segunda-feira, 12 de abril de 2021

Nossa Senhora do Bom Sucesso avisou o que viria

Nossa Senhora do Bom Sucesso no altar principal da igreja conventual
Nossa Senhora do Bom Sucesso no altar principal da igreja conventual
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Nossa Senhora do Bom Sucesso se apareceu oito vezes em Quito, a capital do Equador atual, nos séculos XVI e XVII e advertiu do que iria acontecer em nossa época na nossa atribulada América do Sul, o Brasil incluído.

Ela se manifestou à Madre Mariana Francisca de Jesus Torres y Berriochoa (1563-1635) que foi uma das fundadoras do Mosteiro de Nossa Senhora da Concepção, o primeiro de Quito, cidade privilegiada pelo número de casas religiosas, e cuja intensa vida monacal varou os séculos.

O rei da Espanha Felipe II, o monarca mais poderoso da Europa, quis enviar religiosas às novas terras da América e especialmente a Quito, última capital do império inca, para aí fundar um mosteiro de clausura.

Mariana era sobrinha do poderoso rei e tinha apenas doze anos, moça demais para professar em qualquer ordem. Mas partiu para Quito onde se tornou religiosa franciscana concepcionista quando atingiu 19 anos.

Ela viajou com uma tia, a Madre María de Jesús Taboada religiosa concepcionista, num grupo que somava nove entre religiosas e aspirantes.

Elas estabeleceram um convento em pequenas casas vizinhas ao prédio que, mais tarde, daria no palácio presidencial atual. Quito vivia sua era fundacional e por certo os mapas de época nos apresentam mais bem um bairro de chacras e capelas.

O convento da Limpia Concepción da Ordem da Imaculada Conceição (Ordo Inmaculatae Conceptionis, abreviado O.I.C.) foi solenemente estabelecido em 13 de janeiro de 1577.

Nossa Senhora do Bom Sucesso no nicho de abadessa, sendo preparada para descer à iigreja
Nossa Senhora do Bom Sucesso no nicho de abadessa,
sendo preparada para descer à iigreja
Se trata de uma instituição de clausura feminina de vida contemplativa, fundada por Santa Beatriz da Silva (1426 – 1492).

A primeira fundadora e abadessa de Quito foi Madre María de Jesús Taboada. A sobrinha de Felipe II foi abadessa posteriormente com o nome de religião de Madre Mariana de Jesus Torres.

Cabe distinguir sua pessoa de Santa Mariana de Jesus de Paredes (1618 –1645), que nasceu e morreu em Quito. Essa, quando faleceu a Madre Mariana Francisca de Jesus Torres em odor de santidade em 16 de janeiro de 1635, tinha 17 anos e exclamou “morreu uma santa”.

Confidências históricas



O corpo de Sóror Mariana, bem como das seis outras fundadoras espanholas e de mais três abadessas equatorianas que as sucederam, estão em perfeito estado de conservação em urnas expostas à veneração contínua das freiras dentro do claustro.

Na década de 1970, quem escreve morou poucos anos em Equador. Acompanhei ao engenheiro brasileiro Luiz Antonio Fragelli (R.I.P.) então residente com sua esposa e filhos em Quito na procura das lembranças de Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Por meio de duas aristocráticas damas quitenhas que mantinham boas relações com as religiosas, soubemos das aparições e dos corpos incorruptos. Procuramos as religiosas e essas nos receberam como alguém que há muito tempo estavam aguardando, sem nos conhecer e sendo os dois estrangeiros.

Urna com os corpos incorruptos de concepcionistas de Quito
Urna com os corpos incorruptos de concepcionistas de Quito
Nesses dias, o convento com sua bela igreja passavam por uma agonia econômica. Realmente, dificilmente podiam estar pior: apenas uma quarta parte do convento estava em condições de uso, o número e a idade das religiosas pressagiavam uma vizinha extinção.

Por razões econômicas não puderam mais sustentar os trabalhos de manutenção dos corpos incorruptos e fecharam com um muro o acesso ao local onde estavam. O tempo passou e as religiosas não sabiam ao certo onde ficava essa preciosa sala.

As damas referidas acima nos falaram então de uma velha empregada que era encarregada de cuidar dos corpos. Ela ainda vivia num povoado de taipa e rua de terra que nunca esquecerei. Fomos até lá. A pobre anciã estava reduzida ao leito, mas falava com seu sotaque indígena demonstrando entusiasmo pelas “madrecitas”.

Ela contou que os corpos estavam flexíveis e dóceis. Para efeitos de limpeza ela levantava os braços e o que fosse necessário. Contou-nos onde ficava a sala no labirinto do imenso convento, até com luxo de detalhes, do percurso a fazer. Mas, ela falou tanto ou nós não conseguimos memorizar que nada nos foi possível fazer e nada achamos.

Anos depois quando começou a retomada de interesse pela devoção ao Bom Sucesso, surgiram vocações e recursos e as próprias concepcionistas restauraram o local, a urna e mantém perfeitamente os corpos prodigiosamente conservados.

Origem e significado da invocação do Bom Sucesso



Nossa Senhora apareceu oito vezes para a abadessa, a primeira vez o 2 de fevereiro de 1594. Nessa aparição a Santíssima Virgem se apresentou como Nossa Senhora do Bom Sucesso. O “Bom Sucesso” se refere à Apresentação de Jesus no Templo cerimônia prescrita aos hebreus pelo profeta Moisés e que devia acontecer na oitava do nascimento. Portanto no nosso 1º de janeiro.

Era a prefigura do atual batismo que completava felizmente a gestação e nascença do Verbo Encarnado, e o introduzia na religião para o cumprimento de sua missão redentora.

“No contexto das aparições marianas em Equador, o ‘Bom Sucesso’ também pode se referir à restauração espiritual profetizada da Igreja Católica que terá lugar em algum momento depois do século XX” (apud Wikipedia, verbete ‘Nuestra Señora del Buen Suceso’).

Percurso tortuoso dos escritos



O registro dos eventos sobrenaturais e ainda muitos outros dados históricos ficou contido num grande volume que as religiosas chamam em linguagem caseira de “Cuadernón”.

Este volume que hoje estaria no convento mas até agora não foi localizado. Em séculos passados ele foi compulsado por religiosos de confiança que fizeram apontamentos. Esses hoje são a fonte mais valiosa que possuímos, embora não sejam o documento primário.

Outras cópias foram feitas em momentos diversos. E, assim, de transcrição em transcrição entraram versões diversas que não atingem o essencial, mas aparecem como incompletas.

Vida Admirable de la Madre Mariana. Portada
Vida Admirable de la Madre Mariana. Portada
A versão mais respeitada é atribuída ao franciscano português Frei Manuel de Souza Pereira, OFM. Mas seu escrito em três volumes, ou cadernos, teria sido re-escrito em verdade pela Madre Mariana de Jesus Crucificado Varela, OIC.

Os três volumes de Frei Manuel foram queimados.

Essa redação da Madre Mariana de Jesus Crucificado Varela é a fonte das diversas edições da “Vida Admirável da Rvda. Madre Mariana de Jesus Torres, espanhola e uma das fundadoras do Mosteiro real da Limpia Concepción na Cidade de Quito” traduzidas em algumas línguas.

A versão atribuída a Frei Manuel de Souza Pereira, reescrita pela Madre Mariana de Jesus Crucificado Varela, no estágio atual das pesquisas, é a mais fiável, mas não é desprovida de senões.

Segundo declararam ao Padre José Urarte S. J. em 1934 as monjas concepcionistas de Quito, Frei Manuel teria copiado o “Cuadernón”.

De ali resultaram três cadernos manuscritos, que foram entregues ao presidente Gabriel García Moreno pela abadessa Soror Bárbara Fierro no século XIX.

Porém, segundo anotações de época atribuídas à Madre Varela, Frei Sousa Pereira teria feito apenas um resumo de um livro de Frei Alácano para facilitar a leitura das freiras.

Feitas essas ressalvas, utilizaremos a versão proveniente de Frei Manuel como sendo a de maior veracidade e a mais próxima do original. Mas, observamos que em outros bons autores podem aparecer diferencias resultantes desse percurso tortuoso dos escritos.


Continua no próximo post: Se apaga a lâmpada do Sacrário: prenuncio de apagamento da Cristandade e de trevas na Igreja


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