terça-feira, 7 de junho de 2016

A crise da Igreja à luz do Segredo de Fátima

A destruição de Jerusalém foi prefigura das crises trágicas da História. David Roberts (1796 – 1864)
A destruição de Jerusalém foi prefigura de crises trágicas da História. David Roberts (1796 – 1864)
Roberto de Mattei
(1948 - )
professor de História,
especializado nas ideias
religiosas e políticas no
pós-Concilio Vaticano II.



O ano do centenário de Fátima (2016-2017) foi aberto no dia de Pentecostes com uma notícia rumorosa.

O teólogo alemão Ingo Dollinger referiu ao site OnePeterFive que após a publicação do Terceiro Segredo de Fátima, o cardeal Ratzinger lhe teria confiado: “Das ist noch nicht alles!” — “Isto ainda não é tudo”.

A Sala de Imprensa do Vaticano interveio com um desmentido imediato, no qual se diz que “o Papa emérito Bento XVI comunica ‘não ter falado com o Prof. Dollinger sobre Fátima’.

E afirma claramente que as frases atribuídas ao Prof. Dollinger sobre este tema ‘são puras invenções, absolutamente não verdadeiras’ e reitera decididamente: ‘A publicação do Terceiro Segredo de Fátima é completa’.”

O desmentido não convence aqueles que, como Antonio Socci, sempre sustentaram a existência de uma parte não revelada do segredo, que falaria do abandono da fé por parte dos líderes da Igreja.



Outros estudiosos, como o Dr. Antônio Augusto Borelli Machado, julgam integral e tragicamente eloquente o segredo divulgado pela Santa Sé.

Com base nos dados à nossa disposição, hoje não se pode afirmar com certeza absoluta nem que o texto do Terceiro Segredo seja integral, nem que seja incompleto.

No entanto, o que parece absolutamente certo é que a profecia de Fátima ainda não foi cumprida e que sua realização diz respeito a uma crise sem precedentes na Igreja.

A este propósito deve-se recordar um importante princípio hermenêutico.

As profecias de La Salette e Fátima estão se cumprindo, mas ainda não atingiram sua plenitude.
As profecias de La Salette e Fátima estão se cumprindo,
mas ainda não atingiram sua plenitude.
O Senhor, através de revelações privadas e profecias que nada acrescentam ao depósito da fé, oferece às vezes uma “direção espiritual” para nos orientar nos períodos mais negros da História.

Mas se é verdade que as palavras divinas projetam luz sobre as épocas tenebrosas, o contrário também é verdade: em seu desenvolvimento dramático, os eventos históricos nos ajudam a compreender o significado das profecias.

Quando, em 13 de julho de 1917, Nossa Senhora anunciou em Fátima que se a humanidade não se convertesse a Rússia espalharia seus erros pelo mundo, estas palavras pareciam incompreensíveis. Foram os fatos históricos que desvendaram o seu significado.

Após a Revolução bolchevique de outubro 1917, ficou claro que a expansão do comunismo era o instrumento do qual Deus queria se servir para punir o mundo pelos seus pecados.

Entre 1989 e 1991, o império do mal soviético aparentemente se desintegrou, mas o desaparecimento do invólucro político permitiu uma maior difusão mundial do comunismo, que tem o seu núcleo ideológico no evolucionismo filosófico e no relativismo moral.

A “filosofia da práxis”, que de acordo com Antonio Gramsci resume a revolução cultural marxista, tornou-se o horizonte teológico do novo pontificado, traçado por teólogos como o cardeal alemão Walter Kasper e o arcebispo argentino Dom Víctor Manuel Fernández, inspiradores da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.

Nesse sentido, não é do segredo de Fátima que devemos partir para compreender a existência de uma tragédia na Igreja, mas da crise na Igreja para compreender o significado último do segredo de Fátima.

Uma crise que data dos anos sessenta do século XX, mas que com a abdicação de Bento XVI e o pontificado do Papa Francisco conheceu uma impressionante aceleração.

Enquanto a Sala de Imprensa se apressava para acalmar o caso Dollinger, outra bomba explodia com um fragor bem maior.

Mons Georg Gänswein em seu estarrecedor discurso na Universidade Gregoriana, 20 de maio de 2016
Mons Georg Gänswein em seu estarrecedor discurso
na Universidade Gregoriana, 20 de maio de 2016
Durante a apresentação do livro do Prof. Don Roberto Regoli, Oltre la crisi della Chiesa. Il pontificato de Benedetto XVI [Além da crise da Igreja. O pontificado de Bento XVI] (Lindau, Torino 2016), realizada no auditório da Pontifícia Universidade Gregoriana, Mons. Georg Gänswein enfatizou o ato de renúncia do Papa Ratzinger ao pontificado com estas palavras:

“A partir de 11 de fevereiro de 2013 o ministério papal não é mais aquele de antes. Ele continua a ser o fundamento da Igreja Católica; e, entretanto, é um fundamento que Bento XVI transformou profunda e duravelmente no seu pontificado de exceção”.

— De acordo com o arcebispo Gänswein, a renúncia do Papa teólogo “marcou época”, porque introduziu na Igreja Católica a nova instituição do “Papa emérito”, transformando o conceito de munus petrinum (“ministério petrino”):

“Antes e depois de sua renúncia, Bento entendeu e ainda entende seu dever como uma participação em tal ‘ministério petrino’. Ele deixou o trono pontifício e, entretanto, com o ato de 11 de fevereiro de 2013, não abandonou absolutamente esse ministério.

“Em vez disso, integrou o ofício pessoal com uma dimensão colegial e sinodal, quase um ministério em comum (...).

“Desde a eleição de seu sucessor Francisco, em 13 de março de 2013, não há portanto dois Papas, mas de fato um ministério expandido[allargatto] — com um membro ativo e um membro contemplativo.

“É por isso que Bento XVI não renunciou nem ao seu nome, nem à batina branca. Por isso o tratamento correto que se lhe aplica ainda hoje é ‘Santidade’; é também por isso que ele não se retirou para um mosteiro isolado, mas permaneceu dentro do Vaticano — como se tivesse dado apenas um passo de lado para abrir espaço ao seu sucessor e a uma nova etapa na história do papado. (...)

“Com um ato de extraordinária audácia, ele, pelo contrário, renovou esse ofício (mesmo contra a opinião de conselheiros bem-intencionados e sem dúvida competentes), e com um esforço final o tem fortalecido (como espero).

“Isto, é claro, somente a história poderá demonstrar. Mas na história da Igreja permanecerá que no ano de 2013 o célebre ‘Teólogo no Trono de Pedro’ tornou-se o primeiro Papa emeritus da história”.

Este arrazoado tem um caráter perturbador, demonstrando por si só como estamos não “além”, mas mais do que nunca “dentro” da crise da Igreja.

O Papado não é um ministério que pode ser “expandido” [allargatto], porque é um “cargo” concedido pessoalmente por Jesus Cristo a um único Vigário e a um único sucessor de Pedro.

“Hoje parece cada vez mais claro que a maior perda da fé está ocorrendo entre os homens da Igreja”
“Hoje parece cada vez mais claro que a maior perda da fé
está ocorrendo entre os homens da Igreja”
O que distingue a Igreja Católica de qualquer outra igreja ou religião é a própria existência de um princípio unitário e indivisível encarnado na pessoa do Sumo Pontífice.

O discurso de Mons. Gänswein, que não se entende aonde quer chegar, sugere uma Igreja bicéfala e acrescenta confusão a uma situação já demasiadamente confusa.

Uma frase liga a segunda e a terceira parte do Segredo de Fátima: “Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé”.

Nossa Senhora se dirige aos três pastorinhos portugueses e lhes assegura que seu País não perderá a fé. Mas onde se perderá a fé?

Sempre se pensou que Nossa Senhora estivesse se referindo à apostasia de nações inteiras, mas hoje parece cada vez mais claro que a maior perda da fé está ocorrendo entre os homens da Igreja.

Um “bispo vestido de branco” e “vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas” estão no centro do Terceiro Segredo, sobre um fundo de ruína e de morte, que é legítimo imaginar não só material, mas também espiritual.

Confirma-o a revelação que a Irmã Lúcia teve em Tuy no dia 3 de janeiro de 1944, antes de escrever o Terceiro Segredo, e que está, portanto, indissociavelmente ligada a ele.

Após a visão de uma catástrofe cósmica terrível, a Irmã Lúcia diz que sentiu em seu coração “o eco de uma voz suave que dizia:

— No tempo, uma só fé, um só batismo, uma só Igreja, Santa, Católica Apostólica. Na eternidade, o Céu!”.

Essas palavras representam a negação radical de todas as formas de relativismo religioso, às quais a voz celestial contrapõe a exaltação da Santa Igreja e da Fé católica.

A fumaça de Satanás pode invadir a Igreja na história, mas quem defende a integridade da Fé contra os poderes do inferno verá, no tempo e na eternidade, o triunfo da Igreja e do Coração Imaculado de Maria, a chancela definitiva da trágica, mas entusiasmante profecia de Fátima.


(Fonte: Corrispondenza Romana, 25 de maio de 2016. Tradução Hélio Dias Viana)

11 comentários:

  1. Percebe-se que quem está perdendo a fé são os fiéis de fé debilitada.A Igreja nunca foi tão convicta de suas raízes celestiais e acima do julgamento humano comom agora.Agora é a hora da verdade.Padre Gobbi ,em seu livro de locuções interiores ,alerta que quem não estiver com o papa sucumbirá e sucumbirá feio.O papa Francisco levará a Igreja aonde ela precisa estar,junto aos que precisam dela e da Misericórdia Divina,os mais pecadores.

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    1. Conheço as alocuções marianas do Pe. Gobbi. A maioria dessas alocuções se deram no período do pontificado do Papa João Paulo II. Logo, quando o Pe. Gobbi fala do Papa ele está se referindo ao Papa João Paulo II que foi muito criticado durante seu pontificado pelos modernistas, mesmo João Paulo II considerando a si mesmo como o Papa do Concílio Vaticano II e não tendo nada de tradicionalista. Por tanto, penso que seja um erro o irmão relacionar as aloucuções do Pe. Gobbi ao Papa Francisco.

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    2. Referente as alocuções ao Pe. Gobbi, Nossa Senhora revela que a outra parte do segredo não revelada seria dada a conhecer pela sucessão dos fatos: que o homem de pecado adentraria no interior da Igreja para se fazer adorado como Deus. Este relato coincide com o segredo de Salette: Roma perderá a fé e será sede do anticristo. No Catecismo da Igreja Católica refere a provação final da Igreja. A impostura religiosa do anticristo que abalará a fé de muitos crentes.

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  2. Maria das Graças7 de junho de 2016 13:50

    Salve Maria!
    Pelo desenrolar das tragédias na Santa Igreja, o Triunfo do Imaculado Coração de Maria não demora muito a acontecer!
    A humanidade esqueceu de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, portanto ainda é tempo de conversão! Confiem no Imaculado Coração de Maria!

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  3. Devemos estar muito atentos às profecias de Nossa Senhora! E, como foi comentado no texto, os acontecimentos presentes nos ajudam a entender o Segredo de Fátima. Nesse sentido, gosto de observar as notícias e ver aquelas mostram as profecias sendo realizadas. Em relação à La Salette, por exemplo, a seguinte notícia confirma as mensagens dela (de La Salette):
    Padre é preso com suspeita de abusar de adolescente
    https://youtu.be/BHJ7vlajH18

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  4. Não é de estranhar o que está se passando na Igreja. Bento XVI foi perseguido e duramente criticado por lutar contra a ditadura do relativismo. Após a eleição de Francisco o Grande Oriente de Italia o saúda afetuosamente informando que de alguma forma irmãos contribuiram para dentro do conclave eleger alguém capaz de regenerar a Igreja Católica e cooperar com a sociedade planetária em seu conjunto. Ora basta acompanhar o pontificado de Francisco, a preferência pelos pobres (teologia da libertação), o esquerdismo, o ecumenismo e o ecologismo e Amoris Laetitia (um documento cheio de irregularidades além do famoso rodapé 351) Que mais é preciso dizer?

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  5. Há um artigo interessante que revela algumas pistas sobre o 3º Segredo de Fátima. Vejam!
    http://www.sensusfidei.com.br/2016/04/13/pistas-sobre-o-terceiro-segredo-segundo-pe-malachi-martin-que-o-leu/

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    1. O terceiro segredo é revelado por Nossa Senhora ao Pe. Gobbi no livro azul, na data de 13 de maio de 1990.

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    2. Pode transcrever ou resumir o que diz, sr. Obrigada

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  6. Obrigado pela dica! Acabo de ler a alocução mariana desse dia. É, de fato, muito interessante! Deus lhe pague!

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  7. Acredito que o Pe. Gobbi tenha revelado o essencial do 3º Segredo de Fátima, mas não o segredo como tal, pois, para isso ele teria que o revelar textualmente e integralmente, o que não é o caso. Digo isso não para contradizer, mas para que se faça essa distinção básica entre elementos que contém um segredo (ou parte de um segredo) e o segredo propriamente dito e textualmente falando.

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