segunda-feira, 30 de maio de 2022

Pe Reus: o Céu premia a centralidade monárquica do celebrante, enquanto a democracia se infiltra na Missa

Servo de Deus João Batista Reus SJ
Servo de Deus João Batista Reus SJ
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







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continuação do post anterior: Pe. Reus: tratamento da Majestade divina ao celebrante zeloso



O Pe. Reus celebrou o rito latino durante a vida toda porque era o rito geralmente em uso na América Latina e na Europa. Tratava-se da Missa em Latim, chamada também Missa se São Pio V, ou rito extraordinário.

Porém, na sua vida no Brasil (chegou em 1900 e faleceu em 1947) desde a Europa chegavam influencias teológicas, morais e litúrgicas que preparavam uma radical mutação na Missa no rito latino aprovado durante séculos pela Igreja.

Não é objetivo deste blog de entrarmos na problemática, mas notamos como simples fiéis que os fenômenos místicos na Missa apontavam poderosamente no sentido contrário dessa sorrateira entrada de teorias e práticas novas.

Observamos que o Pe. Reus não parece ter tentado polemizar com as novas tendencias se apoiando nas maravilhosas manifestações sobrenaturais de que era objeto.

Mas todas as interpretações feitas por ele, implicam uma censura da revolução litúrgica.

A troca dos corações


O Sagrado Coração de Jesus se implanta no coração do Pe Reus
O Sagrado Coração de Jesus se implanta no coração do Pe Reus. Desenho do Pe.Reus
O Pe. Reus foi beneficiado por um fenômeno místico extraordinário do qual muito ensinou Soeur Marie des Vallées e seu confessor São João Eudes: a troca de vontades, ou troca dos corações, entre o Sagrado Coração de Jesus e o de seu devoto.

Esta união sobrenatural é muito apropriada para o sacerdote que vai sacrificar o próprio Cristo no altar.

No dia 15 de junho de 1939, “na benção da novena, em preparação para a festa do Sagrado Coração de Jesus (...) vi, primeiro menos, depois mais claramente como o amável Salvador, que aparecia sobre o altar, e implantava seu Coração no meu peito e punha no seu peito o meu coração. Não era possível qualquer dúvida” (AeD, vol.3, nº2680).

A proximidade do piedoso jesuíta com Deus fazia-se sempre mais intensa, particularmente na santa Missa.

No dia 25 de junho “Na Comunhão, eu estava com os braços mais ou menos estendidos. De repente, senti que eles iam se erguendo, sem saber do que se tratava. De súbito, esteve próxima a Santíssima Trindade, e eu comecei a abraça-la e atraí-la para dentro do meu coração” (AeD, vol.3, nº2690).

No 30 de junho do mesmo ano, “na Consagração, na oração Nobis quoque antes do Domine non sum dignus (...) parecia-me que a Santíssima Trindade se achava presente sensivelmente bem próxima do altar. (...) As três Santas Pessoas eram maiores do que eu. Eu estava junto ao altar, entre as três Santas Pessoas.

“Isto, é outra demonstração da grande dignidade do sacerdote, que tem acesso ao Santíssimo dos Céus, no altar, ao qual a Santíssima Trindade desce na hora do sacrifício.

“Demonstra, ainda, o íntimo amor da Santíssima Trindade ao sacerdote que julga digno de permanecer em tão estreita proximidade da Santíssima Majestade de Deus e, é claro, mostra também a prontidão benignamente seus pedidos” (AeD, vol.3, nº2695).

Democracia na Missa?


Como dissemos, paradoxalmente, enquanto aconteciam essas inúmeras e impressionantes manifestações místicas ao Pe. Reus, nos ambientes modernizados da Igreja no Brasil a santa Missa começava a ser mudada em sentido contrário, soprada por ventos que vinham da Europa

O Pe. Ariovaldo José da Silva, que traçou uma documentada história do “movimento litúrgico” no Brasil, fixou a data oficial do seu aparecimento em 1933 (José Ariovaldo da Silva, O.F.M., “O Movimento litúrgico no Brasil”, Vozes, Petrópolis, 1983; D. Clemente Isnard, O.S.B., “Reminiscências para a História do Movimento Litúrgico no Brasil”, in B. Botte, O.S.B., “O Movimento Litúrgico. Testemunho e recordações”, Paulinas, SP, 1978, pp. 208-209).

Naquele ano de 1933, chegou um monge beneditino procedente da Alemanha, D. Martinho Michler (1901-1969), das abadias de Neusheim, Maria Laach e Santo Anselmo de Roma, que recebeu a influência de Romano Guardini, de D. Beauduin e de Odo Casel.

Dom Martinho Michler ficou encarregado de leccionar um curso de liturgia no Instituto Católico de Estudos Superiores, despertou, com as suas aulas, o entusiasmo de alguns estudantes brasileiros, entre os quais Alceu Amoroso Lima.

A esta influência não se subtraiu outro intelectual católico brasileiro, Gustavo Corção, que na sua obra autobiográfica “A Descoberta do Outro” (1944), segundo o Padre José Silva “deixa transparecer a nítida influência das ideias vitalistas de D. Martinho Michler” (“O Movimento litúrgico no Brasil”, p. 48).

Formou-se, no seio da Acção Universitária Católica (AUC) um Centro de Liturgia, cujos trabalhos se inauguraram com um retiro para dezasseis jovens, promovido pelo Sacerdote beneditino numa fazenda do interior do Estado do Rio.

Foi aí que, a 11 de Julho de 1933, se celebrou a primeira missa dialogada e versus populum, no Brasil. D. C. Isnard, O.S.B. recorda:

“Na sala principal ele preparou um altar para a celebração da missa. Mas, para grande surpresa nossa, em vez de encostar a mesa à parede, colocou-a no centro da sala e dispôs um semicírculo de cadeiras, dizendo que ia celebrar de frente para nós.

“Foi a primeira missa celebrada de frente para o povo no Brasil!” (“Reminiscências”, cit., p. 218).

“Dom Martinho fez tudo isso com naturalidade, mas naquele momento ele consumava uma revolução dentro de nós, quebrava um tabu, e nos obrigava a segui-lo noutros passos que nos faria dar” (ibid).

Desde então, D. Martinho Michler começou a dialogar a missa semanalmente com os universitários, no Mosteiro de São Bento, no Rio. “Iniciava-se, assim, o Movimento Litúrgico no Brasil” (J. A. Da Silva, O.F.M., “O Movimento litúrgico no Brasil”, p. 43).

Monarquia sacerdotal na Missa


A seriedade da Missa com que rezava o Pe. Reus levou Nosso Senhor a externar nele a natureza monárquica do Santo Sacrifício do altar.

Por exemplo em 3 de junho de 1939, “No momento em que levei aos lábios o cálice com o Santo Sangue, esteve presente o amado Salvador na cruz: seu Santíssimo Sangue, o sangue vivo, eu o bebida sua santíssima chaga do lado. Só um pouco dos contornos do cálice era visível. (…)

Feliz é o sacerdote, que bebe dignamente do Sagado Coração: beberá eternamente do mesmo” (AeD, vol.3, nº2698).

Era comum que nas festas dos santos, esses se lhe aparecessem na Misa como no 6 de julho de 1939, na oitava da festa de São Pedro e São Paulo (...) vi sobre o altar os dois Príncipes dos Apóstolos. São Pedro tinha as chaves, São Paulo a Espada” (AeD, vol.3, nº2700).

Numa Missa em honra do Espírito Santo: “No prefácio, às palavras In filios adoptionis effudit Derramou sobre os filhos adotivos, vi as graças do Espírito Santo descerem sobre mim. Portanto, descem em primeiro lugar sobre o presbítero” (AeD, vol.3, nº2703).

Em 16 de julho de 1939, mais uma manifestação sobrenatural que sublinhava essa centralidade exclusiva do celebrante:

“vi o amado Salvador pregado na cruz, diante de mim em tamanho natural, logo no início da Missa. Quanto pude perceber, ele pronunciava comigo as palavras da Missa.

“Vi-o, nitidamente, mover os lábios e, ao menos uma vez, dirigir os olhos para o alto, em oração. Isso durou por toda a Missa, (...)

“Esta visão quer mostrar o fato de que a santa Missa é a maravilhosa renovação do sacrifício da cruz, e isto desde o começo até o fim, e que o amado Salvador faz suas as palavras do sacerdote.

O sacerdote goza do privilégio invejável de ser o representante visível do Divino Sacerdote” (AeD, vol.3, nº2712).

Essa centralidade do sacerdote, que podemos chamar com propriedade de monárquica, começava a ser posta em dúvida pelo democratismo que se manifestou na precursora “primeira missa celebrada de frente para o povo no Brasil” que citamos no destaque gráfico.

Ojeriza democrática contra Nossa Senhora Medianeira de todas as graças


O mesmo democratismo tinha ojeriza obviamente com a posição monárquica de Nossa Senhora, Rainha do Céu e da Terra, intermediária de todas as graças que Deus, fonte única de todas elas, dispensa aos homens.

A fé em Nossa Senhora enquanto Medianeira de Todas as Graças que é professada há séculos pela Igreja, era especial objeto de sabotagem. A proclamação extraordinária dessa verdade como dogma sofria os efeitos dessa ojeriza.

Sem entrar em polêmica, o Pe. Reus testemunha o quanto Deus queria que na Santa Missa se tornasse brilhantemente palpável essa Mediação Universal de Maria.

Em 10 de julho do mesmo ano, rezando a Missa em honra da Imaculada Conceição “ao dar a benção final, vi acima de mim a querida Mae de Deus, abençoando junto comigo.

“Com toda a razão, pois lhe cabe este direito como Medianeira de todas as graças. As graças dispensadas por Deus também ela as dá, embora de modo diverso.

“Ela é Medianeira da graça especialmente para o sacerdote, por ela tão intimamente amado, e a quem confiou o que tem de mais caro: seu Divino Filho no Santíssimo Sacramento.
(...) ela ama a todos, mas de modo especial aos sacerdotes (...) defensores da honra d’Ele e d’ela, e em quem ela, mais que nos outros fiéis, reconhece e ama a imagem de seu Filho” (AeD, vol.3, nº2707).

E em 14 de julho de 1939, na Missa de São Boaventura, “vi, acima de mim, raios luminosos e, em seguida, um sol nas palavras Vos estis lux mundi – Vós sois a luz do mundo.

O sacerdote, comenta o santo jesuíta, é a luz do mundo por meio do anúncio da doutrina do Sagrado Coração de Jesus e por meio da sua vida, semelhante à dos Anjos no meio de um mundo depravado” (AeD, vol.3, nº2710).

Compreende-se bem a dor de Deus contemplando a relaxação e a profanação por parte dos maus sacerdotes.


Continua no próximo post:


Fonte: “Autobiografia e Diário do Padre Reus”, editora Unisinos – Livraria e Editora Pe. Reus, Porto Alegre, 1999, 5 volumes. Fundamentamos estes posts nos cinco volumes desta autobiografia, que citaremos por brevidade como AeD. Em caso de recorrermos a outra fonte, faremos menção completa dela.


Um comentário:

  1. Obrigado por esta linda reflexão sobre a dignidade do sacerdócio!

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