segunda-feira, 13 de setembro de 2021

A “grande tribulação” que purificará o mundo

A “grande tribulação” que purificará o mundo
A “grande tribulação” que purificará o mundo.
Triunfo da morte, detalhe, Pieter Bruegel  (1525-1530 — 1569)
Museo del Prado, Madri
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Sœur Marie obtém a promessa dos Apóstolos dos Últimos Tempos



Truculência pelo bem dos pecadores


Sœur Marie des Vallées apelava a Deus animada do desejo ardente de exterminar o pecado e salvar as almas dos pecadores.

Embora falasse truculentamente contra o pecado e os pecadores, não desejava a sua perdição, mas a sua conversão.

Sœur Marie chegou a se interpor entre Deus encolerizado e o mundo em perdição, a fim de impedir que Deus o castigasse como merecia – o que equivaleria à sua destruição.

Assim o testemunhou, entre outros, à venerável Madre Maria do Santíssimo Sacramento do Carmelo de Amiens onde também entrou a bem-aventurada Maria da Encarnação O.C.D. (1566-1618) considerada “mãe e fundadora do Carmelo (descalço) na França”.

Seus trabalhos e financiamentos renderam quatorze Carmelos reformados segundo a regra de Santa Teresa de Jesus.

Fez essa obra quando ainda leiga casada, mãe de sete filhos, sendo lembrada pelo nome civil Barbara Acarie, ou Madame Acarie e até a “belle Acarie” pela sua beleza.

Recebeu os estigmas, dons sobrenaturais, e foi famosa em Paris pela sua imensa caridade e participação na resistência vitoriosa da cidade contra os hereges huguenotes, na qual o marido foi um dos 16 principais líderes católicos.

Quando viúva, quis ser simples carmelita conversa, e assim faleceu com fama de santidade no Carmelo de Pontoise.

Beata Maria da Encarnação OCD, trouxe a reforma do Carmelo à França
Beata Maria da Encarnação OCD, trouxe a reforma do Carmelo à França.
A ela foi revelada a concepção (milagrosa para muitos) de Luís XIV.
Escreveu de Sœur Marie: “alma de sublimíssima santidade, que segurava
a torrente de Sua cólera (divina), pronta para desabar sobre o mundo inteiro”
À bem-aventurada Maria da Encarnação foi revelado o futuro nascimento de Luís XIV.

Na hora de morrer, ela contou às carmelitas que Nosso Senhor “lhe tinha feito conhecer uma alma de sublimíssima santidade, que segurava a torrente de sua cólera, pronta para desabar sobre o mundo inteiro”.

“E que era uma mulher do povo, pobre, escondida e menosprezada, que usava o bavolet (tecido que as camponesas usavam sobre a cabeça, cobrindo a nuca)”
– registra São João Eudes (p. 248), aludindo assim a Sœur Marie.

Após a morte da bem-aventurada, encontrou-se entre seus apontamentos, com data de 26 de novembro de 1634, o trecho de uma carta a Sœur Marie des Vallées.

Nessa, ela lhe adverte que está sendo tratada “como bruxa, como insensata, como espírito ludibriado, mas que todas essas maquinações serão destruídas na proximidade de ti. Ninguém conseguirá te tocar, nem mesmo teus vestidos” (p.248).

São João Eudes confirma ter tido em mãos essas anotações.

O santo diretor narra a seguir que Sœur Marie des Vallées padeceu cinco anos de espantosos ataques de sortilégios com o fim indicado acima.

Depois ainda sofreu as penas do inferno durante mais quatro anos.

Após os quais, por incrível que pareça, ainda viriam mais três anos de sofrimentos penosos, que por sua vez a preparariam para o que ela chamava o “mal dos doze anos”.

Possuída pela Ira de Deus


Por fim, Nosso Senhor lhe fez saber que a tinha convidado a passar por todas essas terríveis provações a fim de a preparar para um sacrifício ainda muito mais radical, e para isso pedia a sua aquiescência.

Tratou-se de algo inimaginável, que surpreendeu até quem escreve estas linhas.

Nosso Senhor quis que ela passasse possuída durante três anos da Ira de Deus – ao que Marie aquiesceu com entusiasmo, desde que acelerasse a derrocada do Pecado no mundo.

Jesus Cristo lhe advertiu que seria algo tremendo, que pensasse bem, e lhe deu um tempo para refletir. Mas ela aceitou.

Sœur Marie des Vallées professava uma atitude que lembra as palavras que as Sagradas Escrituras põem na boca do profeta Elias: “Zelo Zelatus Sum pro Domino Deus exercituum” (“Eu me consumo de zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos”) 1Reis, XIX, 10

Ela contava que o fogo da Ira de Deus é de tal maneira tremendo, que as chamas de todos os infernos são como nada.

Pois – explicava – o inferno não é senão um subproduto criado pela Ira de Deus.

A “troca de vontades”


Sœur Marie des Vallées percebeu então a importância da renúncia ao amor próprio – e, como veremos ainda, de uma renúncia tão radical que levava a uma “troca de vontades” com o Sagrado Coração de Jesus e de Maria.

São Luís Maria Grignion de Montfort retomaria esse ensinamento em seu famosíssimo Tratado da Verdadeira Devoção, ensinando uma “troca de vontades” do infiel pecador com o Coração Imaculado de Nossa Senhora.

O que acabava dando uma “troca de vontades” com a Sabedoria Eterna e Incarnada, Jesus Cristo, e seu Sagrado Coração.

Sœur Marie des Vallées então renunciou completamente a si própria, abandonou-se completamente à vontade divina, esquecendo-se inteiramente de sua pessoa.

Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246),
primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus.
Sœur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Certa feita, ela indagou a Nosso Senhor qual era o desígnio d’Ele conduzindo-a a essa entrega.

Ele respondeu que não era para ser entendido no seu tempo, mas que viria uma época em que tudo isso seria exposto publicamente.

Em 28 de fevereiro de 1642, Ele também lhe prometeu surpreendentemente:

“Eu te darei um poder absoluto sobre todos os homens. Eu te darei um poder absoluto sobre os quatro elementos.

“Eu farei ver e saber a todo mundo que Eu vivo e reino em ti, que Eu sou tudo e que tu não és senão o hábito de que Eu estou revestido. (...)

“Serei Eu quem terá um poder absoluto sobre todos os homens e sobre os quatro elementos” (p. 259)

Em junho de 1653, Marie implorava que Nosso Senhor se fizesse conhecer. Ele respondeu:

“Sim, Eu me farei conhecer a todo o mundo segundo o grande desejo que tu tens, pois Eu sou a Verdade que tu tanto desejas conhecer: o grande desejo que tu tens é para benefício de todos aqueles que não a conhecem” (p. 261).

Com seus atrozes padecimentos ela estava atraindo, inicialmente sem o saber, o reinado de Cristo à Terra, efetivado como reinado do Imaculado Coração de Maria.

Sœur Marie manifestava uma ira contra o pecado, de assustar até seus próximos mais santos. De início contra os pecados individuais cometidos cá e lá.

Mas depois formou a ideia de que os pecados individuais faziam parte de um conjunto muito coeso – que ela denominava o Pecado em singular –, que continha em si todas as violações da Lei divina.

Contra esse Pecado que articula todos os outros Sœur Marie orientava suas orações e sofrimentos.

Nessa perspectiva, ansiava pelo dia em que esse Pecado fosse derrotado e a Caridade divina reinasse na Terra.

São João Eudes comenta que jamais se teria acreditado que houvesse nela tal ódio ao pecado (p. 275)

A “grande tribulação”


No livro 5, cap. 3, São João Eudes reúne numerosos apontamentos sobre o que Sœur Marie des Vallées chamava de “grande tribulação” vindoura, por meio da qual Deus purificaria o mundo.

Ela via aproximar-se esse momento decisivo. “A primeira horinha do dia de amanhã começou” – disse em 1649 (p. 271)

“O amanhecer desse dia são as coisas milagrosas que devem acontecer no tempo da grande mudança”.

O trecho do Magnificat que melhor preanunciava esse momento é “Nunc dimitti servum tuum, Domine” (p. 272).

Em 23 de outubro de 1644 ocorreu-lhe fazer na catedral de Coutances um voto contra o Pecado que está na raiz de todas as faltas individuais.

Vinda de Cristo em pompa e majestade. Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010
“Eu marcharei à testa do exército e devorarei esse monstro”
Vinda de Cristo em pompa e majestade.
Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010
Esse voto, aliás, era tão radical que era impossível de realizar. E Nosso Senhor não autorizou.

Mas atendeu seus ardentes desejos prometendo-lhe:

“Eu marcharei à testa do exército e devorarei esse monstro, Eu lhe esmagarei a cabeça, Eu o jogarei no fogo” (p. 273).

– E quando aconteceria isso? – perguntou ela.

Nosso Senhor lhe respondeu: “No terceiro dilúvio que deverá vir, que será o dilúvio de fogo e o dilúvio do Espírito Santo”. (p. 274)


São Luís Maria Grignion de Montfort também clama por esse dilúvio vindouro:

“Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a terra de um modo tão suave e tão veemente que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se?”. (Prece de S. Luís Maria Grignion de Montfort pedindo a Deus missionários para a sua Companhia de Maria)



Continua no próximo post: Sœur Marie e a conversão universal vindoura

Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


8 comentários:

  1. Texto muito interessante!
    Obrigado pelos ensinamentos interessantes.
    Como é bom conhecer novos santos.

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  2. Gostaria de destacar dois pontos que me chamaram a atenção no texto.
    Marie des Vallées sofreu de uma possessão, mesmo não tendo culpa, pois era uma vítima inocente. A outros santos, aconteceu o mesmo como a Beata Eustóquia e Santa Gemma Galgani.
    Marie des Vallées sofreu neste mundo as penas do Inferno, porque tinha se oferecido como vítima a Deus. Devemos pensar aqui que algumas pessoas sofrem neste mundo as penas do Inferno por serem culpadas. Por isso, enquanto existe o tempo da misericórdia, que elas possam encontrar a Misericórdia de Deus.

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    1. Santa Míriam de Jesus Crucificado, uma santa carmelita, também foi uma santa que sofreu de possessão durante um período de sua vida.

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  3. Assustador que possamos sofrer já neste mundo as penas do Inferno! Isso faz sentido se pensarmos que podemos também pregustar os gozos do Paraíso também já neste mundo. Se uma coisa é possível, a outra também é.

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  4. Acredito que a maioria das pessoas não conseguiriam aguentar sofrer as penas do Inferno ainda neste mundo sem sucumbirem a um ato de desespero!!! Nesse sentido, a Soeur Marie des Vallées era assistida por algum sacerdote? Ela era submetida a exorcismos? Penso que tais ajudas seriam indispensáveis, se não estou enganado. Faço esses questionamento na busca caridosa da verdade e não em uma atitude cética.

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    1. Como está escrito nos posts foi assistida até a morte durante 15 anos por São João Eudes, quem considerava esse apostolado uma das maiores graças de sua vida sacerdotal.

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    2. Obrigado pela resposta!
      A heroicidade dos santos nos deixa perplexos. Mas tudo está guiado e orientado pela Sabedoria de Deus. Louvado seja Deus!

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  5. Boa noite
    As minhas desculpas por ainda não acusar a recepção dos artigos enviados por motivos de saúde.
    Ao ler estes factos ,impressiona -se pelo conteúdo .
    Afinal , o ser humano não se corrige apesar das calamidades enviadas como tentativa divina de o acordar para uma vida espiritual.
    Deus tem vindo lentamente a alertar ...caminha-se de mal para pior .O ser humano está cego,surdo e mudo .
    Já nem há mais " S. Luís Maria Grignion de Montfort"
    Obrigada PROFESSOR

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