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segunda-feira, 4 de março de 2024

Cardeal Pie: perseguição atual da Igreja prefigura o Anticristo

Já não é tempo de calar, mas de combater. La Bible historiatus de Pierre [le Mangeur], BnF, Département des manuscrits, Français 155, fol 195r.
Já não é tempo de calar, mas de combater.
La Bible historiatus de Pierre [le Mangeur], BnF,
Département des manuscrits, Français 155, fol 195r.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Perdoai a energia de algumas de minhas palavras.

Pode-se manter o sangue frio diante tudo o que se pratica hoje no mundo?

Será que das profundezas da consciência oprimida dos pastores não saem em certas horas brados que as circunstâncias ordenam que eles expliquem?

Não têm os profetas do Altíssimo o direito de permanecer em silêncio quando a iniquidade parece liberta e supera todos os limites de iniquidade, quando o machado está no pé da árvore secular do papado, quando a moral universal é ridicularizada publicamente, e quando o banditismo parece ter-se tornado o novo direito do povo?

A posteridade não irá nos acusar pelo excesso de nossa prolongada moderação, não recearemos que a autoridade dos grandes doutores nos censure por termos esquecido que os servos de Deus devem conciliar liberdade e submissão? (In Ps. LII, 14) (...)

Chegou o tempo de falar porque o tempo de calar acabou...

Olhando para as nuvens para ver se Cristo não vai aparecer, porque o Anticristo domina a Terra.

Chegou o tempo em que os pastores devem levantar a sua voz, porque Satanás se transformou em anjo de luz. (...)

O combate seria mais fácil contra inimigos declarados. Então não haveria dúvida alguma sobre as intenções dos perseguidores.

É no meio dos suplícios, sob a ameaça da espada, diante dos patíbulos que nós elevaremos a voz.

E os povos, testemunhas de uma perseguição manifesta, viriam a nós para nos seguir como a seus chefes e nos acompanhariam na confissão da verdade: et nos populi tanquam duces suos ad confessionem religionis, intelligentia persecutionis publicæ, comitarentur.

"Agora nós lutamos contra um perseguidor que engana, finge ser cristão" Trinity Apocalypse, Cambridge R.16  010r.
"Agora nós lutamos contra um perseguidor que engana, finge ser cristão"
Trinity Apocalypse, Cambridge R.16  010r.
Mas agora nós lutamos contra um perseguidor que engana, contra um inimigo que não emprega outras armas senão as da astúcia e da sedução.

Digo-te, Constâncio [N.T.: imperador romano fingidamente cristão que secretamente adorava uma deidade pagã. É prefigura de certos inimigos da Igreja], tu batalhas contra Deus, tu golpeias a Igreja, tu sacrificas a religião, tu tiranizas não apenas as coisas humanas, mas as coisas divinas.

Tu finges ser cristão, e tu és um novo tipo de inimigo de Cristo.

Tu antecipas o Anticristo e preludias surdamente seus mistérios de iniquidade.

Em tudo isso, tu és um perseguidor mais refinado que teus predecessores, porque tu operas tanto mal, arrastas tantas deserções e odeias fazer mártires; tu nos tiras a palma dos mortos gloriosos (S. Hilar. contr. Constant., I, A-7).


(Autor: Cardeal Louis-Édouard-François-Desiré Pie (1815 – 1880), “Éloge funèbre des volontaires catholiques morts pour la défense des États de l'Église, prononcé dans la cathédrale de Poitiers, a la suite du service solennel célébré à leur intention, 11 octobre 1860”, in Oeuvres de monseigneur l'évêque de Poitiers, Tomo 4, Bibliothèque Nationale de France)


Notícia histórica do Cardeal Pie


O Cardeal Luis Eduardo Pie (1815 – 1880), foi bispo de Poitiers, França, elevado ao Cardinalato pela brilhante apologia da infalibilidade pontifícia no Concílio Vaticano I. Ele ficou famoso pelo seu “ultramontanismo” [literalmente = além das montanhas, apelativo dado aos franceses defensores do Papado] e pela sua ativa apologia do reinado social de Cristo Rei.

No Grande Seminário de Saint-Sulpice, em Paris, se destacou na polêmica contra os eclesiásticos “galicanos” [defensores de falsas prerrogativas do governo leigo francês, ou “galo”]. Ele foi ardido pregador contra o liberalismo, o relativismo e o livre pensamento condenado pelos Papas.

Em 12 de julho de 1843 escreveu uma carta que definia sua orientação autenticamente católica: “O partido neo-católico liberal é um filho da Revolução; e a Revolução é satânica na sua essência”.

Foi vigário da catedral e vigário geral da diocese de Chartres. Em 28 de setembro de 1849, o Papa Pio IX o nomeou bispo da diocese de Poitiers, ilustrada pelo ensinamento de Santo Hilário, Doutor da Igreja.

Ele resumia sua ação com a frase de São Paulo: instaurare omnia in Christo.

Exerceu grande influência sobre o conde de Chambord, pretendente legítimo ao trono da França. Foi muito hostilizado pelos bispos favoráveis a uma conciliação com o liberalismo positivista anticristão. Esses bispos defendiam um carunchado e insincero “cristianismo moderado”.

O bispo de Poitiers lhes respondia que “o diabo se chacoalha violentamente no seio do cristianismo moderado”, o qual segundo ele, era uma das mais danosas formas de subversão.

Ele tentou influenciar o imperador Napoleão III e lhe abrir os olhos diante do perigo que crescia contra a Igreja e contra a sociedade. Após infrutífera audiência em 15 de março de 1859, Mons. Pie anunciou profeticamente ao chefe de Estado o fracasso de seu reinado. O imperador foi deposto em setembro de 1870 após catastrófica derrota contra a Prússia protestante e iluminista.

Mons. Pie comparava o contrarrevolucionário Papa Pio IX ao próprio Cristo dizendo que o furor do inferno e do laicismo se desencadeou contra o Pontífice. Ele punha no boca do governo francês as insensíveis e cruéis palavras de Poncio Pilatos: Ecce homo !

Ele preveniu bispos e governantes para a vinda não remota do Anticristo preanunciada pela dissolução geral da sociedade cada vez mais liberal.

Mons. Pie foi perseguido e condenado pelo governo. Em 1863, denunciava a perseguição anticristã dizendo:

“O objetivo da Revolução [se referindo em primer lugar à Revolução Francesa de 1789 e seus sucedâneos] é o esmagamento do cristianismo na vida pública, a derrubada da ortodoxia social.

“Destruir os últimos restos do edifício antigo da Europa cristã. E, para que a demolição seja definitiva, abater a pedra angular em volta da qual ainda poderiam se articular os últimos restos subsistentes.

“Eis a obra na qual convergem abertamente as mil vozes da impiedade da nossa geração: a caotização à qual nos assistimos”.

Em 29 janeiro de 1879 foi elevado à dignidade de Cardeal pelo Papa Leão XIII. Roma quis premia-lo pelo seu brilhante atividade no Concílio Vaticano em favor do dogma da infalibilidade pontifícia, felizmente aprovado.

O cardeal Pie – “meu Mestre”, dizia São Pio X – profetizou, e eis aqui alguns textos que é bom redescobrir nestes dias.

A concordância com as mensagens de La Salette e Fátima se impõe por si mesma e dispensa comentários.

(Fonte: verbete Louis-Édouard Pie, Wikipedia, e idem).


segunda-feira, 13 de julho de 2020

Papas São Pio X e Beato Pio IX promoveram La Salette

Beato Pio IX
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
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continuação do post anterior: Santo Aníbal Di Francia: testemunha excepcional



Beato Pio IX

O Beato Pio IX deu uma categórica e comovida acolhida à mensagem de La Salette em 1851. Ele a defendeu contra os piores vagalhões.

Este decidido apoio do Bem-aventurado Pontífice a La Salette patenteou-se em 30 de agosto de 1854.

Nessa data, enviou carta a Mons. Ginoulhiac, então bispo de Grenoble e ativo opositor da mensagem, exortando-o a defender a devoção a Nossa Senhora de La Salette e a mensagem:
“É coisa manifesta que, por palavras e escritos de homens desconhecidos, eleva-se hoje uma suspeita de falsidade contra o fato de La Salette, e que o próprio culto praticado sobre essa montanha à Santíssima Mãe de Deus é posto em controvérsia. (...)

“Desdobrai todo vosso zelo, venerável irmão, para que a piedade e a devoção filial à Rainha do Céu e Soberana do mundo, que floresce tão felizmente na vossa diocese, se mantenha e ganhe cada dia novos acréscimos.

“E se necessidade houver, é um dever de vosso cargo e de vossa solicitude pastoral informar vosso rebanho sobre os perigos que rodeiam esta devoção, e de premuni-lo contra eles”.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Cardeal Pie: a ousadia do Anticristo
tentará os fiéis para a ‘religião nova’ do relativismo

“O Anticristo se fará conhecer nos homens malvados exultantes e reverdecidos”.
Os homens adorarão a besta da Terra e a Besta do mar, Museo Paul Getty
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Pois é preciso dizê-lo, na medida em que as sociedades irão se divorciando do cristianismo, o papel dos homens de bem, dos homens de fé, tornar-se-á cada vez mais impossível.

Ouvi ainda o nosso Santo Doutor [Santo Hilário de Poitiers]. Ele fala desses últimos tempos que Nosso Senhor anunciou que se aproximam e sinalizou seu caráter com a figura da figueira cujos galhos começam a amolecer.

“Com efeito, diz ele, se saberá que o Anticristo começa a despontar, a brotar: Antichristus autem frondescere noscetur; o desabrochar do Anticristo se fará conhecer vendo os homens malvados exultantes e como que reverdecidos: Antichristus autem frondescere quadam peccatorum exultantium viriditate noscetur.

“Pois haverá então uma nata de malvados, uma elite de perversos; e todas as vantagens, todos os favores e toda a consideração serão concedidos aos irreligiosos: Erit enim tum flos criminosorum, et honor facinorosorum, et gratia profanorum (Comment, in Matth., XXVI, 2)”.

Todo o texto que acabo de citar é digno de destaque; a última pincelada exprime ao vivo certas disposições, certas tendências que não são estranhas em nosso tempo: et gratia profanorum.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Crise fragmentadora da Igreja. Caos e anarquia universal – Continua La Salette

Beato Pio IX, foto que perteneceu a Don Bosco
Beato Pio IX, foto que pertenceu a São João Bosco
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Falsos prodígios sobre a Terra: auge das punições universais



Prossegue o segredo de La Salette, acenando para horizontes que fazem lembrar as advertências de Nossa Senhora em Fátima:
“O Vigário de meu Filho terá muito que sofrer, porque durante algum tempo a Igreja será entregue a grandes perseguições.

“Será o tempo das trevas, e a Igreja passará por uma crise pavorosa.

“Tendo sido esquecida a santa fé em Deus, cada indivíduo desejará guiar-se por si próprio e ser superior a seus semelhantes. Serão abolidos os poderes civis e eclesiásticos.

“Toda ordem e toda justiça serão calcados aos pés. Não se verá outra coisa senão homicídios, ódio, inveja, mentira e discórdia, sem amor pela pátria e sem amor pela família.


“O Santo Padre sofrerá muito. Eu estarei com ele até o fim, para receber o seu sacrifício.

“Os maus atentarão várias vezes contra sua vida sem poder abreviar seus dias, mas nem ele nem seu sucessor ... verão o triunfo da Igreja de Deus”.

Sonho de São João Bosco sobre um Papa abandonando Roma num contexto trágico

A gravidade destes anúncios é realçada pelas semelhanças com o sonho de São João Bosco, que se parece referir à mesma conjuntura histórica.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Cardeal Pie: dever dos cristãos vendo a Igreja assediada pelos maus

Tapeçaria do Apocalipse. Castelo de Angers, França.
Tapeçaria do Apocalipse. Castelo de Angers, França.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“Eu quero dizer bem forte, meus filhos, que hoje mais do que nunca a força principal dos maus está na fraqueza dos bons, e o nervo de Satanás entre nós é o esvaziamento do cristianismo nos cristãos. (...)

“A grande provação estará próxima, estará longe – ninguém o sabe, e não ouso fazer vaticínios a esse respeito, pois estou de acordo com Bossuet quando diz: ‘Eu tenho medo de pôr minhas mãos sobre o futuro’”. (Explication de l'Apocalypse, cap. 20. Edit. Lebel, T. m, p. 478).

Mas o certo é que, na medida em que o mundo se aproxima de seu final, os maus e os sedutores terão sempre mais vantagem: Mali autem et seductores proficient in pejus (II Timoth., III, 13).

Não se encontrará quase mais Fé sobre a terra” (Luc., XVIII, 8), ou seja, ela terá desaparecido quase completamente de todas as instituições terrenas.

Os próprios fiéis apenas ousarão fazer profissão pública e social de sua Fé. Divisão, separação, divórcio das sociedades em relação a Deus: isso é o que nos é dado ver por São Paulo como um sinal precursor do fim que irá se consumando dia a dia: nisi venerit discessio primum (II Thessal. ,I, 3).

A Igreja, sociedade visível, sem dúvida ficará cada vez mais reduzida a proporções meramente individuais e domésticas.

Ela, que em seu início dizia: “O espaço me fica estreito, abri espaço para mim onde eu possa morar”: Angustus est mihi locus, fac spatium mihi ut habitem (Is., XLIX, 20), verá seu terreno disputado palmo a palmo; será sitiada, assediada por toda parte; tão grande como foi através dos séculos, tentar-se-á reduzi-la na mesma proporção à pequenez.

Por fim, haverá para a Igreja na terra como que uma verdadeira derrota: “será dado à besta fazer a guerra aos santos e vencê-los” (Apoc., XIII, 7). A insolência do mal atingirá o auge.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Cardeal Pie: no dia em que o Papado
parecerá sucumbir nas mãos do mal

O Cardeal Pie, bispo de Poitiers, teve luzes proféticas.
O Cardeal Pie, bispo de Poitiers, teve luzes proféticas.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Notícia histórica do Cardeal Pie


O Cardeal Luis Eduardo Pie (1815 – 1880), foi bispo de Poitiers, França, elevado ao Cardinalato pela brilhante apologia da infalibilidade pontifícia no Concílio Vaticano I. Ele ficou famoso pelo seu “ultramontanismo” [literalmente = além das montanhas, apelativo dado aos franceses defensores do Papado] e pela sua ativa apologia do reinado social de Cristo Rei.

No Grande Seminário de Saint-Sulpice, em Paris, se destacou na polêmica contra os eclesiásticos “galicanos” [defensores de falsas prerrogativas do governo leigo francês, ou “galo”]. Ele foi ardido pregador contra o liberalismo, o relativismo e o livre pensamento condenado pelos Papas.

Em 12 de julho de 1843 escreveu uma carta que definia sua orientação autenticamente católica: “O partido neo-católico liberal é um filho da Revolução; e a Revolução é satânica na sua essência”.

Foi vigário da catedral e vigário geral da diocese de Chartres. Em 28 de setembro de 1849, o Papa Pio IX o nomeou bispo da diocese de Poitiers, ilustrada pelo ensinamento de Santo Hilário, Doutor da Igreja.

Ele resumia sua ação com a frase de São Paulo: instaurare omnia in Christo.

Exerceu grande influência sobre o conde de Chambord, pretendente legítimo ao trono da França. Foi muito hostilizado pelos bispos favoráveis a uma conciliação com o liberalismo positivista anticristão. Esses bispos defendiam um carunchado e insincero “cristianismo moderado”.

O bispo de Poitiers lhes respondia que “o diabo se chacoalha violentamente no seio do cristianismo moderado”, o qual segundo ele, era uma das mais danosas formas de subversão.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A proibição (já perimida) de La Salette foi por causa dos laicistas anticlericais?

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O leitor Baccaro de Freitas enviou-nos a seguinte pergunta:

Algumas fontes dizem que a perseguição à mensagem de La Sallete deu-se principalmente não pela objeção dos eclesiásticos, senão pela livre interpretação das palavras do segredo feitas por iluministas, maçons e laicistas franceses que utilizavam as frases da Virgem Santíssima para desestruturar a credibilidade do Santo Padre da época, bem como dos Estados Pontifícios.
Caríssimo, essa informação procede com os fatos?

Respondemos com um atraso que nós não desejávamos.

De fato, argüiu-se que as palavras do segredo de La Salette manipuladas por anticlericais e laicistas franceses traziam dano à Igreja, ao clero francês e, obviamente à Santa Sé.

Porém, é preciso esclarecer quem dizia isso.

O Pe. Jean Stern embora, crítico dos videntes e de seu segredo, produziu uma das mais imponentes e respeitadas coleções de documentos autênticos relativos ao caso de La Salette.

Trata-se de “La Salette ‒ Documents authentiques: dossier chronologique intégral” em 3 volumes publicados por Desclée de Brouwer e Les Éditions du Cerf em datas sucessivas. Encontra-se à venda, por exemplo, no próprio santuário de La Salette (capa foto acima).

Esta coleção é preciosa pela quantidade, qualidade e rigor científico na apresentação de documentos da época.

O Pe. Stern reproduz vários artigos de jornal do tempo das aparições e outros escritos contra La Salette nos quais apalpa-se a inimizade visceral do laicismo anticlerical contra La Salette.

Porém, neles o argumento aludido não se encontra.

Há muitos e variegados ataques que repetem o realejo anti-católico transato: “estúpida invenção acolhida pela imbecilidade de alguns, explorada pelo charlatanismo desavergonhado de outros” (“Le Patriote”, 9-01-1847); “impostura fantástica”, “anedotas fictícias” (“Le National”, 20-02-1847), “prodígios calculados para a glória das sacristias”, “semelhante milagre é um crime”, “conto que só seria ridículo se não fosse que lançado entre as populações ignorantes ele pode dar lugar às conseqüências as mais deploráveis” (“Constitutionnel”, 20-02-1847), etc., etc.

Na extensa literatura que eu compulsei só encontrei o argumento da pergunta em escritos de eclesiásticos galicanos. Estes, naquela época estavam bem relacionados com os governos liberais, e acalentavam o nascente modernismo. Os exemplos são abundantes.

Cabe observar que o Bem-aventurado Papa Pio IX não acreditou no argumento. Às primeiras tentativas ele respondeu com a frase famosa: “Tenho menos a temer de Proudhon que da indiferença religiosa e do respeito humano”.

Pelo geral, o B. Pio IX mostrava conhecer a fundo a realidade da Igreja na França e o estado das dioceses e respondia que no precisava de revelações para saber o que estava acontecendo. Nessas condições, o clero galicano preferia não continuar a puxar o assunto.

No pontificado de S.S. Leão XIII houve uma mudança de atitude diplomática na Santa Sé. O novo Papa empreendeu uma política de aproximação com a República nascida da Revolução Francesa ‒ o polêmico ralliement ‒ e se afastou do monarquismo legitimista. Isto é, assumiu uma política oposta à de seu antecessor.

Nesse ambiente de aproximação com os inimigos de outrora, a referida crítica encontrou espaço para se expandir.

Assim, por exemplo, em 6 de setembro de 1880 o bispo de Angoulême escrevia ao Núncio em Paris, informando que tinha interditado a difusão da Mensagem de La Salette publicada com o imprimatur de Mons. Salvatore Luigi Zola, bispo de Lecce falecido em odor de santidade. 

O bispo francês acrescentava que atitude semelhante fora assumida por bispos de seu país como os de Nîmes, Rodez, etc.

E explicava: “Se [esses escritos] fossem cair nas mãos de nossos inimigos, não daria um escândalo público? (...) Não seria bom, Monsenhor, que Sua Santidade seja informada de nossa tristeza e de nossa inquietação?” (Michel Corteville, “La ‘Grand Nouvelle des Bergers de La Salette”, vol. I, Téqui, Paris, 2008, p. 341).

O bispo de Sées em carta a Leão XIII de 7 de setembro de 1880 resumia de modo assaz imperfeito, puxado a caricato, o conteúdo da mensagem de La Salette publicado com o imprimatur de Mons. Zola e concluía:

“Seria verossímil que, por meio dessas maldições e outras atitudes semelhantes, a Bem-aventurada Virgem Maria ataque o conjunto de nossas castíssimas virgens e as integríssimas ordens religiosas regulares que consumem sua vida pela glória de Cristo e a salvação do próximo?

“Quem acreditará que a piedosíssima Mãe de Deus, Padroeira da Igreja, diante de todos os homens possa ter apontado como suspeita a virtude dos sacerdotes, pior ainda, que Ela tenha desmoralizado a dignidade divina e a autoridade dos bispos para ser calcada aos pés dos ímpios?”

A carta concluía garantindo ao Papa que “sem dúvida em toda a França, os sacerdotes, os seminários e as famílias religiosas dos dois sexos florescem na integridade; não se encontra ordem alguma, casa alguma, a respeito das quais a Santíssima Virgem poderia proferir tão atrozes palavras” (id. ibid. p. 342).

A Santa Sé conhecia muito bem o estado ‒ aliás, crítico ‒ da Igreja na França e as polêmicas suscitadas pela corrente modernista em crescimento. Na cúria vaticana do tempo de Leão XIII houve muita disparidade de opiniões sobre La Salette e o Pontífice assumiu uma posição conciliatória.

O pontificado de São Pio X significou o fim da política de aproximação com a República anti-católica francesa e o renascer feroz do anticlericalismo. O argumento em foco perdeu força de convicção.

Por fim, S.S. Bento XV proibiu a difusão da Mensagem nos termos que mencionamos num outro post. AQUI.

O que estava na mente do Papa na hora de aprovar essa interdição? Poucos documentos são tão esclarecedores quanto um relato escrito pelo embaixador Jacques Maritain, então representante diplomático da França ante a Santa Sé, descrevendo uma audiência com S.S. Bento XV.

O embaixador fora solicitar o levantamento da proibição. A embaixatriz Raisa Maritain esteve presente tendo tomado parte na animada audiência que, entre outras coisas, descreveu assim:

S.S.Bento XV
S.S.Bento XV
“’La Salette!’, disse ele com um olhar vivo e interessado.Ele próprio explicou longamente seus sentimentos sobre a questão:

“‘A aparição está fora de dúvida; mas as palavras da Santa Virgem a Mélanie, em particular quando na mensagem secreta elas exprimem tanta severidade em relação ao clero, são bem certas? Eis o ponto da discussão! 

Que ela se tenha queixado do clero falando em termos gerais é bem possível, mas os termos tal vez foram exagerados pela fantasia (a imaginação) de Mélanie, quaisquer que sejam a sinceridade e as boas disposições dela.

“Brevemente, se é uma mensagem secreta, quoad substantiam concedo, quoad singula verbe nego (concedo no que diz à essência, nego no que se refere a cada palavra). O Santo Ofício quer evitar o escândalo, pacificar os espíritos, evitar que o povo cristão se afaste dos sacerdotes, que já tantos inimigos quereriam acabrunhar.’ [...]

“Depois, com grande doçura :

“– ‘Mas o Sr., o Sr. acredita que a Santa Virgem falou assim, ao pé da letra?’ [...]

“– ‘Sim, Santíssimo Padre, eu acredito que Mélanie era uma santa e que o que ela referiu é verdadeiro ao pé da letra. Eu conheço muitos detalhes sobre sua vida. Ela era estigmatizada. Ela sofreu muito por fidelidade à sua missão...’

“– ‘Sim, eu sei, disse o Papa que não parecia muito ofendido com minha resposta. Não se pode falar dela tudo o que se reprocha do outro vidente.’

“– ‘Mas ele foi muito caluniado também. Ele não teve as graças extraordinárias com que Mélanie foi favorecida. Mas era um bom cristão.’

“Raisa :

“– ‘Um coração simples.’

“– ‘Mas a Sra. também acredita? A Sra. também tem devoção a Nossa Senhora de La Salette?’

“– ‘Sim, Santíssimo Padre’ (ela disse isso compenetrada, malgrado o temor de avançar demais intervindo na conversa).

“– ‘Sim, eu sei, há muitas pessoas na França que tem grande devoção a Nossa Senhora de La Salette. Maior que outros têm a Nossa Senhora de Lourdes, não é?’

“Eu disse:

“– ‘É que a Santa Virgem chorou em La Salette, é por causa de suas lágrimas.’

“– ‘As lágrimas’, acrescentou Raisa, ‘expressam bem o estado atual do mundo.’

“O Papa ficou silencioso. Parecia tocado, seu rosto estava grave. Depois de um momento me disse:

“– ‘Pois bem, eis o que deveis fazer. Ide ver Nosso Irmão o Cardeal Billot (...) abri para ele vosso coração. (...) Se o bom Deus quiser se servir de vós na ocorrência, Ele inspirará a resposta que convém’.” (Laurentin-Corteville, “Découverte du secret de La Salette”, Fayard, Paris, 2002, p 140-142).

Não conhecemos o desdobramento do caso. O certo é que o embaixador francês não obteve o que desejava. Só a redescoberta dos documentos originais em 1999 dissolveu definitivamente as dificuldades apresentadas por S.S. Bento XV.