segunda-feira, 23 de agosto de 2021

A mensagem do Sagrado Coração de Jesus
e o SIM real que poderia ter mudado a História

Santa Margarida Maria Alacoque recebe apelos do Sagrado Coração de Jesus a Luís XIV, San Rufo, Rieti, detalhe
Sta Margarida Maria Alacoque recebe apelo do Sagrado Coração de Jesus a Luís XIV,
San Rufo, Rieti, detalhe
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Continuação do post anterior: Sœur Marie des Vallées, “o caso dos venenos” e o drama de Luís XIV



O “Caso dos Venenos” desvendou que a Corte do Rei Sol estava luciferinamente infestada pelo iluminismo, que prolongava o naturalismo renascentista neopagão e sensual.

O rei esplêndido ficou abalado em seu laicismo ao descobrir a influência do preternatural na Corte das Luzes por ele criada.

Um mundo preternatural no qual aparentemente ele não acreditava agia em volta dele na surdina e com procedimentos estarrecedores.

Ao mesmo tempo, algo inimaginável acontecia longe de Versailles: o Sagrado Coração de Jesus aparecia a uma humilde religiosa de um convento pouco conhecido e enviava históricas mensagens a Sua Majestade.

As mensagens — hoje famosas — foram comunicadas a Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa no convento da Ordem da Visitação em Paray-le-Monial, na Borgonha.

A Ordem da Visitação foi fundada por São Francisco de Sales, um dos precursores da Escola Francesa de Espiritualidade, a qual Sœur Marie des Vallées elevou a um novo requinte com a doutrina sobre a “troca de vontades”.



O Sagrado Coração se dirigia a Luís XIV lembrando-o de que “seu nascimento temporal fora obtido através da devoção aos méritos da Minha Santa Infância”, segundo o próprio Menino Jesus havia revelado à venerável Margarida do Santíssimo Sacramento O.C.D., como vimos em post anterior. Cfr. Soeur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”. 

Nas mensagens por meio de Santa Margarida Maria, o Sagrado Coração de Jesus — com quem Sœur Marie des Vallées tinha trocado as suas vontades — prometia a Luís XIV e à França um auxilio esplendoroso, se o rei e seu reino se consagrassem a Ele.

Se seus regimentos bordassem o símbolo do Sagrado Coração em suas bandeiras, seriam invencíveis.

A santa religiosa entregou à sua Superiora as cartas onde vertia as promessas que tinha ouvido antes destinadas ao rei com datas de 23 de fevereiro de 1689, 17 de junho de 1689 e 25 de agosto de 1689.

Luís XIV com a idade aproximada em que recebeu as cartas de Santa Margarida Maria. Atribuído a Pierre Mignard (1612 - 1695)
Luís XIV com a idade aproximada em que recebeu
as cartas de Santa Margarida Maria.
Atribuído a Pierre Mignard (1612 - 1695)

Na carta de 17 de junho, lemos:

“Ele (O Sagrado Coração de Jesus) deseja, segundo me parece, entrar com pompa na casa dos Príncipes e dos Reis, para nelas ser honrado, tanto quanto nelas foi ultrajado, desprezado e humilhado durante a Sua Paixão, (...) eis suas Palavras a este respeito:

“Faz saber ao primogênito do Meu Coração – falando do nosso Rei – que, assim como o seu nascimento temporal foi obtido através da devoção aos méritos da Minha Santa Infância, do mesmo modo obterá o seu nascimento de graça e de gloria eterna pela Consagração que fará de si mesmo ao Meu Coração Adorável, que quer triunfar do seu e, por seu intermédio, do dos grandes da Terra.

“Ele quer reinar no seu Palácio, ser pintado nos seus estandartes e gravado nas suas armas, para as tornar vitoriosas de todos os seus inimigos, abatendo a seus pés essas cabeças orgulhosas e soberbas, para as tornar triunfantes de todos os inimigos da Santa Igreja”.

“O Pai Eterno, querendo reparar a amargura e angústia que o Coração de seu Filho recebeu na casa dos príncipes da Terra pelos ultrajes de sua Paixão, quer estabelecer seu império no coração de nosso monarca e usá-lo para a execução de seu plano, que é construir um edifício o qual seja a imagem de seu divino Coração, para receber a consagração e a homenagem do rei e de toda a corte”.

As mensagens davam a entender que o rei precisava de socorro e o Sagrado Coração de Jesus tinha naturalmente noção disso.

Então lhe pedia que se voltasse a Ele com confiança para experimentar sua bondade e doçura.

Para Luís XIV, o chamado do Sagrado Coração implicava em que o maior rei da Terra deveria atender a um recado transmitido por uma religiosa ignorada e mudar radicalmente sua atitude interior em face de Nosso Senhor.

Marie des Vallées ouve pregação de São João Eudes, afresco en Caen, França
Marie des Vallées ouve pregação de São João Eudes,
grandes apóstolos da 'troca de vontade' com o Sagrado Coração de Jesus,
tinham tudo sofrido espiritualmente pela aceitação de Luís XIV.
Afresco em Caen, França
Ele, o rei onipotente, ficava diante de Deus como uma criança doente que precisa da mãe para ser socorrido.

Para uma mentalidade racionalista, que se tinha elevado à condição de “Rei Sol” e se colocado a anos-luz por cima dos demais seres humanos, o pedido podia parecer uma humilhação.

Mas era a humilhação salvadora, como a do filho pródigo entre os porcos, narrada no Evangelho.

Luís XIV ficou na encruzilhada entre aspectos bonitos (santos lhe falando da parte de Deus) e de lados horrorosos, de meter medo (associações de tipo maçônico, satanistas, jansenistas etc., que intoxicavam a corte mais brilhante do mundo).

Se ele tivesse aceitado o convite comunicado por Santa Margarida Maria, teria decidido sua luta espiritual em favor do que descrevemos das almas santas da Escola Francesa de Espiritualidade inspiradas ou continuadoras de Sœur Marie des Vallées, e esmagado a conjuração revolucionária.

Poder-se-ia então pensar numa restauração moral da França, a qual tornaria impossível a Revolução Francesa. E, ao mesmo tempo, pela irradiação da cultura francesa no Ancien Régime, haveria uma mudança moral radical no mundo e na Igreja para a causa do bem.

Mas se ele recusasse o apelo, a França tornar-se-ia presa fácil da Revolução igualitária e gnóstica que infestava a Corte, acabando por produzir os efeitos revolucionários que vemos hoje.

Se Luís XIV tivesse atendido ao Sagrado Coração de Jesus, ele teria desfeito a Revolução e elevado a projeção da monarquia católica ao máximo grau.

Quem poderá imaginar o momento histórico em que o rei recebe o recado, e possivelmente, depois de uma curta reflexão interna, tendo estado a um passo de dizer sim, acabou dizendo um “talvez” que acabou dando num “não”.

A História do mundo e da Igreja teria mudado “de fond en comble”.


Luís XIV face ao Sagrado Coração de Jesus

A Santa transmitiu o seguinte recado ao Rei:

“O Sagrado Coração de Jesus não pede senão a vossa confiança em sua bondade para vos fazer experimentar a doçura e a força de seu socorro.”

Como que dizendo: “Eu não estou pedindo sacrifício, mas rogo esse passo delicado: que creiais na autenticidade da mensagem desta freirazinha, vinda de um convento de um lugarejo — que naquele tempo devia ser de mínima importância. Acreditai nisso e tudo correrá bem”.

Nosso Senhor não dava prova alguma para Luís XIV acreditar. Mas é possível que o monarca tenha recebido uma dessas graças interiores com as quais o Altíssimo toca as almas, por onde estas não têm dúvida nenhuma de que foi Deus Quem as tocou.

Luís XIV teve que acreditar numa mensagem que para um racionalista era quase uma aberração.

Ele, o rei onipotente, que diante do Criador não é senão uma formiga, e que precisa ser tratado com bondade, como uma criança doente é cuidada por sua mãe, e então será socorrido!

Se Luís XIV tivesse aceitado o convite transmitido por Santa Margarida Maria, ele restauraria a Paris fervorosamente católica do tempo das guerras de religião e não se poderia pensar numa Revolução Francesa.

As águas correriam para outro lado, simplesmente. Porém, em sentido contrário, a Paris da recusa dele foi a da Revolução Francesa.

Nessa Revolução chegaram a promover esta blasfêmia: no dia seguinte ao assassinato de Marat, os revolucionários arrancaram-lhe o coração e ergueram uma espécie de altar improvisado, onde o expuseram, tendo embaixo a seguinte frase: “Sacré coeur de Marat, priez pour nous” — sagrado coração de Marat, rogai por nós. Como a dizer “não é o Coração de Jesus que vale, é o coração de Marat”.

Ora, quando consideramos a figura do Santo Sudário, vemos ali, segundo o dito de Bossuet, “un Dieu brisé, rompu et immolé” — um Deus ferido, quebrado e imolado —, mas com que majestade!

Nesse peito pulsou um Coração Divino que fez a Luís XIV esse convite, aliás, recusado…

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/8/1991)


Revolucao Francesa, execucao de Luis XVI
Revolução Francesa: execução de Luís XVI, herdeiro de Luís XIV
Naquela carta de 17 de junho de 1689 o Sagrado Coração de Jesus pedia ao rei Luís XIV a “consagração da França ao seu Sagrado Coração e sua representação nas bandeiras do reino”.

Pedido análogo de consagração foi feito pelo Imaculado Coração de Maria em Fátima, desta vez da Rússia.

Ambos pedidos ficaram letra morta.

O grande historiador de Santa Margarita Maria Alacoque Mons. Émile Bougaud em sua “Histoire de la Bienheureuse Marguerite-Marie”, e outros escritores eclesiásticos, observaram que exatamente 100 anos depois, em 17 de junho de 1789, o Terceiro Estado se autoproclamou Assembleia Nacional, iniciando a Revolução Francesa.

A França revolucionária rompeu nessa data com a França “filha primogênita da Igreja” nascida com o batismo de Clóvis, primeiro rei francês católico.

A recusa de Luís XIV estava na raiz da tragédia revolucionária que nesse dia apenas começou.


Continua no próximo post: A via de Marie des Vallées, esperança para o mundo em desvario


Nota : Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


Um comentário:

  1. Que triste Luís XIV ter recusado a promessa do Sagrado Coração de Jesus! Infelizmente, como ele, muita autoridades recusam a graça de Deus, fazendo aqueles que dependem de si caírem na desgraça!

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