segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Marie des Vallées no cerne de uma rede de santos

Nas pegadas de Marie des Vallées, São Joãu Eudes pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Nas pegadas de Marie des Vallées, São João Eudes
pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Deus promete os Apóstolos dos Últimos Tempos e um dilúvio do Espírito Santo




Durante toda sua vida Sœur Marie des Vallées foi um signo de contradição. E depois de sua morte os apaixonamentos contra ela não se apaziguaram. Seus amigos, colegas e defensores continuaram sendo perseguidos.

Muitos vinham a rezar sobre seu túmulo em Coutances. O Sr Langry se fez enterrar perto dela. Vários jesuítas defenderam sua memória.

Era venerada em numerosos conventos, disputava-se suas relíquias e fragmentos de suas roupas.

Os inimigos ficaram mais agressivos, e sempre mais pérfidos. Mas os milagres se multiplicavam. Aparições lhe foram atribuídas.

Duas personalidades católicas se destacaram entre os filhos espirituais da mística de Coutances.

Um deles foi um leigo: o barão Gaston de Renty. Casado e pai de cinco filhos, o nobre Renty não pode realizar seu sonho de se tornar cartuxo.



O barão Gaston de Renty sobre quem Nossa Senhora aconselhou “Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho”
O barão Gaston de Renty sobre quem Nossa Senhora aconselhou:
“Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho”
Mas com o influxo e participação de São Vicente de Paulo foi exímio articulador da Companhia do Santíssimo Sacramento, um grande fruto da Contrarreforma Católica, promovida pelo Concílio de Trento.

Com seu talento oratório, Bossuet em 1652 dizia que a Companhia pretendia “construir uma Jerusalém em meio à Babilônia”.

A Companhia funcionou como uma sociedade secreta católica, reconhecida pela hierarquia, devotada a honrar a Eucaristia e combater a revolução cultural libertina espalhada pelas sociedades de pensamento e que tinha seu foco central na Corte de Versailles e preparava as condições para a Revolução Francesa.

O primeiro presidente da Companhia foi Henri de Lévis, duque de Ventadour. O barão de Renty assumiu a liderança em 1640, mas foi dissolvida em 1666 pelo rei Luis XIV, 17 anos depois da morte do próprio Renty.

A Companhia era elitista e nela ingressaram até bispos, além de nobres e santos, abadessas, teólogos e juízes.

A Companhia se tornou célebre e muito odiada porque se opunha ativamente aos erros das Luzes e das influencias morais nocivas que desciam da Corte na forma de modas, “luzes” e pretextos culturais. Era o cerne daquilo que o célebre memorialista duque de Saint-Simon descreve como "cabale des dévots" ("partido dos devotos", católicos é claro).

Especialmente lembrada é a polêmica contra as frívolas, mas revolucionárias, comédias de Molière.

Esse autor incluiu virulentos ataques à piedosa Companhia em sua escandalosa obra Tartuffe. As proibições, processos e excomunhões dessa comédia revolucionária acabaram sendo pretexto para fechar a piedosa Companhia.

Mons.Pierre Lambert de la Motte, um dos fundadores das Missões Estrangeiras.
Mons.Pierre Lambert de la Motte,
um dos fundadores das Missões Estrangeiras.
Da Companhia emanou a inspiração e o impulso para a benemérita Missions Étrangères de Paris em 1658, (“Seminário para a Conversão dos Infiéis nos Países Estrangeiros”) fundada por dois bispos, então simples sacerdotes, Pierre Lambert de la Motte (1624 - 1679) e François Pallu (1626 - 1684) com o apoio de São Vicente de Paulo e da Compagnie du Saint-Sacrement da qual eram membros.

Foi um verdadeiro foco de mártires, e um poderoso estímulo à Escola Francesa de Espiritualidade com incontáveis exemplos de heroísmo e martírio em continentes pagãos em oposição aos libertinismo que se espalhava na França.

Até Santa Teresinha séculos depois participou espiritualmente nessa onda de heroísmo apostólico com seus sacrifícios e orações que ficaram registrados.

Gaston de Renty foi apresentado a Marie des Vallées pela mediação de sóror Marie du Saint-Sacrement, do Carmelo de Pontoise. São João Eudes também o estimulou a se relacionar com ela.

Em novembro de 1641, Sœur Marie perguntou à Nossa Senhora:

– Quem é esse ai?

– É aquele que eu te prometi. Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho. Ele é meu, e eu o associo com todos os que te procuram.

Marie des Vallées e São João Eudes


São João Eudes foi confessor, discípulo e anotador de Soeur Marie des Vallées
São João Eudes foi confessor, discípulo
e anotador de Soeur Marie des Vallées
Outra pessoa chave na vida de Marie foi São João Eudes. Ele nasceu em 1601 em Ri, perto de Argentan, diocese de Séez.

Foi ordenado sacerdote em Paris no dia 20 de dezembro de 1625, e ingressou no instituto do Oratório onde ficou perto de vinte anos.

Em 26 de outubro de 1640, São João Eudes foi eleito superior do Oratório de Caen, na Normandia.

Em 1641 ele conheceu a Sœur Marie des Vallées, e, por pedido de Mons. Léonor Goyon de Matignon (1604-1680), bispo de Coutances (1627 – 1646), assumiu sua direção espiritual que duraria até a morte da “santa de Coutances”.

 Lembrando-se desse período, São João Eudes escreveu:

“No mesmo ano de 1641, no mês de agosto, Deus me deu um dos maiores favores que já recebi de sua bondade infinita.

“Porque foi nessa época que tive a felicidade de começar a conhecer a Sœur Marie des Vallées, por quem a divina Majestade me concedeu um número muito grande de graças muito notáveis.

“Depois de Deus, devo esse favor à Santíssima Virgem Maria, minha muito honrada Senhora e minha querida Mãe, a Quem nunca poderei agradecer suficientemente”.

Essas insignes graças de Deus vieram acompanhadas por dolorosas perseguições por parte de seus irmãos no sacerdócio.

Santa Maria Eufrásia Pelletier
Santa Maria Eufrásia Pelletier
São Vicente de Paulo, Basilica St Elizabeth Ann Seton, Emmitsburg, EUA
São Vicente de Paulo, basílica S.Elizabeth Seton,
Emmitsburg, EUA
São João Eudes acabou se desligando do Oratório em março de 1643 para fundar a Congregação de Jesus e Maria, mais conhecida como padres Eudistas.

Também fundou a Ordem de Nossa Senhora da Caridade destinada a prostitutas arrependidas que, após a reforma de Santa Maria Eufrásia Pelletier ficou conhecida como o Bom Pastor.

Nossa Senhora mostrou a Marie des Vallées o hábito que deviam usar essas religiosas.

Sœur Marie des Vallées dizia a São João Eudes que fizera essas fundações porque inspiradas pelo próprio Cristo.

João Eudes e seus sacerdotes privilegiavam as pregações populares com o método que depois seria retomado por São Luis Maria Grignon de Montfort.

Em 1643, São João Eudes fundou a Sociedade dos Filhos do Sagrado Coração da Mãe Admirável, na qual ingressou Marie des Vallées.

A confraria voltada para mulheres não casadas que guardavam a castidade no mundo, agiu clandestinamente durante a Revolução Francesa dando refúgio aos sacerdotes “refratários” que não haviam jurado a ímpia Constituição.

Há quem defenda que essa fundação foi fortemente encorajada por revelações a Marie des Vallées.

São Luís Grignion de Montfort aplicou a 'troca de vontades' de Soeur Marie e pregou a escravidão a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora
São Luís Grignion de Montfort aplicou a 'troca de vontades' de Soeur Marie
e pregou a escravidão a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora
São João Eudes foi declarado pelos Papas Doutor e Apóstolo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, precedendo a Santa Margarida Maria Alacoque que entrou no convento da Visitação em Paray-le-Monial no ano 1671, onde teve sua primeira visão em 1673.

No ano seguinte, 1674, foi celebrada por primeira vez a festa do Sagrado Coração pelas beneditinas do Santíssimo Sacramento em Montmartre, Paris, com o Ofício composto por São João Eudes.

São João Eudes e Gaston de Renty se tornaram conhecidos enquanto cuidavam dos doentes atingidos por uma epidemia de peste em 1631. Gaston de Renty tinha vinte anos e São João Eudes, trinta.

O Papa Clemente X aprovou as Congregações e Institutos fundados por São João Eudes e, no 4 de janeiro de 1903, o Papa Leão XIII o reconheceu solenemente como o autor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, fazendo alusão “à Santa de Coutances”

São João Eudes foi beatificado pelo Papa São Pio X quem também, no 11 abril de 1909, o proclamou “Pai, Doutor e Apóstolo das devoções aos Sagrados Corações”. Foi canonizado por Pio XI em 1925.

Sœur Marie des Vallées não sabia ler nem escrever e São João Eudes redigiu de punho e letra tudo o que ficou registrado do que ela disse e fez.

A Revolução Francesa fez questão de queimar todos os manuscritos que estavam na casa dos padres eudistas em Paris. Então se achou que estavam perdidos para sempre.

Porém, ninguém, ou muito poucos, sabiam que São Francisco Xavier de Montmorency-Laval, partindo para o Canadá do qual imaginava nunca mais retornar, encomendou uma cópia manuscrita dos registros da “santa de Coutances” caligrafados por São João Eudes. 

Essa cópia histórica foi recuperada em 1894 durante o processo de beatificação de São Francisco Xavier de Montmorency-Laval e enviada aos padres eudistas da França.

São Francisco Xavier de Motmorency Laval, 1º bispo do Canadá copiou todos os apontamentos de Soeur Marie
São Francisco Xavier de Motmorency Laval, 1º bispo do Canadá
copiou todos os apontamentos de Sœur Marie
São João Eudes tinha dividido a coleção de apontamentos num conjunto de dez volumes que intitulou “A vida admirável de Marie des Vallées” acrescidos de mais dois, que escreveu após a morte de Marie.

O conjunto foi editado em abril de 2013 por Les Editions Paroisse et famille – Centro Saint-Jean-de-la-Croix (Mers-sur-Indre, 696 páginas) a única fonte em que nós nos baseamos.


Todos os escritos de São João Eudes relativos a Sœur Marie passaram por severo exame nos processos diocesano e romano de beatificação e canonização dele.

Em 25 de abril de 1909 foram aprovados em sua totalidade pela Santa Sé deixando o terreno livre para sua canonização em 1925.

Sœur Marie des Vallées pareceu santa demais e os escritos ficaram guardados zelosa e silenciosamente, porém foram cuidadosamente estudados e anotados. Até que o grande tempo transcorrido favoreceu que fossem publicados com rico apoio documental e crítico.

Por isso, voltou-se a falar dela no fim do século XX, após três séculos de esquecimento, e esse é um dos eventos que marcam a vida post-mortem de Sœur Marie des Vallées. E é o que passaremos a ver nos posts seguintes.


Continua no próximo post: Sœur Marie des Vallées, “o caso dos venenos” e o drama de Luis XIV


Nota : Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


2 comentários:

  1. Muito enriquecedor conhecer os fatos relacionados à vida da Soeur Marie des Valleés!!!

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  2. Esta postagem é um capítulo de um apaixonante romance de grandes Santos. Maravilhoso!

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