segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A via de Marie des Vallées, esperança para o mundo em desvario

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes.
Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Continuação do post anterior: A mensagem do Sagrado Coração de Jesus e o SIM real que poderia ter mudado a História



Uma das horríveis consequências da recusa do rei Luís XIV ao convite do Sagrado Coração de Jesus foi a demolição da obra que os grandes santos mencionados vinham realizando.

São Luís Grignion de Montfort morreu limitado a pregar em apenas duas dioceses e viu a sua derradeira obra – o Calvário de Pontchâteau – demolida por ordem do próprio rei.

Tudo pareceu perdido. Até seu famoso Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem ficou esquecido e perdido após a morte do santo autor em 1716.

Somente por volta de 130 anos depois foi redescoberto. Foi achado em 1842 poucos anos antes da Santíssima Virgem aparecer em La Salette em 1846.


A recusa do rei ao apelo do Sagrado Coração foi seguida pela destruição da obra dos santos que trilhavam a via de Soeur Marie des Vallées
A recusa do rei ao apelo do Sagrado Coração
foi seguida pela destruição da obra dos santos
que trilhavam a via de Soeur Marie des Vallées.
Na foto, o relicário com os restos mortais de São Luís Grignon.
Mas essa via aparece como esperança de salvação para o III milênio.
Na aparição Nossa Senhora retomou as palavras do Tratado e apelou pela vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos que São Luis Maria apelava com todo o fogo de sua alma.

Desde então, os ensinamentos do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem se difundiram traduzidos a centenas de línguas e foram adotados por uma infinidade de católicos no mundo inteiro.

A Companhia do Santíssimo Sacramento havia sido dissolvida pelo jovem Luís XIV porque constituía o cerne da “cabale des dévôts” — nome depreciativo dado pelo memorialista Saint-Simon aos nobres e seus conselheiros religiosos que levavam a sério o catolicismo na Corte de Versailles.

São Francisco Xavier de Montmorency-Laval, Arcebispo de Québec, no Canadá, lutou como um leão contra a invasão protestante da América do Norte quase sem apoio do governo real.

Ele estruturou de tal maneira a Igreja Católica no Canadá, que magotes de heroicos soldados franceses, caçadores de peles e tribos indígenas recém convertidas ao catolicismo resistiram ao avanço de corpos expedicionários protestantes ingleses de grande envergadura e poder de fogo.

Resistiu à avançada protestante, que estava lançando as bases dos futuros EUA, sem receber apoio digno ou proporcionado da corte mais brilhante do mundo.

Esse abandono levou à perda de quase todo o território francês e católico na América do Norte, dando no atual Canadá e em boa parte dos EUA.

Com uma França onde reinava o Coração de Jesus não poderíamos ter tido uma América do Norte franco — ou franco-anglofona — católica contrarrevolucionária?

São João Eudes foi outro herói da reforma do clero e do povo pela difusão da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Ele foi muito perseguido pelo rigorismo jansenista e pela passividade do quietismo, erros que dominavam o corpo episcopal interessado nos benefícios da vida de Corte.

Mas tinham-no caluniado. Luís XIV no final suspeitava dele, após prestar ouvidos a sofismas de fonte heterodoxa. Perto da morte, o santo dizia: “Prefiro morrer a fazer qualquer coisa que desagrade àquele que na terra ocupa para mim o lugar do Rei do Céu”.

Por ordem de Luís XIV todas as suas fundações foram fechadas pelo ímpio ministro Colbert, e o santo morreu em prisão domiciliar em Caen.

Posteriormente, muitos sacerdotes da Congregação por ele fundada foram martirizados durante a Revolução, na prisão de Carmes e sobre as pontes de Rochefort.

Os movimentos que esses santos geraram não morreram, mas ficaram sem a cabeça real que o Sagrado Coração havia escolhido.

Túmulo de São Francisco de Motmorency Laval na catedral de Québec, Canadá.
Túmulo de São Francisco de Motmorency-Laval na catedral de Québec, Canadá.
Pior, o rei se voltou contra os santos, embora tenha moderado seus costumes e praticado o catolicismo sem muito entusiasmo na parte final de sua vida.

Nos últimos anos de seu longo reinado Luís XIV viu todos seus descendentes morrerem envenenados — segundo se dizia na Corte —, só ficando um bebê – o futuro Luís XV – e um regente – seu primo, o duque de Orleans, ao qual se atribuíam os supostos envenenamentos.

O pensamento igualitário e os costumes imorais haviam infestado as elites sociais, preparando a Revolução Francesa que culminou com o guilhotinamento do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta.

Apesar de tudo, as heroicas inclinações espirituais suscitadas pela falange de santos e místicos mencionados continuaram difusamente generalizadas pela Franca.

A pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort animou a resistência da Vendée à Revolução Francesa e continua largamente difundida pelo mundo.

A devoção ao Sagrado Coração inspirou grandes episódios de fé. A devoção ao Menino Jesus teria uma renovada expansão com Santa Teresinha.

Os mártires das Missions Etrangères ainda conquistariam incontáveis pagãos etc. Santa Teresinha ofereceu sua vida por missionários desta associação e até aspirou a ser carmelita no norte do Vietnã (Tonquim na época).

Luis XVI conduzido ao cadafalso. Fez a promessa que Luis XIV recusou, mas tarde demais. Jean-Jacques Hauer  (1751 – 1829), Museu Carnavalet
Luis XVI conduzido ao cadafalso.
Fez a promessa que Luis XIV recusou, mas tarde demais.
Jean-Jacques Hauer  (1751 – 1829), Museu Carnavalet

Eis o teor:

“Bem vedes, oh meu Deus, a grande tristeza que me oprime o coração, os desgostos que o laceram e a profundidade do abismo em que cai. De todas as partes me vejo rodeado de inumeráveis males.

“A minhas horríveis desgraças e de minha família acrescem, para opressão da minha alma, as que cobrem a face do reino.

“A meus ouvidos chegam os clamores de todos os desgraçados e os gemidos da religião oprimida, e uma voz interior me adverte de que talvez a vossa justiça me lança em rosto todas estas calamidades, porque nos dias de meu poder, não refreei a licença do povo e a irreligião que são a sua principal causa; por eu próprio ter fornecido armas à heresia, que triunfa, favorecendo-a por leis que lhe deram força dobrada e a audácia a tudo se atrever.

“Oh Jesus Cristo, divino Redentor de todas as nossas iniquidades, é no vosso adorável Coração que hoje venho desafogar a minha alma aflita.

“Chamo em meu auxílio o terno Coração de Maria, minha augusta protetora e mãe, e a assistência de S. Luiz, meu advogado e o mais ilustre de meus antepassados.

“Abri-vos, Coração adorável, e pelas tão puras mãos de meus poderosos intercessores recebei, benigno, os satisfatórios votos, que a confiança me inspira e que vos ofereço como franca expressão de meus sentimentos.

“Se, por efeito da bondade divina, eu recuperar a liberdade, a coroa e o poder real prometo solenemente:

“1. Revogar quanto antes todas as leis que me forem indicadas ou pelo Papa, ou por um concilio ou por quatro bispos dos mais ilustrados e virtuosos de meu reino, como contrárias à pureza e integridade da fé, disciplina e jurisdição especial da santa Igreja católica apostólica romana, e especialmente a Constituição civil do clero.

“2. Tomar, dentro em um ano, todas as providências necessárias para estabelecer, com aprovação do Papa e do episcopado do meu reino, e conforme as formas canônicas, uma festa solene em honra do Sagrado Coração de Jesus, a qual será celebrada para sempre em toda a França na primeira sexta-feira depois da oitava do Corpo de Deus, e sempre seguida de uma procissão geral, em reparação dos ultrajes e profanações cometidas em nossos santos templos, durante estes tão revoltos tempos, pelos cismáticos, hereges e maus cristãos.

“3. Ir eu próprio em pessoa, dentro em três meses, a contar do dia de meu livramento, à igreja de Notre-Dame de Paris, ou a qualquer outra principal do lugar onde me achar e pronunciar, em um domingo ou dia de festa, junto ao altar-mor, depois do ofertório da missa e nas mãos do celebrante, um ato solene de consagração de minha pessoa, família e reino ao Sagrado Coração de Jesus prometendo dar a todos os meus vassalos o exemplo do culto e devoção devidos a esse Coração adorável.

“4. Levantar e adornar a minha custa, na igreja que para isso escolher, no decurso de um ano, a contar do dia de minha soltura, uma capela ou altar, que será dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, e que servirá de monumento perdurável de meu reconhecimento e confiança ilimitada nos merecimentos infinitos e tesouros inesgotáveis de graças que este divino Coração em si encerra.

“5. Finalmente, renovar todos os anos, aonde eu estiver, no dia da festa do Sagrado Coração, o ato de consagração declarado no artigo terceiro, e assistir à procissão geral, que se fará logo depois da missa do dia.

“Agora não posso pronunciar senão em segredo este pacto, mas assiná-lo-ia, se fosse necessário com meu sangue; e o mais belo dia de minha vida será aquele em que eu possa publica-lo em voz alta no templo:

“O adorável Coração de meu Salvador! Esqueça-me eu de minha mão direita e de mim mesmo, se desconhecer os vossos benefícios e estas minhas promessas; se cessar de vos amar e pôr em vós toda a minha confiança e consolação!”

(Fonte: Mons. Emile Bougaud, Vigário Geral de Orleans, “História da Beata Margarida Maria – ou Origem da devoção ao Coração de Jesus”, Livraria Internacional, Porto-Braga, 1879, 519 pp., p. 388-391).
Imensas desgraças e sofrimentos se abateram sobre a França em decorrência da Revolução Francesa. Basta mencionar os milhões de mortos das guerras napoleônicas.

A nobreza teve inúmeros membros guilhotinados ou vilmente assassinados, e em boa parte partiu para o exílio em condições de miséria.

Os exilados que voltaram vivos reconstituíram as famílias e os patrimônios e, sobretudo, mudaram muito de vida se voltando para a religião que haviam abandonado no brilhante mas frívolo Ancien Régime.

Em boa medida alimentaram um núcleo de fidelidade ao catolicismo. Muitos outros, de menor extração nobiliárquica ficaram na França combatendo nas guerras de resistência civil – a da Vendée é a mais famosa – contra a Revolução morrendo nos campos da honra.

Os bispos, com duas exceções, e muitos sacerdotes fugiram da morte se exilando para não jurar a Constituição Civil do Clero. 

Napoleão I extorquiu do Papa Pio VII uma Concordata nefanda e perderam as dioceses. Em seu lugar foram sendo nomeados eclesiásticos que aderiam às novas ideias e foram precursores da crise religiosa hodierna.

E os sucessores de Luís XIV que atitude tomaram face ao pedido do Sagrado Coração de Jesus?

Luís XVI já destronado e preso na Torre do Templo, antes de ser guilhotinado, fez um juramento escrito de que se fosse liberado executaria os pedidos do Sagrado Coração transmitidos por Santa Margarida Maria Alacoque.

Mas foi tarde... A promessa escrita do rei prisioneiro deixou claro que a mensagem tinha ficado viva na lembrança da família real, embora não acolhida.

Na Restauração, nenhum rei legítimo ou ilegítimo, atendeu os pedidos do Rei dos Céus. 

Porém, na França flagelada, notadamente pela explosão comunista da Comuna de Paris, se generalizou o sentimento de que era preciso reparar a recusa.

Assim, por subscrição nacional, foi paga a construção da basílica do Sagrado Coração de Jesus na colina de Montmartre de Paris, hoje tão visitada.

Mas, o rei bem-amado a quem se dirigiu em pessoa o pedido do Sagrado Coração já não estava mais...

A própria Nossa Senhora voltaria misericordiosamente à França, aparecendo na Rue du Bac, em La Salette e em Lourdes, para só citar suas principais intervenções.

Em 1830, na Rue du Bac, Nossa Senhora deu a Santa Catarina Labouré a Medalha Milagrosa que traz unidos o Sagrado Coração de Jesus e o Coração Imaculado de Maria, como pregada por Sœur Marie des Vallées, e de modo muito eminente pelo seu confessor-discípulo São João Eudes.

A Medalha Miraculosa foi distribuída por centenas de milhões no mundo inteiro.

Medalha Milagrosa verso

Mas a linguagem da Mãe de Deus mudou de tom.

O Sagrado Coração prometeu uma sucessão de vitórias esplendorosas. Nossa Senhora falou de tremendos castigos se o mundo não fizesse penitência.

A História tomou um rumo diverso em função da insensibilidade do rei que poderia tê-la mudado para o bem.

Aparentemente todo o apostolado místico de Sœur Marie des Vallées, que convidava a uma troca de vontades de Luís XIV com o Sagrado Coração de Jesus, parecia ter sido em vão.

Porém, os planos misericordiosos da Providência vão além do que nós, criaturas humanas, podemos supor.

O mesmo podemos dizer da via aberta por Sœur Marie des Vallées, e seu eco no III milênio!


Continuação no próximo post: Sœur Marie obtém a promessa dos Apóstolos do Últimos Tempos


Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


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