segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Sœur Marie obteve a promessa dos Apóstolos do Últimos Tempos

Sagrado Coração de Jesus, col. part.
Sagrado Coração de Jesus, col. part.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: A via de Marie des Vallées, esperança para o mundo em desvario



São João Eudes entabulou relações religiosas com Sœur Marie des Vallées, em agosto de 1641.

Tal aconteceu porque naquela data o santo pregador fora enviado pelo bispo de Coutances, Mons. de Matignon, para acompanhar o caso de uma possessa.

Em contato com ela, o Doutor do Sagrado Coração logo percebeu tratar-se do caso extraordinário de uma alma de escol perseguidíssima pelo demônio e por seus asseclas feiticeiros.

Devemos, portanto, ao Santo todos os escritos que dispomos sobre Sœur Marie des Vallées, pois ele foi seu confessor e diretor espiritual até a morte.

Paradoxalmente, o diretor acabou sendo o dirigido, no sentido de que ela lhe transmitiu da parte de Deus a missão de difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, ao Coração de Maria, aos dois Corações considerados como um só, e a ‘troca de vontades’ do fiel com esse Coração, como veremos.

No mesmo ano — 1641 — em que as duas santas almas entravam em contato, Santa Margarida Maria Alacoque, confidente e intermediária das mensagens do Sagrado Coração ao rei Luís XIV, ingressava no convento das visitandinas em Paray-le-Monial, na Borgonha, assaz distante da Normandia.

Nenhuma dessas santas almas sabia do plano do Coração de Jesus, Quem, entretanto, o conhecia e conduzia com suavidade e sabedoria infinitas.

Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos.
Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu
a graça de trocar de coração com Jesus.
Sœur Marie des Vallées abriu essa via para muitos escolhidos.
O exemplo espiritual transmitido por Sœur Marie des Vallées a São João Eudes (1601–1680) chegou a São Luís Maria Grignion de Montfort (1673–1716), que o incorporou na essência de seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem e da devoção da Sagrada Escravidão de amor à Mãe de Deus.

Durante 15 anos até a morte de Sœur Marie, São João Eudes registrou suas experiências místicas, visões e revelações, ensinamentos e fatos principais de sua vida, ora com suas próprias palavras, ora reproduzindo entre aspas as palavras da “santa de Coutances”.

Ele nos fornece um resumo da vida dela no período anterior à sua direção espiritual.

O Santo encontrou Marie des Vallées em plena tempestade espiritual resultante de uma possessão singular. No capítulo 6 do livro I, o Santo nos conta esta cena de terror:

“Desde o dia em que foi possuída por espíritos malignos, sofreu estranhamente pelo espaço de cinco anos com as maldições da bruxaria: especialmente nos últimos dois anos, durante os quais quase dia algum se passava sem que lançassem novos feitiços contra ela, e às vezes vários em um dia. (...)

“Os feiticeiros— diz ela —, aliados aos demônios, têm muito mais poder para fazer sofrer do que os homens ou demônios sozinhos” (op. cit. p. 17)

São João Eudes conta que quando ela foi exorcizada em Coutances, o exorcista ordenou ao demônio destruir o feitiço jogado contra ela.

Mas o demônio respondia que só o mago que o tinha jogado poderia fazer isso, e declinou seu nome.

Após três dias de busca, o feiticeiro foi pego e trazido à força, mas negava tudo. Até que, por fim, o demônio o constrangeu a confessar no que consistia o feitiço.

Marie des Vallées pôde expeli-lo pela boca, descobrindo que se tratava de matéria humana cerebral. “Eis o feitiço – disse o espírito maligno – está feito com o cérebro de uma criancinha” (p. 19).

Esse é apenas um exemplo entre muitos outros.

Marie des Vallées recomendava como remédios contra os diabos tudo o que a Igreja abençoa: água benta, sal bento, óleo bento, orações, exorcismos etc.

Mas Deus lhe pedia essas provações inimagináveis para obter bens também inimagináveis.

Um desses bens consistiu em obter que Deus enviasse os Apóstolos dos Últimos Tempos, dos quais quase não se fazia então a menor ideia.

Nosso Senhor lhe revelou essa missão num dia em que ela rezava com muita piedade o Salmo 71 na catedral de Coutances.

O salmo louva o Senhor por ter vindo à Terra e ter implantado seu Reino efetivamente:

“11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações.

“12. Porque ele livrará o infeliz que o invoca, e o miserável que não tem amparo.

“13. Ele se apiedará do pobre e do indigente, e salvará a vida dos necessitados.

“14. Ele o livrará da injustiça e da opressão, e preciosa será a sua vida ante seus olhos.

“15. Assim ele viverá e o ouro da Arábia lhe será ofertado; por ele hão de rezar sempre e o bendirão perpetuamente.

“16. Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas como as ramagens do Líbano; e o povo das cidades florescerá como as ervas dos campos.

“17. Seu nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra, bem-aventurado o proclamarão todas as nações”. (Salmo 71 – 1-17)

Ela se sentia especialmente consolada ao pronunciar o versículo 17 e as palavras “as ramagens do Líbano”, a ponto de denominá-lo com insistência “meu belo versículo”.

São João Eudes registra a explicação que o próprio Nosso Senhor deu a ela:

A “fartura de trigo” significa o Santíssimo Sacramento. O “cume das colinas” são as pessoas divinas da Santíssima Trindade. As “ondulações” serão os pregadores que trabalharão para a conversão geral.

“As ramagens do Líbano, prossegue São João Eudes, ou seja, os cedros que representam os grandes santos com os quais o mundo será habitado naquele tempo, e particularmente os infiéis convertidos, que após a sua conversão superarão em santidade os fiéis da nossa época como os cedros superam as árvores comuns.” (p. 195)


E ainda completa:

“Finalmente, Nosso Senhor lhe disse que ela estava certa, que esse era seu belo versículo, já que era por sua mediação e pelo mérito dos sofrimentos que Ele pôs sobre ela que os pecadores seriam convertidos e que os vasos de abjeção seriam transformados em vasos de eleição” (p. 196).
São Luís Maria Grignion de Montfort fez sua essa profecia e a desenvolveu no Tratado da Verdadeira Devoção com estas palavras:

“47. O Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se avantajam às pequenas árvores em redor, segundo revelação feita a uma santa alma, cuja vida foi escrita por M. de Renty.

“48. Estas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra (cf. No. 4, 17).

“Com a direita combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias, e os ímpios com suas impiedades; e com a esquerda edificarão o templo do verdadeiro Salomão e a cidade mística de Deus, isto é, a Santíssima Virgem que os Santos Padres chamam “o templo de Salomão” e “a cidade de Deus”.

“Por suas palavras e por seu exemplo, arrastarão todo o mundo à verdadeira devoção e isto lhes há de atrair inimigos sem conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único Deus.


“É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande apóstolo de seu século, e que se encontra assinalado em uma de suas obras”.

Um dia, movida por um impulso extraordinário, Sœur Marie exclamou:

“Quero ver os cedros do Líbano, quero vê-los caminhando e andando pelos nossos quartos e pelas ruas com o chifre do Unicórnio na testa e o barrete na cabeça, de tal modo que, quando andem, todos os honrem; e quero cantar pelas ruas um cântico de glória e louvor a Deus, e todos me responderão.

– Sim, respondeu-lhe Nosso Senhor, você verá os cedros do Líbano e os verá andando em seu quarto.

“Esses cedros são aqueles que se destacam pela excelência da santidade no momento da conversão geral.

“Carregar o chifre de unicórnio na testa significa fazer reinar a Vontade divina representada pelo chifre de unicórnio. Porque como o chifre de unicórnio expulsa o veneno, também a Vontade divina expulsa o veneno do pecado onde está.

“O barrete quadrado é a cruz de Nosso Senhor, na qual os sacerdotes e os magistrados colocarão a sua glória”
– explicou (p.308).

Jesus volta a falar dos Apóstolos dos Últimos Tempos


Em numerosas visões, Nosso Senhor apresentava imagens da ordem temporal e material para depois explicar seu significado sobrenatural a Sœur Marie.

Para lhe mostrar o martírio espiritual que implica entregar totalmente a própria vontade à Vontade Divina, como desejava Marie, Jesus lhe deu o seguinte ensinamento, que São João Eudes reproduz na página 320 da obra magistral que estamos citando:

“O caminho mais curto para se chegar ao martírio é seguir a Vontade divina em tudo e em qualquer lugar.

“Para uma maior compreensão dessa verdade, Sœur Marie disse que viu certa vez uma videira muito viçosa, carregada de uvas muito bonitas e muito maduras, que eram do tamanho de ameixas, e também tinha folhas grandes e formosas que as cobriam.

“Eis que vem São Gabriel e corta essa videira pelo pé e a transplanta no Céu.

“Nosso Senhor me diz que essas uvas foram todas cuidadas para ficarem cheias de açúcar, e que não eram para fazer vinho. ‘Mas são’, diz Ele, para ‘servi-las à nossa mesa, à nossa sobremesa!”

“Eis a explicação.

“As uvas são os grandes santos que Nosso Senhor chama de cedros do Líbano, que existirão naquele momento em que Ele derramará suas graças em abundância e converterá todos.

“Todos serão cristalizados com o açúcar da graça e acompanharão perfeitamente a vontade divina, buscando somente a Deus, servindo-O e amando-O pelo amor d’Ele próprio, como se não houvesse céu nem inferno.

“As folhas da videira representam a grande e gloriosa reputação que esses santos terão diante de Deus e diante dos homens.

“Serão grandes mártires, embora os carrascos não os toquem, mas serão mártires do Amor divino.

“Serão queimados na fornalha e serão mártires maiores do que muitos outros primeiros mártires que sofreram o martírio pela esperança das coroas e da glória.


“Porque eles não olham para a recompensa, mas só para a glória de Deus e seguem em tudo e em toda parte a sua muito adorável vontade”. (p. 3210-321)

Nosso Senhor disse a ela que, para procurar a Misericórdia, que havia ficado sem forças para prosseguir no caminho, era necessário trazê-la com um cavalo.

Essa imagem significava a necessidade de almas que atraíssem a Misericórdia com seus sofrimentos como um cavalo que puxa um carro, fustigado até pelo dono. Isso se deu pela grande aflição que se abateu sobre Sœur Marie.

Depois de tê-la aceito, ela viu pessoas beneficiadas pela Misericórdia que marchavam alegremente. E compreendeu que Nosso Senhor mostrava que por essa via os homens serão convertidos e se apoiarão adequadamente na palavra de Deus. (p.345)

Numa outra vez, Sœur Marie ouviu Nosso Senhor falando primeiro aos pagãos, depois aos hereges e, por fim, à Igreja Católica. Suas palavras para a Igreja foram extremamente duras, tratando-a de “desavergonhada atrevida”, que não aproveitava os méritos de Sua Paixão.

Sœur Marie ficou espantada com o que Ele estava falando. Porém, Jesus lhe explicou que a tratava assim “porque é sua esposa que se prostitui para pecar tão descaradamente que chegava a fazê-lo na presença d’Ele e diante de seus olhos”. (p. 352)

De onde a necessidade de almas reparadoras.


Continua no próximo post: A “grande tribulação” que purificará o mundo

Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


3 comentários:

  1. Muito interessante esse texto!

    Obrigado por partilhar ensinamentos tão interessantes. Gostaria de destacar o seguinte, pois vivemos em tempos onde a bruxaria e o ocultismo estão muito fortes e tendem a aumentar.

    “os feiticeiros— diz ela —, aliados aos demônios, têm muito mais poder para fazer sofrer do que os homens ou demônios sozinhos” (op. cit. p. 17)

    Por isso, é preciso que se forme um exército de almas santas na Igreja, incluindo sacerdotes exorcistas, para refrearem essa onda maligna.

    ResponderExcluir
  2. Estamos em tempos onde a bruxaria e o ocultismo aumentaram muito. Por isso, precisamos dos apóstolos dos últimos tempos.

    A propósito, vejam!

    Los Maleficios Aumentarán porque Entramos en una Batalla Decisiva [¿cómo protegerse?]
    https://youtu.be/RrJVBrqC1Lk

    ResponderExcluir
  3. Veja esse texto de um exorcista!
    Ele conta o caso de uma moça que foi vítima de feitiçaria e que vomitou um bolo. Parece ser algo sem sentido dizer isso, mas os possessos e as vítimas de feitiçaria costumam vomitar coisas.

    Exorcist Diary #152: The 70/30 Rule in an Exorcism
    https://www.catholicexorcism.org/post/exorcist-diary-152-the-70-30-rule-in-an-exorcism

    Já o caso da Soeur Marie des Valées é um caso bem particular, pois ela desempenhava a missão de vítima pela conversão dos pecadores.

    ResponderExcluir