido pelo ódio anticlerical.
Inspirado na segunda carta de São Paulo aos Tessalonicenses (II Tes, 1-12), o bem-aventurado apontava que o Anticristo teria talento para enganar com fantasias falazes, cativar com ilusões enganosas e fazer fulgurar sedutoramente a mentira.

Veja o comentário de Santo Tomás de Aquino a essa epístola em: O Anticristo, segundo Santo Tomás de Aquino


Por isso aparecerá como um mago ou grande ilusionista, que fascinará e/ou deixará perplexas as almas através de influxos comunicados pelo rei da ambiguidade infernal.

Essa faculdade enfeitiçadora voltar-se-á especialmente para aqueles que não caíram nas rédeas da Revolução.

Inclusive suas imposturas prodigiosas poderão ser confundidas com virtude, ou derivadas de poderes como os eclesiásticos podem conferir:

“O Anticristo será o mago mais famoso e célebre que jamais houve” (“Milagros del espiritismo”, El Ermitaño, Nº 138, 29-6-1871), dizia.

“À frente e à cabeça desses magos famosos está para chegar aquele célebre homem, de quem foi profetizado que se apresentará ao mundo in omni operationi Satan, com signos portentosos para seduzir até aqueles que têm seus nomes inscritos no livro da vida, se possível fosse” (“Cosas de mi pueblo”, El Ermitaño, Nº 139, 6-7-1871).

Ser-lhe-á concedido um breve tempo para tentar os últimos fiéis, segundo o bem-aventurado.



Sobre a personalidade do Anticristo, São João Damasceno ensina:

“Não será o diabo encarnado, mas sim um homem filho da fornicação, que será formado no segredo e estabelecerá subitamente seu reino. De início fingirá santidade; mas logo arrancará a máscara e perseguirá a Igreja de Deus”

(São João Damasceno, La fé ortodoxa, IV, 26, Patristiche Texte und Studien, Berlin-New-York, 12, p. 232-234, apud, Écrits sur l'islam – Présentation, commentaires et traduction par Raymond Le Coz, Les éditions du Cerf, París, 1992, 269 págs., p. 90).

Antes desse grande enganador se exibir descaradamente aos últimos homens de fé, o Beato Palau também designava com o rótulo de Anticristo o corpo moral da Revolução que lhe prepara o advento:

“A Revolução é todo o poder político dos governos da terra, e sua cabeça é o Anticristo. Vemos já todo o corpo, isto é, todos os reis da terra ligados por uma única ordem: Guerra a Deus!

“Só falta que apareça a cabeça, e essa vai receber seus poderes vindos do diabo. No Anticristo, o diabo atingirá o poder no mais alto degrau que lhe pode ser consentido sobre a terra” (“Crímenes y atrocidades de la magia maléfica”, El Ermitaño, Nº 33, 17-6-1869).

“Isto é o que temos em vista: vemos o corpo do Anticristo; sua cabeça não aparece ainda, mas sim vemos já formado seu império”, a Revolução (“Fin del mundo: aparición de Elías Tesbites”, El Ermitaño, Nº 120, 23-2-1871).

Olhando para o Anticristo, as revoluções anteriores – Revolução protestante, Revolução Francesa, Revolução bolchevique e Revolução de Maio de 68 – se reconhecerão nele e sentir-se-ão interpretadas e realizadas.

Isso lhe atrairá a confiança das diversas formas de revolucionários, inclusive dos indispostos entre si, que se aglutinarão em torno de sua maléfica figura.

As falsas religiões descobrirão nele traços da divindade que adoram e em volta dele se dará uma convergência ecumênica universal.

Quando se revelará ele aos homens? Virá em nossos dias?

Ou só veremos a manifestação de alguma prefigura?

O bem-aventurado achava que a marcha extremamente avançada da Revolução prepara diretamente sua iminente aparição.

  Um ecumenismo imprudente será explorado pelo Anticristo para impor sua religião universal panteísta
Um ecumenismo imprudente será explorado pelo Anticristo para impor sua religião universal panteísta
Mas, ao mesmo tempo, estava convencido de que a Misericórdia divina cortaria o passo da iniquidade revolucionária.

Porque Deus, na sua misericórdia – dizia ele –, enviaria alguém revestido da missão de Elias profeta, para converter as nações e lhes conceder um derradeiro período de paz e de ordem.

Quase meio século antes das aparições de Nossa Senhora em Fátima, o bem-aventurado pressentia profeticamente aquilo que Nossa Senhora anunciou aos três pastorzinhos:

depois de grandes castigos corretivos, o mundo se converterá e terá paz. Quer dizer, virá o reino triunfal do Imaculado Coração de Maria.(Cfr. Antonio Augusto Borelli Machado, Fátima – Mensagem de tragédia ou de esperança?, ArtPress, SP, 46ª ed., 1997).

Nesta perspectiva, tudo o que toca ao Anticristo está num suspense. Para tentar decifrá-lo, o Beato Palau voltava sua mente para os mistérios que envolvem o grande profeta do Carmo e sua vinda futura.





A verdadeira Política se decide na presença de Deus


Detalhe da Disputa do Ssmo Sacramento,  Rafael Sanzio (1483-1520), Stanza del Sello, Vaticano.
Santos e doutores trocam ideias sobre o Santíssimo, mas participam filósofos e artistas até anticristãos.
O Beato Palau imaginava a humanidade aos pés de Deus digladiando
em torno das maiores questões - a Política - da qual depende o mundo.
O Pe. Palau via na Revolução universal conduzida pelo demônio contra Cristo e a Igreja o grande assunto político em torno do qual giram as questões realmente importantes.

Ele não pensava na agitação mesquinha dos políticos profissionais ou dos jornais de seu tempo, mas da Política com P maiúsculo.

Ou seja, aquela na qual se debate o mais precípuo dos fins terrenos do homem: o bem comum na prática das virtudes e seu destino eterno no Céu, ou, por oposição, o caos revolucionário e a perdição irrevogável no inferno.

Segundo ele, a política é por excelência um assunto para as inteligências. Nela não participam os seres sem intelecto.

Mas insistia que os ímpios e os míopes supõem que nela só participam as inteligências humanas, quando na realidade participam também as angélicas e as demoníacas. E, por cima de todas elas, o Juiz Supremo do universo e sua Corte celeste.

Sendo a Revolução a questão política central da qual depende o destino do mundo, o Beato Palau fazia estas interrogações:

O que fará Deus? Deixará tudo ser tragado pela Revolução? Destruirá o mundo em virtude do pecado revolucionário? Ou, pelo contrário, em atenção a Suas promessas, o resgatará da conjuração de Satanás?

O bem-aventurado tinha certeza de que Deus preparava a restauração do mundo. Como o faria? Quando? O que faltava? Que fatores apressavam ou retardavam o momento em que Nosso Senhor dirá “basta” à Revolução?

Para ilustrar essa problemática, o bem-aventurado recorria à imagem do Consistório divino.

Este tem como ponto de partida uma realidade teológica básica: nada foge ao entendimento divino, que tudo vasculha e conhece.

O universo dos atos virtuosos ou pecaminosos está continuamente presente diante Deus como um imenso mosaico vivo.

Todos e cada um — inclusive os mais insignificantes ou ocorridos no mais íntimo das consciências — estão presentes ante a Majestade Infinita.

Inclinando-a uns à misericórdia, outros reivindicando maiores margens de manobra para a Revolução e seus agentes, para flagelo e desespero dos homens.

O bem-aventurado apresentava esta realidade como um Parlamento, ou Consistório congregado aos pés do trono divino e do qual participam todas as criaturas inteligentes do Universo.

Tudo o que acontece entre seres inteligentes está sendo visto por Deus
e pesa na balança de Sua Justiça e de Sua Misericórdia.
Detalhe do Juízo Final. Igreja da Companhia de Jesus, Quito, Equador.
Desde Maria Santíssima, Rainha dos Céus, passando por São Miguel Arcanjo e todos os coros angélicos, todos os Santos, todos os homens na terra — nobres, burgueses, camponeses ou esquecidos religiosos enclaustrados —, até Satanás com suas legiões diabólicas e os precitos do inferno.

Cada um pesa com seus méritos, orações e sacrifícios — deméritos e pecados em sentido contrario —, inclinando num sentido ou outro os pratos da balança da Justiça Divina.

A imagem desse Consistório com suas discussões está claramente inspirada no livro de Jó (I, 6-ss).

Este livro sagrado apresenta Satanás comparecendo ante a Corte de Deus e desafiando o Altíssimo a propósito do justo Jó.

Após uma discussão com o príncipe das trevas, Deus permite que o demônio se assanhe contra o justo, tirando-lhe quanto possui.

Por fim, Jó vence as tentações e Deus o restabelece em seu estado cumulado de bênçãos, descendência e bens.

O Beato Palau figurava discussões nas quais cada ser inteligente pedia a palavra, defendia sua causa e era interpelado por seus opositores.

Nessas polêmicas, ele representava Satanás alegando os pecados de uma nação para arrancar de Deus permissão para perdê-la mais espantosamente.

Em sentido oposto, o anjo protetor desse povo defendia-o, e pedia a confusão do demônio que tentava sua condenação. Deus, como Juiz Soberano, concedia ou não a palavra e ditava a sentença final.

Eis um exemplo ilustrativo. A sombra do ermitão disputa com Satanás, defendendo a humanidade decaída:

Senhor, temos pecado, nós, os católicos, povo e sacerdotes, e nossos reis e príncipes, e todas as nações da terra. Justa é vossa ira, e largamente merecidos os castigos.

Em justiça procedestes entregando-nos ao furor dos demônios Por nossas maldades nós nos entregamos voluntariamente ao domínio de Satã. Justo sois, e justos são os vossos juízos.

Senhor, contra as nossas maldades apelo para o trono de vossa clemência. A redenção das nações atualmente existentes na terra é um contrato celebrado e consumado no Gólgota entre Vós e vosso Filho, e renovado noite e dia no orbe inteiro em milhares de altares erigidos para vossa glória.

Em virtude do sacrifício perene e perpétuo, o título sobre o qual a Igreja Católica vossa filha fundamenta seus direitos, conserva toda a sua força e vigor, não obstante as maldades e os crimes dos homens.

Contra esse título é falso e nulo tudo quanto alegam em seu favor os demônios, que não podem pacificamente possuir, nem apresentar título de posse (...)

Satã! – disse o Juiz (...) Defende-te, porque se não tua causa está perdida. (...)

[Satanás:] Trazei as balanças de vossa justiça: pesai o deicídio e a incredulidade dos judeus, a pertinácia das nações pagãs à pregação do Evangelho, o cisma dos gregos e russos, a apostasia dos protestantes, as horríveis blasfêmias com que Vos desafiam a França, a Espanha, a Itália e os demais países revolucionários, a corrupção dos costumes dos católicos. E, no que diz respeito aos vossos sacerdotes, pesai....

Ponde no outro prato os méritos e virtudes dos que Vos servem, e vereis de qual parte se inclinará a agulha... Deixaríeis de ser justo, ó Deus, se não castigardes o criminoso!

O Beato apresentava Lúcifer reclamando seus "direitos" para perder os homens
conquistados pela Revolução, os incontáveis pecados e caos geral.
Detalhe de Satanás diante de Deus, Corrado Giaquinto (1703 - 1765 ou 1766), Museu Vaticano
Além do mais, quem peca voluntariamente, infringindo a vossa lei, rende-se voluntariamente à minha bandeira, o mando me pertence, porque pelas suas maldades submeteu-se voluntariamente às minhas ordens; e por esse motivo minha posse é legítima (“Noticias del cielo: vuelta de mi sombra”, El Ermitaño, Nº 8, 24-12-1868).

O bem-aventurado considerava que nessa alta esfera política onde se dirime verdadeiramente a sorte da Revolução e do Catolicismo, a decisão estava tomada: a Justiça Divina resolveu fulminar a Revolução, Satanás e seus sequazes.

Como soberana das milícias celestes, Maria Santíssima dispôs que sob o comando de São Miguel, as coortes angélicas entrem na batalha.

Por sua vez, conhecendo este ditame irrevogável, Satanás e a Revolução estimulam toda classe de pecados, especialmente os coletivos — revoluções, decretos ímpios, separação entre a Igreja e o Estado, leis danosas à Igreja, blasfêmias oficiais ou generalizadas —, com a finalidade de adiar o quanto possível o dia da Misericórdia para os bons e da justa Ira divina para os revolucionários.





Deus dispôs uma missão extraordinária para nos libertar


Santo Elias primeiro devoto de Nossa Senhora no Monte Carmelo
Santo Elias primeiro devoto de Nossa Senhora no Monte Carmelo
No Consistório apresentado pelo Pe. Palau (ver post anterior), certamente um lugar de fabulosas oposições, o bem-aventurado via algo parado.

Todos aguardavam o instante em que Deus enviaria alguém investido de uma missão para libertar as almas boas que se sentem cada vez mais oprimidas pela Revolução inspirada pelo inferno.

Quem executaria essa missão na Terra? Será o profeta Elias, como fazem entender passagens bíblicas e a opinião de Doutores da Igreja?

Ou será alguém que agirá com os poderes do próprio Santo Elias, provavelmente secundado por discípulos?

O profeta Elias, cujo nome significa “Deus é o Senhor”, é um dos maiores do Antigo Testamento. Sua importância cresceu porque ele não teria morrido, mas foi levado aos céus em um carro de fogo (2Reis 2).

Pela sua importância, o profeta Malaquias diz: “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor” (Malaquias 3,23)

A Bíblia assim apresenta o profeta: “Elias, tesbita, um dos habitantes de Galaad...” (1Reis 17,1) Sua gesta é contada a partir do capítulo 17 de 1Reis. Elias não teria morrido e habita num local desconhecido que os teólogos discutem.

O nome tesbita provém de sua cidade natal Tesba, ou Tisbé, em Galaad, hoje desaparecida.

Elias volta a aparecer na Transfiguração de Cristo e, segundo opinião dominante, é uma das duas testemunhas que comparecerão no fim do mundo para pregar contra o Anticristo.

O Beato Palau considerava que em virtude da decadência da fé e da moral, as meras forças humanas e as vias ordinárias da graça eram insuficientes para derrubar a Revolução.

Somente uma intervenção extraordinária determinada pela Divina Providência poderia iluminar e resgatar os fiéis desconcertados e próximos de serem devorados pelo caos revolucionário:

Estátua de Santo Elias exterminando os profetas do ídolo Baal.
Monte Carmelo, Terra Santa, Israel
“Sendo impotente [n.r.: a sociedade atual] para se salvar com o auxilio ordinário de sua graça, Deus lhe enviará uma missão e será a missão derradeira. (...)

“içada aquela mesma bandeira, que no Céu (...) inscreveu em seu pano este lema guerra a Deus! segurada nada menos que pelo anjo supremo que subjugou todas as nações em nossos dias (...)

“Contra essa bandeira é impotente Pio IX, segundo o curso regular e ordinário das coisas; e o é igualmente o bispo, o é o pároco, o são as ordens religiosas, o é o clero católico, o é o povo, o é a Igreja.

“Confessemos humilhados nossa impotência. (...) [n.r.: a Igreja] necessita de uma missão extraordinária.

“Quem serão esses homens escolhidos por Deus para Lhe oferecer o triunfo conquistado na batalha? (...) Repetiremos o mesmo: virá um apostolado (...)

“Será tão estupenda a última missão que Deus prepara para sua Igreja, que a voz dos apóstolos calará a política” (“Un rayo de la aurora boreal”, El Ermitaño, Nº 172, 22-2-1872).

“Satanás entrou no seio do catolicismo, e nos combate por dentro. (...) Para expulsá-lo de dentro do santuário, não bastam nossas forças ordinárias.

“Deus, em sua providência, tem preparado um auxilio extraordinário, e esse está tanto mais perto quanto mais se agrava o mal” (“El triunfo de la Iglesia”, El Ermitaño, Nº 97, 15-9-1870).

Desenvolvendo a figura do Consistório celeste, nosso autor põe na boca do ermitaño as seguintes palavras:

“Vejo (...) o consistório celeste congregado ante o trono de Deus. (...) Aqui ante o trono do legislador supremo foi julgada a causa da sociedade atual. (...)

“Vejo ante o trono de Deus a Elias o tesbita, já armado e preparado para entrar em batalha.

“A serpente infernal também foi citada a comparecer ante Moisés, Pedro e Elias.

“E esta é a sentença fulminada pelo juiz supremo: Dæmones effugate ecce ego dedi vobis potestatem, foi condenado a ser esmagado e encerrado no abismo com a Revolução, de quem é autor e cabeça.

“E Elias é o encarregado de executar esta sentença” (“La Igreja Católica y la Revolución”, El Ermitaño, Nº 79, 12-5-1870).

O caos criado pela Revolução seria agravado pela eventual aparição do Anticristo ou mais provavelmente de alguma de suas prefiguras.

Na imensa confusão universal que tenta engolir a Igreja,  como podem se orientar os que ficam fiéis? Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010, Folio295r
Na imensa confusão universal que tenta engolir a Igreja,
como podem se orientar os que ficam fiéis?
Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010, Folio295r
Na confusão que se instala no mundo, como se poderá discernir qualquer um desses inimigos da fé e como resistir a suas seduções?

A pergunta é cruciante se se considera que em qualquer uma dessas hipotéticas intervenções de algum campeão do mal, este será um homem ambíguo dotado, segundo São Paulo, de grande capacidade de fraude:

“A vinda do iníquo será acompanhada do poder de Satanás, de todo gênero de milagres, sinais e prodígios enganosos, e de seduções da iniquidade para os destinados à perdição, porque não aceitaram receber o amor da verdade que os salvaria.

“Por isso Deus lhes envia um poder enganador, para que acreditem na mentira e sejam condenados todos aqueles que, não acreditando na verdade, se aprazem na iniquidade” (II Tes, II, 8-12).

O próprio Apocalipse nos ensina que, ao chegar a consumação dos tempos, duas testemunhas (Elias e Henoc, segundo a interpretação predominante nos exegetas) conservadas em vida na presença do Altíssimo serão enviadas à terra para uma pregação póstera antes do encerramento da História (Ap, XI, 3-ss.).

Acresce que Nosso Senhor Jesus Cristo prometeu ao pé do monte Tabor que

“Elias, na verdade, está para chegar, e restabelecerá tudo” (Mt, XVII, 11).

Confirmou assim o que dissera o profeta Malaquias: “Eis que eu enviarei Elias, o profeta, antes que venha o dia de Yavé, grande e terrível.

“Ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos aos pais, para que não aconteça que eu venha e entregue a terra toda ao anátema” (Mal, IV, 5-6).

Desses passos das Escrituras o bem-aventurado concluía que se tornava necessária a manifestação de Elias para restaurar a Igreja e o mundo:

Santo Elias aguarda a ordem para vir à Terra.
Santo Elias aguarda a ordem para vir à Terra.
“a máquina do corpo social marcha com a velocidade do trem rumo a sua dissolução. Ou Deus acaba com o homem, ou o redime de novo e o restaura” (“Anarquía social”, El Ermitaño, Nº 113, 5-1-1871).

Mas, ele virá num contexto de fim da História da Salvação? Ou virá para restaurar todas as coisas e inaugurar uma nova era histórica em que reinará Nossa Senhora, de quem Elias foi o primeiro devoto?

“(...) no primeiro caso deve vir logo Elias o tesbita, precursor do Juiz supremo, para anunciar ao mundo seu fim. No segundo caso, deve vir também, porque é o restaurador prometido” (“Anarquía social”, El Ermitaño, Nº 113, 5-1-1871).

Em qual desses dois casos nos encontrariamos?




Beato Palau: Deus restaurará logo a sociedade humana













O mistério do retorno de Elias e Henoc

Santo Elias raptado num carro de fogo diante de Santo Eliseu.  Juan de Valdés Leal  (1622 - 1690), igreja de Nossa Senhora do Carmo, Córdoba, Espanha.
Santo Elias raptado num carro de fogo diante de Santo Eliseu.
Juan de Valdés Leal  (1622 - 1690), igreja de Nossa Senhora do Carmo, Córdoba, Espanha.
Elias e Henoc: dois profetas do Antigo Testamento ainda vivos

De acordo com as Escrituras, o profeta Elias foi raptado aos Céus num carro de fogo na presença de seu discípulo e sucessor Santo Eliseu:

“eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão. Vendo isso, Eliseu exclamou: Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel! E não o viu mais.” (II Re, 2, 11-12)

O arrebatamento do profeta teria acontecido no ano 914 a. C., quando Elias tinha não menos de 46 anos.

É doutrina líquida entre os Padres e Doutores da Igreja que Santo Elias não morreu mas que se mantém em vida por disposição divina, aguardando para voltar no fim dos tempos e lutar contra o Anticristo.

Junto com ele, se encontraria Santo Henoc (escreve-se também: Enoc e Enoque), do qual a Bíblia ensina igualmente que foi levado vivo da Terra:

“Após o nascimento de Matusalém, Henoc andou com Deus durante trezentos anos, (...) Henoc andou com Deus e desapareceu, porque Deus o levou.” (Gen, 5, 22-24) e

“Henoc agradou a Deus e foi transportado ao paraíso, para excitar as nações à penitência” (Eccl, XLIV, 16).
Henoc teria sido levado da Terra por volta do ano 3.019 a.C., 987 anos após a criação de Adão, quando tinha 365 anos (viveu antes que Deus diminuísse a duração da vida dos homens).

Mistérios da vida deles

Onde se encontram? Como vivem? Têm contato com a Terra? Em quais condições vão regressar?

O assunto tem apaixonado a doutores e santos da Igreja. O eruditíssimo e famosíssimo comentarista das Sagradas Escrituras, Pe. Cornelio a Lapide S.J., resume as opiniões de maior peso e conclui:

“o lugar onde se encontram Elias e Henoc é incerto. Em qualquer caso, seja um local terrestre ou etéreo, Elias leva una vida quieta e santa, na contemplação de Deus, (...)

Elias e Henoc, ícone do século XVII, Museu Histórico, Sanok, Polônia
Elias e Henoc, ícone do século XVII, Museu Histórico, Sanok, Polônia
São Gregório Magno diz: “Elias foi elevado ao céu aéreo, para ser imediatamente levado a uma região secreta da terra, e ali viver numa grande quietude da carne e do espírito, até que volte no fim do mundo e pague o débito da morte” (Hom. 29, in Evang.).

“Elias e Henoc já são candidatos à eternidade, habitantes do paraíso (...) e estão confirmados em graça, segundo Suárez.

“E embora não vejam a Deus, nem gozem da beatitude celeste, recebem muitas luzes e consolações divinas, pois estão como que “no átrio da casa do Senhor”. Pelo que são visitados pelos anjos com muito maior frequência que os outros homens, e com eles conversam.

“Vivem da palavra divina, sem alimento nem bebida para o corpo, porque Deus lhes conserva incorruptos (assim como suas roupas, como conservou as vestes dos judeus durante quarenta anos no deserto), sãos, alegres, ágeis, gozosos, exultantes com sua situação, estado e missão.

“E dão graças a Deus, porque só eles dois – entre muitos milhões de homens – foram escolhidos para lutar por Nosso Senhor no fim do mundo contra o Anticristo, converter as nações e os judeus e ser coroados com um martírio glorioso.

“E, por causa de seu rapto, incorruptibilidade e longevidade, comunicar aos homens a fé e a esperança na ressurreição” (R. P. Cornelio a Lapide SI, Commentaria in Scripturam Sacram, Ludovicus Vivès Bibliopola Editor, Paris. In Librum IV Regum, Cap II, 11).

Santo Tomás de Aquino também conclui: “Henoc foi levado para o paraíso terrestre, onde se crê que, juntamente com Elias, viverá até que ocorra a vinda do Anticristo”. (Suma Teológica, Parte III, questão 49, artigo 5, objeção 2).

Elias e Henoc se encontram com a idade que tinham na Terra quando foram levados.

Segundo o Gênesis, Henoc tinha 365 anos quando deixou a Terra.

Segundo Cornelio a Lapide, Elias tinha 46 anos pelo menos quando foi arrebatado (id. ibid.). Em 20 de julho de 2017, a Igreja comemorou o 2931º aniversário do rapto de Elias.

Presença e intervenção de Elias nos eventos humanos

Santo Elias, século XVIII. igreja do Santo Anjo, Sevilha, Espanha.
Santo Elias, século XVIII. igreja do Santo Anjo, Sevilha, Espanha.
O segundo livro de Paralipómenos (XXI, 12) narra que Joram, rei de Judá, recebeu uma carta de Elias, que naquela data já tinha deixado a Terra. Como, quando e de que modo foi enviada essa missiva do além?

O próprio Pe. Cornelio a Lapide, após analisar abundantes opiniões de teólogos e doutores, conclui:

“Elias, portanto, escreveu a carta no paraíso, para increpar mais rigorosamente o ímpio e convertê-lo, assim como para tornar patente quanta solicitude têm ele e os santos pelos homens fiéis, ainda depois desta vida” (Cornelio a Lapide, id. ibid, In Librum II Paralipomenon, Cap. XXI).

E acrescenta: “Vemos que Elias, pese a ser morador do paraíso, mantém acesso seu prístino zelo por Deus, cuidando dos assuntos dos homens mortais, solícito pela salvação de seu povo” (Cornelio a Lapide, id. ibid., In Ecclesiasticum, cap. XLVIII, 1-12).

Aplacar a cólera divina e reacender o amor de Deus

O Eclesiástico também diz de Elias: “Tu que foste escolhido pelos decretos dos tempos para amenizar a cólera do Senhor, reconciliar os corações dos pais com os filhos, e restabelecer as tribos de Jacó” (Eclesiástico, 48, 10) .

Sobre isso comenta Cornelio a Lapide: “Deus decretou com juízo justo e sapiencial que, após muitos milhares de anos, num tempo determinado, num certo ano, mês e dia, Elias voltará para lutar por Cristo contra o Anticristo. (...)

É como se dissesse: ‘está prescrito e predito que, num determinado tempo previsto e decidido por Deus, tu voltarás para Lhe aplacar a ira’.” (Cornelio a Lapide, id. ibid).

Anuncio divino da vinda de ambos os profetas

As duas testemunhas Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek
As duas testemunhas lutarão contra o Anticristo. Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek
No Apocalipse, Deus anuncia para os últimos tempos: “incumbirei às minhas duas testemunhas, vestidas de saco, profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da terra” (Ap, XI, 3 e 4.).

Após avaliar grande número de opiniões, Cornelio a Lapide da a interpretação mais recorrente:

“essas duas testemunhas indicam aqueles dois varões que lutarão por Cristo contra o Anticristo. Todos concordam que um deles será Elias. (...) se depreende das palavras de São João que eles aparecerão na terra de modo súbito e inopinado.

“Sem embargo, como virão, se transportados visivelmente pelos ares por um carro de fogo, ou por uma nuvem, ou por qualquer outro meio; como aparecerão imperceptível e subitamente em Jerusalém, ou em algum outro local, nem a Escritura, nem os Padres explicam” (Cornelio a Lapide, id. ibid. In Apocalypsin, cap XI, 3-19).



“Fim do mundo presente e mistérios da vida futura” (Pe. Arminjon)

Numa conferência célebre transcrita em livro que impressionou profundamente a Santa Teresinha do Menino Jesus, o Pe. Charles-Marie-Antoine Arminjon (1824-1885) imaginou a aparição desses dois profetas no auge das trevas – ou luzes enganosas – da iniquidade.

“No momento em que a tempestade é mais violenta, quando a Igreja estará sem piloto, onde o sacrifício sem sangue cessará em todos os lugares, onde tudo parecerá desesperador humanamente, veremos, diz São João, duas testemunhas.

“Essas duas testemunhas serão dois homens estranhos, aparecendo de repente no meio do mundo, sem que ninguém possa contar de onde eles vieram, seu nascimento, sua origem ou família. (...)

“Nenhuma língua pode expressar a estupefação de que os homens serão tomados à vista desses dois homens, estranhos às nossas paixões e assuntos, que viveram um por seis mil anos, o outro trinta séculos, em alguma região etérea, sob firmamentos e esferas inacessíveis aos nossos sentidos e à nossa compreensão.

As duas testemunhas, Emetrius, Maestro da Escola de Távara, Gerona, século X.
Archivo Histórico Nacional, Madri
“Nenhuma dessas testemunhas é estranha para a família humana.

“Uma dessas tochas e dessas duas oliveiras é Henoc, o bisavô de Noé, o antepassado direto de toda a raça humana.

“O outro é o profeta Elias, que, como o Salvador disse, está destinado a restaurar todas as coisas.

“Ele vem pela segunda vez para reprimir o dilúvio de impiedade, mais impetuoso e mais transbordante do que no tempo de Acab. É também a hora da redenção de Israel.

“O grande profeta convencerá os descendentes de Abraão da vinda do Messias, para tirar a banda de ignorância e escuridão que tem habitado nos seus olhos durante dezenove séculos.

“Qual será o exterior e a atitude desses fantasmas de outra era?

“Que majestade antiga brilhará em suas pessoas?

“Que acentos inspirados surgirão de seus lábios?

“Isso é o que a Escritura não nos diz. Ensina-nos que profetizarão por mil duzentos e sessenta dias, vestidos de saco e com a imagem da humildade e da penitência em seus traços”.

(Pe. Charles-Marie-Antoine Arminjon (1824-1885), “Fin du monde présent et mystères de la vie future”, Office Central de Lisieux, 1970).





Quem virá nos salvar? O profeta Elias ou alguém com seu espírito?


Santo Elias, Monte Carmelo, Terra Santa,  mosteiro de Elias, estátua onde exterminou os profetas de Baal.
Santo Elias, Monte Carmelo, Terra Santa,
mosteiro de Elias, estátua onde exterminou os profetas de Baal.
O Beato Palau era consumido pelo desejo de que viesse o próprio profeta Elias em pessoa, a mandos do próprio Deus para libertar a Igreja e a Civilização da ditadura da Revolução (ver Beato Palau: Deus dispôs uma missão extraordinária para nos libertar).

Mas reconhecia que poderia não tratar-se dele próprio, mas de alguém revestido de seu espírito e de sua missão.

Quer dizer, de outra pessoa que merecesse ser chamada de Elias por semelhança de perfil moral, virtudes e tarefa providencial.

“Será Elias o tesbita, aquele próprio que profetizou durante o reinado de Acab e Jesabel, reis de Israel? Não sabemos.

“Mas não tem nada contra a fé acreditar que seja um homem qualquer, um pescador como Pedro, o filho de um marceneiro como Jesus, um pobre homem, ignorante segundo a ciência do mundo, mas sábio para sua missão” (“Cálculos del Ermitaño”, El Ermitaño, Nº 163, 21-12-1871).

“Virá ele próprio, o tesbita — refletia em outra ocasião —, ou antes seu espírito e sua missão em um Moisés. Não nos atrevemos a emitir um juízo.

“Talvez seja sua missão, e não sua pessoa, e em tal caso cairiam muitos em erro, porque diriam dele o que disseram de Jesus, filho de um marceneiro e de uma mulher chamada Maria (...)

“um homem com missão especial de Deus: esse homem, quer se chame Elias, Henoc, ou o que quiserdes, será o Restaurador” (“La Restauración”, El Ermitaño, Nº 154, 19-10-1871).

“Esse apóstolo será Elias, o Elias prometido, seja qual for o nome que ao parecer lhe será dado.

“Chame-se João, Moisés, Pedro, o nome importa pouco; a missão de Elias restaurará a sociedade humana porque assim Deus, na sua Providencia, tem ordenado” (“Anarquía social”, El Ermitaño, Nº 113, 5-1-1871).

A distinção entre a pessoa de Elias e seu espírito e missão é fundamental. Mas apresenta dificuldades que a relação entre São João Batista e Santo Elias ajuda a esclarecer.

São João Batista increpa o rei Herodes, Giovanni Fattori (1825 – 1908)
São João Batista increpa o rei Herodes, Giovanni Fattori (1825 – 1908)
O profeta Zacarias comparou São João Batista a Elias e anunciou que seria o precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Caminhará diante do Senhor no espírito de Elias para conduzir os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos a fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto” (Lc, I, 17).

Por sua vez, quando os discípulos indagaram a Nosso Senhor como entender aquelas palavras de que seria precedido por Elias, o Divino Mestre respondeu:

“Eu vos digo: Elias já veio, e não o reconheceram, pelo contrário, fizeram com ele o que quiseram; (...) Então os discípulos entenderam que lhes falava de João o Batista” (Mt, XVII, 12-13).

Dessa maneira, em sentido simbólico-místico, São João Batista foi o Elias anunciado para antes da primeira vinda de Nosso Senhor.

Enquanto tal, é distinto do Elias histórico, que profetizou nos tempos de rei Acab e que retornará à terra antes da segunda vinda de Nosso Senhor e do Juízo Final.

O espírito e a virtude de Elias
em outros enviados de Deus

O acatadíssimo comentarista das Sagradas Escrituras, Padre Cornelio a Lapide SJ, explica no que consiste o “espírito de Elias” e como pode existir num outro enviado de Deus:

São Lucas, capítulo I: 16 E [João Batista] converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus; 17e irá adiante dele com o espírito e a virtude de Elias, a fim de reconduzir os corações dos pais para os filhos, e os incrédulos à prudência dos justos, para preparar ao Senhor um povo perfeito.

Comentários do Pe. Cornélio a Lápide SJ

17E irá adiante dele com o espírito e a virtude de Elias

São João Batista precedeu a Cristo com 'o espírito e a virtude de Elias'. Pintura em St-Mary-Thornham-Parva, Suffolk, Inglaterra.
São João Batista precedeu a Cristo com 'o espírito e a virtude de Elias'.
Pintura em St-Mary-Thornham-Parva, Suffolk, Inglaterra.

São Lucas não diz “com a alma de Elias”, comenta Orígenes, mas sim “in spiritu et virtute Eliæ”, porque como ensina Stº. Agostinho, nunca existe espírito sem a virtude, nem virtude sem o espírito, pois toda força e virtude provêm do Espírito Santo, segundo aquela passagem: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Luc. I, 35).

“E o precederá”, e irá adiante do Senhor Deus, isto é, de Cristo Filho de Deus. Com efeito, João precedeu a Nosso Senhor:

1º) ao nascer;

2º) ao batizar;

3º) ao pregar a penitência, para preparar-Lhe as vias;

4º) ao apontá-l'O como Messias e Cordeiro de Deus;

5º) ao morrer mártir;

6º) ao descer até o limbo.

Com o espírito e a virtude

Ou seja, com o espírito da virtude, isto é, da força e da eficácia. Com efeito, em grego virtute [com a virtude] é dynamei [com a força] e não aretei [com a virtude, enquanto predicado moral].

Trata-se aqui de uma hendíadis, como se se dissesse:

“Assim como Elias foi outrora magnífico por seu espírito forte e eficaz, e o será também no fim do mundo para lutar contra o Anticristo e converter a Nosso Senhor os demais judeus, assim também João será excelente no mesmo espírito de fortaleza, de modo a levar à penitência os judeus de coração duro, tanto por sua pregação quanto pelo exemplo de sua vida santíssima. E assim os preparará para receber o batismo e a graça de Cristo”.

O espírito da fortaleza de João foi semelhante ao de Elias:

1º) Pela austeridade de vida. Como Elias, João alimentava-se de gafanhotos e vestia-se com pele de camelo, como cilício;

2º) Ambos viveram na solidão e eram eremitas;

3º) Pela pobreza e desprezo do mundo;

4º) Mais ainda, pelo zelo, pela audácia e ardor ao pregar, com os quais conduziram muitos ao arrependimento e à conversão a Deus e a Cristo Nosso Senhor.

Zelo com que Elias ainda converterá os judeus no fim do mundo, segundo o versículo do Eclesiástico:

“E surgiu Elias como fogo e suas palavras ardiam como tocha”. De maneira semelhante, Nosso Senhor se refere a João Batista: “Ele era um lâmpada ardente e luminosa” (Jo. V, 35).

Este é o espírito da fortaleza de Elias;

5º) Pela fortaleza e pela paixão.

Assim como Elias lutou com grande fortaleza contra os sacerdotes de Baal e seus fautores, os reis Acab e Jezabel (III Re. XVIII, XIX) — e novamente no fim do mundo lutará contra o Anticristo e seus asseclas, até que seja morto pelo Anticristo, e receba a coroa do martírio — assim também São João enfrentou Herodes e Herodíades e, sendo decapitado por ordem deles, alcançou a palma do martírio.

Logo, o espírito de fortaleza significa duas coisas: o poder e a eficácia para bem agir, e portanto para avançar fortemente contra qualquer obstáculo.

Este espírito foi semelhante em Elias e em João Batista.

São João Batista se consumiu de zelo pela causa de Deus e preparou o caminho para a vinda de Cristo. Retábulo de Gante (detalhe), Jan van Eyck  (1390 — 1441). Catedral Saint Bavo.
São João Batista se consumiu de zelo pela causa de Deus
e preparou o caminho para a vinda de Cristo.
Retábulo de Gante (detalhe), Jan van Eyck  (1390 — 1441). Catedral Saint Bavo.
Porém, aqui João é mais comparado ao Elias que virá do que com o Elias que já veio, porquanto, assim como Elias precederá com grande força de espírito e eficácia a segunda vinda de Cristo, de modo a debelar os infiéis e convertê-los à fé, assim também João, com o mesmo espírito e a mesma eficácia, precedeu a primeira vinda de Cristo “para converter o coração dos pais aos filhos, e os incrédulos à prudência dos justos”.

Comentam com clarividência este trecho Stº. Ambrósio, São Beda, Teofilato, Tito e São Gregório Magno (hom. 7, in Evangel.), o qual explica as palavras “com o espírito e a força de Elias”, como querendo dizer:

“Assim como fiz daquele o precursor do Juiz, assim também constituí a este o precursor do Redentor”.

Ouvi Stº. Ambrósio:

“'In spiritu et virtute Eliæ', porquanto Elias dispôs de uma grande fortaleza e de uma enorme graça para fazer com que as almas dos povos retornassem da perfídia à fé; ele possuiu a virtude da castidade e da paciência e o espírito de profecia.

“No deserto, Elias; no deserto, João.

“Aquele era alimentado por corvos, este por espinheiros, depois de ter calcado aos pés os atrativos da volúpia, abraçando a parcimônia e desprezando o luxo.

“Aquele não procurou obter as boas graças do rei Acab; este desdenhou Herodes. Elias dividiu as águas do Jordão; João transformou-o em fonte salutífera.

“Este conviveu com o Senhor na terra; aquele aparecerá com o Senhor no dia da Glória.

“Este foi o primeiro; aquele será o segundo precursor do Senhor”.

Por fim, para dar a João este espírito de virtude — ou seja, a fortaleza — foi-lhe enviado o anjo Gabriel, que em hebraico significa “a fortaleza de Deus”, a fim de lhe infundir sua própria fortaleza, haurida de Deus.

(Autor: Pe. Cornelio a Lapide SJ, “Commentaria in Scripturam Sacram”, Ludovicus Vivès, Paris, 1861; notas de J. M. Pérrone, SJ e A. Crampon, SJ).


Por tudo isso, se não vier Elias em pessoa, o bem-aventurado deduzia lógica e firmemente que viria um enviado de Deus dotado da força e da eficácia do grande profeta do Carmelo para restaurar a Igreja e a civilização cristã.





Estamos nos Últimos Tempos, 
ou já é o Fim do Mundo?


O beato fazia seus exames anuais de consciência no rochedo 'Es Vedrà'. Instalou nesse contexto os personagens literários do 'El Ermitaño'
O beato fazia seus exames de consciência anuais no rochedo 'Es Vedrà'.
Instalou nesse contexto as personagens literárias do 'El Ermitaño'
Para o Beato Palau, o pecado de Revolução é de tal gravidade que sua punição exigiria o fim do mundo.

Porém, ele tinha certeza de que Deus, a rogos da Santíssima Virgem, teria piedade da humanidade pecadora e que Sua clemência suavizaria os castigos infligidos pelo pecado de Revolução.

Em consequência, a misericórdia divina abriria um parêntese histórico: uma era de esplendor sem igual da Igreja e da civilização cristã.

A parte do castigo devida por Justiça ficaria pendente como uma espada de Dâmocles: quando os homens reincidissem na Revolução, Deus encerraria o parêntese e se desencadeariam os episódios trágicos e grandiosos do fim do mundo.

Desta maneira, o bem-aventurado refletia habitualmente sobre dois horizontes históricos distintos, mas muito semelhantes:

1. O dos castigos, também anunciados em nossa era por Nossa Senhora em Fátima; e

2. O fim do mundo.

Aquilo que se diz de cada um desses horizontes pode-se aplicar ao outro por analogia e com as necessárias adaptações.

Os grandes momentos da punição da Revolução e da glorificação da Igreja podem ser vistos como uma “avant-première” dos últimos dias da trajetória humana na História.

Por sua vez, o que está escrito sobre o dia futuro em que os céus se enrolarão como um pergaminho (Ap, VI, 14) ilumina a intelecção do que sucede em nossos dias.

Interior da 'Cueva de Aitona': gruta que foi ermida do carmelita perseguido porque não se dobrou ante a Revolução anticristã. Hoje é local de romaria, Aitona, Espanha.
Interior da 'Cueva de Aitona': gruta que foi ermida do carmelita perseguido
porque não se dobrou ante a Revolução anticristã. Hoje é local de romaria, Aitona, Espanha.
Em qual desses contextos virá o Elias histórico, ou o homem revestido de seu espírito? Como o fará?

Em vários artigos, o Beato Palau mostra estar convencido de que, em qualquer hipótese, o enviado de Deus para nos livrar da Revolução virá em nossos dias:

“Já dissemos várias vezes que é infundada a opinião daqueles que acreditam que esses dois profetas [n.r.: Elias e Henoc] virão ao mundo nas vésperas de seu fim.

“Não é assim. Será, é verdade, o fim, porque o mundo ainda pode durar um século, meio século, e nesse intervalo as nações verão o triunfo da Cruz” (“Las tinieblas”, El Ermitaño, Nº 166, 11-1-1872).

Na primeira hipótese, no apogeu da Revolução, o profeta Elias viria em pessoa. Sua gesta precederia uma ação do Espírito Santo revivificadora da Igreja e das nações.

Tal ação inauguraria um período histórico que coincide com o Reino de Maria profetizado por São Luís Maria Grignion de Montfort e com a vitória do Imaculado Coração de Maria prometida por Nossa Senhora em Fátima.

A conversão das nações acarretaria o adiamento do fim dos tempos. O mundo prestaria então ouvidos ao anúncio da segunda vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Mas, tão logo dele se esquecesse, desencadear-se-iam os fatos conclusivos da peregrinação humana no tempo.

Em muitas outras oportunidades o bem-aventurado refletiu sobre a segunda hipótese, de que agora viria um Restaurador com a incumbência de cumprir idêntica tarefa, mas que não seria Elias profeta em carne e osso.

Este último só viria quando a iniquidade revolucionária voltasse a tomar conta dos homens.

Portanto, precedendo imediatamente a segunda vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, a convocação do Juízo Final e o encerramento do tempo.

Ambas as hipóteses têm uma estrutura comum:

1. Missão de um enviado de Deus que derrotará a Revolução em nossos dias;

2. Uma época de fé e florescimento dos povos convertidos;

3. Um novo pecado coletivo, Juízo Final e fim do mundo.

Santo Elias, Convento de La Encarnación. Ávila, Espanha
Santo Elias, Convento de La Encarnación. Ávila, Espanha
Este leque de futuros possíveis, dotados de uma estrutura comum, explica certo vai-e-vem na formulação e na cronologia das hipóteses do bem-aventurado, que ora escreve tendo em vista uma, ora outra, ou as duas ao mesmo tempo.

Ele raciocinava sobre esses futuros possíveis com inteiro desapego, achando que o tempo e as circunstâncias se encarregariam de esclarecer qual se efetivará.

Na perspectiva palauciana, o “espírito de Elias” sempre permaneceu vivo na Igreja, identificando-se com o espírito militante.

Ele o achava presente no Beato Pio IX e na Hierarquia eclesiástica em luta contra os espíritos instigadores da Revolução:

“Elias é Pio IX, Elias é o bispo, Elias é o pároco de uma aldeia. Vês? Vês em suas mãos o báculo pastoral? Vês em Pio IX algumas chaves?

“É o símbolo do poder sobre toda potestade inimiga: tem uma missão alta e sublime, Deus lhe diz: Te dou potestade: expulsai os demônios.

“Ligado e encadeado o príncipe e o rei de todos os hereges, ímpios e blasfemos, vencido e preso aquele que dirige a revolução no mundo, serão salvas todas as nações” (“Fray Onofre — Cuento de mi sombra”, El Ermitaño, Nº 29, 20-5-1869).

Aconteça o que acontecer, ele ponderava que o extremo atingido pelo pecado e pela conjuração da Revolução clamava por uma intervenção tão intensa, que exigiria algo do porte do profeta do Carmelo.

Para o Pe. Palau, se for algum outro homem encarregado dessa “missão”, será alguém da linhagem espiritual do grande fundador da Ordem do Carmo:

“Quando os apóstolos desceram do monte [Tabor], perguntaram a seu mestre sobre a missão de Elias, e Jesus respondeu: Elias em verdade virá, e quando vier, restabelecerá todas as coisas (São Mateus, cap. XVII).

“Eis o restaurador, preparado para a lei de graça, como Moisés o foi da lei escrita. Este restaurador vive? Afirma-o a tradição, e assim devemos crer.

“No século XVI escolheu uma espanhola, a grande Teresa de Jesus, e a escolheu para restaurar o Carmelo. Apareceu-lhe muitas vezes, garantindo-lhe que nos últimos tempos sua Ordem se apresentaria com grande força ao combate” (“El Carmelo”, El Ermitaño, Nº 154, 19-10-1871).

Se esse restaurador vive, onde está?

“No Carmelo, isto é, entre os carmelitas, que herdaram pelas mãos de Eliseu sua capa, e com sua capa seu espírito, e sua missão” (“El Carmelo”, El Ermitaño, Nº 154, 19-10-1871).

Assim refere Santa Teresa as suas visões aludidas pelo Beato Palau:

“12. Estando uma vez em oração com muito recolhimento, suavidade e quietude, parecia-me estar rodeada de anjos e muito perto de Deus. Comecei a suplicar a Sua Majestade pela Igreja.

“Deu-se-me a entender o grande proveito que, nos últimos tempos, há-de fazer uma Ordem e a fortaleza com que seus filhos hão-de sustentar a Fé.

“13. Estando uma vez rezando perto do Santíssimo Sacramento, apareceu-me um Santo cuja Ordem tem estado um tanto decaída:

“Tinha nas mãos um grande livro, abriu-o e disse-me que lesse umas letras, que eram grandes e muito legíveis e diziam assim:

“‘Nos tempos vindouros florescerá esta Ordem; haverá muitos mártires’.

“14. Outra vez, estando no Coro em Matinas, apareceram-me e se puseram diante dos [meus] olhos seis ou sete religiosos que me parece seriam desta mesma Ordem; com espadas na mão.

“Penso que nisto se dá a entender que hão de defender a Fé; porque, de outra vez, estando em oração, se me arrebatou o espírito e pareceu-me estar num grande campo onde muitos combatiam, e estes, os desta Ordem, pelejavam com grande fervor.

“Tinham os rostos formosos e abrasados e deitavam muitos por terra, vencidos, e a outros matavam. Parecia-me que esta batalha era contra os hereges.

“15. Tenho visto algumas vezes este glorioso Santo, e tem-me dito algumas coisas, e agradecido pela oração que faço pela sua Ordem e prometido de me encomendar ao Senhor.

“Não declaro as Ordens, para que não se agravem outras; se o Senhor for servido, que se saiba, Ele o declarará.

“Mas cada Ordem, ou cada membro de per si, deveria procurar que por seu intermédio fizesse o Senhor tão ditosa a sua Ordem que, em tão grande necessidade como agora tem a Igreja, a servissem. Ditosas vidas que nisto se acabarem!”

(Santa Teresa de Jesus O.C.D., “Libro da Vida”, cap.40, apud Obras Completas, BAC Nº 212, Madrid, 1979, 6ª ed. revisada, 1184 págs, pp. 186-187).

Algumas Ordens religiosas reivindicaram, a diversos títulos, a honra dessa missão. O grave historiador P. Jerónimo de San José (Historia do Carmen Descalzo, l. 1, c. 21, n. 5, p. 214-215), após ponderar os argumentos em favor de umas e outras, conclui que se trata da Ordem do Carmo, e acrescenta:

‘Estas conjecturas bastam para ter por certo aquilo que já dissemos; porém, palavra mais certa e testemunho de sua verdade temos na própria Santa, que ainda em vida declarou e disse que se referiam à sua Ordem do Carmo de acordo com a nova reforma; e isso com tanta segurança e ênfase, que a um religioso filho seu que a interrogou, chamado frei Angel de San Gabriel, ela respondeu com simplicidade e amor de mãe: «Bobo, de quem se deveria entender, senão da Nossa Ordem?».

“Isso constou sempre dela e permanece sem controvérsia como coisa lisa e assentada, garantindo-o as próprias pessoas que ouviram da boca da Santa (cfr. Santa Teresa de Jesus, id. ibid. nota 3, p. 215).

Ver também: Santa Teresa de Jesus e os Apóstolos dos Últimos Tempos



Oração do Beato Palau pela nave de Pedro que afunda

A pequena barca de Pedro, agitada pelas furiosas ondas dos pecados e erros, está em iminente perigo de naufragar. Jesus dorme na popa da nave.

Que se há de fazer para que a barca não vá ao fundo e cesse a tempestade? Habilidade humana para isto não há.

Os marinheiros, fatigados de tanto remar, se rendem e esperam o momento em que se desfaça a barca para agarrar-se a uma tábua e ver se com ela se poderão salvar.

Já não há outro recurso, a menos que Jesus Cristo o ordene com a virtude onipotente de sua palavra.

Mas em tal apuro por que não se desperta e o faz? Ignora talvez o que acontece? O que, pois, espera?

Espera que lhe peçam devidamente seus discípulos; espera que devidamente pronunciemos com o coração aquela breve oração:

Domine, salva nos, perimus. 'Senhor, salvai-nos, pois perecemos' (São Mateus, 8, 25).


(Autor: B. Francisco Palau, “Lucha del Alma con Dios”, in Obras Selectas, Editorial Monte Carmelo, Burgos, 1988, p. 93). 
 





Como reconheceremos o enviado de Deus para nos salvar?


Santo Elias
Santo Elias
O bem-aventurado fazia incontáveis indagações e elaborava conjecturas de plausibilidade hierarquizada sobre a vinda de Elias, em espírito ou em pessoa, para nos tirar do abismo de caos e confusão.

Entre outras coisas, perguntava-se se ele viria sozinho, ou acompanhado de Henoc. O se antes viria um deles e depois o outro?

Também indagava se seria um indivíduo ou, pelo contrário, um Elias coletivo, quer dizer, um grupo de apóstolos que cumpririam sua missão (cfr. “Guerra a Deus!”, El Ermitaño, Nº 40, 5-8-1869).

Analisadas todas as hipóteses que passaram ante seu reflexivo espírito, o bem-aventurado julgava mais proveitoso descrever a seus leitores o perfil moral e religioso do Restaurador prometido.

Aquele que preenchesse os requisitos desse perfil seria o salvador de que a Igreja e o mundo têm premente necessidade.

Para esse perfil escolheu um nome: Moisés da Lei da Graça. A Lei da Graça é o Novo Testamento.

Será um Moisés porque foi prefigurado pelo profeta Moisés que liberou os judeus do cativeiro dos egípcios.

O Moisés da Lei da Graça terá o perfil – que pode incluir discípulos organizados – de quem libertará os católicos oprimidos pelo jugo da Revolução:
“Busquemos na historia um modelo, uma figura da situação atual da Igreja, e nela veremos talvez os meios que a Providência dispôs para nos salvar.

“Encontramos tudo quanto apetecemos na missão dada por Deus a Moisés para salvar seu povo escravo no Egito” (“El triunfo da Iglesia”, El Ermitaño, Nº 160, 30-11-1871).

“Assim como Deus salvou Israel da escravidão do rei do Egito pelas mãos de Moisés e de Aarão, assim salvará com seu braço onipotente a sociedade humana do inimigo que agora a escraviza, servindo-se de um apostolado, dando-lhe para isso uma missão a mais extraordinária que tenham visto os séculos” (“París e Roma Guerra!”, El Ermitaño, Nº 98, 22-9-1870).

Vejamos algumas características essenciais que permitem definir e identificar esse Moisés da Lei da Graça.

Moisés conduz o  povo eleito para fora do jugo dos egípcios, vitral da igreja paroquial de Henley-on-Thames, Inglaterra
Moisés conduz o  povo eleito para fora do jugo dos egípcios,
vitral da igreja paroquial de Henley-on-Thames, Inglaterra
1ª - Terá o dom de desvendar a Revolução e desbaratar suas manobras: Moisés disputou contra os Magos do Egito na presença do Faraó.

Os Magos, que por meio de suas artes mágicas mantinham seduzido o povo escolhido, eram prefiguras dos sacerdotes da Revolução. O Faraó prefigurava os poderes políticos que hoje governam a terra.

O Restaurador prometido terá o dom de denunciar ante os homens o que é a Revolução, exorcizar seus chefes diabólicos, confundir seus sequazes humanos e frustrar suas manobras.

E assim como os Magos egípcios realizaram falsos prodígios contra Moisés, assim também os chefes da Revolução desencadearão contragolpes que o Moisés da Lei da Graça repelirá.

2ª - Despertará os católicos para a Revolução instalada na Igreja: ele fará com que os católicos percebam verdadeiramente a abominação da desolação entronizada no próprio santuário de Deus (cfr. Dan, IX-27), quer dizer, na Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Tal denúncia será determinante na renovação da Igreja:
“Elias recomporá as coisas eclesiásticas em sua devida ordem com mão potente, banirá do seio da Igreja os falsos políticos, anticristãos, essas falanges de escritores e doutores que em nome de Cristo seduzem os povos, e limpará o templo de Deus das abominações com que o emporcalham os maus católicos” (“La guerra al imperio universal”, El Ermitaño, Nº 102, 20-10-1870).

3ª - Chegará quando todos terão perdido a esperança de uma resgate: o Pe. Palau não queria fixar data para a vinda do Restaurador que anunciava. Imaginava que sua irrupção se daria quando o resto dos fiéis estivesse desesperançado e deprimido:
“Não há dia nem hora. Quando ninguém, nem sequer os carmelitas, o aguardarão, nem acreditarão nele” (“Tres días de tinieblas”, El Ermitaño, Nº 119, 16-2-1871).

Moisés, com Aarão a seu lado, enfrenta o faraó e derrota os sacerdotes do demônio.  Gravura de Gustave Doré (1832 — 1883)
Moisés, com Aarão a seu lado, enfrenta o faraó e derrota os sacerdotes do demônio.
Gravura de Gustave Doré (1832 — 1883)

4ª - Organizará o resto dos bons contra a Revolução: virá especialmente para insuflar novo ânimo aos restos de catolicismo, vai organizá-los no mundo inteiro e pô-los em ordem de batalha contra a Revolução:
O objeto principal da missão de Elias será arregimentar todos os elementos católicos fiéis a Deus” (“Cálculos del Ermitaño”, El Ermitaño, Nº 163, 21-12-1871).

“Seguindo o seu exemplo, os elementos católicos que tiverem perseverado em meio às provas terríveis a que serão expostos, recuperarão vida, virtude, força.” (“El triunfo de la Iglesia”, El Ermitaño, Nº 97, 15-9-1870).

5ª - Pregará penitência: não terá as aparências lisonjeiras do mundo e da carne. Conclamará indivíduos e nações a adorarem o Deus verdadeiro que haviam abandonado, e queimarem o ídolo da Revolução. Quer dizer, pregará penitência:
Não aguardeis da política outra coisa senão enganos e traições. A restauração não virá daqui: virá do Céu, e nos será trazida por homens que vestidos de uma tosca túnica de pano, anunciarão ao mundo penitência” (“La Restauración”, El Ermitaño, Nº 141, 20-7-1871).

Suas palavras e seu exemplo terão a singular virtude de reavivar o espírito das nações, revigorar suas elites, restaurar seus princípios fundamentais e conduzi-las poderosamente assim à conversão:
“se vem a restauração verdadeira, que consiste na conversão a Deus de todas as nações e de seus reis, o restaurador não pode ser um rei, mas um apóstolo” (“Anarquía social”, El Ermitaño, Nº 113, 5-1-1871).

Restabelecerá a ordem social sobre suas próprias bases” (“El Carmelo en 16 de julio de 1870”, El Ermitaño, Nº 89, 21-7-1870).

6ª - Será perseguido, inclusive pelos falsos cristãos: o Beato Palau não forjou uma ideia triunfalista da vida e do apostolado do Moisés da Lei da Graça prometido. Pelo contrário, dava por certo que ele seria incompreendido e perseguido pela Revolução.

Também nisso será semelhante a Nosso Senhor Jesus Cristo:
Moisés, vitral da catedral de Edinburgo, Escócia
Moisés, vitral da catedral de Edimburgo, Escócia
“A política farisaica prometia ao povo judeu um Messias. A Fé verdadeira dos profetas da Igreja prometia também um Messias.

“Veio o Messias, e a política não o reconheceu, não era aquele que estavam aguardando, não era o que desejavam. Não era o deles, e o crucificaram.

“Assim acontecerá agora: (...) Virá o Restaurador, e não sendo aquele que a política promete, deseja, quer e espera, não sendo um rei que distribui honrarias, dignidades, empregos, dinheiro, mas um profeta, um mártir que nos acompanha ao martírio, a política farisaica lhe fará uma guerra atroz” (“La noche del año 1872”, El Ermitaño, Nº 165, 4-1-1872).

Os maus católicos não quererão saber nem de penitência nem de sacrifício. Entrarão em combinações com a Revolução para impedir ou deturpar a obra do Moisés da Lei da Graça e, por fim, confabularão para persegui-lo, a ele e seus seguidores:
“será desprezado e horrivelmente perseguido pelos próprios católicos, porque são esses os que perderam o mundo com sua incredulidade.

“Os eleitos se unirão a ele e os maus católicos formarão contra ele uma liga juntamente com os reis apóstatas” (“El Carmelo en 16 de julio de 1870”, El Ermitaño, Nº 89, 21-7-1870).



A previsão de uma missão para restaurar a Igreja e a Civilização Cristã executada por um indivíduo não é exclusiva do Beato Palau.

Ela se encontra em diversos escritos de inspiração profética e em visões ou revelações recebidas por almas virtuosas ou santas.

É interessante comparar, a este propósito, os escritos do bem-aventurado com a visão da Venerável Madre Mariana Francisca de Jesus Torres e Berriochoa, abadessa do convento da Imaculada Conceição de Quito (Equador). Ao que tudo indica, o Pe. Palau não teve conhecimento nem foi influenciado por essa revelação privada, acontecida séculos antes num continente remoto.

No dia 2.2.1634, estando em oração, a Serva de Deus viu apagar-se a lamparina do Santíssimo. No momento em que ia se levantar para reacendê-la, a Santíssima Virgem do Bom Sucesso, muito venerada no mosteiro, apareceu-lhe e disse:

“A lamparina que arde diante do altar e que viste apagar-se tem muitos significados:

"O primeiro é que no fim do século XIX, avançando por grande parte do século XX, várias heresias se propagarão nestas terras, então, república livre.

"E com o domínio delas, apagar-se-á nas almas a luz preciosa da Fé, pela quase total corrupção dos costumes. Nesse período haverá grandes calamidades físicas e morais, públicas e privadas.

"O pequeno número de almas que conservará oculto o tesouro da Fé e das virtudes sofrerá um cruel, indizível e prolongado martírio. Muitas delas descerão ao túmulo pela violência do sofrimento e serão contadas como mártires que se sacrificaram pela Igreja e pela Pátria.

"Para a libertação da escravidão destas heresias, aqueles a quem o amor misericordioso de meu Filho Santíssimo destinará para esta restauração, necessitarão de grande força de vontade, constância, valor e muita confiança em Deus.

“Para pôr à prova esta fé e confiança dos justos, haverá ocasiões em que tudo parecerá perdido e paralisado. Será, então, o feliz princípio da restauração completa". (...)

"Ora com instância, clama sem cansar-te e chora com lágrimas amargas no segredo de teu coração, pedindo a nosso Pai Celeste que, (…) Se compadeça de seus Ministros e ponha termo quanto antes a tempos tão nefastos, enviando a esta Igreja o Prelado que deverá restaurar o espírito de seus Sacerdotes.

“A esse filho meu muito querido amamos, meu Filho Santíssimo e Eu, com amor de predileção, pois o dotaremos de uma capacidade rara, de humildade de coração, de docilidade às divinas inspirações, de fortaleza para defender os direitos da Igreja, e de um coração terno e compassivo, para que, qual outro Cristo, assista o grande e o pequeno, sem desprezar o mais desafortunado que lhe peça luz e conselho em suas dúvidas e amarguras. (..).

“Em sua mão será posta a balança do Santuário para que tudo se faça com peso e medida e Deus seja glorificado.

"Para evitar que venha logo este Prelado e Pai, concorrerá a tibieza de todas as almas consagradas a Deus, no estado sacerdotal e religioso.

"Esta, aliás, será a causa de o maldito satanás apoderar-se destas terras, onde ele tudo obterá por meio de gente estrangeira e sem Fé, tão numerosa que, como uma nuvem negra, toldará o límpido céu da então república consagrada ao Sacratíssimo Coração de meu Divino Filho.

"Com essa gente entrarão todos os vícios, que atrairão, por sua vez, toda sorte de castigos, como a peste, a fome, disputas internas e com outras nações, e a apostasia, causa da perdição de um considerável número de almas, (...)

"Para dissipar essa nuvem negra, que impede a Igreja de gozar o claro dia da liberdade, haverá uma guerra formidável e espantosa, na qual correrá sangue de nacionais e de estrangeiros, de Sacerdotes seculares e regulares, e também de religiosas. Esta noite será horrorosíssima, porque, humanamente, o mal parecerá triunfante.

"Será chegada, então, a minha hora, em que Eu, de forma maravilhosa, destronarei o soberbo e maldito satanás, calcando-o debaixo dos meus pés e acorrentando-o no abismo infernal.”

(Fonte: Padre Manuel Sousa Pereira, Vida Admirável de Madre Mariana de Jesus Torres, Editora Petrus, SP, 652 pp., tomo II, cap. XIV págs. 467-472).





O drama: se Deus enviar alguém, a Revolução quererá matá-lo


A Sinagoga também tentou truncar a missão redentora de Jesus. Detalhe do Cristo do Soberano Poder ante Caifás, Sevilha, Espanha
A Sinagoga também tentou truncar a missão redentora de Jesus.
Detalhe do Cristo do Soberano Poder ante Caifás, Sevilha, Espanha
O bem-aventurado Palau previa como certa e revelada uma guerra feroz, sutil e implacável contra o Moisés da Lei da Graça que Deus enviaria para derrotar a satânica Revolução e tirar a Igreja e o mundo do caos que os devoram.

A esse respeito, extraía o melhor de sua inspiração da meditação dos versículos do Apocalipse relativos à morte das duas testemunhas enviadas por Deus.

Com efeito, Santo Elias e seu companheiro pregarão no fim do mundo o tempo necessário para se fazerem ouvir pelas almas sensíveis à voz do Altíssimo que restarem sobre a face da terra.

O Anticristo urdirá mil insidias contra os porta-vozes de Deus, mas estes as desbaratarão com os poderes extraordinários recebidos para cumprir sua missão. Porém, nos lances derradeiros o Anticristo lhes fará guerra e lhes dará morte (cfr. Ap, XI, 3-ss.).

Esses versículos se aplicam diretamente à luta de Elias e de seu companheiro contra o próprio Anticristo no fim do mundo.

Mas o bem-aventurado considerava que em nossa época aconteceriam fatos prefigurativos daqueles magnos eventos futuros.

Caso não venha agora o próprio Elias, mas sim um Restaurador com a “missão de Elias”, o bem-aventurado raciocinava que ele deveria enfrentar alguma prefigura do Anticristo.

Portanto, dar-se-iam alguns episódios análogos à luta anunciada no livro do Apocalipse.

A morte do Moisés da Lei da Graça prefigurará o assassinato de Elias e Henoc pelo Anticristo, Oxford, Ms. Douce 180, pág 36
A morte do Moisés da Lei da Graça prefigurará o assassinato de Elias e Henoc pelo Anticristo,
Oxford, Ms. Douce 180, pág 36
Ele concluiu que se aplicaria ao Moisés da Lei da Graça o que está dito sobre as duas testemunhas: o portador da “missão de Elias” poderá cair morto frente à Revolução.

Mas isso só aconteceria “quando todos os elementos católicos já estiverem organizados” (“La Restauración”, El Ermitaño, Nº 154, 19-10-1871).

E quando se produzisse a morte do Moisés da Lei da Graça, este já teria deixado discípulos que completarão a sua obra: “já terá quem sustente a luta” (id. ibid.).

Esse episódio diferirá da morte de Elias no Fim do Mundo também neste ponto: a morte do Moisés da Lei da Graça é um marco miliário dentro de uma guerra que se prolonga com a vitória da Igreja e a conversão de povos inteiros.

Mas, no Fim do Mundo, a morte das duas testemunhas é um dos lances finais da História, que se encerra logo com o retorno de Nosso Senhor Jesus Cristo em pompa e majestade e o Juízo Final.

Padecimentos e morte que refazem o caminho do Calvário

Em uma interpretação teológico-moral da História, o Beato Palau considerava que a Igreja, fiel ao exemplo do Divino Redentor, subiu com Ele o caminho da Via Sacra.

Espiritualmente pregada na Cruz, conquistou os povos para Nosso Senhor Jesus Cristo e assim os governou desde os tempos apostólicos.

Mas, transcorridos alguns séculos, aqueles que tinham por vocação manter a Igreja sempre unida à Cruz, acreditaram que o poder da Esposa de Jesus Cristo já estava estabelecido de maneira suficientemente sólida.

Supuseram então erroneamente que poderiam relaxar a ascese e gozar das delícias da paz e da hegemonia conquistadas.

A partir desse momento histórico-psicológico — que o bem-aventurado coloca no fim da Idade Média — começou uma decadência contínua.

Jesus esbofeteado ante Anás por membros do Sinédrio. Irmandade do Doce Nome, Semana Santa, Sevilha.  O Sinédrio deveria ter se rejubilado com o Messias prometido, mas estava infiltrado e corrompido por dentro. Por isso, manobrou para matá-lo.
Jesus esbofeteado ante Anás por membros do Sinédrio. Irmandade do Doce Nome, Sevilha.
O Sinédrio deveria se rejubilar ante o Messias aguardado, mas estava infiltrado e corrompido por dentro.
Por isso, manobrou para matá-lo.
Os inimigos da Igreja se espalharam em seu seio e entronizaram a Revolução no mais íntimo e insuspeitado do santuário.

Proporcionalmente à distensão e ao relaxamento crescente da hierarquia eclesiástica e dos costumes na sociedade civil, o demônio foi encontrando as portas abertas à sua penetração entre as pessoas chaves do santuário e da civilização.

Ele pode cativar pessoas paradigmáticas, articular a Revolução e precipitar a humanidade no caos em que esta hoje afunda como numa descida aos infernos.

Postos esses antecedentes, para que a Igreja e a civilização possam reerguer-se esplendorosamente, impõe-se uma inversão de rumos.

É necessário que a Igreja militante — clero e povo —, que durante séculos foi se afastando do sacrifício e do holocausto, volte a abraçar a Cruz, refazendo o caminho do Calvário.

Os sofrimentos, incompreensões, perseguições e morte que o Moisés da Lei da Graça padecerá, atrairão poderosamente os fiéis sinceros de volta às vias ensinadas pelo Divino Redentor com Sua Paixão e Morte.
“Se Deus, nos altos desígnios de sua Providência, escolheu como centro do catolicismo o Monte Calvário, chegada a hora ali irá, ali chegará a Igreja coronada de espinhos, e ali será crucificada, e ali o mundo será de novo remido.

“Aqui, neste mundo, a Esposa do Cordeiro receberá ao pé da Cruz todas as nações novamente remidas pelo sangue de Jesus e dos últimos mártires” (“La Iglesia coronada de espinas”, El Ermitaño, Nº 156, 2-11-1871).

Seguindo o exemplo do Moisés da Lei da Graça sob o acosso opressor da perseguição revolucionaria, a Igreja militante subirá de novo até o alto do Calvário, para dali voltar a reinar, refulgente de glória e santidade, sobre o orbe renovado.

Aplacar a ira de Deus

A imensidade de pecados acumulados ao longo dos séculos de Revolução só tem feito provocar a ira de Deus.

Deus recorre a castigos a fim de exercer Sua Justiça, a qual se impõe para que os homens caiam em si.

Cristo em Majestade no Juízo Final, Fra Angelico  (1395 – 1455), catedral de Orvieto, Itália
Cristo em Majestade no Juízo Final, Fra Angelico  (1395 – 1455), catedral de Orvieto, Itália.
E para executar esses castigos Ele se serve dos demônios, como um juiz se vale dos agentes da Justiça para aplicar as penas:

“Vejo — dizia o Beato Palau— pairando atualmente sobre nossas cabeças a ira de Deus no Céu, provocada pelos crimes dos homens. Os demônios não se rendem, porque são a vara de ferro com que [Deus] açoita as nações e os povos criminosos.

“Deus parece proteger os demônios como o juiz [protege] o instrumento de vingança ante a lei, como igualmente a revolução dirigida pelos anjos maus” (“Importancia del ministerio del exorcistado, el dogma católico”, El Ermitaño, Nº 24, 15-4-1869).

E acrescentava:
“É o fogo da ira de Deus que, aceso pelo sopro do diabo e do homem corrompido, arde sempre, produzindo em suas erupções revolução sobre revolução, ruínas sobre ruínas e uma dissolução social universal” (“El Estado, y la Iglesia en España: divorcio”, El Ermitaño, Nº 27, 6-5-1869).

Quando, em união com os méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo, subir até o mais alto dos Céus o sacrifício de bom odor da missão eliática — argumentava o B. Palau —, o Altíssimo sentir-se-á movido a trocar Sua ira em misericórdia.

Quando isso acontecer, Deus deitará por terra os instrumentos de castigo de que Se serve – quer dizer, o diabo e seus sequazes –, que serão desprezados, pisados e expulsos do mundo pelos católicos fiéis:

“Deus, para acabar com a Revolução, não precisa fazer outra coisa senão abandoná-la a si própria. Abandonada à sua própria malícia, ela cai sem outras armas senão seu próprio peso” (“El paganismo en España”, El Ermitaño, Nº 25, 22-4-1869).

Segundo o estreito modo de ver humano, a morte do Moisés da Lei da Graça afigurar-se-á como a instalação do império revolucionário para sempre.

Porém, paradoxalmente para os homens de pouca fé, ela precipitará a derrocada da Revolução e de qualquer eventual prefigura do Anticristo:
“Satanás (...) também venceu a Cristo e a São Pedro, mas corporal e momentaneamente, e o sangue de Cristo foi a redenção do mundo” (“Dos grandes profetas”, El Ermitaño, Nº 101, 13-10-1870), explicava o bem-aventurado.


Beato Palau: o que será de nós, do mundo e da Igreja?












Pressa aloucada da Revolução precipita uma “era de martírios”


Santo Elias, Irmandade de Nossa Senhora do Carmo Coroada, Sevilha
Santo Elias, Irmandade de Nossa Senhora do Carmo Coroada, Sevilha
As sombras do mistério envolvem o episódio da morte do Moisés da Lei da Graça. Talvez fosse um dos enigmas futuros que o Beato Palau reconhecia não ver claro.

Ela teria o caráter de uma prefigura do assassinato de Elias e Henoc pelo fim do mundo.

Para ele, em qualquer caso, era certo que o sacrifício da “missão de Elias” seria acompanhado pelo de outros fiéis:
“Elias (...) é a cabeça, o chefe de todas as vítimas que com seu sangue vão aplacar a ira de Deus, e juntamente apresentada com a de Jesus merecerá essa paz que agora se procura em vão” (“La guerra: imperio universal”, El Ermitaño, Nº 102, 20-10-1870).

Tais martírios completariam o sacrifício do enviado de Deus. Eles têm, portanto, um número limitado, conhecido só pela Providência.

O Beato Palau viveu em décadas de perseguição anticlerical sanguinária, da qual ele próprio foi vítima. Imaginava, em consequência, que as arbitrariedades do Anticristo ou de seus representantes atingiriam o paroxismo.

O frade carmelita não conhecia as formas refinadas de pressão e de tortura moral elaboradas no século XX.

E considerava que após o falecimento do Moisés da Lei da Graça, a Revolução, representada por alguma prefigura do Anticristo, julgaria ser possível realizar seus delírios megalomaníacos.

Tentaria então dispersar ou aniquilar os fiéis que restassem, porque o obstáculo que o impedia não está mais na terra:
O martirio dos sete irmãos Macabeus, por ordem de Antíoco Epifanio em 166 aC. Os sete e sua heroica mãe que os exortou a morrer sem renegar a Fé, são lembrados como santos pela Igreja Católica.
O martírio dos sete irmãos Macabeus, por ordem de Antíoco Epifanio em 166 aC.
Os sete e sua heroica mãe que os exortou a morrer sem renegar a Fé,
são lembrados como santos pela Igreja Católica.
“então começará a época dos martírios, não nesta ou naquela nação, mas no mundo inteiro; e essas são as vítimas de propiciação que estão marcadas e numeradas pelo supremo sacrificador para aplacar a ira de Deus irritado pelos crimes enormes dos homens.

“Elas obterão os méritos da redenção para essa sociedade que por suas maldades é escrava do diabo e dos reis atuais” (“El triunfo de la Iglesia”, El Ermitaño, Nº 97, 15-9-1870).

“Só permanecerão firmes aqueles que Deus escolheu para uma missão especial” (“Ermitaño alerta!”, El Ermitaño, Nº 63, 13-1-1870).


Essas vítimas somarão seus méritos para atrair a misericórdia sobre os homens e precipitar a extinção da Revolução que os aflige:
“Consumado o sacrifico de expiação e degolada a última de todas as vítimas que Deus na sua previsão já tem marcadas, o braço de Deus onipotente, voltando as iras de sua justiça contra o instrumento das provas, acabará com ele de um modo muito mais terrível do que usou contra Napoleão I, e III” (“El triunfo de la Iglesia”, El Ermitaño, Nº 97, 15-9-1870).

No contexto palauciano, a expressão “época dos martírios” não sugere uma fase historicamente prolongada, mas sim uma sucessão marcante de padecimentos e holocaustos recebidos por fidelidade à mensagem do Moisés da Lei da Graça prometido.

O sacerdócio e o papel central da Santa Missa para aplacar a ira de Deus

Como zeloso sacerdote, o Beato Palau tinha uma ardente devoção ao Santo Sacrifício da Missa, que é o centro da Historia e o ponto de irradiação das graças da Redenção sobre a pecadora hereditariedade de Adão e Eva.

Por isso mesmo, ele via na renovação incruenta do Sacrifício do Gólgota a alma da resistência à Revolução e às falácias e obras dolosas do Anticristo e de suas prefiguras:
“A batalha se dá nesta ordem: do altar luta o sacerdote, e com o sacerdote o povo, contra a ira de Deus provocada pelo crime. (...)

Martírios na Índia:
“o triunfo da fé relativo à redenção de todas as nações, obtido sobre o altar mediante a oração e o sacrifício, traz consigo a vitória na segunda parte do acampamento, aquela ocupada pela magia maléfica, pelo espiritismo e pelos demônios visíveis nos corpos dos energúmenos. (...)

“Vencido o príncipe do mundo ante o trono de Deus, a partir do altar (...) fica o mundo sem rei e se dissolve como um cadáver” (“Programa”, El Ermitaño, Nº 41, 12-8-1869).

Por essas razões, a perseguição revolucionária lançará mão dos recursos mais rebuscados para suprimir o Santo Sacrifício — centro do culto católico — e dissuadir aqueles que queiram celebrá-lo.

O Beato Palau tinha adquirido a firme convicção de que o culto católico nunca cessará, embora na aparência a religião universal anticristã o tenha banido dos templos e das cerimônias oficiais.

Será o único a não se dobrar ante a Revolução. Também nisso se diferenciará radicalmente dos falsos cultos, resplandecendo em santidade, veracidade e luz divina.
“Não sendo possível acabar com o culto católico — afirmava —, este será o único que sustentará a luta contra os decretos do imperador.

“O culto católico desaparecerá como ato público e se sustentará nas catacumbas, desertos e lugares escondidos” (“Incendio de barracas en Barcelona”, El Ermitaño, Nº 170, 8-2-1872).




A Igreja Católica ressurge entre as cinzas da Revolução


Os mundanos dançam sobre os cadáveres das testemunhas de Deus. Biblioteca de Toulouse (1220-1270)
O Apocalipse registra os festejos universais que haverá no fim do mundo pela morte das duas testemunhas enviadas por Deus: as pessoas dançarão, comemorarão e trocarão presentes, alegres por terem se libertado dos profetas da penitência.

Mas essas testemunhas ressuscitarão, para confusão dos participantes do clima enganoso de riqueza e de distensão do Anticristo.

O Apocalipse acrescenta que ambos os profetas subirão aos Céus ao serem chamados por uma grande voz.

Assunção que será seguida de um terremoto no qual muitos malvados deverão perecer, e dos que sobreviverem muitos ficarão tomados de temor e darão glória a Deus.

Para compor um cenário possível para este acontecimento, o bem-aventurado recorria à disputa entre Simão Mago e São Pedro em Roma, narrada pela historia eclesiástica e reproduzida em quadro da Basílica Vaticana.

São Pedro havia operado milagres e portentos que encheram de admiração a capital imperial. Simão Mago, espécie de pontífice do paganismo e prefigura do pseudoprofeta quis comprar seus poderes espirituais e São Pedro e repeliu com vigor (Atos 8, 9-24).

Uma lenda piedosa acrescenta que em Roma, o mago desafiou-o, garantindo que se elevaria ao céu por forças próprias diante da multidão.

No dia marcado, no anfiteatro romano, com a assistência de imenso gentio, o mago subiu pelos ares por influência diabólica. São Pedro exorcizou os demônios, e o embusteiro sucumbiu por efeitos da queda.

Simão o Mago se precipita mortalmente a terra, capitel na igreja de Saint-Lazare, Autun, séc XII. São Pedro segura as Chaves e o demônio se desespera. Símbolo da queda da Revolução
Simão o Mago se precipita mortalmente a terra, capitel na igreja de Saint-Lazare, Autun, séc XII.
São Pedro segura as Chaves e o demônio se desespera. Símbolo da queda da Revolução.
Com esses elementos servindo de prefigura, o bem-aventurado Palau imaginava que quando o Anticristo quiser se igualar a Elias e seu companheiro parodiando sua glorificação, precipitar-se-á fulminado por uma ação direta divina.

Com efeito, o fim do Anticristo não terá lugar por mão humana, mas por intervenção divina. No auge de sua sedutora influência, quando todos os recursos do bem parecerem esgotados, o sopro de Deus lhe dará o castigo merecido:
“Morto Elias, o Anticristo perecerá como o blasfemo Senaquerib pela ação imediata de Deus” (“Anarquía social”, El Ermitaño, Nº 113, 5-1-1871).
Senaquerib, rei de Nínive, sitiou Jerusalém. Desafiou a Deus com blasfêmias de refinada perfídia e ousadia.

Quando Jerusalém parecia quase em suas mãos, durante a noite um anjo de Deus exterminou cento oitenta e cinco mil de seus homens. Levantou o sítio e voltou a Nínive.

Ali, quando se prosternou no templo do deus que adorava, seus filhos assassinaram-no (cfr. II Re, XVIII, 13-ss.).

“Essa ação imediata de Deus consiste em que (...) o homem em uso do poder que recebeu de Deus para expulsar de todas as partes os demônios e em uso de uma missão fundamentada no preceito expulsai os demônios (São Mateus 10, 8), manda com império, com fé, com autoridade, (...) o anjo bom intervém intimando da parte de Deus a rendição aos mandatos do homem.

“Resistindo o demônio a um e a outro, Deus intervém, e por Si e ante Si, sem mediar criatura alguma, executa o mandato dado pelo homem a Satanás” (“El dogma católico con referencia a la redención de la sociedad actual. Dios y el diablo. II”, El Ermitaño, Nº 169, 1-2-1872).

Caso Elias não venha agora em pessoa, o bem-aventurado considerava que poderia acontecer algo análogo em favor do Moisés da Lei da Graça.

Por ocasião de sua morte, o mundo revolucionário regozijar-se-á. Mas num momento que ninguém previu, a vontade de Deus fará refulgir de modo assombroso a vocação divina do Moisés da Lei da Graça.

Caso alguma prefigura do Anticristo tenha querido parodiá-lo, será fulminada pela ação imediata de Deus.

O fim súbito do filho da perdição, ou de alguma prefigura, soará como toque de finados para a Revolução.

Satanás compreenderá que seus planos foram desfeitos e que sua causa está perdida. Frustrado e enlouquecido, dará livre curso à sua cólera furiosa contra os últimos fiéis:
Satanás vendo seus planos desfeitos dará vazão à sua cólera, destruindo sua obra
Satanás vendo seus planos desfeitos dará vazão à sua cólera, destruindo sua obra
“Satanás (...) sentindo-se fadado às correntes que emanam da mão de Deus Onipotente, bramindo de furor, sabendo que lhe fica pouco tempo para operar a maldade, vendo-se descoberto pela fé dos últimos apóstolos, (...) declarará a guerra, guerra aberta à Igreja organizada, restaurada e preparada para o combate” (“El apostolado y un ejército”, El Ermitaño, Nº 123, 16-3-1871).

Essa fase póstera da perseguição revolucionaria revelará o fundo mais recôndito dos corações dos homens:
“Os hipócritas e falsos católicos se afastarão dos verdadeiros, a luz deixará de se confundir com as trevas, e então principiará aquela perseguição em massa horrenda anunciada por toda a tradição contra a Igreja, contra esses eleitos para os últimos tempos” (“El triunfo de la Iglesia”, El Ermitaño, Nº 97, 15-9-1870).

O Beato acrescentava que o desvario em que cairá Satanás o levará a destruir suas próprias obras com toda espécie de cataclismos.

Esse será o monstruoso pagamento aos homens que acreditaram em suas promessas.

Também o bem-aventurado previa que o demônio se assanharia contra seus cúmplices humanos.

Fá-lo-ia especialmente contra aqueles que negando a existência dos espíritos das trevas, desmobilizavam as resistências dos católicos e aplainavam a estrada para o avanço da Revolução.

Agirá em tudo como instrumento revoltado, mas servil, da Justiça celeste, não podendo fazer nem mais nem menos do que aquilo que Deus permitir:
“Quando naqueles tenebrosos dias o Anjo da justiça de Deus entrar nas casas dos católicos para castigar sua incredulidade, encontrará nelas fé na existência dos demônios?

“Aqui estou eu, dirá, revelando-se ao incrédulo com figuras horripilantes. Aqui estou eu. Me vês?

“Acreditas porque me vês.

“Tarde acreditaste: venho não como apóstolo para pregar minha existência, mas como verdugo para castigar tua incredulidade.

“Vem comigo, serás meu companheiro de infortúnio nos infernos” (“Lluvia de estrellas”, El Ermitaño, Nº 158, 16-11-1871).
A derrota da Revolução e a restauração da Igreja em nossos dias será prefigura do triunfo final de Cristo Cristo glorificado no Céu, Fra Angelico, National Gallery of Art
A derrota da Revolução e a restauração da Igreja em nossos dias será prefigura do triunfo final de Cristo
Cristo glorificado no Céu, Fra Angelico, National Gallery of Art




Os Apóstolos dos Últimos Tempos e a catástrofe súbita da Revolução


O bem-aventurado Palau constatou em vida os maus resultados da mediocridade e da imprevidência.

Uma e outra vez foi alvo de incompreensão, e inclusive de difamação, quando prenunciou fatos lamentáveis.

Sentiu também ao vivo a ingratidão dos que poderiam ter-se beneficiado de seus avisos, quando viram que se cumpriam. Temia com razão que essa atitude nefasta se repetisse no dia do castigo de Deus.

Numerosas eram as pessoas que viviam tranquilas e otimistas na falsa paz e na prosperidade da república universal revolucionária de seu século, sem assestarem os olhos em todo mal incubado. Tais pessoas não queriam saber nem pensar em castigos.

Quando os acontecimentos previstos pelo santo carmelita tomarem corpo, eles aparecerão para os imprevidentes como uma surpresa súbita.

Ausentes, desarmados, desatentos ou instintivamente adversos à pregação do Moisés da Lei da Graça, não se interessarão seriamente pelos seus conselhos e advertências.

Terão continuado a levar indolentemente sua vida quotidiana, sem querer prestar atenção no perigo que se avolumava e o que haveria de suceder.

Então, cegos e desnorteados, sofrerão a tragédia que lhes fora anunciada e contra a qual não quiseram se precaver, trabalhar ou evitar. Ela virá como algo repentino, incompreensível e pasmoso:
“a última perseguição cairá sobre nós numa época que todos acreditaremos ser de paz; e pegará de surpresa a multidão de católicos insensatos que não acreditam nela, e que vão perder a fé, porque sua fé não está de acordo com a caridade” (“Roma y Jerusalén”, El Ermitaño, Nº 63, 13-1-1870).

Para o bem-aventurado, a Revolução adquiriu tais dimensões que seu desabamento será tremendo:
“a obra do diabo não pode cair sem uma estrepitosa e ruidosa catástrofe social universal” (“Noticias de Roma”, El Ermitaño, Nº 73, 24-3-1870).

A prisão do diabo no mundo oficial político onde ele reina, será a catástrofe mais horrenda de quantas tenham presenciado os séculos” (“El Papa, Carlos, Enrique”, El Ermitaño, Nº 106, 17-11-1870).

Os Apóstolos dos Últimos Tempos

Queda dos anjos rebeldes, Nicolás Francés (1390  - 1468), Cincinnati Art Museum
Queda dos anjos rebeldes, Nicolás Francés (1390  - 1468), Cincinnati Art Museum
Apóstolos dos Últimos Tempos ou apóstolos novíssimos: com estas expressões o Pe. Palau se refere em primeiro lugar a Elias, seja sua pessoa ou seu espírito em um Restaurador, e a Henoc:
“Elias e Henoc (...) são os apóstolos novíssimos que Deus tem preparados para restaurar o mundo” (“Dos grandes profetas”, El Ermitaño, Nº 101, 13-10-1870).

Em segundo lugar, ele as aplica aos discípulos do Restaurador, que secundarão sua epopeia e perpetuarão sua obra até que o telão da História desça definitivamente:
“Vejo descer do Céu uma ordem de apóstolos: são os novíssimos, e por meio deles Satanás será expulso da sociedade humana, e o mundo se converterá pela sua pregação” (“El triunfo de la Iglesia”, El Ermitaño, Nº 97, 15-9-1870)

“Elias virá, e virá numa ordem de apóstolos, ou missionários” (“Fray Onofre — Cuento de mi sombra”, El Ermitaño, Nº 29, 20-5-1869)

A esperança profética da vinda desses Apóstolos dos Últimos Tempos ardeu em numerosas almas virtuosas, algumas das quais a Igreja elevou à honra dos altares.

São Vicente Ferrer aconselhava meditar sobre esses apóstolos vindouros (San Vicente Ferrer, Tratado de la Vida Espiritual, in Biografía y escritos de San Vicente Ferrer, BAC, Madrid, 1956, 730 págs., pp. 539-541.).

São Boaventura os comparava aos serafins e previa que fariam sua aparição quando o mundo estivesse submerso em grandes tribulações (São Boaventura, Colaciones sobre el Hexaemeron, in Obras Completas, BAC, Madrid, 1972, 698 págs., 3ª ed., p. 522.).

Santa Teresa de Jesus O.C.D. os viu combatendo destemidamente com uma cruz no peito e São Francisco de Paula denominou-os “crucíferos”. Confira: Estamos nos Últimos Tempos ou já é o Fim do Mundo?

O grande pregador da devoção a Nossa Senhora, São Luís Maria Grignion de Montfort, os descreveu profeticamente com estes termos:
“o Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se avantajam às pequenas árvores em redor.

“Estas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, (...)

“combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias, e os ímpios com suas impiedades, (...)

Triunfo do Imaculado Coração de Maria, montagem baseada no 'Triunfo de Cristo sobre o paganismo', Gustave Doré (1832 — 1883), The Joey and Tobey Tanenbaum Collection, por www.schmalen.com
Triunfo do Imaculado Coração de Maria, montagem baseada no
'Triunfo de Cristo sobre o paganismo', Gustave Doré (1832 — 1883),
The Joey and Tobey Tanenbaum Collection, por www.schmalen.com
“Maria deve brilhar, como jamais brilhou, em misericórdia, em força e graça; (...) Maria deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente n esses últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques.

“Suscitará, em breve, perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho lhe dão para vencer.

“É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre. (...) (Gen, III, 15) Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar. (...)

“O poder de Maria sobre todos os demônios há de patentear-se com mais intensidade, nos últimos tempos, quando Satanás começar a armar insídias ao seu calcanhar, isto é, aos seus humildes servos, aos seus pobres filhos, os quais ela suscitará para combater o príncipe das trevas.

“Eles serão pequenos e pobres aos olhos do mundo, e rebaixados diante de todos como o calcanhar em comparação com os outros membros do corpo.

“Mas, em troca, eles serão ricos em graças de Deus, graças que Maria lhes distribuirá abundantemente.

“Serão grandes e notáveis em santidade diante de Deus, superiores a toda criatura, por seu zelo ativo, e tão fortemente amparados pelo poder divino, que, com a humildade de seu calcanhar e em união com Maria, esmagarão a cabeça do demônio e promoverão o triunfo de Jesus Cristo.

“(...) Serão “sicut sagittae in manu potentis” (Sl 126, 4) – flechas agudas nas mãos de Maria toda-poderosa, pronta a traspassar seus inimigos. (...)

“Serão nuvens trovejantes esvoaçando pelo ar ao menor sopro do Espírito Santo, que, sem apegar-se a coisa alguma nem admirar-se de nada, nem preocupar-se, derramarão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna.

“Trovejarão contra o pecado, e lançarão brados contra o mundo, fustigarão o demônio e seus asseclas, e, para a vida ou para a morte, traspassarão lado a lado, com a espada de dois gumes da palavra de Deus (Cf. Ef 6, 17), todos aqueles a quem forem enviados da parte do Altíssimo.

“Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, e o Senhor das virtudes lhes dará a palavra e a força para fazer maravilhas e alcançar vitórias gloriosas sobre seus inimigos; (...)

“Eis os grandes homens que hão de vir, suscitados por Maria, em obediência às ordens do Altíssimo, para que o seu império se estenda sobre o império dos ímpios, dos idólatras e dos maometanos.

“Quando e como acontecerá?... Só Deus o sabe!”(São Luís Maria Grignion de Montfort, “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, 19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992).

* * *

Por fim, convém insistir na distinção essencial entre “últimos tempos” e “fim dos tempos”.

A primeira expressão indica as fases finais da História, que podem abarcar vários séculos, dependendo da fidelidade ou da infidelidade dos bons.

A expressão “fim dos tempos” indica os episódios que encerrarão definitivamente a História, e que, por definição, serão breves e conclusivos.

O “fim dos tempos” é o encerramento dos “últimos tempos”.

Quando começam ou começaram os “últimos tempos”?

Há divergência quanto à data marco.

Em todo caso, na perspectiva palauciana, os dias do Moisés da Lei da Graça prometido nos imergem plenamente nessa era histórica que tal vez – e muito provavelmente – é a nossa.


Vídeo: É o Fim do Mundo? Nossa Senhora diz: NÃO!




Chegamos ao Fim do Mundo?
Nossa Senhora em La Salette e Fátima, muitos santos, como São Luis Grignon de Montfort, Santa Teresa de Jesus ou o Beato Palau afirmam categoricamente: NÃO É O FIM!




11 comentários:

  1. Estamos vivenciando esta época? O MEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFARÁ! NOSSA SENHORA DE FÁTIMA VINDE EM NOSSO AUXÍLIO!

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    1. Sem dúvida! Estamos vivendo essa época, sim!

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  2. OBRIGADA! GOSTEI MUITO!

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  3. Carissimo Sr. Dufour,
    Salve Maria!
    Muito obrigado por estes "posts", as profecias de Beato Palau. Sao muitas iluminadoras.
    Que Nsa. Sra. lhe recompensa e que obtenha por todos de nos a graca do "grande perdao".
    Prometo de lembrar o sr. hoje em uma maneira especial e peco o obsequio de oracoes.
    In Jesu et Maria,

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  4. Quanto tenho aprendido!
    Louvado seja Deus em todos os recantos da Terra
    Ele é a força do poder é o poder da Força.
    Só Ele pode tirar nos deste fosso diabolizado.
    Obrigada
    Bem hajam

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  5. Excelente post! Como sempre Luis Dufaur brilhante na explanação das profecias deste grande Santo Católico Beato Francisco Palau y Quer, por que não foi ele canonizado pela Igreja Católica Apostólica Romana ? Será que é por ele ter profetizado a vinda do anticristo e a tomado do poder pelo falso profeta nos finais dos tempos ? Quais foram os milagres realizados pelos Papas João XXIII para ser canonizado, e a beatificação do Papa Paulo VI que consolidou as heresias do Concílio Vaticano II ? Deus está em todas as religiões ? Todas as religiões tem uma parte da verdade ? MENTIRA! A VERDADE É JESUS CRISTO: "EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA"! "QUEM ESTÁ COMIGO NÃO É CONTRA MIM, QUEM AJUNTA COMIGO NÃO ESPALHA", DIZ O DEUS TODO-PODEROSO, AQUELE QUE É, QUE ERA E QUE VEM O DOMINADOR! MARANATHA! VEM SENHOR JESUS!

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  6. Excelentes revelações
    Arrepiam
    Obrigada

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  7. Caro Luis Dufaur,

    Esta série de posts renderá um livro?

    Att.

    Adriano

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    1. Prezado Adriano,
      há matéria e desejo para isso. Mas não acabei de preparar os posts seguintes! Quem sabe com o tempo consigo tudo.
      Att

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  8. Obrigado! Ficamos no aguardo.

    Att.
    Adriano

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  9. Os dois profetas serão duas pessoas propriamente ditas ou dois movimentos? A revolução não seria também uma liturgia deturpada de um novo culto dentro das Igrejas, por exemplo uma celebração (missa) falsa?

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