Sœur Marie des Vallées

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Troca da vontade com Deus

Vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos

Dilúvio do Espírito Santo e

Reinado do Coração de Jesus e Maria




Sœur Marie des Vallées e a troca da vontade com Deus

Sœur (Irmã) Marie des Vallées (15 fevereiro 1590 – 25 fevereiro 1656) foi uma leiga mística estigmatizada, conhecida como “a santa de Coutances”.

Nasceu no povoado de Saint-Sauveur-Lendelin, periferia da cidade de Coutances que ficou ligada a seu nome. Foi filha de camponeses, supõe-se que de pequenos nobres arruinados.

Foi chamada pela Providência para praticar e ensinar uma via espiritual de união da alma com Deus que foi adotada pelos maiores santos da França no século XVI e posteriores: a troca de vontades.

Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246),
primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus.
Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Os santos que adotaram essa via constituíram a espinha dorsal da guerra espiritual contra um aspecto desapercebido da Revolução gnóstica e igualitária que desde a renascença e o protestantismo estava tomado conta da França.

A mesma Revolução hoje devasta o mundo com subersões culturais, políticas, econômicas, sociais, etc.

Esses santos, muitos deles bem conhecidos por nós, adotaram a posteriormente denominada Escola Francesa de Espiritualidade que animou todas as reações contrarrevolucionárias e as impulsiona em nossos dias, e da qual Marie des Vallées foi uma excepcional inspiradora.

A Escola Francesa de Espiritualidade – termo do século XX – define a corrente francesa da Contra-reforma católica que tomou forma no Concílio de Trento.

Ela se distingue pelo acento na devoção ao Sagrado Coração de Jesus e na Infância Espiritual, concebida esta última não num sentido infantil, mas de saída radical de si, que retoma a mística medieval. Santa Teresinha do Menino de Jesus seria a máxima expressão desta Infância Espiritual.

Entre esses destacamos pela sua projeção mundial a São Vicente de Paulo (1581 — 1660); a São João Eudes (1601 — 1680), doutor da devoção ao Coração de Jesus, ao Coração de Maria; a São Luis Maria Grignon de Montfort (1673 — 1716), apóstolo da escravidão de amor a Nossa Senhora e profeta dos Apóstolos dos Últimos Tempos; a São Francisco Xavier de Montmorency-Laval (1623 –1708), bispo de Quebec que organizou a Igreja Católica no Canadá e na Nova França que incluía a região central dos EUA, New Orleans e Louisiana. E ainda falaremos de outros ao longo dos próximos posts.

Marie des Vallées foi chamada de Irmã Sœur em francês – não por pertencer a alguma ordem, mas seguindo um costume popular de aplicar as mulheres o apelativo de Irmã ou Mãe em sinal de consideração.

São João Eudes foi o único anotador e grande difusor da espiritualidade de Sœur Marie des Vallées
São João Eudes foi o único anotador
e grande difusor da espiritualidade de Sœur Marie des Vallées
São João Eudes seu diretor espiritual, foi o anotador de todas as visões e fenômenos místicos e, paradoxalmente, discípulo na troca de vontades.

A Irmã Marie des Vallées foi uma pobre camponesa sem escolaridade escolhida por Deus para fazer brilhar a luz divina.

Mas essa luz brilhou numa era que se vangloriava de ser o Século das Luzes, aliás naturalistas, laicistas e anticatólicas, mas no qual lavrava uma espantosa Revolução.

Portanto, numa era em que progredia o processo das trevas da iniquidade que haveria de estourar nas Revoluções Francesa e Comunista

Os fenômenos sobrenaturais, e também preternaturais, que marcaram sua vida foram tão extraordinários que os espíritos medianos do Grand-Siècle, século de esplendor cultural, mesmo católicos tenderam a nega-los de vez.

Em toda sua vida, na sua posteridade e até no presente Sœur Marie des Vallées foi objeto de furacões de descrédito, contestação, críticas e até furor progressista e revolucionário.

Esses vagalhões não provieram só dos arraiais heréticos ou revolucionários, mas também dos ambientes católicos relaxados ou eivados de erros.

Em sentido contrário, grandes santos e figuras do catolicismo assumiram sua defesa, adotaram seus conselhos e ensinamentos contidos em visões e revelações, fenômenos místicos extraordinários, possessões diabólicas, perseguições de toda espécie, milagres e profecias cumpridas e a se cumprir.

Essa incompreensão continua, mas diminuída pela percepção de que o mal que ela denunciou agora se mostra em patamares que prefiguram eventos apocalípticos.

A Sœur foi a inspiradora mística da reação católica numa Franca que culturalmente e religiosamente afundava por obra da conspiração de sociedades secretas impregnadas de iluminismo, neopaganismo e satanismo.

A decadência vinha de longe propulsada por um processo que eclodiu na Renascença e que haveria de dar na fúria igualitária e anticatólica da Revolução Francesa e tudo o que se seguiu, notadamente o socialismo, o comunismo e Maio de 68.

Sœur Marie des Vallées foi uma mística do fogo que pregou um incêndio de amor divino para reerguer o Reino de França e a Igreja afundados em assustadora decadência de costumes e nas piores abominações com forte infiltração satanista.

É claro que nosso século XXI que retorna a passos de gigantes ao paganismo ocultista haveria de tentar apagar sua mensagem, ou se voltar contra ela.

Sœur Marie des Vallées e o decreto divino contra o Pecado


Nos registros de São João Eudes encontramos a menção a um Supremo Conselho que teve lugar no Céu e do qual só participaram as três pessoas da Santíssima Trindade.

Enquanto esse estava reunido
se fez um imenso silêncio no universo, no Céu e também no inferno.

Sabia-se que se discutia um assunto da máxima importância, e até os demônios na terra ficaram estarrecidos porque percebiam que lhes concernia e queriam saber de toda forma o que estava sendo falado.

Afinal, Nosso Senhor comunicou a Sœur Marie a resolução tomada: o Pecado – portanto o processo universal de pecados – tinha sido julgado e sua condena fora proferida.


A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo Deus e Homem, ficou encarregada de executar a sentença.

Mas eis que Nosso Senhor disse a Sœur Marie que não iria executá-la, ao menos logo, porque três grandes obstáculos O impediam.

A razão do paradoxo é que Nosso Senhor na hora de extinguir o Pecado e os maus não queria exterminar os bons misturados com os maus, como na parábola do joio misturado com o trigo.

Quais eram os obstáculos?

Nosso Senhor explicou: se Ele fosse cumprir a ordem ao pé da letra não sobrariam nem os bons.

Então ele queria remover neles os fatores que os mantinham enleados com os maus e assim poupar os salváveis.

Esses fatores são essencialmente três. E contra esses três tinha três frechas simbólicas. Para essa tarefa Ele queria o engajamento de Sœur Marie.

O primeiro obstáculo que é preciso remover é a moleza dos bons.

Para dar-lhe fim, o Pai Eterno preparava uma flecha que daria à alma do bom decadente uma força sobrenatural pela qual ele se ergueria generosamente da terra em que o pecado o mantém chafurdado.

O segundo empecilho é o desconhecimento da gravidade do Pecado que há nos bons. Nosso Senhor prepara uma flecha que comunicará a essas almas um raio de luz que as acordará do sono ao qual se entregaram, ficando moral e intelectualmente adormecidas nas trevas de uma ignorância culpada.

O terceiro é a falta de percepção por parte dos bons da malícia que há no Pecado. Contra isso o Espírito Santo prepara um sopro divino que acenderá suas inteligências e seus raciocínios.

Esse sopro fará que seu entendimento lhes apresente os terríveis juízos de Deus e a razão natural lhes faça ver a indignidade de uma criatura chamada a tantas belezas e perfeições eternas se revolver na lama como animal imundo.

Então as almas que jazem como corpos putrefatos mortos, malcheirosos e insuportáveis lavar-se-ão nas águas da contrição.

A Sœur Marie, em 12 de fevereiro de 1645, Nosso Senhor lhe prometeu uma marca que se imprimiria nela e que ficaria gravada em tudo o que ela dizia de tal maneira que ninguém poderia duvidar que era a Verdade.

O decreto trinitário da morte do Pecado, disse Marie, foi pronunciado na meia-noite do Natal de 1645, segundo comunicação de Nossa Senhora (p. 279).

Em abril de 1650, Nosso Senhor lhe explicou que a besta do Apocalipse de sete cabeças simboliza o pecado original e todos os pecados que procedem dele como consequência.

Mas desde aquele momento os dias dessa besta estavam contados porque o Pai Eterno fará descer sobre ela um dilúvio de fogo e enxofre para aniquila-la. (p. 280)

Sœur Marie tinha impulsos tremendos contra o Pecado visto como um todo, e os pecados individuais, e queria exterminá-los logo. Mas Nosso Senhor lhe explicou que não seria no século XVII em que vivia.

Nosso Senhor a tranquilizou dizendo sobre esse século que as “aflições daqueles dias não eram grande coisa e atingiam só os pequenos pecadores. Não eram mais do que uma preparação e uma disposição para uma outra tribulação espantosa que vai vir”.

Mostrou-lhe então uma taça de vinho estragado, acrescentando que faria os ruins beber até a borra (p.281).



Sœur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”


Sœur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Sœur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes.
Chapelle Notre Dame de la Roquelle
O chamado Século das Luzes foi também uma época de grandes santos e almas de escol que opuseram uma luta heroica ao trabalho oculto das sociedades secretas.

Além dos santos mencionados no post anterior poderíamos acrescentar São Vicente de Paul (1581 – 1660), e a venerável Marguerita do Santíssimo Sacramento O.C.D. (1619-1648) a quem o Menino Jesus e São Luis denunciaram a corrupção reinante na França, se oferecendo ela como vítima para afastar a cólera celeste.

A carmelita iniciou o culto ao Menino Jesus de Beaune conhecido como “le petit Roi de grâce”, devoção que se espalhou na nobreza e atraiu ao próprio Luis XIII.

Essa devoção ao Menino Jesus se espalhou pela França contrariando o jansenismo reinante, sendo Santa Teresinha do Menino de Jesus no século XIX uma de suas mais proeminentes figuras.

Entre essas almas de escol houve leigos como o barão Gaston de Renty (1611 - 1649) muitas vezes presidente da Companhia do Santíssimo Sacramento.

Essa era composta por membros da nobreza e elites análogas e combatia no campo cultural-moral a revolução cultural que preparava a Revolução Francesa.

O barão de Renty quis ser cartuxo, mas as circunstâncias o levaram a fazer um casamento exemplar e ser pai de uma família numerosa.

Dotado de uma extraordinária capacidade articuladora expandiu a Companhia do Santíssimo Sacramento pela França, inspirou sua fundação de Montreal no Canadá – terra que jamais pisou.


Gaston de Renty e o Menino Jesus de Beaune. Vídeo, clique a foto para ver



Ele doou a imagem milagrosa do Menino Jesus de Beaune, e acredita-se que possa tê-la entalhado ele próprio.

“Sua devoção ao Menino Jesus, tão característica da espiritualidade do final do século XVII e dos séculos seguintes, não foi, no entanto, uma devoção ao “pequeno Jesus” pedindo que as crianças fossem boazinhas como as imagens.

“Sua devoção à Infância é a de um abandono radical de si mesmo, retomando o tema da Infância de Jesus, o que os quietistas condenados designavam erroneamente com os termos do abandono a Deus, da expropriação de si mesmo para quem alcançou o fim do caminho espiritual. (...)

“Encontramos em Gaston de Renty o misticismo medieval e do início da reforma católica ligada ao Concílio de Trento que no final do século XVII não era mais reconhecida”. Cfr. Gaston de Renty

O próprio Menino Jesus fez saber à venerável Margarida do Santíssimo Sacramento, carmelita em Beaune, que desejava lhe pedisse um filho para o rei Luis XIII e a rainha Ana de Áustria, casal que não tinha sucessão, com grave perigo para a unidade da França.

O nascimento de Luis XIV foi uma graça da Santa Infância, segundo relembrou o próprio Sagrado Coração de Jesus numa das mensagens ao rei por intermédio de Santa Margarita Maria Alacoque.

Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento OCD
Venerável Margarida do Santíssimo Sacramento OCD
Em 1658 Luis XIV foi a Beaune para visitar a imagem, dada no meio termo pelo barão de Renty, em agradecimento pela graça de sua concepção.

As vidas e apostolado destas figuras cresceram admiravelmente com os ensinamentos e exemplos de Sœur Marie des Vallées.

Em ocasiões diversas a mística lhes desvendou uma via espiritual que até então não tinha sido excogitada pelo pela generalidade das almas melhores.

Assim figuras chaves da História giraram em volta da problemática da trocada de vontades com o Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora.

Uns agindo para o bem, outros infelizmente recusando, e outros ainda hesitando. E esse jogo condicionou o rumo da História.

A luta entre a Luz e as trevas


O racionalismo e o racionalismo reinantes nos séculos XVI, XVII e XVIII encobriram com enganosas aparências, por contraditório que possa parecer, a expansão em proporções surpreendentes da bruxaria e da magia – branca ou negra, no seio dos arautos do laicismo.

Esses apelavam ao poder de Satanás e seus anjos de perdição que infestavam a Europa desde a Renascença, especialmente na Itália, na Alemanha e na França.

A ânsia imoderada de riquezas, prestigio e cargos – sociais e/ou eclesiásticos – além dos prazeres carnais fazia que um número importante de pessoas que perderam a fé apelasse aos poderes ocultos.

Esse recurso cresceu tanto que e 1586, o Papa Sixto Quinto promulgou a bula “Cœli et terra creator Deus” proibindo todas as práticas ocultas: adivinhação, astrologia, necrologia, bruxaria, etc... que iam associadas naturalmente com o relaxamento dos costumes e eram cultivadas até nos conventos.

Paradoxalmente, a Normandia – terra de Sœur Marie des Vallées e de São João Eudes – era uma região gravemente perturbada pelo desenvolvimento do satanismo.

Especialmente, a diocese de Coutances, que era a de Sœur Marie des Vallées.

Sabbat das bruxas. Francisco Goya (1746 – 1828),
Museu del Prado, Madri
A floresta do Monte Étenclin era o lugar escolhido para sabbats que reuniam centenas de praticantes da bruxaria. As reuniões se passavam muito perto de onde vivia a Sœur.

Batalhas espirituais tremendas haveriam de acontecer, como veremos.

Foi também uma época em que as perturbações materiais e ideológicas reinavam por todo lado. Guerras incessantes, fomes, epidemias enchiam o clima de angústias.

E junto com a bruxaria e o satanismo pululavam “profecias” abstrusas e perturbadoras: anunciava-se uma nova monarquia, o retorno de Cristo a começar por 1584; corriam como água pestilenta as profecias de Paracelso e Nostradamus, etc.


Das visões de Sœur Marie: os espíritos malignos destruirão suas próprias obras
“É por isso que se cumprirão estas palavras do Espírito Santo: Salutem ex inimicis nostris et de manu omnium qui oderunt nos. Deus, por um poder admirável e por uma bondade incomparável, forçará nossos inimigos a contribuir para nossa salvação.

“Certa vez, ela ouviu as três pessoas divinas e a Virgem Maria falando aos demônios, impondo-lhes os seguintes mandamentos.

“Deus Pai disse: ‘Ide, eu vos envio como trombetas para acordar meus filhos que dormem na sombra da morte”, isto é, do pecado.

“Deus Filho disse-lhes: “Ide, Eu vos envio como núncios para anunciar a todos os homens que venham a Mim e que Eu tenho meus braços abertos para recebê-los.

“E o Espírito Santo lhes dizia: “Ide, Eu vos envio como servos para dizer a todas as almas que elas venham porque o festim de casamento está preparado e que todas as coisas estão prontas”.

“E também ouvi a Virgem Maria dizer a eles: ‘Ide, Eu vos envio como pregadores para anunciar a todos os homens que o reino de Deus está próximo pregando a penitência para eles’.

“Finalmente, ouvi a Santíssima Trindade dizendo a eles: ‘Ide, Eu vos mando como sargentos e arqueiros armados pela cólera para prender aqueles que não querem se converter’.

“Os demônios cumprirão todos esses mandamentos, porque possuirão todos aqueles que não desejarão se converter.

“Eles tornarão públicos seus pecados e os farão sofrer tantos tormentos que ficarão constrangidos a fazer penitência.

“Naquele momento, se um sacerdote quiser subir ao altar em pecado mortal, ficará possuído.

“Se ele confessar com dor, ele será liberado.

“Se ele voltar ao pecado, a possessão recomeçará.

“Aqueles que zombem dos possessos, dizendo ‘Ha! Como eles mereciam!’ ficarão possuídos.

“Por causa dos suplícios que os demônios aplicarão sobre eles, muitos quererão se matar por desespero, mas os diabos impedirão.

“São Rafael será enviado por Deus para curar os desesperados.

“São Miguel será enviado para liderar e levar as almas para Deus”. (p. 311-312)


Sociedade secreta de feiticeiros se volta contra Sœur Marie des Vallées


Sœur Marie des Vallées, dita La Sainte de Coutances
Sœur Marie des Vallées, dita A Santa de Coutances
<Sœur Marie des Vallées nasceu o dia 15 de fevereiro de 1590 em Saint-Sauveur-Lendelin, aldeia perto de Coutances, Normandia. Foi a terceira criança de um casal católico pouco praticante.

Desde criança Marie foi muito voltada para a religião. Após a morte de seus pais, sua juventude foi um calvário, passando de lar em lar, confiada a tios relaxados moralmente e/ou brutais no tratamento.

Aos dezenove anos era bonita e inteligente, não faltando candidatos para casamento. Nos costumes da região, ficar celibatário era considerado uma maldição e até sinal de possessão, mas Marie queria conservar sua virgindade.

Um pretendente recusado apelou para uma feiticeira. Essa soltou sobre ela um bruxedo que a atormentou durante três anos. Assanharam-se contra ela vários sorciers (bruxos ou feiticeiros), entre os quais um sacerdote.

Marie apelou então para o bispo diocesano de Coutances, Dom Nicolas de Briroy, que a acolheu em instalações do bispado e recomendou que fosse exorcizada.

As sessões foram muito penosas e os exorcistas constataram uma inusual insistência dos assaltos demoníacos decorrentes de sortilégios lançados incessantemente contra ela por assembleias de bruxos.

Sœur Marie des Vallées foi acusada de feiticeira e conduzida ao Parlamento de Rouen, que a processou com métodos semelhantes aos da tortura, reconhecendo-a possessa, porém sem culpa própria, concedendo até que se tratava de uma pessoa virtuosa.

Saint-Sauveur-Lendelin, a cidade onde nasceu a mística
Saint-Sauveur-Lendelin, a cidade onde nasceu a mística
Os eclesiásticos retomaram os exorcismos em condições muito penosas, porque os demônios se recusavam a abandoná-la devido à incessante conjuração dos bruxos contra ela.

São João Eudes, que haveria de ser seu confessor, confidente e anotador de sua vida, de suas obras e doutrinas, certa feita atendeu um satanista arrependido que lhe contou:

“Conheço um homem que infelizmente esteve envolvido nesse detestável partido pelo espaço de dez anos [...]

“Ele me garantiu que, quando se faz algo na terra para a glória de Deus, os maiores inimigos são os feiticeiros, que organizam reuniões para tramar os meios de impedi-lo, destruí-lo [...]

“Por causa disso, eles tentavam destruir a obra que a Divina Bondade fazia através da Sœur Marie”.

De 1609 a 1614, Marie foi como um campo de combate onde se travava grande batalha da guerra das trevas contra a Luz.

Na história da Igreja há santos que foram possuídos ou especialmente assediados pelo demônio.

No caso dela, por permissão divina, os exorcismos tinham pouco efeito, pois Deus desejava essa provação devido a uma grande obra que lhe desvendaria depois.

Paradoxalmente, Marie rezava pelos sorciers (bruxos), seus inimigos mais cruéis, que ela chamava de “os religiosos de Satanás”, pelas razões que veremos.

Marie não temia os demônios, porque sua experiência lhe tinha feito ver que são “as mais impotentes de todas as criaturas”, e instrumentos de que Deus se serve até para a conversão dos impenitentes.

Soa assombroso, mas acabaremos vendo o poder que ela adquiriu sobre os príncipes dos abismos.

Marie queria aniquilar os efeitos dos sortilégios nos homens que conduziam a França. E, inclusive, converter os feiticeiros em função de uma imensa batalha que se daria na Terra.

Madre Mechtilde (Matilde) do Santíssimo Sacramento fundou a primeira ordem consagrada à Adoração Perpetua
Madre Mechtilde (Matilde) do Santíssimo Sacramento OSB
fundou a primeira ordem consagrada à Adoração Perpétua.
Praticava os conselhos de Sœur Marie des Vallées
A serva de Deus Madre Mechtilde do Santíssimo Sacramento (1614 – 1698), fundadora da Ordem das Beneditinas da Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento, a primeira do gênero no mundo, iniciou a Adoração Permanente na colina de Montmartre (hoje Paris), aconselhada por São Vicente de Paulo. Não era ainda a famosa basílica de Montmartre, construída no século XIX.

A Madre teve de enfrentar os bispos jansenistas e galicanos, e manteve estreitas relações com Sœur Marie des Vallées, porque sua comunidade de Paris padecia muito por causa de ataques preternaturais provenientes dos bruxos e de seus sortilégios.

Sœur Marie des Vallées recomendou à congregação da Madre Matilde, como missão importante, a reparação pelos crimes dos magos.

Para salvar as almas que se perdem, Marie aceitou sofrer durante muitos anos os tormentos do inferno. No meio desta provação apareceu em sua vida São João Eudes.

A natureza das penas infernais era intelectual, mas repercutia em seu corpo com sentimentos de ódio, fome, morte e desespero.

Ela passaria ainda por outro período, que denominou “mal de douze ans”, e que foi um inferno pior. Afligiram-na sete estranhas febres, representando os sete pecados capitais.

Nessas circunstâncias adversas, segundo São João Eudes, Nossa Senhora conduzia “seu sacrifício até a perfeição”.

Naquela época, muito provavelmente Marie já estava estigmatizada e as chagas sanguinolentas eram visíveis.


Das visões de Sœur Marie: vítima expiatória pelos pecados dos homens

Cristo fazendo Justiça, Fairford, Inglaterra
Cristo fazendo Justiça, Fairford, Inglaterra
Um dia, cuja data São João Eudes não precisa, Sœur Marie des Vallées viu a Justiça divina descendo dos Céus para cobrar dos homens o que devem.

Atrás dEla vinha a Ira de Deus como uma enchente que ia submergir o mundo por culpa de seus pecados. Ela tinha na mão uma espada, flechas e um raio.

Mas, a Caridade saiu a seu encontro e a convidou a uma refeição e lhe ofereceu um vinho tão precioso que a Justiça se adormeceu. Então a Caridade pegou suas armas e as cravou em Sœur Marie.

Quando a Justiça acordou se mostrou tão satisfeita que desistiu do castigo que ia aplicar ao mundo e convidou à Caridade a um festim que Ela iria lhe oferecer no Céu.

O que é que isso significava? Escreve São João Eudes:

“É que a Justiça divina estava pronta para condenar a todos por causa de seus pecados; mas a Caridade divina lhe ofereceu uma refeição que são os sofrimentos da Sœur Marie, em cujo sangue a espada e as flechas da justiça divina foram embebidas. (...)

“mas depois que Nosso Senhor os abençoou e os converteu, inundou toda a Terra com um dilúvio de graças e bênçãos”. (p. 331-332)

E ainda outra vez, Nosso Senhor lhe falou dos três dilúvios comentando o Libro da Sabedoria (1, 7) onde diz Spiritus Domini replevit orbem terrarum [O Espírito do Senhor encheu a Terra toda], porque isso se deve entender do momento em que o Espírito Santo ateará o fogo do amor divino pela terra toda e fará seu dilúvio.

“Pois há três inundações que são tristes, todas enviadas para destruir o pecado.

“O primeiro dilúvio foi do Pai Eterno, e foi um dilúvio de água.

“O segundo foi o dilúvio do Filho, que foi um dilúvio de sangue.

“O terceiro, o dilúvio do Espírito Santo, será um dilúvio de fogo, mas será triste como os outros, porque encontrará muita resistência e muita madeira verde que será difícil de queimar”. (p.332)

E em 1639 completou: “sabei que quando a minha misericórdia virá no tempo da grande tribulação, ela jogará todas as criações dos homens pelas janelas e as esmagará, quer dizer os pecados que são produto dos pecadores.

“Será minha divina Misericórdia que fará esse massacre e que executará todos esses castigos, mas não a reconhecerão enquanto tal; acreditar-se-á que foi a Justiça porque Ela vira revestida com as roupagens da Justiça”. (p. 335)



Deus promete os Apóstolos dos Últimos Tempos e um dilúvio do Espírito Santo


Sœur Marie des Vallées
Sœur Marie des Vallées
Marie manifestou muitas vezes o dom de profecia em suas visões, que jamais eram exteriores, mas sempre interiores.

Ela parecia investida da missão de abrir os olhos dos eclesiásticos e das almas consagradas para suas graves falências, escreveu seu grande anotador São João Eudes.

Essa missão fez com que seus historiadores se perguntassem se não teria sido análoga à dos profetas do Antigo Testamento em relação à decadência da classe sacerdotal hebreia.

Marie deplorava as negligências das pessoas consagradas e a acumulação de benefícios eclesiásticos, o enriquecimento pessoal com os bens da Igreja, a corrida atrás de cargos hierárquicos mais lucrativos, o abandono das regras de moral e da disciplina religiosa...

Pela voz de Marie, Jesus mandou mensagens muito claras:

Eles serão julgados com maior severidade do que os outros.

Aqueles que não cumprirem sua missão serão punidos por todos: pelo povo, pelos nobres e pelos magistrados (ou oficiais de justiça);

Os nobres e os homens de justiça serão punidos pelo povo;

O povo comum será apenas o flagelo de si próprio.

Os infortúnios estão prontos para cair sobre a Igreja, advertia, porque há mais justiça entre a soldadesca do que entre os sacerdotes; e os religiosos enchem os infernos em maior número que as outras classes sociais.

Ela insistia com força que os bispos terão de responder pelo rebanho todo de uma maneira prodigiosamente exata.
Nosso Senhor lhe mostrava com frequência a ferida que mais profundamente afligia seu Coração. Por exemplo, no dia 14 de janeiro de 1645, quando lhe disse:

– “Eu tenho um anel no dedo que me machuca, eu o jogarei no fogo”.

E esclareceu: “Esse anel são as Ordens religiosas que serão purificadas pelo fogo da tribulação...” (p. 561)

Marie também anunciava um outro “dilúvio de fogo” diferente que cairia sobre o mundo. Porque seria fogo do Espírito Santo.

São Luís Maria Grignion de Montfort eccou amplificado o anúncio da vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos
São Luís Maria Grignion de Montfort ecoou amplificado
o anúncio da vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos
Enunciava um conceito que seria retomado depois por São Luís Maria Grignion de Montfort:


“O terceiro dilúvio é o dilúvio do Espírito Santo, que será um dilúvio de fogo, mas será triste porque encontrará muita resistência e uma quantidade de madeira verde que será difícil de queimar”, disse ela.

O barão Gaston de Renty, reproduzindo palavras de Marie, esclarecia, em termos que prenunciam São Luís Maria Grignion de Montfort.

O grande pregador da escravidão de amor a Nossa Senhora, por sua vez, se inspirou nas profecias de Sœur Marie des Vallées, como está consignado no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem:

“Disse que isto acontecerá especialmente no fim do mundo, e em breve.

“Porque o Altíssimo e a sua Santa Mãe devem suscitar grandes santos, que ultrapassarão tanto em santidade a maior parte dos outros santos, quanto os cedros do Líbano excedem os pequenos arbustos.

“Assim foi revelado a uma santa alma [Marie des Vallées], cuja vida foi escrita pelo Sr. de Renty”. (Tratado nº 47)

Devemos, portanto, preparar-nos para as grandes tribulações, anotava São João Eudes:

“Nosso Senhor e a Santíssima Virgem disseram-lhe muitas vezes que haverá uma grande e horrível aflição que limpará todos os pecados da terra, em comparação com a qual todas as aflições do nosso tempo não são nada”.

A depuração pelo fogo é necessária, dizia, porque Deus quer renovar a Criação – Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem Terra.

E nisto consiste a grande Obra de sua Misericórdia:

“Será minha Misericórdia a que aplicará todos os castigos que virão então, mas não será recebida como tal porque virá revestida de Justiça”.

O Sagrado Coração quer todas as almas e por isso numa visão falou a Marie de uma “conversão geral”.

Em 1645, Nossa Senhora anuncia a Sœur Marie que “a divina vontade já pronunciou o decreto de morte contra o pecado. Falta apenas executá-lo”.

E em abril de 1650, Jesus disse-lhe novamente: “O que aflige e abala teus demônios (que possuíam a Marie) é que eles estão sendo solicitados a destruir sua própria obra”.



A conversão geral que se aproxima será como uma fogueira universal que abrasará o universo inteiro. 

Esse será recriado sob a signo de uma humanidade reconciliada com Deus, cujo amor arderá nos corações com um fogo que os homens ainda não conhecem.

A terra será povoada por santos. Essa regeneração é a obra dos mártires e das vítimas do amor que hoje sofrem acumulando méritos para esse dia. Após a grande tribulação, a Terra será povoada por santos!!!

Marie des Vallées na vida quotidiana


Marie morava num quarto da casa episcopal e trabalhava como doméstica durante o dia.

O Pe. Lelièvre a descreve como “uma mulher com uma trintena de anos, grande, forte, digna, majestosa até, e mais bem severa. Suas roupas eram simples e muito limpas.

“Sua presença era enérgica. No fundo de seus traços fisionômicos muito doces percebiam-se sofrimentos íntimos pouco comuns.

“Seu olhar era vivo e penetrante: ela sondava logo o visitante e descobria o motivo que o trazia.

“Parecia ler até o mais fundo das disposições das almas. O mero curioso era afastado. Mas aquele que fosse em nome de Deus, trazendo um tema edificante ou pedindo um conselho, era acolhido com a mais extrema benevolência”.
Quando completava seu serviço, ficava fiando ou tecendo na cozinha, compondo canções populares, cânticos e complaintes. Nesses momentos, os padres Lerouge e Potier testemunharam fenômenos místicos sobrenaturais sensíveis.

Numerosos eclesiásticos, incluídos bispos, contemplativos, personalidades do Reino da França e pessoas do povo iam vê-la e pedir seus conselhos.

Capuchinhos, franciscanos, agostinianos e até algum jesuíta foram receber conselhos.

Marie não suportava tibieza nos que se aproximavam dela. Semelhante inconsciência suscitava nela reações por vezes truculentas.

Ela se insurgia contra as modas do tempo e a atitude dos padres ou dos fiéis que celebravam ou acompanhavam a Missa sem se interessarem profundamente.

Para amigos ou inimigos, ela foi um enigma, explica São João Eudes. Seus inimigos não podiam combatê-la abertamente, de tal maneira sua vida era inatacável, então multiplicavam as insinuações depreciativas ou caluniosas.

Segundo seu diretor espiritual, Marie possuía uma espécie de poderoso atrativo natural que lhe conferia um grande ascendente sobre todos os que se aproximavam dela.

Catedral de Coutances, capela onde está enterrada
Catedral de Coutances, capela onde está enterrada

Sua lucidez era excepcional, possuía um grande conhecimento do mal. Sua paciência era imensa, sua lealdade, infalível.

Um de seus biógrafos, Émile Dermenghem, escreveu em 1926:

“Essa iletrada tem uma surpreendente percepção da metafísica e da dedução, um espírito de síntese unido à mais colorida das imaginações [...] Ela vai, como sempre, direto ao centro”.


Após acompanhar a recitação do Rosário com aqueles que a rodeavam, assistida por São João Eudes, Marie des Vallées partiu para o Céu no dia 25 de fevereiro de 1656.

Foi enterrada na capela de São José da igreja de São Nicolas, em Coutances. Várias Ordens disputaram a honra de velar seus restos.

Com aquiescência do Parlamento – tribunal de alta alçada –, seus restos mortais acabaram sendo depositados na capela do seminário dos padres eudistas.

Até serem trasladados no dia 5 de agosto de 1919 para junto do altar da capela du Puits, na catedral de Nossa Senhora de Coutances, onde repousam atualmente.




Marie des Vallées no cerne de uma rede de santos


Nas pegadas de Marie des Vallées, São Joãu Eudes pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Nas pegadas de Marie des Vallées, São João Eudes
pregou que os Corações de Jesus e Maria fazem um só
Durante toda sua vida Sœur Marie des Vallées foi um signo de contradição. E depois de sua morte os apaixonamentos contra ela não se apaziguaram. Seus amigos, colegas e defensores continuaram sendo perseguidos.

Muitos vinham a rezar sobre seu túmulo em Coutances. O Sr Langry se fez enterrar perto dela. Vários jesuítas defenderam sua memória.

Era venerada em numerosos conventos, disputava-se suas relíquias e fragmentos de suas roupas.

Os inimigos ficaram mais agressivos, e sempre mais pérfidos. Mas os milagres se multiplicavam. Aparições lhe foram atribuídas.

Duas personalidades católicas se destacaram entre os filhos espirituais da mística de Coutances.

Um deles foi um leigo: o barão Gaston de Renty. Casado e pai de cinco filhos, o nobre Renty não pode realizar seu sonho de se tornar cartuxo.

O barão Gaston de Renty sobre quem Nossa Senhora aconselhou “Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho”
O barão Gaston de Renty sobre quem Nossa Senhora aconselhou:
“Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho”
Mas com o influxo e participação de São Vicente de Paulo foi exímio articulador da Companhia do Santíssimo Sacramento, um grande fruto da Contrarreforma Católica, promovida pelo Concílio de Trento.

Com seu talento oratório, Bossuet em 1652 dizia que a Companhia pretendia “construir uma Jerusalém em meio à Babilônia”.

A Companhia funcionou como uma sociedade secreta católica, reconhecida pela hierarquia, devotada a honrar a Eucaristia e combater a revolução cultural libertina espalhada pelas sociedades de pensamento e que tinha seu foco central na Corte de Versailles e preparava as condições para a Revolução Francesa.

O primeiro presidente da Companhia foi Henri de Lévis, duque de Ventadour. O barão de Renty assumiu a liderança em 1640, mas foi dissolvida em 1666 pelo rei Luis XIV, 17 anos depois da morte do próprio Renty.

A Companhia era elitista e nela ingressaram até bispos, além de nobres e santos, abadessas, teólogos e juízes.

A Companhia se tornou célebre e muito odiada porque se opunha ativamente aos erros das Luzes e das influencias morais nocivas que desciam da Corte na forma de modas, “luzes” e pretextos culturais. Era o cerne daquilo que o célebre memorialista duque de Saint-Simon descreve como "cabale des dévots" ("partido dos devotos", católicos é claro).

Especialmente lembrada é a polêmica contra as frívolas, mas revolucionárias, comédias de Molière.

Esse autor incluiu virulentos ataques à piedosa Companhia em sua escandalosa obra Tartuffe. As proibições, processos e excomunhões dessa comédia revolucionária acabaram sendo pretexto para fechar a piedosa Companhia.

Mons.Pierre Lambert de la Motte, um dos fundadores das Missões Estrangeiras.
Mons.Pierre Lambert de la Motte,
um dos fundadores das Missões Estrangeiras.
Da Companhia emanou a inspiração e o impulso para a benemérita Missions Étrangères de Paris em 1658, (“Seminário para a Conversão dos Infiéis nos Países Estrangeiros”) fundada por dois bispos, então simples sacerdotes, Pierre Lambert de la Motte (1624 - 1679) e François Pallu (1626 - 1684) com o apoio de São Vicente de Paulo e da Compagnie du Saint-Sacrement da qual eram membros.

Foi um verdadeiro foco de mártires, e um poderoso estímulo à Escola Francesa de Espiritualidade com incontáveis exemplos de heroísmo e martírio em continentes pagãos em oposição aos libertinismo que se espalhava na França.

Até Santa Teresinha séculos depois participou espiritualmente nessa onda de heroísmo apostólico com seus sacrifícios e orações que ficaram registrados.

Gaston de Renty foi apresentado a Marie des Vallées pela mediação de sóror Marie du Saint-Sacrement, do Carmelo de Pontoise. São João Eudes também o estimulou a se relacionar com ela.

Em novembro de 1641, Sœur Marie perguntou à Nossa Senhora:

– Quem é esse ai?

– É aquele que eu te prometi. Abre teu coração a ele, porque ele é o bom filho. Ele é meu, e eu o associo com todos os que te procuram.

Marie des Vallées e São João Eudes


São João Eudes foi confessor, discípulo e anotador de Sœur Marie des Vallées
São João Eudes foi confessor, discípulo
e anotador de Sœur Marie des Vallées
Outra pessoa chave na vida de Marie foi São João Eudes. Ele nasceu em 1601 em Ri, perto de Argentan, diocese de Séez.

Foi ordenado sacerdote em Paris no dia 20 de dezembro de 1625, e ingressou no instituto do Oratório onde ficou perto de vinte anos.

Em 26 de outubro de 1640, São João Eudes foi eleito superior do Oratório de Caen, na Normandia.

Em 1641 ele conheceu a Sœur Marie des Vallées, e, por pedido de Mons. Léonor Goyon de Matignon (1604-1680), bispo de Coutances (1627 – 1646), assumiu sua direção espiritual que duraria até a morte da “santa de Coutances”.

 Lembrando-se desse período, São João Eudes escreveu:

“No mesmo ano de 1641, no mês de agosto, Deus me deu um dos maiores favores que já recebi de sua bondade infinita.

“Porque foi nessa época que tive a felicidade de começar a conhecer a Sœur Marie des Vallées, por quem a divina Majestade me concedeu um número muito grande de graças muito notáveis.

“Depois de Deus, devo esse favor à Santíssima Virgem Maria, minha muito honrada Senhora e minha querida Mãe, a Quem nunca poderei agradecer suficientemente”.

Essas insignes graças de Deus vieram acompanhadas por dolorosas perseguições por parte de seus irmãos no sacerdócio.

Santa Maria Eufrásia Pelletier
Santa Maria Eufrásia Pelletier
São Vicente de Paulo, Basilica St Elizabeth Ann Seton, Emmitsburg, EUA
São Vicente de Paulo, basílica S.Elizabeth Seton,
Emmitsburg, EUA
São João Eudes acabou se desligando do Oratório em março de 1643 para fundar a Congregação de Jesus e Maria, mais conhecida como padres Eudistas.

Também fundou a Ordem de Nossa Senhora da Caridade destinada a prostitutas arrependidas que, após a reforma de Santa Maria Eufrásia Pelletier ficou conhecida como o Bom Pastor.

Nossa Senhora mostrou a Marie des Vallées o hábito que deviam usar essas religiosas.

Sœur Marie des Vallées dizia a São João Eudes que fizera essas fundações porque inspiradas pelo próprio Cristo.

João Eudes e seus sacerdotes privilegiavam as pregações populares com o método que depois seria retomado por São Luis Maria Grignon de Montfort.

Em 1643, São João Eudes fundou a Sociedade dos Filhos do Sagrado Coração da Mãe Admirável, na qual ingressou Marie des Vallées.

A confraria voltada para mulheres não casadas que guardavam a castidade no mundo, agiu clandestinamente durante a Revolução Francesa dando refúgio aos sacerdotes “refratários” que não haviam jurado a ímpia Constituição.

Há quem defenda que essa fundação foi fortemente encorajada por revelações a Marie des Vallées.

São Luís Grignion de Montfort aplicou a 'troca de vontades' de Sœur Marie e pregou a escravidão a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora
São Luís Grignion de Montfort aplicou a 'troca de vontades' de Sœur Marie
e pregou a escravidão a Jesus pelas mãos de Nossa Senhora
São João Eudes foi declarado pelos Papas Doutor e Apóstolo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, precedendo a Santa Margarida Maria Alacoque que entrou no convento da Visitação em Paray-le-Monial no ano 1671, onde teve sua primeira visão em 1673.

No ano seguinte, 1674, foi celebrada por primeira vez a festa do Sagrado Coração pelas beneditinas do Santíssimo Sacramento em Montmartre, Paris, com o Ofício composto por São João Eudes.

São João Eudes e Gaston de Renty se tornaram conhecidos enquanto cuidavam dos doentes atingidos por uma epidemia de peste em 1631. Gaston de Renty tinha vinte anos e São João Eudes, trinta.

O Papa Clemente X aprovou as Congregações e Institutos fundados por São João Eudes e, no 4 de janeiro de 1903, o Papa Leão XIII o reconheceu solenemente como o autor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, fazendo alusão “à Santa de Coutances”

São João Eudes foi beatificado pelo Papa São Pio X quem também, no 11 abril de 1909, o proclamou “Pai, Doutor e Apóstolo das devoções aos Sagrados Corações”. Foi canonizado por Pio XI em 1925.

Sœur Marie des Vallées não sabia ler nem escrever e São João Eudes redigiu de punho e letra tudo o que ficou registrado do que ela disse e fez.

A Revolução Francesa fez questão de queimar todos os manuscritos que estavam na casa dos padres eudistas em Paris. Então se achou que estavam perdidos para sempre.

Porém, ninguém, ou muito poucos, sabiam que São Francisco Xavier de Montmorency-Laval, partindo para o Canadá do qual imaginava nunca mais retornar, encomendou uma cópia manuscrita dos registros da “santa de Coutances” caligrafados por São João Eudes. 

Essa cópia histórica foi recuperada em 1894 durante o processo de beatificação de São Francisco Xavier de Montmorency-Laval e enviada aos padres eudistas da França.

São Francisco Xavier de Motmorency Laval, 1º bispo do Canadá copiou todos os apontamentos de Sœur Marie
São Francisco Xavier de Motmorency Laval, 1º bispo do Canadá
copiou todos os apontamentos de Sœur Marie
São João Eudes tinha dividido a coleção de apontamentos num conjunto de dez volumes que intitulou “A vida admirável de Marie des Vallées” acrescidos de mais dois, que escreveu após a morte de Marie.

O conjunto foi editado em abril de 2013 por Les Editions Paroisse et famille – Centro Saint-Jean-de-la-Croix (Mers-sur-Indre, 696 páginas) a única fonte em que nós nos baseamos.


Todos os escritos de São João Eudes relativos a Sœur Marie passaram por severo exame nos processos diocesano e romano de beatificação e canonização dele.

Em 25 de abril de 1909 foram aprovados em sua totalidade pela Santa Sé deixando o terreno livre para sua canonização em 1925.

Sœur Marie des Vallées pareceu santa demais e os escritos ficaram guardados zelosa e silenciosamente, porém foram cuidadosamente estudados e anotados. Até que o grande tempo transcorrido favoreceu que fossem publicados com rico apoio documental e crítico.

Por isso, voltou-se a falar dela no fim do século XX, após três séculos de esquecimento, e esse é um dos eventos que marcam a vida post-mortem de Sœur Marie des Vallées. E é o que passaremos a ver nos posts seguintes.


Sœur Marie des Vallées, “o caso dos venenos” e o drama de Luís XIV


Luís XIV quando criança
Luís XIV quando criança. Concebido como que por milagre,
estava chamado a uma altíssima união com o Sagrado Coração de Jesus
pela qual muitas almas santas ofereceram sacrifícios incomparáveis.


O século de Sœur Marie – o Grand Siècle, auge do Ancien Régime – culturalmente brilhante estava carunchado pela frivolidade, a decadência religiosa, a indiferença ostentada e o cinismo erigido em virtude, notadamente nos meios intelectuais, nobiliárquicos e clericais.

Pela Concordata de Bolonha (1516) a Igreja estava subordinada ao poder temporal. Esse designava os bispos em função de interesses políticos e benesses econômicas, com desinteresse pelo bem das almas.

O Parlamento julgava a nobreza e aqueles beneficiados com privilégios, bispados e mosteiros muito procurados como fontes de renda. Era um triunfo do galicanismo.

Nesse século, que é o de Sœur Marie des Vallées, o Rei Sol Luís XIV reuniu um conjunto de artistas, arquitetos e artesãos de excepcional qualidade e inspirou uma expansão cultural que conquistou o mundo civilizado.

Até hoje, todo ano, milhões de pessoas vão visitar as maravilhas de Versailles e outras realizações do “Rei Sol”.

Porém, por trás dessa deslumbrante realização artística, social, militar e econômica, nos bispados e no clero em geral, salvas as devidas e, em alguns casos, gloriosas exceções, reinavam a tibieza, os vícios e a amolecimento geral dos costumes.

Luís XIV e família representados como deuses romanos. Jean Nocret (1615 - 1672) Palácio de Versailles
Luís XIV e família representados como deuses grecoromanos.
Nas primeiras décadas de vida, o rei se entregou a um estilo de vida
de fundo renascentista, neo-pagão, frívolo e autoritário.
Jean Nocret (1615 - 1672) Palácio de Versailles
Um Receptor Geral do Clero, funcionário responsável de cobrar os impostos destinados à Igreja da França e distribui-los a bispos e abades, ficou envolvido num dos piores escândalos de satanismo e magia negra da história da França: o ainda polêmico “Affaire des poisons” (“O caso dos Venenos”).

Missas negras, sacrifícios humanos, feitiços, abortos e estranhos incêndios eram recursos comuns em certos altos setores da Corte por parte de aristocráticas damas que queriam conquistar o favoritismo do Rei ou de algum nobre de destaque.

Entre os homens de alta classe que visavam verbas e cargos públicos civis, como ministérios, privilégios e rendas reais, ou funções eclesiásticas providas de altas rendas também, não eram poucos nem menos importantes os que apelavam às potências infernais.

A nobreza, aliás em maior número, que ficava em seus castelos do interior, em geral estava por fora dessas maquinações, mas não se beneficiava das benesses do rei que dizia “o Estado sou eu”.

Luís XIV era o alvo indireto, mas principal, desse tráfico infernal e tampouco escapou à decadência geral, embora a Providência tivesse secretos e misericordiosíssimos planos a seu respeito.

Os santos, dos quais mencionamos alguns no post anterior, travavam o combate espiritual pela restauração do catolicismo na França filha primogênita da Igreja. Cfr.: Marie des Vallées no cerne de uma rede de santos

Na própria Corte e na família real havia almas de escol e virtude, mas pareciam não perceber com toda a clareza necessária o abismo infernal que lavrava em torno delas. Nosso Senhor se lamentou a Soeur Marie pela curteza de vista dos melhores.

Em sentido contrário, Marie des Vallées foi objeto de uma ofensiva terrível dos artífices ocultos que, no meio dos homens, invocavam as potências infernais para mudar os rumos da França e do mundo.

Marie des Vallées à direita de Nossa Senhora e Nosso Senhor, afresco em Caen, França
Marie des Vallées era tida pelos "bruxos" como o polo espiritual oposto
a todas suas conjuras e o alvo de seus assédios demoníacos.
No afresco, à direita de Nossa Senhora e Nosso Senhor, Caen, França
Ela foi um alvo constante do ataque da bruxaria e da magia negra que havia feito uma penetração secreta, mas espetacular, até na Corte e no mais íntimo de certos mosteiros.

Ditas tramas de ocultistas e satanistas que poderiam ser estudadas como a parte mais profunda das sociedades secretas, reconheceram em Marie des Vallées a fonte da reação espiritual que iria estragar sua obra revolucionária.

É bem conhecida a história da marquesa de Montespan, nascida Françoise-Athénaïs de Rochechouart e casada com um marquês de Montespan, uma das favoritas adúlteras do rei, com quem teve sete filhos.

Vendo-se cair em desgraça ante Luís XIV fez celebrar uma missa negra por um sacerdote apóstata sobre seu corpo nu que incluiu o assassinato ritual de uma criança, para reconquistar o coração adúltero do monarca. 

A polícia real soube disso e o comunicou ao rei que a abandonou. O chefe de polícia Nicolas de la Reynie que pegou a missa negra encontrou muitas provas, mas “a história é muda nesse ponto porque as provas eventuais foram destruídas por ordem do rei”, escreveu o historiador Jean-Marie Constant.

Mme. de Montespan se refugiu num convento em Paris, e desde ali continuou apoiando a revolução cultural de escritores e autores de teatro que marcaram o século.

O “Caso dos Venenos” abalou a Corte e Paris entre 1670 e 1682, resultou em 36 condenações à morte e outras tantas às galés.

Houve mais de 400 acusados e centenas de testemunhas ou suspeitos foram convocados a declarar ante um tribunal especial que julgava sem apelação e era conhecido como “Câmara Ardente”.

Até representantes da mais alta nobreza foram convocados a se explicar, mas por determinação do rei os nomes não foram dados a conhecer.

A marquesa de Brinvilliers indo para a execução, bico de pena de Charles Lebrun  (1619 – 1690) Museu do Louvre
A marquesa de Brinvilliers indo para a execução,
bico de pena de Charles Lebrun (1619 – 1690) Museu do Louvre
Luís XIV temia que pela gravidade dos casos que foram aparecendo e a altura dos personagens, a estabilidade do reino estivesse em perigo.

Junto com eles e, por vezes, a serviço deles, apareceu uma trama de gente da mais vil extração, que praticava infâmias ou produzia venenos em antros secretos ou nojentos, acobertada por altos personagens.

Entre os sentenciados se destacou a bruxa envenenadora dita “La Voisin” prestadora de “serviços” a várias personalidades eminentes da aristocracia, inclusive na referida ‘missa negra’ sobre Mme. de Montespan.

A marquesa de Brinvilliers centralizava uma rede cúmplices ativos na Corte real indiciados dos crimes mais nefandos inclusive sacrifícios de crianças em missas negras feitas por sacerdotes debochados, profanações de hóstias, alquimia, etc., sem falar de perversões morais como aborto, sodomia, incesto e outros.

Quando descoberta fugiu para a Corte da Inglaterra onde tinha “clientes”. Banida se fez de freira num convento de Liège, Bélgica, onde também tinha freiras cúmplices nas artes ocultas, mas onde acabou sendo presa.

Suas revelações foram assustadoras: ela reconheceu ter envenenado o pai e dois irmãos pela herança. A polícia pegou listagens com uma clientela da mais alta classe que estava na posse do marechal de Luxembourg, um general preferido do rei.

A marquesa de Brinvilliers visitava o hospital Hôtel-Dieu, que ainda existe ao lado de Notre-Dame, para fazer caridade aos pobres e lhes levava remédios que na realidade eram venenos cujos efeitos ela queria testar e ver se deixavam indícios nos corpos das vítimas.

A rainha mãe Ana de Áutria com Madre Mechtilde du Saint Sacrement em Montmartre
A rainha mãe Ana de Áustria com Madre Mechtilde du Saint Sacrement em Montmartre.
A abadessa beneditina era íntima amiga de Soeur Marie e seu convento sofria ataques diabólicos
No fim, o rei julgou necessário extinguir o escândalo porque, com suas verdades e suas mentiras, o Estado estava em perigo e mandou executá-la na Place de Grève, sentença que atraiu muito público, incluída Mme. de Sevigné, diante do atual Hotel de Ville de Paris.

A bruxaria tinha se espalhado desde a Renascença que pretendeu o renascer do paganismo e propulsou a apostasia das elites da França, e com elas do mundo cristão civilizado que imitava o modelo cultural francês.

Sœur Marie estava convencida, inclusive por suas experiências pessoais, que os “sorciers” (ou bruxos, ligados a sociedades secretas) conduziam os rumos da França.

E isso numa época em que o país exteriormente brilhava com tanta beleza e, aliás, frivolidade, feitas as exceções de alguns santos e almas virtuosas que não deixavam de ser injustamente perseguidos.

Quando Sœur Marie des Vallées começou as contraofensivas sobrenaturais contra as sociedades secretas de magos, essas lançaram pavorosos ataques contra ela, como vimos e veremos ainda nesta série de posts.

O “Caso dos Venenos” desvendou ao Rei Sol que sua Corte iluminista e naturalista estava luciferinamente infestada.

Ela cultivava o naturalismo da Revolução da Renascença neo-pagã e sensual e costumes espalhados secretamente no pináculo civil e eclesiástico da Civilização Cristã desde os primórdios da Revolução gnóstica e igualitária.

Até antes do Vaticano II, as beneictinas do Santíssimo Sacramento continuavam fazendo reparação
Até antes do Vaticano II, as beneditinas do Santíssimo Sacramento continuavam fazendo reparação.
A religiosa no centro leva o capuz dos condenados a morte e segura uma vela penitencial.
Está ajoelhada diante de uma madeira onde o sentenciado punha o pescoço para ser degolado.
Um eco santo no século XX da Madre Mechtilde e de Soeur Marie des Vallées.
Luís XIV, porém, fora concebido pelos méritos da Santa Infância de Jesus, como veremos, e tinha um lado bom posto de lado em sua alma, mas muito real por desígnio sobrenatural.

Então se pôs para ele o drama de escolher entre o Céu que o amava e que ele havia relegado, e os infernos revolucionários que se abriam embaixo de seus pés.

O que podia leva-lo a fazer a boa opção nesse drama abismal, e da qual dependia a sorte da França e da Cristandade?

Quem lhe daria forças após tanto liberalismo na juventude para mudar seus costumes radicalmente e reverter um quadro que parecia superar as capacidades humanas?


A mensagem do Sagrado Coração de Jesus e o SIM real que poderia ter mudado a História


Santa Margarida Maria Alacoque recebe apelos do Sagrado Coração de Jesus a Luís XIV, San Rufo, Rieti, detalhe
Sta Margarida Maria Alacoque recebe apelo
do Sagrado Coração de Jesus a Luís XIV,
San Rufo, Rieti, detalhe
O “Caso dos Venenos” desvendou que a Corte do Rei Sol estava luciferinamente infestada pelo iluminismo, que prolongava o naturalismo renascentista neopagão e sensual.

O rei esplêndido ficou abalado em seu laicismo ao descobrir a influência do preternatural na Corte das Luzes por ele criada.

Um mundo preternatural no qual aparentemente ele não acreditava agia em volta dele na surdina e com procedimentos estarrecedores.

Ao mesmo tempo, algo inimaginável acontecia longe de Versailles: o Sagrado Coração de Jesus aparecia a uma humilde religiosa de um convento pouco conhecido e enviava históricas mensagens a Sua Majestade.

As mensagens — hoje famosas — foram comunicadas a Santa Margarida Maria Alacoque, religiosa no convento da Ordem da Visitação em Paray-le-Monial, na Borgonha.

A Ordem da Visitação foi fundada por São Francisco de Sales, um dos precursores da Escola Francesa de Espiritualidade, a qual Sœur Marie des Vallées elevou a um novo requinte com a doutrina sobre a “troca de vontades”.

O Sagrado Coração se dirigia a Luís XIV lembrando-o de que “seu nascimento temporal fora obtido através da devoção aos méritos da Minha Santa Infância”, segundo o próprio Menino Jesus havia revelado à venerável Margarida do Santíssimo Sacramento O.C.D., como vimos em post anterior. Cfr. Soeur Marie des Vallées e a feitiçaria incubada no “Século das Luzes”. 

Nas mensagens por meio de Santa Margarida Maria, o Sagrado Coração de Jesus — com quem Sœur Marie des Vallées tinha trocado as suas vontades — prometia a Luís XIV e à França um auxilio esplendoroso, se o rei e seu reino se consagrassem a Ele.

Se seus regimentos bordassem o símbolo do Sagrado Coração em suas bandeiras, seriam invencíveis.

A santa religiosa entregou à sua Superiora as cartas onde vertia as promessas que tinha ouvido antes destinadas ao rei com datas de 23 de fevereiro de 1689, 17 de junho de 1689 e 25 de agosto de 1689.

Luís XIV com a idade aproximada em que recebeu as cartas de Santa Margarida Maria. Atribuído a Pierre Mignard (1612 - 1695)
Luís XIV com a idade aproximada em que recebeu
as cartas de Santa Margarida Maria.
Atribuído a Pierre Mignard (1612 - 1695)

Na carta de 17 de junho, lemos:

“Ele (O Sagrado Coração de Jesus) deseja, segundo me parece, entrar com pompa na casa dos Príncipes e dos Reis, para nelas ser honrado, tanto quanto nelas foi ultrajado, desprezado e humilhado durante a Sua Paixão, (...) eis suas Palavras a este respeito:

“Faz saber ao primogênito do Meu Coração – falando do nosso Rei – que, assim como o seu nascimento temporal foi obtido através da devoção aos méritos da Minha Santa Infância, do mesmo modo obterá o seu nascimento de graça e de gloria eterna pela Consagração que fará de si mesmo ao Meu Coração Adorável, que quer triunfar do seu e, por seu intermédio, do dos grandes da Terra.

“Ele quer reinar no seu Palácio, ser pintado nos seus estandartes e gravado nas suas armas, para as tornar vitoriosas de todos os seus inimigos, abatendo a seus pés essas cabeças orgulhosas e soberbas, para as tornar triunfantes de todos os inimigos da Santa Igreja”.

“O Pai Eterno, querendo reparar a amargura e angústia que o Coração de seu Filho recebeu na casa dos príncipes da Terra pelos ultrajes de sua Paixão, quer estabelecer seu império no coração de nosso monarca e usá-lo para a execução de seu plano, que é construir um edifício o qual seja a imagem de seu divino Coração, para receber a consagração e a homenagem do rei e de toda a corte”.

As mensagens davam a entender que o rei precisava de socorro e o Sagrado Coração de Jesus tinha naturalmente noção disso.

Então lhe pedia que se voltasse a Ele com confiança para experimentar sua bondade e doçura.

Para Luís XIV, o chamado do Sagrado Coração implicava em que o maior rei da Terra deveria atender a um recado transmitido por uma religiosa ignorada e mudar radicalmente sua atitude interior em face de Nosso Senhor.

Marie des Vallées ouve pregação de São João Eudes, afresco en Caen, França
Marie des Vallées ouve pregação de São João Eudes,
grandes apóstolos da 'troca de vontade' com o Sagrado Coração de Jesus,
tinham tudo sofrido espiritualmente pela aceitação de Luís XIV.
Afresco em Caen, França
Ele, o rei onipotente, ficava diante de Deus como uma criança doente que precisa da mãe para ser socorrido.

Para uma mentalidade racionalista, que se tinha elevado à condição de “Rei Sol” e se colocado a anos-luz por cima dos demais seres humanos, o pedido podia parecer uma humilhação.

Mas era a humilhação salvadora, como a do filho pródigo entre os porcos, narrada no Evangelho.

Luís XIV ficou na encruzilhada entre aspectos bonitos (santos lhe falando da parte de Deus) e de lados horrorosos, de meter medo (associações de tipo maçônico, satanistas, jansenistas etc., que intoxicavam a corte mais brilhante do mundo).

Se ele tivesse aceitado o convite comunicado por Santa Margarida Maria, teria decidido sua luta espiritual em favor do que descrevemos das almas santas da Escola Francesa de Espiritualidade inspiradas ou continuadoras de Sœur Marie des Vallées, e esmagado a conjuração revolucionária.

Poder-se-ia então pensar numa restauração moral da França, a qual tornaria impossível a Revolução Francesa. E, ao mesmo tempo, pela irradiação da cultura francesa no Ancien Régime, haveria uma mudança moral radical no mundo e na Igreja para a causa do bem.

Mas se ele recusasse o apelo, a França tornar-se-ia presa fácil da Revolução igualitária e gnóstica que infestava a Corte, acabando por produzir os efeitos revolucionários que vemos hoje.

Se Luís XIV tivesse atendido ao Sagrado Coração de Jesus, ele teria desfeito a Revolução e elevado a projeção da monarquia católica ao máximo grau.

Quem poderá imaginar o momento histórico em que o rei recebe o recado, e possivelmente, depois de uma curta reflexão interna, tendo estado a um passo de dizer sim, acabou dizendo um “talvez” que acabou dando num “não”.

A História do mundo e da Igreja teria mudado “de fond en comble”.


Luís XIV face ao Sagrado Coração de Jesus

A Santa transmitiu o seguinte recado ao Rei:

“O Sagrado Coração de Jesus não pede senão a vossa confiança em sua bondade para vos fazer experimentar a doçura e a força de seu socorro.”

Como que dizendo: “Eu não estou pedindo sacrifício, mas rogo esse passo delicado: que creiais na autenticidade da mensagem desta freirazinha, vinda de um convento de um lugarejo — que naquele tempo devia ser de mínima importância. Acreditai nisso e tudo correrá bem”.

Nosso Senhor não dava prova alguma para Luís XIV acreditar. Mas é possível que o monarca tenha recebido uma dessas graças interiores com as quais o Altíssimo toca as almas, por onde estas não têm dúvida nenhuma de que foi Deus Quem as tocou.

Luís XIV teve que acreditar numa mensagem que para um racionalista era quase uma aberração.

Ele, o rei onipotente, que diante do Criador não é senão uma formiga, e que precisa ser tratado com bondade, como uma criança doente é cuidada por sua mãe, e então será socorrido!

Se Luís XIV tivesse aceitado o convite transmitido por Santa Margarida Maria, ele restauraria a Paris fervorosamente católica do tempo das guerras de religião e não se poderia pensar numa Revolução Francesa.

As águas correriam para outro lado, simplesmente. Porém, em sentido contrário, a Paris da recusa dele foi a da Revolução Francesa.

Nessa Revolução chegaram a promover esta blasfêmia: no dia seguinte ao assassinato de Marat, os revolucionários arrancaram-lhe o coração e ergueram uma espécie de altar improvisado, onde o expuseram, tendo embaixo a seguinte frase: “Sacré coeur de Marat, priez pour nous” — sagrado coração de Marat, rogai por nós. Como a dizer “não é o Coração de Jesus que vale, é o coração de Marat”.

Ora, quando consideramos a figura do Santo Sudário, vemos ali, segundo o dito de Bossuet, “un Dieu brisé, rompu et immolé” — um Deus ferido, quebrado e imolado —, mas com que majestade!

Nesse peito pulsou um Coração Divino que fez a Luís XIV esse convite, aliás, recusado…

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 13/8/1991)


Revolucao Francesa, execucao de Luis XVI
Revolução Francesa: execução de Luís XVI, herdeiro de Luís XIV
Naquela carta de 17 de junho de 1689 o Sagrado Coração de Jesus pedia ao rei Luís XIV a “consagração da França ao seu Sagrado Coração e sua representação nas bandeiras do reino”.

Pedido análogo de consagração foi feito pelo Imaculado Coração de Maria em Fátima, desta vez da Rússia.

Ambos pedidos ficaram letra morta.

O grande historiador de Santa Margarita Maria Alacoque Mons. Émile Bougaud em sua “Histoire de la Bienheureuse Marguerite-Marie”, e outros escritores eclesiásticos, observaram que exatamente 100 anos depois, em 17 de junho de 1789, o Terceiro Estado se autoproclamou Assembleia Nacional, iniciando a Revolução Francesa.

A França revolucionária rompeu nessa data com a França “filha primogênita da Igreja” nascida com o batismo de Clóvis, primeiro rei francês católico.

A recusa de Luís XIV estava na raiz da tragédia revolucionária que nesse dia apenas começou.


A via de Marie des Vallées, esperança para o mundo em desvario


Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes.
Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Uma das horríveis consequências da recusa do rei Luís XIV ao convite do Sagrado Coração de Jesus foi a demolição da obra que os grandes santos mencionados vinham realizando.

São Luís Grignion de Montfort morreu limitado a pregar em apenas duas dioceses e viu a sua derradeira obra – o Calvário de Pontchâteau – demolida por ordem do próprio rei.

Tudo pareceu perdido. Até seu famoso Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem ficou esquecido e perdido após a morte do santo autor em 1716.

Somente por volta de 130 anos depois foi redescoberto. Foi achado em 1842 poucos anos antes da Santíssima Virgem aparecer em La Salette em 1846.

A recusa do rei ao apelo do Sagrado Coração foi seguida pela destruição da obra dos santos que trilhavam a via de Soeur Marie des Vallées
A recusa do rei ao apelo do Sagrado Coração
foi seguida pela destruição da obra dos santos
que trilhavam a via de Soeur Marie des Vallées.
Na foto, o relicário com os restos mortais de São Luís Grignon.
Mas essa via aparece como esperança de salvação para o III milênio.
Na aparição Nossa Senhora retomou as palavras do Tratado e apelou pela vinda dos Apóstolos dos Últimos Tempos que São Luis Maria apelava com todo o fogo de sua alma.

Desde então, os ensinamentos do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem se difundiram traduzidos a centenas de línguas e foram adotados por uma infinidade de católicos no mundo inteiro.

A Companhia do Santíssimo Sacramento havia sido dissolvida pelo jovem Luís XIV porque constituía o cerne da “cabale des dévôts” — nome depreciativo dado pelo memorialista Saint-Simon aos nobres e seus conselheiros religiosos que levavam a sério o catolicismo na Corte de Versailles.

São Francisco Xavier de Montmorency-Laval, Arcebispo de Québec, no Canadá, lutou como um leão contra a invasão protestante da América do Norte quase sem apoio do governo real.

Ele estruturou de tal maneira a Igreja Católica no Canadá, que magotes de heroicos soldados franceses, caçadores de peles e tribos indígenas recém convertidas ao catolicismo resistiram ao avanço de corpos expedicionários protestantes ingleses de grande envergadura e poder de fogo.

Resistiu à avançada protestante, que estava lançando as bases dos futuros EUA, sem receber apoio digno ou proporcionado da corte mais brilhante do mundo.

Esse abandono levou à perda de quase todo o território francês e católico na América do Norte, dando no atual Canadá e em boa parte dos EUA.

Com uma França onde reinava o Coração de Jesus não poderíamos ter tido uma América do Norte franco — ou franco-anglofona — católica contrarrevolucionária?

São João Eudes foi outro herói da reforma do clero e do povo pela difusão da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Ele foi muito perseguido pelo rigorismo jansenista e pela passividade do quietismo, erros que dominavam o corpo episcopal interessado nos benefícios da vida de Corte.

Mas tinham-no caluniado. Luís XIV no final suspeitava dele, após prestar ouvidos a sofismas de fonte heterodoxa. Perto da morte, o santo dizia: “Prefiro morrer a fazer qualquer coisa que desagrade àquele que na terra ocupa para mim o lugar do Rei do Céu”.

Por ordem de Luís XIV todas as suas fundações foram fechadas pelo ímpio ministro Colbert, e o santo morreu em prisão domiciliar em Caen.

Posteriormente, muitos sacerdotes da Congregação por ele fundada foram martirizados durante a Revolução, na prisão de Carmes e sobre as pontes de Rochefort.

Os movimentos que esses santos geraram não morreram, mas ficaram sem a cabeça real que o Sagrado Coração havia escolhido.

Túmulo de São Francisco de Motmorency Laval na catedral de Québec, Canadá.
Túmulo de São Francisco de Motmorency-Laval na catedral de Québec, Canadá.
Pior, o rei se voltou contra os santos, embora tenha moderado seus costumes e praticado o catolicismo sem muito entusiasmo na parte final de sua vida.

Nos últimos anos de seu longo reinado Luís XIV viu todos seus descendentes morrerem envenenados — segundo se dizia na Corte —, só ficando um bebê – o futuro Luís XV – e um regente – seu primo, o duque de Orleans, ao qual se atribuíam os supostos envenenamentos.

O pensamento igualitário e os costumes imorais haviam infestado as elites sociais, preparando a Revolução Francesa que culminou com o guilhotinamento do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta.

Apesar de tudo, as heroicas inclinações espirituais suscitadas pela falange de santos e místicos mencionados continuaram difusamente generalizadas pela Franca.

A pregação de São Luís Maria Grignion de Montfort animou a resistência da Vendée à Revolução Francesa e continua largamente difundida pelo mundo.

A devoção ao Sagrado Coração inspirou grandes episódios de fé. A devoção ao Menino Jesus teria uma renovada expansão com Santa Teresinha.

Os mártires das Missions Etrangères ainda conquistariam incontáveis pagãos etc. Santa Teresinha ofereceu sua vida por missionários desta associação e até aspirou a ser carmelita no norte do Vietnã (Tonquim na época).

Luis XVI conduzido ao cadafalso. Fez a promessa que Luis XIV recusou, mas tarde demais. Jean-Jacques Hauer  (1751 – 1829), Museu Carnavalet
Luis XVI conduzido ao cadafalso.
Fez a promessa que Luis XIV recusou, mas tarde demais.
Jean-Jacques Hauer  (1751 – 1829), Museu Carnavalet

Eis o teor:

“Bem vedes, oh meu Deus, a grande tristeza que me oprime o coração, os desgostos que o laceram e a profundidade do abismo em que cai. De todas as partes me vejo rodeado de inumeráveis males.

“A minhas horríveis desgraças e de minha família acrescem, para opressão da minha alma, as que cobrem a face do reino.

“A meus ouvidos chegam os clamores de todos os desgraçados e os gemidos da religião oprimida, e uma voz interior me adverte de que talvez a vossa justiça me lança em rosto todas estas calamidades, porque nos dias de meu poder, não refreei a licença do povo e a irreligião que são a sua principal causa; por eu próprio ter fornecido armas à heresia, que triunfa, favorecendo-a por leis que lhe deram força dobrada e a audácia a tudo se atrever.

“Oh Jesus Cristo, divino Redentor de todas as nossas iniquidades, é no vosso adorável Coração que hoje venho desafogar a minha alma aflita.

“Chamo em meu auxílio o terno Coração de Maria, minha augusta protetora e mãe, e a assistência de S. Luiz, meu advogado e o mais ilustre de meus antepassados.

“Abri-vos, Coração adorável, e pelas tão puras mãos de meus poderosos intercessores recebei, benigno, os satisfatórios votos, que a confiança me inspira e que vos ofereço como franca expressão de meus sentimentos.

“Se, por efeito da bondade divina, eu recuperar a liberdade, a coroa e o poder real prometo solenemente:

“1. Revogar quanto antes todas as leis que me forem indicadas ou pelo Papa, ou por um concilio ou por quatro bispos dos mais ilustrados e virtuosos de meu reino, como contrárias à pureza e integridade da fé, disciplina e jurisdição especial da santa Igreja católica apostólica romana, e especialmente a Constituição civil do clero.

“2. Tomar, dentro em um ano, todas as providências necessárias para estabelecer, com aprovação do Papa e do episcopado do meu reino, e conforme as formas canônicas, uma festa solene em honra do Sagrado Coração de Jesus, a qual será celebrada para sempre em toda a França na primeira sexta-feira depois da oitava do Corpo de Deus, e sempre seguida de uma procissão geral, em reparação dos ultrajes e profanações cometidas em nossos santos templos, durante estes tão revoltos tempos, pelos cismáticos, hereges e maus cristãos.

“3. Ir eu próprio em pessoa, dentro em três meses, a contar do dia de meu livramento, à igreja de Notre-Dame de Paris, ou a qualquer outra principal do lugar onde me achar e pronunciar, em um domingo ou dia de festa, junto ao altar-mor, depois do ofertório da missa e nas mãos do celebrante, um ato solene de consagração de minha pessoa, família e reino ao Sagrado Coração de Jesus prometendo dar a todos os meus vassalos o exemplo do culto e devoção devidos a esse Coração adorável.

“4. Levantar e adornar a minha custa, na igreja que para isso escolher, no decurso de um ano, a contar do dia de minha soltura, uma capela ou altar, que será dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, e que servirá de monumento perdurável de meu reconhecimento e confiança ilimitada nos merecimentos infinitos e tesouros inesgotáveis de graças que este divino Coração em si encerra.

“5. Finalmente, renovar todos os anos, aonde eu estiver, no dia da festa do Sagrado Coração, o ato de consagração declarado no artigo terceiro, e assistir à procissão geral, que se fará logo depois da missa do dia.

“Agora não posso pronunciar senão em segredo este pacto, mas assiná-lo-ia, se fosse necessário com meu sangue; e o mais belo dia de minha vida será aquele em que eu possa publica-lo em voz alta no templo:

“O adorável Coração de meu Salvador! Esqueça-me eu de minha mão direita e de mim mesmo, se desconhecer os vossos benefícios e estas minhas promessas; se cessar de vos amar e pôr em vós toda a minha confiança e consolação!”

(Fonte: Mons. Emile Bougaud, Vigário Geral de Orleans, “História da Beata Margarida Maria – ou Origem da devoção ao Coração de Jesus”, Livraria Internacional, Porto-Braga, 1879, 519 pp., p. 388-391).
Imensas desgraças e sofrimentos se abateram sobre a França em decorrência da Revolução Francesa. Basta mencionar os milhões de mortos das guerras napoleônicas.

A nobreza teve inúmeros membros guilhotinados ou vilmente assassinados, e em boa parte partiu para o exílio em condições de miséria.

Os exilados que voltaram vivos reconstituíram as famílias e os patrimônios e, sobretudo, mudaram muito de vida se voltando para a religião que haviam abandonado no brilhante mas frívolo Ancien Régime.

Em boa medida alimentaram um núcleo de fidelidade ao catolicismo. Muitos outros, de menor extração nobiliárquica ficaram na França combatendo nas guerras de resistência civil – a da Vendée é a mais famosa – contra a Revolução morrendo nos campos da honra.

Os bispos, com duas exceções, e muitos sacerdotes fugiram da morte se exilando para não jurar a Constituição Civil do Clero. 

Napoleão I extorquiu do Papa Pio VII uma Concordata nefanda e perderam as dioceses. Em seu lugar foram sendo nomeados eclesiásticos que aderiam às novas ideias e foram precursores da crise religiosa hodierna.

E os sucessores de Luís XIV que atitude tomaram face ao pedido do Sagrado Coração de Jesus?

Luís XVI já destronado e preso na Torre do Templo, antes de ser guilhotinado, fez um juramento escrito de que se fosse liberado executaria os pedidos do Sagrado Coração transmitidos por Santa Margarida Maria Alacoque.

Mas foi tarde... A promessa escrita do rei prisioneiro deixou claro que a mensagem tinha ficado viva na lembrança da família real, embora não acolhida.

Na Restauração, nenhum rei legítimo ou ilegítimo, atendeu os pedidos do Rei dos Céus. 

Porém, na França flagelada, notadamente pela explosão comunista da Comuna de Paris, se generalizou o sentimento de que era preciso reparar a recusa.

Assim, por subscrição nacional, foi paga a construção da basílica do Sagrado Coração de Jesus na colina de Montmartre de Paris, hoje tão visitada.

Mas, o rei bem-amado a quem se dirigiu em pessoa o pedido do Sagrado Coração já não estava mais...


A própria Nossa Senhora voltaria misericordiosamente à França, aparecendo na Rue du Bac, em La Salette e em Lourdes, para só citar suas principais intervenções.

Em 1830, na Rue du Bac, Nossa Senhora deu a Santa Catarina Labouré a Medalha Milagrosa que traz unidos o Sagrado Coração de Jesus e o Coração Imaculado de Maria, como pregada por Sœur Marie des Vallées, e de modo muito eminente pelo seu confessor-discípulo São João Eudes.

A Medalha Miraculosa foi distribuída por centenas de milhões no mundo inteiro.

Mas a linguagem da Mãe de Deus mudou de tom. 

O Sagrado Coração prometeu uma sucessão de vitórias esplendorosas. Nossa Senhora falou de tremendos castigos se o mundo não fizesse penitência.

A História tomou um rumo diverso em função da insensibilidade do rei que poderia tê-la mudado para o bem.

Aparentemente todo o apostolado místico de Sœur Marie des Vallées, que convidava a uma troca de vontades de Luís XIV com o Sagrado Coração de Jesus, parecia ter sido em vão.

Porém, os planos misericordiosos da Providência vão além do que nós, criaturas humanas, podemos supor.

O mesmo podemos dizer da via aberta por Sœur Marie des Vallées, e seu eco no III milênio!



Sœur Marie obteve a promessa dos Apóstolos do Últimos Tempos


Sagrado Coração de Jesus, col. part.
Sagrado Coração de Jesus, col. part.
São João Eudes entabulou relações religiosas com Sœur Marie des Vallées, em agosto de 1641.

Tal aconteceu porque naquela data o santo pregador fora enviado pelo bispo de Coutances, Mons. de Matignon, para acompanhar o caso de uma possessa.

Em contato com ela, o Doutor do Sagrado Coração logo percebeu tratar-se do caso extraordinário de uma alma de escol perseguidíssima pelo demônio e por seus asseclas feiticeiros.

Devemos, portanto, ao Santo todos os escritos que dispomos sobre Sœur Marie des Vallées, pois ele foi seu confessor e diretor espiritual até a morte.

Paradoxalmente, o diretor acabou sendo o dirigido, no sentido de que ela lhe transmitiu da parte de Deus a missão de difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, ao Coração de Maria, aos dois Corações considerados como um só, e a ‘troca de vontades’ do fiel com esse Coração, como veremos.

No mesmo ano — 1641 — em que as duas santas almas entravam em contato, Santa Margarida Maria Alacoque, confidente e intermediária das mensagens do Sagrado Coração ao rei Luís XIV, ingressava no convento das visitandinas em Paray-le-Monial, na Borgonha, assaz distante da Normandia.

Nenhuma dessas santas almas sabia do plano do Coração de Jesus, Quem, entretanto, o conhecia e conduzia com suavidade e sabedoria infinitas.

Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos.
Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu
a graça de trocar de coração com Jesus.
Sœur Marie des Vallées abriu essa via para muitos escolhidos.
O exemplo espiritual transmitido por Sœur Marie des Vallées a São João Eudes (1601–1680) chegou a São Luís Maria Grignion de Montfort (1673–1716), que o incorporou na essência de seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem e da devoção da Sagrada Escravidão de amor à Mãe de Deus.

Durante 15 anos até a morte de Sœur Marie, São João Eudes registrou suas experiências místicas, visões e revelações, ensinamentos e fatos principais de sua vida, ora com suas próprias palavras, ora reproduzindo entre aspas as palavras da “santa de Coutances”.

Ele nos fornece um resumo da vida dela no período anterior à sua direção espiritual.

O Santo encontrou Marie des Vallées em plena tempestade espiritual resultante de uma possessão singular. No capítulo 6 do livro I, o Santo nos conta esta cena de terror:

“Desde o dia em que foi possuída por espíritos malignos, sofreu estranhamente pelo espaço de cinco anos com as maldições da bruxaria: especialmente nos últimos dois anos, durante os quais quase dia algum se passava sem que lançassem novos feitiços contra ela, e às vezes vários em um dia. (...)

“Os feiticeiros— diz ela —, aliados aos demônios, têm muito mais poder para fazer sofrer do que os homens ou demônios sozinhos” (op. cit. p. 17)

São João Eudes conta que quando ela foi exorcizada em Coutances, o exorcista ordenou ao demônio destruir o feitiço jogado contra ela.

Mas o demônio respondia que só o mago que o tinha jogado poderia fazer isso, e declinou seu nome.

Após três dias de busca, o feiticeiro foi pego e trazido à força, mas negava tudo. Até que, por fim, o demônio o constrangeu a confessar no que consistia o feitiço.

Marie des Vallées pôde expeli-lo pela boca, descobrindo que se tratava de matéria humana cerebral. “Eis o feitiço – disse o espírito maligno – está feito com o cérebro de uma criancinha” (p. 19).

Esse é apenas um exemplo entre muitos outros.

Marie des Vallées recomendava como remédios contra os diabos tudo o que a Igreja abençoa: água benta, sal bento, óleo bento, orações, exorcismos etc.

Mas Deus lhe pedia essas provações inimagináveis para obter bens também inimagináveis.

Um desses bens consistiu em obter que Deus enviasse os Apóstolos dos Últimos Tempos, dos quais quase não se fazia então a menor ideia.

Nosso Senhor lhe revelou essa missão num dia em que ela rezava com muita piedade o Salmo 71 na catedral de Coutances.

O salmo louva o Senhor por ter vindo à Terra e ter implantado seu Reino efetivamente:

“11. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações.

“12. Porque ele livrará o infeliz que o invoca, e o miserável que não tem amparo.

“13. Ele se apiedará do pobre e do indigente, e salvará a vida dos necessitados.

“14. Ele o livrará da injustiça e da opressão, e preciosa será a sua vida ante seus olhos.

“15. Assim ele viverá e o ouro da Arábia lhe será ofertado; por ele hão de rezar sempre e o bendirão perpetuamente.

“16. Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas como as ramagens do Líbano; e o povo das cidades florescerá como as ervas dos campos.

“17. Seu nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra, bem-aventurado o proclamarão todas as nações”. (Salmo 71 – 1-17)

Ela se sentia especialmente consolada ao pronunciar o versículo 17 e as palavras “as ramagens do Líbano”, a ponto de denominá-lo com insistência “meu belo versículo”.

São João Eudes registra a explicação que o próprio Nosso Senhor deu a ela:

A “fartura de trigo” significa o Santíssimo Sacramento. O “cume das colinas” são as pessoas divinas da Santíssima Trindade. As “ondulações” serão os pregadores que trabalharão para a conversão geral.

“As ramagens do Líbano, prossegue São João Eudes, ou seja, os cedros que representam os grandes santos com os quais o mundo será habitado naquele tempo, e particularmente os infiéis convertidos, que após a sua conversão superarão em santidade os fiéis da nossa época como os cedros superam as árvores comuns.” (p. 195)


E ainda completa:

“Finalmente, Nosso Senhor lhe disse que ela estava certa, que esse era seu belo versículo, já que era por sua mediação e pelo mérito dos sofrimentos que Ele pôs sobre ela que os pecadores seriam convertidos e que os vasos de abjeção seriam transformados em vasos de eleição” (p. 196).
São Luís Maria Grignion de Montfort fez sua essa profecia e a desenvolveu no Tratado da Verdadeira Devoção com estas palavras:

“47. O Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se avantajam às pequenas árvores em redor, segundo revelação feita a uma santa alma, cuja vida foi escrita por M. de Renty.

“48. Estas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por sua luz, alimentadas de seu leite, conduzidas por seu espírito, sustentadas por seu braço e guardadas sob sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra (cf. No. 4, 17).

“Com a direita combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias, e os ímpios com suas impiedades; e com a esquerda edificarão o templo do verdadeiro Salomão e a cidade mística de Deus, isto é, a Santíssima Virgem que os Santos Padres chamam “o templo de Salomão” e “a cidade de Deus”.

“Por suas palavras e por seu exemplo, arrastarão todo o mundo à verdadeira devoção e isto lhes há de atrair inimigos sem conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único Deus.


“É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande apóstolo de seu século, e que se encontra assinalado em uma de suas obras”.

Um dia, movida por um impulso extraordinário, Sœur Marie exclamou:

“Quero ver os cedros do Líbano, quero vê-los caminhando e andando pelos nossos quartos e pelas ruas com o chifre do Unicórnio na testa e o barrete na cabeça, de tal modo que, quando andem, todos os honrem; e quero cantar pelas ruas um cântico de glória e louvor a Deus, e todos me responderão.

– Sim, respondeu-lhe Nosso Senhor, você verá os cedros do Líbano e os verá andando em seu quarto.

“Esses cedros são aqueles que se destacam pela excelência da santidade no momento da conversão geral.

“Carregar o chifre de unicórnio na testa significa fazer reinar a Vontade divina representada pelo chifre de unicórnio. Porque como o chifre de unicórnio expulsa o veneno, também a Vontade divina expulsa o veneno do pecado onde está.

“O barrete quadrado é a cruz de Nosso Senhor, na qual os sacerdotes e os magistrados colocarão a sua glória”
– explicou (p.308).

Jesus volta a falar dos Apóstolos dos Últimos Tempos


Em numerosas visões, Nosso Senhor apresentava imagens da ordem temporal e material para depois explicar seu significado sobrenatural a Sœur Marie.

Para lhe mostrar o martírio espiritual que implica entregar totalmente a própria vontade à Vontade Divina, como desejava Marie, Jesus lhe deu o seguinte ensinamento, que São João Eudes reproduz na página 320 da obra magistral que estamos citando:

“O caminho mais curto para se chegar ao martírio é seguir a Vontade divina em tudo e em qualquer lugar.

“Para uma maior compreensão dessa verdade, Sœur Marie disse que viu certa vez uma videira muito viçosa, carregada de uvas muito bonitas e muito maduras, que eram do tamanho de ameixas, e também tinha folhas grandes e formosas que as cobriam.

“Eis que vem São Gabriel e corta essa videira pelo pé e a transplanta no Céu.

“Nosso Senhor me diz que essas uvas foram todas cuidadas para ficarem cheias de açúcar, e que não eram para fazer vinho. ‘Mas são’, diz Ele, para ‘servi-las à nossa mesa, à nossa sobremesa!”

“Eis a explicação.

“As uvas são os grandes santos que Nosso Senhor chama de cedros do Líbano, que existirão naquele momento em que Ele derramará suas graças em abundância e converterá todos.

“Todos serão cristalizados com o açúcar da graça e acompanharão perfeitamente a vontade divina, buscando somente a Deus, servindo-O e amando-O pelo amor d’Ele próprio, como se não houvesse céu nem inferno.

“As folhas da videira representam a grande e gloriosa reputação que esses santos terão diante de Deus e diante dos homens.

“Serão grandes mártires, embora os carrascos não os toquem, mas serão mártires do Amor divino.

“Serão queimados na fornalha e serão mártires maiores do que muitos outros primeiros mártires que sofreram o martírio pela esperança das coroas e da glória.


“Porque eles não olham para a recompensa, mas só para a glória de Deus e seguem em tudo e em toda parte a sua muito adorável vontade”. (p. 3210-321)

Nosso Senhor disse a ela que, para procurar a Misericórdia, que havia ficado sem forças para prosseguir no caminho, era necessário trazê-la com um cavalo.

Essa imagem significava a necessidade de almas que atraíssem a Misericórdia com seus sofrimentos como um cavalo que puxa um carro, fustigado até pelo dono. Isso se deu pela grande aflição que se abateu sobre Sœur Marie.

Depois de tê-la aceito, ela viu pessoas beneficiadas pela Misericórdia que marchavam alegremente. E compreendeu que Nosso Senhor mostrava que por essa via os homens serão convertidos e se apoiarão adequadamente na palavra de Deus. (p.345)

Numa outra vez, Sœur Marie ouviu Nosso Senhor falando primeiro aos pagãos, depois aos hereges e, por fim, à Igreja Católica. Suas palavras para a Igreja foram extremamente duras, tratando-a de “desavergonhada atrevida”, que não aproveitava os méritos de Sua Paixão.

Sœur Marie ficou espantada com o que Ele estava falando. Porém, Jesus lhe explicou que a tratava assim “porque é sua esposa que se prostitui para pecar tão descaradamente que chegava a fazê-lo na presença d’Ele e diante de seus olhos”. (p. 352)

De onde a necessidade de almas reparadoras.


A “grande tribulação” que purificará o mundo


A “grande tribulação” que purificará o mundo
A “grande tribulação” que purificará o mundo.
Triunfo da morte, detalhe, Pieter Bruegel  (1525-1530 — 1569)
Museo del Prado, Madri

Truculência pelo bem dos pecadores


Sœur Marie des Vallées apelava a Deus animada do desejo ardente de exterminar o pecado e salvar as almas dos pecadores.

Embora falasse truculentamente contra o pecado e os pecadores, não desejava a sua perdição, mas a sua conversão.

Sœur Marie chegou a se interpor entre Deus encolerizado e o mundo em perdição, a fim de impedir que Deus o castigasse como merecia – o que equivaleria à sua destruição.

Assim o testemunhou, entre outros, à venerável Madre Maria do Santíssimo Sacramento do Carmelo de Amiens onde também entrou a bem-aventurada Maria da Encarnação O.C.D. (1566-1618) considerada “mãe e fundadora do Carmelo (descalço) na França”.

Seus trabalhos e financiamentos renderam quatorze Carmelos reformados segundo a regra de Santa Teresa de Jesus.

Fez essa obra quando ainda leiga casada, mãe de sete filhos, sendo lembrada pelo nome civil Barbara Acarie, ou Madame Acarie e até a “belle Acarie” pela sua beleza.

Recebeu os estigmas, dons sobrenaturais, e foi famosa em Paris pela sua imensa caridade e participação na resistência vitoriosa da cidade contra os hereges huguenotes, na qual o marido foi um dos 16 principais líderes católicos.

Quando viúva, quis ser simples carmelita conversa, e assim faleceu com fama de santidade no Carmelo de Pontoise.

Beata Maria da Encarnação OCD, trouxe a reforma do Carmelo à França
Beata Maria da Encarnação OCD, trouxe a reforma do Carmelo à França.
A ela foi revelada a concepção (milagrosa para muitos) de Luís XIV.
Escreveu de Sœur Marie: “alma de sublimíssima santidade, que segurava
a torrente de Sua cólera (divina), pronta para desabar sobre o mundo inteiro”
À bem-aventurada Maria da Encarnação foi revelado o futuro nascimento de Luís XIV.

Na hora de morrer, ela contou às carmelitas que Nosso Senhor “lhe tinha feito conhecer uma alma de sublimíssima santidade, que segurava a torrente de sua cólera, pronta para desabar sobre o mundo inteiro”.

“E que era uma mulher do povo, pobre, escondida e menosprezada, que usava o bavolet (tecido que as camponesas usavam sobre a cabeça, cobrindo a nuca)”
– registra São João Eudes (p. 248), aludindo assim a Sœur Marie.

Após a morte da bem-aventurada, encontrou-se entre seus apontamentos, com data de 26 de novembro de 1634, o trecho de uma carta a Sœur Marie des Vallées.

Nessa, ela lhe adverte que está sendo tratada “como bruxa, como insensata, como espírito ludibriado, mas que todas essas maquinações serão destruídas na proximidade de ti. Ninguém conseguirá te tocar, nem mesmo teus vestidos” (p.248).

São João Eudes confirma ter tido em mãos essas anotações.

O santo diretor narra a seguir que Sœur Marie des Vallées padeceu cinco anos de espantosos ataques de sortilégios com o fim indicado acima.

Depois ainda sofreu as penas do inferno durante mais quatro anos.

Após os quais, por incrível que pareça, ainda viriam mais três anos de sofrimentos penosos, que por sua vez a preparariam para o que ela chamava o “mal dos doze anos”.

Possuída pela Ira de Deus


Por fim, Nosso Senhor lhe fez saber que a tinha convidado a passar por todas essas terríveis provações a fim de a preparar para um sacrifício ainda muito mais radical, e para isso pedia a sua aquiescência.

Tratou-se de algo inimaginável, que surpreendeu até quem escreve estas linhas.

Nosso Senhor quis que ela passasse possuída durante três anos da Ira de Deus – ao que Marie aquiesceu com entusiasmo, desde que acelerasse a derrocada do Pecado no mundo.

Jesus Cristo lhe advertiu que seria algo tremendo, que pensasse bem, e lhe deu um tempo para refletir. Mas ela aceitou.

Sœur Marie des Vallées professava uma atitude que lembra as palavras que as Sagradas Escrituras põem na boca do profeta Elias: “Zelo Zelatus Sum pro Domino Deus exercituum” (“Eu me consumo de zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos”) 1Reis, XIX, 10

Ela contava que o fogo da Ira de Deus é de tal maneira tremendo, que as chamas de todos os infernos são como nada.

Pois – explicava – o inferno não é senão um subproduto criado pela Ira de Deus.

A “troca de vontades”


Sœur Marie des Vallées percebeu então a importância da renúncia ao amor próprio – e, como veremos ainda, de uma renúncia tão radical que levava a uma “troca de vontades” com o Sagrado Coração de Jesus e de Maria.

São Luís Maria Grignion de Montfort retomaria esse ensinamento em seu famosíssimo Tratado da Verdadeira Devoção, ensinando uma “troca de vontades” do infiel pecador com o Coração Imaculado de Nossa Senhora.

O que acabava dando uma “troca de vontades” com a Sabedoria Eterna e Incarnada, Jesus Cristo, e seu Sagrado Coração.

Sœur Marie des Vallées então renunciou completamente a si própria, abandonou-se completamente à vontade divina, esquecendo-se inteiramente de sua pessoa.

Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246),
primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus.
Sœur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Certa feita, ela indagou a Nosso Senhor qual era o desígnio d’Ele conduzindo-a a essa entrega.

Ele respondeu que não era para ser entendido no seu tempo, mas que viria uma época em que tudo isso seria exposto publicamente.

Em 28 de fevereiro de 1642, Ele também lhe prometeu surpreendentemente:

“Eu te darei um poder absoluto sobre todos os homens. Eu te darei um poder absoluto sobre os quatro elementos.

“Eu farei ver e saber a todo mundo que Eu vivo e reino em ti, que Eu sou tudo e que tu não és senão o hábito de que Eu estou revestido. (...)

“Serei Eu quem terá um poder absoluto sobre todos os homens e sobre os quatro elementos” (p. 259)

Em junho de 1653, Marie implorava que Nosso Senhor se fizesse conhecer. Ele respondeu:

“Sim, Eu me farei conhecer a todo o mundo segundo o grande desejo que tu tens, pois Eu sou a Verdade que tu tanto desejas conhecer: o grande desejo que tu tens é para benefício de todos aqueles que não a conhecem” (p. 261).

Com seus atrozes padecimentos ela estava atraindo, inicialmente sem o saber, o reinado de Cristo à Terra, efetivado como reinado do Imaculado Coração de Maria.

Sœur Marie manifestava uma ira contra o pecado, de assustar até seus próximos mais santos. De início contra os pecados individuais cometidos cá e lá.

Mas depois formou a ideia de que os pecados individuais faziam parte de um conjunto muito coeso – que ela denominava o Pecado em singular –, que continha em si todas as violações da Lei divina.

Contra esse Pecado que articula todos os outros Sœur Marie orientava suas orações e sofrimentos.

Nessa perspectiva, ansiava pelo dia em que esse Pecado fosse derrotado e a Caridade divina reinasse na Terra.

São João Eudes comenta que jamais se teria acreditado que houvesse nela tal ódio ao pecado (p. 275)

A “grande tribulação”


No livro 5, cap. 3, São João Eudes reúne numerosos apontamentos sobre o que Sœur Marie des Vallées chamava de “grande tribulação” vindoura, por meio da qual Deus purificaria o mundo.

Ela via aproximar-se esse momento decisivo. “A primeira horinha do dia de amanhã começou” – disse em 1649 (p. 271)

“O amanhecer desse dia são as coisas milagrosas que devem acontecer no tempo da grande mudança”.

O trecho do Magnificat que melhor preanunciava esse momento é “Nunc dimitti servum tuum, Domine” (p. 272).

Em 23 de outubro de 1644 ocorreu-lhe fazer na catedral de Coutances um voto contra o Pecado que está na raiz de todas as faltas individuais.

Vinda de Cristo em pompa e majestade. Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010
“Eu marcharei à testa do exército e devorarei esse monstro”
Vinda de Cristo em pompa e majestade.
Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010
Esse voto, aliás, era tão radical que era impossível de realizar. E Nosso Senhor não autorizou.

Mas atendeu seus ardentes desejos prometendo-lhe:

“Eu marcharei à testa do exército e devorarei esse monstro, Eu lhe esmagarei a cabeça, Eu o jogarei no fogo” (p. 273).

– E quando aconteceria isso? – perguntou ela.

Nosso Senhor lhe respondeu: “No terceiro dilúvio que deverá vir, que será o dilúvio de fogo e o dilúvio do Espírito Santo”. (p. 274)


São Luís Maria Grignion de Montfort também clama por esse dilúvio vindouro:

“Quando virá esse dilúvio de fogo do puro amor, que deveis atear em toda a terra de um modo tão suave e tão veemente que todas as nações, os turcos, os idólatras, e os próprios judeus hão de arder nele e converter-se?”. (Prece de S. Luís Maria Grignion de Montfort pedindo a Deus missionários para a sua Companhia de Maria)



Sœur Marie e a conversão universal vindoura


Bem-aventurados, Fra Angelico, Berlin (1395 – 1455)
Bem-aventurados, Fra Angelico, Berlim (1395 – 1455)
Nosso Senhor também lhe fez ver o gáudio universal que tomaria conta do mundo pela conversão geral que viria após a “tribulação espantosa” que Lhe anunciava e que foi abordada no post anterior: A “grande tribulação” que purificará o mundo.

Assim o registra São João Eudes: “Tendo sido destruído o pecado por toda parte, todo o mundo se converterá a Deus, segundo o oráculo do Espírito Santo: Et convertentur ad Dominum fines terrae”.

Foi isso que Nosso Senhor fez saber à Sœur Marie através de numerosas palavras, várias figuras e explicando o significado de um grande número de passagens das Sagradas Escrituras.

“Ele lhe disse muitas vezes que chegará um tempo em que fará chover um dilúvio de graças que inundará o mundo todo, e que naquele momento embriagará com o vinho do Seu amor um grande número de pessoas.

“Mais especialmente aquelas que trabalharão pela salvação das almas, e que Ele dará belos vasos de ouro a todas as igrejas, isto é, bons pastores e bons sacerdotes, como Ele mesmo explicou, e que converterá todas as almas que levam impressa a imagem de Deus” (p. 283).

Ele também lhe disse: “Não sou rei da terra, porque não reino sobre ela; o rei dela é o pecado, pois é ele que reina sobre ela; mas Eu virei em breve e destruirei esse monstro e reinarei em todo o universo”. (p. 293)


Em 20 de dezembro de 1644 Deus lhe ordenou ir à igreja rezando um rosário completo com versículos específicos em cada conta. E lhe explicou:

“Este rosário pede pelo mundo todo. O primeiro terço representa a Igreja, o segundo a nobreza, o terceiro o povo. Foi-lhe pedido rezar assim para pedir a conversão de todos”. (p.285)

No dia 6 de maio de 1646, Nosso Senhor lhe prometeu: “Aplanarei as montanhas e as farei frutificar com toda espécie de bons frutos. Encherei os vales com leite e mel. Das minhas cinco feridas farei manar cinco rios que inundarão a terra inteira”. (p. 287)

Esses cinco rios serão de misericórdia, brotarão das cinco chagas e simbolizam: a chaga da mão direita: o poder de Deus; a chaga da mão esquerda: a Igreja; a chaga do pé direito: os judeus; a chaga do pé esquerdo: a gentilidade. 

E, por fim, a chaga do lado: a Paixão de Cristo e seu Sagrado Coração, chaga ardente que queima todos os pecados.

Concluiu Ele dizendo que todos os homens mencionados se fundirão um dia e serão um só, quando haverá uma única fé, uma única lei, um só pastor e um só rebanho. (p. 289)

Todos eles passarão pelo fogo da “crise universal que deve vir” (p.340) para serem purificados, e então Nosso Senhor fará com eles “uma só Igreja e só haverá uma fé e uma lei”. (p.290)

Esplendor do triunfo de Cristo em Maria


Alegoria do Bom Governo, Ambrogio Lorenzetti, detalhe
Alegoria do Bom Governo, Ambrogio Lorenzetti, detalhe
Numa outra ocasião em que Cristo pronunciava o mesmo juízo condenador da Terra, a Esperança cantava alegremente este versículo do salmo 84 (11-12):

“A pura Verdade germinará na Terra e a Justiça fará chegar seu brilho até o último canto”, sinal da mudança que acontecerá na conversão geral. (p.300)

Em 1650, Marie des Vallées viu Nosso Senhor como que abismado diante de uma torrente de água composta por sete rios que se interconectavam.

Representavam os sete pecados capitais. O mais horrível era preto, fazia mal ao coração e parecia arrastrar os outros: era o orgulho e a ambição.

O segundo, da avareza, tinha uma água de sangue escuro e purulento.

O terceiro, da inveja, estava cheio de vermes.

O quarto, da gula, estava cheio de lixo e sujeira.

O quinto, da luxúria cheirava como pus e envenenava.

O sexto, da ira, era como um fogo negro, borbulhante, espumante e furioso.

O sétimo, da preguiça, era lamacento e cheio de animais repugnantes.

Paraíso, Giovanni di Paolo (Siena, 1403 — Siena, 1482)
Paraíso, Giovanni di Paolo (Siena, 1403 — Siena, 1482)
Nosso Senhor então disse que sua bênção iria mudá-los de modo maravilhoso em água cristalina, luminosa, que correria fazendo doce murmúrio.

“E tudo isso não era senão uma figura da conversão que acontecerá no tempo da grande missão de Nosso Senhor.

“Os grandes e ambiciosos do mundo, leigos ou eclesiásticos, serão substituídos por esses cedros do Líbano, esses grandes santos de que já falamos” (p. 303). Ver Apóstolos dos Últimos Tempos.

Nosso Senhor se estendeu mais sobre seu plano, dizendo:

“Todas essas mudanças serão feitas no momento da conversão geral e então abriremos todos os pequenos canais que estão nas duas margens da torrente e as águas se espalharão por todos os lados e regarão toda a terra do universo”.

“Você vê – continuou dizendo Nosso Senhor a Sœur Marie –, nós bebemos, por meio dos tormentos que você sofreu, todas as águas desses rios como elas eram antes de Eu as ter abençoado.

“Nós as bebemos como se bebem no inferno, porque carregamos a pena e a culpa, quer dizer, sofremos com se nós tivéssemos sido culpados, nós carregamos as penas dadas pela Ira de Deus que é o castigo devido à culpa (...)

“e ainda os disporemos a beber por meio das grandes tribulações que lhes enviaremos, que os purificarão e converterão como essas águas que foram purificadas e mudadas por minha bênção”. (p. 304-305)



Sœur Marie sobre o estado da Igreja


Madonna delle Milizie, Sicilia. Fundo: anjos por Guariento di Arpo
Madonna delle Milizie, Sicilia. Fundo: anjos por Guariento di Arpo

Nossa Senhora comanda a guerra ao mal


Um dia em que Sœur Marie caminhava para o santuário de Notre-Dame de la Délivrance junto com outras almas piedosas, as forças lhe faltaram.

Jesus então lhe disse que ela tinha necessidade da carruagem de Nossa Senhora, ao que Sœur Marie respondeu que não tinha coragem de fazer tal pedido.

Nosso Senhor lhe respondeu que Ele próprio pediria a carruagem à Sua Mãe.

E Sœur Marie “recebeu uma força tão grande, que era como se ela nunca se tivesse cansado, porque essa carruagem, que é a força divina, lhe foi dada para andar quando toda a força natural desfaleceu, embora conservasse sempre as mesmas sensações de cansaço, como se essa força não lhe tivesse sido dada”, registrou São João Eudes. (p. 369)

Nossa Senhora a chamava no dialeto da Normandia, minha ‘grande servidora’ e uma vez Cristo lhe apareceu perguntando para onde tinha ido sua Mãe.

Sœur Marie foi procurá-la e “viu-a vir sobre um carro de triunfo repleto de armas de toda espécie.

“Ela [Sœur Marie] se voltou para Nosso Senhor e disse: ‘Eis que vossa Mãe vem sobre um carro cheio de armas. O que Ela vai fazer com tudo isso?

“É que Ela vai para a guerra. (...)

“O que Ela vai fazer dessas armas?

Nossa Senhora vitoriosa em Lepanto. Igreja de Santa Maria Madalena, Sevilha, Lucas Valdez (1661 - 1725)
Nossa Senhora vitoriosa em Lepanto.
Igreja de Santa Maria Madalena, Sevilha,
Lucas Valdez (1661 - 1725)
“É para armar seus servidores, a fim de combaterem contra o Pecado. Ela dispõe alguns de uma maneira, outros de outra, alguns na ofensiva, outros na defensiva.

“Além disso, ela [Sœur Marie] viu um grande maço de pequenas chaves de ouro que Ela carregava no cinto.

‘O que Ela vai fazer com todas essas chaves?’ — perguntou a Nosso Senhor.

“Olha para a quantidade de pequenos armários nesse carro triunfal.

“Vede — diz Nosso Senhor —, essas são as chaves de todos esses armários que estão cheios de muitos prêmios diferentes que Ela distribui a seus servos quando eles combateram e obtiveram a vitória”. (pp. 371-372)

Marie des Vallées tinha uma devoção extraordinária pelo terço, que São João Eudes considerava a sua maior devoção.

Nosso Senhor lhe ensinou que o santo Rosário é o pão e o vinho da alma cristã. Todas as outras orações são como os frutos, os legumes e os doces de que o homem se alimenta.

“O rosário é a oração dos pobres e dos ignorantes que contem em si todos os tesouros da ciência e da sabedoria de Deus e dos santos”, dizia (p.377).

Quando algumas pessoas começaram a murmurar contra a festa do Coração de Maria, Nossa Senhora lhe ensinou que o Sagrado Coração de Jesus é também seu Coração, de maneira que comemorando a festa do Coração de Maria, celebramos também a festa do admirabilíssimo Coração de Seu Filho”. (p. 379)

Sœur Marie tinha tal ódio ao pecado, que chegava a dizer que se lhe fossem abertas as portas do Paraíso entraria não para gozar da glória, mas para fazer que os Apóstolos e os santos saíssem de lá e descessem à Terra para destruir o monstro do pecado e salvassem as almas.

São Paulo Apóstolo, Basílica de San Paolo fuori le mura, Roma
São Paulo Apóstolo, Basílica de San Paolo fuori le mura, Roma
Certa vez ela foi saudar o Santíssimo Sacramento exposto numa igreja.

Então Jesus Cristo aquiesceu, mas a advertiu de que no templo estavam também São Pedro e São Paulo, que ela tanto queria tirar do Paraíso.

Ela revidou, inquirindo sobre o que eles faziam no Céu sem virem a matar o pecado. Nosso Senhor contestou:

“Eu te garanto que eles têm mais vontade de vir do que você tem de que venham. E eles todos virão, com certeza, eles vão descer como nuvens de raios para esmagar o pecado.

“Então, que venham já!” — retrucou Marie.

“Eles virão no tempo da grande tribulação”.

Na igreja, quando São Pedro e São Paulo se retiravam, lhe perguntaram se ela queria enviar algum recado para o Céu:

“Sim — respondeu —, eu vos rogo apresentar meus cumprimentos aos santos que foram mais excelentes no ódio do pecado”. (p.387)

Todos os santos estão em cólera contra o pecador como um filho que está furioso contra aquele que apunhalou seu pai, anota São João Eudes. (p. 390)

De fato, São João Eudes conta que, quando ela passou pelo inferno, via todos os santos do Céu exultantes olhando-a e ameaçando-a com os rostos cheios de cólera como se fossem brasas.

E com o mesmo olhar a fitavam os condenados cheios de furor contra ela.

Estado moral do clero comparado a uma cloaca


Detalhe do Juizo Final, Stefan Lochner (c 1410–1451), Wallraf-Richartz-Museum, Colonia
Detalhe do Juizo Final, Stefan Lochner (c 1410–1451),
Wallraf-Richartz-Museum, Colonia
Antes de janeiro de 1645, Nosso Senhor lhe pediu rezar três ladainhas em três locais muito diferentes.

A primeira no meio da maior encruzilhada da cidade, a segunda no meio da fossa mais suja e fedorenta da cidade, e a terceira na igreja, em frente ao crucifixo.

“Fiquei muito surpresa com essa ordem e até vi a Virgem Maria, que naquela ocasião estava chorando amargamente. No entanto, isso deveria ser feito.

“Então fui primeiro à encruzilhada para rezar com meu livro de piedade em mãos a ladainha do Pai Eterno, como me foi ordenado.

“Depois fui procurar o local mais cheio de sujeira e mau cheiro que pude encontrar, e ali, no meio desse fedor e sujeira, rezei a ladainha do Filho de Deus, enquanto as crianças que me viam lá por muito tempo apontavam para mim, me vaiavam e jogavam pedras.

“Então fui à igreja para rezar a ladainha do Espírito Santo diante do crucifixo.

“Assim que eu o fiz, a Santíssima Virgem, que antes estava chorando, começou a me dizer com grande alegria: ‘Ó minha filha, você fez bem: cante agora a Regina cœli laetare alleluia etc.’

Então Nosso Senhor lhe explicou que “a primeira ladainha dita na encruzilhada fora da igreja era para chamar os infiéis à Igreja; a segunda foi para a conversão dos maus cristãos, e especialmente dos maus sacerdotes, porque Ele me disse:

“Estou na minha Igreja como numa cloaca cheia de sujeira e mau cheiro, isto é, no meio de cristãos e especialmente de sacerdotes, a maioria dos quais não é senão corrupção e fedor”.

Sœur Marie, respondeu, perguntando: “Por que Vós permaneceis no meio dessa imundície?”

E Ele respondeu: “É meu amor, minha caridade, minha misericórdia e minha divina paciência que me obrigam a fazê-lo”.


O diálogo nos ajuda a compreender as palavras de Nossa Senhora em La Salette:

“Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza.

“Sim, os sacerdotes atraem a vingança e a vingança paira sobre suas cabeças.

“Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho!

“Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança”. Cfr. O segredo de La Salette, texto completo em português

Prossegue São João Eudes com a narração:

“A terceira ladainha, dita diante do crucifixo na igreja, em honra do Espírito Santo, foi para obter o perdão que Ele deverá conceder pela grande efusão e transbordamento de graças que derramará sobre todas as almas no tempo da conversão geral” (p. 291).

Porém, os bruxos, que tantos malefícios lançavam contra Sœur Marie, acabariam sendo vítimas dos demônios.

Esses obrigariam os bruxos a destruir suas obras, porém os dolorosos tormentos com que os espíritos diabólicos flagelariam os bruxos, os ajudariam a se converterem. (p.295)

Numa outra ocasião, Sœur Marie viu Nosso Senhor se afastando da Terra que tinha vindo visitar.

Nossa Senhora lhe explicou que Ele chamava de “minhas terras” todas as nações que não são da sua Igreja. E falava da Igreja como “minha casa”.

Mas que, após ter visitado suas terras, partiu dizendo com tristeza e dor as palavras de Jó (10:22): “Esta terra de miséria e escuridão, onde habita a sombra da morte, onde tudo é sem ordem e em eterno horror” (p. 298-299)

Sobre o estado da Igreja


Em 1646, Nosso Senhor lhe mostrou uma cidade, neste caso a de Coutances, pela qual lhe pediu orações.

Essa cidade se lhe afigurava como uma urbe da época, pois as imagens divinas quase sempre eram de aparência temporal.

Depois Nosso Senhor lhe explicou o que significava a visão em termos simbólicos e, por fim, seu conteúdo espiritual.

“Nosso Senhor lhe disse que todo o mundo era como uma cidade cujo centro é a Igreja, que os bairros são aqueles grupos de pessoas catequizadas que vão à Igreja, e que as aldeias representam os infiéis.

“Ele lhe ordenou rezar três Gloria Patri pela Igreja.

“No primeiro, a Igreja pede varas para punir seus filhos; no segundo pede armas para defendê-la de seus inimigos, e no terceiro, força para derrotá-los.

“Mandou-lhe rezar o Aleluia três vezes pelos catecúmenos.

“O primeiro foi para pedir a Deus que encha suas memórias com os mistérios da nossa religião.

“O segundo para que ilumine seu entendimento para acreditarem n’Ele.

“O terceiro para que acenda suas vontades a fim de incendiá-las”.

Para os incrédulos, Ele ordenou que ela pronunciasse cinco vezes o Nome de Jesus, para que O conheçam pela fé, sejam purificados pelo batismo, recebam o pão da vida que os nutre, o dom da perseverança e cheguem à vida eterna. (p. 394)

Incêndio da catedral de Chartres em 4 de junho de 1836.  François Alexandre Pernot (1793-1865). Musée des Beaux-Arts de Chartres.
Incêndio da catedral de Chartres em 4 de junho de 1836.
François Alexandre Pernot (1793-1865). Musée des Beaux-Arts de Chartres.
Mas certo dia Nosso Senhor lhe disse: “O sol se eclipsou, a lua está coberta com um véu preto, as estrelas perderam a luz.

“Ele disse que esse sol de que falava representava todos os clérigos, do primeiro ao último, que a lua significava os nobres e os altos personagens, e que as estrelas representavam todos aqueles que estavam ligados pela fé ao céu da Igreja”. (p.394)


“Em 6 de março de 1645 lhe foi ordenado rezar por sua mãe, a Igreja, que está muito doente (...) e de rezar ao Filho de Deus para que realize as profecias do Magnificat” (p. 395).

Em 11 de março do mesmo ano, Nosso Senhor pediu a Sœur Marie “oferecer sua Paixão ao Pai Eterno e ao Espírito Santo, para obter do Pai que restabeleça a Igreja na sua santidade primeira, para que o Filho conceda aos sacerdotes a verdadeira ciência da verdadeira sabedoria e a verdadeira santidade; e ao Espírito Santo para que Ele acenda o fogo do amor e da caridade nos corações em que se apagou (...)

“Nossa Senhora lhe pediu oferecer a Paixão à Santíssima Trindade para obter do Pai que libere sua filha — a Igreja — que está possuída pelos diabos que são os pecados” (p. 397).

Nossa Senhora ainda lhe disse: “a Igreja não está doente de morte, mas Meu Filho lhe fará uma sangria e uma purgação, e ela sairá curada” (p. 398).

Na Missa, Nosso Senhor acrescentou: “Minha Esposa ficou leprosa. E Eu lhe digo que Ela vai se lavar sete vezes no rio Jordão e ficará bela e branca como uma criancinha (...) o Jordão é a penitência” (p. 398).

Acontecia-lhe com assiduidade que ao ouvir a voz de um sacerdote que cantava na igreja, mas que não vivia como padre, sentia nascer em si própria um movimento extraordinário ao qual não podia resistir e suscitava a exclamação interior: “Ó maldita voz, tu atrais a ira de Deus” (p. 419).

Numa outra ocasião, na catedral de Coutances, ouviu que o órgão tocava ao máximo por causa de um personagem importante que os clérigos queriam agradar, e cantavam alguns motetes para entreter-se.

Simultaneamente, Sœur Marie ouvia a voz de Nosso Senhor dizendo à Igreja: “Ó desavergonhada bastarda, você profana as coisas sagradas” (p.419).

Ela increpava as modas que enchiam de superficialidades a vida dos homens não só nas roupas, mas nos modos de falar, de se saudar, de arranjar as casas e jardins.

As maiores truculências iam para os religiosos e as religiosas que adotavam as modas do mundo.

Certa feita, Jesus Cristo lhe fez ver uma árvore belíssima numa pradaria muito atraente. Suas folhas eram muito densas e belas, mas cada uma escondia um anzol, e tremia.

E lhe explicou que essa árvore era como o mundo: as folhas simbolizavam as diversas volúpias com que o diabo prende as almas (p. 443).

São João Eudes escreve que no ano 1644, Marie repetia com frequência:

Hélas! Onde estamos? Estamos num deserto onde não vemos ninguém, onde ouvimos apenas animais uivando”.

“Então foi-lhe dado a entender que esse deserto é o mundo, porque restam muito poucos homens e está quase só povoado de animais, ou seja, de pessoas que levam vidas de brutos.

“Não se ouve mais falar a linguagem dos homens razoáveis e cristãos, mas a das bestas.

“Não se ouve outra coisa além de palavrões, blasfêmias, calúnias, maldições, imprecações, palavras sujas e coisas do gênero” (p. 443).



A troca de vontades vivida por Sœur Marie des Vallées


Santa Catarina de Siena trocando seu coração com Cristo, Giovanni di Paolo (1403 — 1482), Metropolitan Museum of Art, New York
Santa Catarina de Siena trocando seu coração com Cristo,
Giovanni di Paolo (1403 — 1482), Metropolitan Museum of Art, New York.
Essa santa foi uma das raras almas que ganharam esse privilégio

O oferecimento do Pe. Pierre Coton SJ


Como é que a “santa de Coutances” chegou à convicção de trocar sua vontade com a do próprio Jesus? São João Eudes no-lo explica.

Durante quase dois anos, Sœur Marie rezou todos os dias diante do Santíssimo Sacramento uma oração do Manual de devoção (p.71 e ss.), de autoria do Rev. Pe. Pierre Coton S.J. (1564-1626).

O Pe. Coton foi confessor dos reis Henrique IV e Luis XIII, além de Provincial da Companhia de Jesus na França.

Nele o ilustre jesuíta oferece a Deus sua própria vontade de maneira irrevogável, renunciando a todos seus direitos com o fim de nunca pecar.

Eis alguns excertos dessa longa oração:

“Sei, às minhas custas e para minha grande pena, o quanto me prejudico e quão grande é a minha fragilidade, pela qual tenho todas as oportunidades de temer que eu negarei doravante os meus desejos e não cumprirei o oposto do que acabei de prometer.

“Ó Deus, muito poderoso e imutável, (...) se minha vontade for necessária, está em vossas mãos. Eu Vo-la dou e Vo-la devolvo irrevogavelmente. (...)

Protesto com todos os recursos da minha vontade, com todos os esforços da minha vontade, e com toda a plenitude possível do meu consentimento, que não quero Vos ofender de forma alguma, quero ser totalmente vosso. Quero tudo o que Vós desejais, sem exceção, e odeio tudo o que Vós odiais; (...)

Pe Pierre Coton SJ (1564-1626)
Pe Pierre Coton SJ (1564-1626)
“As almas bem-aventuradas que veem a vossa face não só não podem pecar, mas são obrigadas a amá-la e a nunca cessar neste nobre exercício, e mesmo assim não deixam de ter o seu livre arbítrio, tanto é verdade que as vossas obras [26] não se destroem, e a graça e a glória não se estragam, de modo que a natureza perfeita. (...)

“O amor de mim mesmo faz de mim um inimigo de mim mesmo, faz com que eu me busque e me perca, e me encontre, me extravie.

“Então eu renuncio a tal amizade e a odeio com tanto ódio, e com tanta força quanto eu me amei até agora (...) eu quero que seja assim, mas com a condição, meu Deus, e não de outra forma, que doravante me considereis como uma coisa vossa, (...)

“o filho adquire para seu pai tudo o que adquire, enquanto está sob seu poder. Assim, o escravo adquire para o benefício de seu mestre tudo o que ele pode adquirir durante sua servidão.

“Doravante, portanto, todos os cuidados que terei para vestir, alimentar e manter; todos os afetos, reflexões, voltas e devoluções que terei em mim, em mim e em mim, todas as forças, todas as alegrias, todos os medos, todas as tristezas, todas as complacências expressas e interpretadas, enfim, toda a parafernália de minha vaidade passageira e do cuidado de mim mesmo, (...)

“Certifico, portanto, e protesto mais uma vez, perante o céu e a terra, os anjos e os homens, que não quero mais Vos ofender, ó Deus!

“Deus da minha alma e único dono do meu coração. Que se por fragilidade eu recuar, ai de mim! Meu doce Senhor, não o atribuais à vossa pobre criatura, pois renuncio a ela e lhe resisto como a uma maldita surpresa.

“E, ao contrário, com toda a extensão, força e plenitude do meu consentimento, ofereço-Vos minhas palavras, meus pensamentos, minhas ações, minha vida, minha morte, meu tempo e eternidade: e isto por Jesus Cristo, seu querido Filho e nosso Irmão, a quem convosco e o bendito Espírito Santo seja sempre dado honra, louvor e glória. Assim seja”.


Na oração encontramos formulados os propósitos essenciais em que São Luís Maria Grignion de Montfort fez consistir sua consagração a Nossa Senhora.

A gravidade transcendental desse oferecimento


Sœur Marie percebeu intelectualmente que essa era a vontade divina para com ela.

E uma voz lhe advertiu: ‘Você peça a Deus que tire a liberdade de sua vontade e lhe dê a vontade d’Ele, para não ter outra, mas você não fará o que quiser’.

E exemplificou que se Deus quisesse, poderia impedi-la de comungar durante um ano, e isso seria um grande sofrimento para ela.

Ela raciocinou: ‘a vontade divina é Deus; a Santa Comunhão também é Deus; mas quando eu comungo todos os dias, ainda posso pecar.

Santa Gertrudis também fez a troca de vontades. Em se coração reside o Coração de Jesus, Miguel Cabrera (1695 – 1768) ), Dallas Museum of Art
Santa Gertrudis também fez a troca de vontades.
Em seu coração reside o Coração de Jesus,
Miguel Cabrera (1695 – 1768) ), Dallas Museum of Art
‘Mas se minha própria vontade for destruída e a de Deus me for dada, eu não O ofenderei mais, porque só minha própria vontade pode pecar.

‘É por isso que renuncio de todo o coração à minha própria vontade e me entrego à vontade adorável de meu Deus, para que Ele me possua tão perfeitamente que eu nunca mais O ofenda’.

Deus então, à maneira de teste, fez com que durante um ano lhe fosse impossível comungar sacramentalmente, a partir da festa da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem.

Ela comungava espiritualmente e recebia um muito ardente e puro amor de Deus, um desejo quase infinito de segui-Lo em tudo,

uma grande caridade para com o próximo,

um amor terno e sensível por todos aqueles de quem ela havia recebido algum desagrado,

um zelo devorador pela salvação de almas,

uma afeição incompreensível pelos sofrimentos,

um extremo desprezo a si mesma,

um horror inconcebível ao pecado,

um ódio irreconciliável contra o prestígio pessoal e

um desapego completo de todas as coisas.

A vontade divina havia tomado posse dela.

No entanto, ela não foi confirmada logo nesse estado, porque Deus queria um ano para ela refletir bem o que lhe aconteceria fazendo a troca de sua vontade pela divina.

Para operar suas grandes obras, a bondade divina quer primeiramente obter o nosso consentimento, comenta São João Eudes.

Na Encarnação, a maior de suas obras, primeiro enviou um anjo à Virgem Santíssima para lhe pedir o consentimento.


Terminado o ano de provação, a vontade divina falou a Sœur Marie: ‘Chegou a hora de definir o que você pediu tanto, que sua vontade lhe seja tirada para lhe dar a de Deus.

‘Considere o que você vai fazer. Se eu quiser, tirarei a Sagrada Comunhão de você e a farei caminhar por um caminho terrível.

‘Eu a conduzirei por um caminho cheio de espinhos, cruzes e sofrimentos. Eu poderia até ordená-la ir servir os demônios no inferno’.

Sœur Marie contou que a vontade divina lhe fez ver tanta dor, angústia e tormento tão assustador, que todo seu corpo tremia de medo de maneira extraordinária.

Mas respondeu assim: “Odeio tanto o pecado, que estou pronta para sofrer tantos infernos quanto Deus puder fazer, se necessário for, para que eu nunca faça parte dele.

“Sabendo que é só minha vontade que pode fazê-lo, renuncio à minha vontade com todas as minhas forças, aconteça o que acontecer, e escolho a adorabilíssima vontade de Deus.

“A ela me entrego em toda a medida do possível, para que ela estabeleça seu reinado em mim tão perfeitamente que o pecado nunca entre nele.

“Eu só reservo uma coisa: que é sempre obedecer em toda a medida que eu posso à Igreja, e que se eu fraquejar em alguma coisa, será apenas pela impossibilidade de minhas forças.

“Pois eu sempre farei tudo o que estiver em meu poder para seguir todas as suas ordens”.

A adesão intelectual lúcida e completa


Santa Catarina de Genova também recebeu análoga graça. Casato Ravaschieri Fieschi Archivi - Villa Ravaschieri
Santa Catarina de Genova também recebeu análoga graça.
Casato Ravaschieri Fieschi Archivi - Villa Ravaschieri
“Eis como a vontade de Sœur Marie foi trocada com a de Deus, segundo ela própria me contou por ordem de Nosso Senhor com profunda verdade, sinceridade e simplicidade”,
escreveu seu santo diretor espiritual.

A primeira consequência foi que por cerca de quarenta anos, ela não teve liberdade nem fora nem dentro, nem mesmo para rezar como queria, mas era Deus que a fazia querer.

Isso valia mesmo para beber, comer, vestir, levantar, ir para a cama, e assim por diante.

Fato semelhante se deu com Santa Catarina de Gênova, conforme relatado no primeiro livro de seu Diálogo, capítulo 13, cita o santo.

São João Eudes conta que viu como ela não tinha sequer liberdade em sua memória.

Marie des Vallées lhe mandou escrever muitas coisas que Nosso Senhor a forçara a guardar e a falar porque eram do interesse de Deus, mesmo quando o santo diretor estava em longas missões.

“Por todas essas coisas — acrescenta São João Eudes —, vemos claramente que ela não tem liberdade para usar os poderes de sua alma.

“Esses estão ligados ou mortos e aniquilados em si mesmos, não tendo ação nem movimento a não ser pela vontade divina que está perfeitamente viva e reinando nela”.

A segunda coisa que procedeu da troca das vontades foram os aproximadamente 33 anos sem poder comungar, porque os espíritos malignos dos quais ela estava possuída a impediam.

Foram realizados exorcismos todos os dias, durante um ano inteiro, na presença do Santíssimo Sacramento e usando todo o poder que a Igreja tem sobre os demônios.

Santa Catarina de Siena
Santa Catarina de Siena
Mas eles sempre responderam e alegaram que não podiam obedecer porque a ordem de Deus lhes proibia.

Deus queria que ela passasse por esses tormentos atrozes, tendo nela impresso um desejo tão poderoso e tão ardente de sofrer, que não há palavras capazes de explicar nem mente humana capaz de entender, com a finalidade de destruir o poder do pecado nos outros.

“Tenho certeza — disse ela — de que só Deus podia fazer isso e que todos os poderes humanos e angélicos dos céus da terra e do inferno não eram capazes de me fazer sofrer tanto quanto eu queria.

“Nisso havia apenas a mão infinitamente poderosa de um Deus que tinha esse poder. Todo o inferno com todos os seus tormentos me parecia apenas uma pequena cereja para atender essa fome.

“E, de fato, cinco anos de tormento do inferno não foram capazes de satisfazer essa fome ou esses desejos. Então eles apenas os aumentaram”.

“Esses desejos ardentes — anota São João Eudes — surgiram do ódio quase infinito dela ao pecado e de seu inconcebível amor pelas almas.

“Foi esse ódio e esse amor que a levaram a pedir a Nosso Senhor sofrer as dores do inferno, a fim de resgatar os feiticeiros e obter sua conversão e a destruição do pecado”.

Cristo lhe respondeu que ela não sabia o que estava pedindo, porque os bruxos mereciam a ira de Deus.

Sœur Marie respondeu que estava pronta para carregar mil infernos a fim de obter misericórdia para eles. Acrescentando: “Receio que Vós não tenhais tormentos suficientes para me dar”.

Finalmente, ela desceu ao inferno e ficou lá por cinco anos, sem que as torturas infernais tivessem sido suficientes para acalmar o ardor de seus desejos de sofrer.

Quem a escolheu para fazê-la suportar dores como que infinitas e lhe imprimiu desejos como que infinitos de sofrê-las a revestiu e animou com sua força divina que é infinita — conclui São João Eudes.



A troca de vontades em Sœur Marie: um trabalho do Espírito Santo


Espírito Santo, capela do Rosário, Puebla, México
Espírito Santo, capela do Rosário, Puebla, México
São João Eudes, doutor da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, julga ver nela claramente o dedo de Deus e a marca do caráter de seu Espírito divino.

O grande ódio ao pecado e o amor muito particular de seguir em tudo e por tudo a vontade divina, numa época em que nada levava a isso, reinando pública e impunemente na Terra a corrupção e as abominações dos vícios mais execráveis.

O Espírito de Deus lhe deu desde a infância um extraordinário amor à castidade e uma proteção tão especial, que milagrosamente a libertou dos precipícios e da sujeira do pecado.

Quando soube que estava possessa, aceitou de bom grado esse estado de sofrimento e humilhação como tendo sido escolhido e dado a ela por Deus como o meio mais limpo para sua salvação.

Os feiticeiros lhe jogavam encantos todos os dias, mas ela os atraía sobre si por compaixão das moças que via se perderem por esse influxo diabólico.

Sœur Marie aceitou a troca de vontades por uma determinação puramente intelectual.

Ela não a viu em nenhuma forma ou figura, mas como uma verdade presente, tipo de visão que não está sujeita à ilusão, como ensina São Tomás, quem diz que a visão intelectual é o terceiro céu para onde São Paulo foi levado
(2.2, q. 173, art. 3 ad. 4).

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes
na Chapelle Notre Dame de la Roquelle
O santo diretor afirma que não pode ver nela pecado algum, embora ela nunca acreditasse estar totalmente isenta.

E para provar como isso era possível, cita o exemplo de vários grandes santos.

São Clemente Alexandria diz que os Santos Apóstolos — confirmados na graça de Deus em Pentecostes — depois de receberem o Espírito Santo não cometeram nenhum pecado.

Alega-se que Nosso Senhor tirou do coração de Santa Catarina de Siena e colocou o Coração divino no lugar do dela.

Em outra ocasião, Ele lhe garantiu ter retirado a sua vontade e lhe dado a d’Ele, da qual ela nunca se separaria.

Segundo relatado no capítulo 5 de sua vida, Deus tomou posse total da alma, do coração, da vontade e de todos os poderes de Santa Catarina de Gênova, transformando tudo em Si mesmo, e foi Ele quem controlou e guiou todos os seus movimentos.

No capítulo 16, lê-se que Ele assumiu o livre arbítrio dela, que não fazia mais o que queria, mas apenas o que Ele gostava.

Santo Ambrósio (lib. 1 em Lucas: in initio), Santo Agostinho (De peccatorum meritis et remissione, lib. 2, cap. 6) as Escrituras todas que dizem que os justos caem sete vezes por dia, devem ser entendidos com esta restrição: se não houver um privilégio especial de Deus - nisi ex speciali Dei privilegio – como professa o Santo Concílio de Trento.

Esse Concílio, após anatematizar aqueles que digam que o homem pode evitar durante toda a vida todos os pecados, até veniais, acrescenta essas palavras: “senão por um privilégio especial de Deus”.



Conselhos finais de Sœur Marie a São João Eudes


Após centenas de páginas de anotações, São João Eudes julgou prudente fazer um resumo da ‘troca de vontades’ praticada e pregada por Sœur Marie des Vallées:

Falando da ‘troca de vontades’, explica, esta Serva de Deus me disse muitas vezes: você está a caminho, Deus te leva até lá.

Ela me disse que a aniquilação é geralmente muito longa e que muitas vezes não sabemos onde estamos; e que a incerteza e as penas nos levam a um bom progresso rumo à graça da aniquilação.

Ela me disse muitas vezes que a autoestima, a autoindulgência e a vaidade perdem tudo. Pela aniquilação, Deus entra na alma e, chegando lá, fá-la morrer para si mesma.

Ela também me disse que, por vezes, a alma busca a Deus e não o percebe; porém Deus não cessa de olhar para ela, e ela não deve se cansar de seguir procurando, pois Deus está lá, e isso é suficiente.

Não se deve nessa via deplorar as aridezes, as quais, pelo contrário, nos ajudam. O que buscamos não são nossos gostos, mas a operação de Deus.

Nós tínhamos uma grande alegria falando juntos dessa via. É como um leite que restaura nossa alma com uma felicidade inestimável.

Mas não devemos querer que outros entrem nela, pois é uma operação de Deus. E se não for d’Ele, será inútil.

Não se deve falar dessa via para pessoas que não são chamadas, de medo a perturbá-las ou levá-las a algum julgamento imprudente, condenando levianamente o que não entendem.

A caridade com elas é ficar em silencio, falar apenas da prática das virtudes e da maneira comum de servir a Deus.

A maneira de conhecer a verdade das coisas não é conhecê-las pela inteligência, mas pelo gosto experimental, que abre o fundo da alma, na qual a verdade entra e reina pela aprovação do verdadeiro.

Pelo contrário, uma tristeza que aperta o coração e o fecha de maneira que nada pode entrar nele, é um sinal de que Deus não aprova o que é proposto.

Alguns que falaram com uma alma que trocou sua vontade com a de Deus, experimentaram Jesus Cristo vivo nela, e que Ele reina nela.

Mas essa alma não sabe nada disso: de tal maneira que possuindo tudo, ela acha que não tem nada.

Ela está tão perdida neste Nada que não tem a capacidade de distinguir ou discernir no interior dos outros senão o que Deus lhe faz ver.

Ela fala a várias pessoas de diferentes graças, e é sempre esse Nada que sugere tudo e a faz agir de acordo com as necessidades de cada uma, sem premeditar nada.

As almas mal aconselhadas não se satisfazem com o dom da fé que Deus dá de maneira insensível e invisível, mas muito verdadeira e real.

Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246), primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus. Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Detalhe de quadro de Santa Lutgarda (1182-1246),
primeira santa medieval que recebeu a graça de trocar de coração com Jesus.
Soeur Marie des Vallées abriu uma via para muitos escolhidos
Todas as outras luzes, consolações e transportes servem apenas para consolar o amor particular do homem.

As almas são mal ensinadas fazendo-lhes acreditar que no estado escuro e nu estão perdendo sua união quando, pelo contrário, essa está aumentando.

Se tivéssemos que escolher algum estado nesta vida, seria o de puro sofrimento e da nudez total.

Deus lhe fez saber que por essa via Ele dá aos homens e mulheres do mundo a graça dos velhos religiosos e eremitas.

Não devemos nos surpreender se os grandes dons da oração não se encontram nos claustros, porque os religiosos dão as costas a Deus com a pouca fidelidade que mostram.

O amor próprio carregado de méritos, riquezas espirituais, favores e dons vai devagar e pesadamente: o amor divino, pelo contrário, é rápido e leve.

O amor divino, quando perfeito, reduz a alma à nudez total.

A alma despedaçada não exige nada para si ou para o próximo, nem mesmo a conversão; mas ela apenas diz:

Senhor, deixai vossa graça fazer tal e tal efeito, não sendo capaz de se misturar no caminho do mundo, mas deixando tudo para Deus que é, e ela não é mais.

A última conversa


No ano de 1654 — relata São João Eudes —, nossa última entrevista foi sobre a luz divina, e como vermos tudo em Deus é ver Jesus Cristo e desfrutar de Jesus Cristo.

Eu disse a ela que no momento havia no meu interior uma presença da realidade de Jesus Cristo.

“E ela respondeu que a presença de Deus faz chegar ao que São Paulo descreve assim: Não sou mais eu; mas é Jesus Cristo quem vive em mim [Gal. 2, 20].

“Essa presença de Jesus Cristo está no espírito puro, que comunica a mesma pureza aos sentidos, e ele se transforma em como que uma extensão de Jesus Cristo.

“Ao contar a ela sobre minha mudança de estado para o próximo, ela me disse que é porque meu estado interior está se afastando em direção ao espírito santo e puro, e que os sentidos florescem em direção ao próximo; o que eu vi ser muito real.

“Ela ficou muito feliz com essa mudança e por manter a mesma solidão interior, independentemente do que o meu exterior viva para o próximo”.

Assim encerrou seus apontamentos o santo Doutor dos Sagrados Corações de Jesus e Maria.


Fim da série de posts sobre Sœur Marie des Vallées



Nota bibliográfica: Todas as citações desta página, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


46 comentários:

  1. Muito interessante! Não conhecia essa mística. Obrigado por partilhar esse texto sobre ela.

    ResponderExcluir
  2. Santa Faustina Kowaska, no seu Diário, ela registra em uma de suas páginas a renúncia de sua vontade própria em prol da vontade divina. Isso equivaleria à troca de vontades de que a Soeur Marie des Vallées fala??

    ResponderExcluir
  3. Achei o texto todo muito interessante! Obrigado por nos divulgar a vida dessa santa! Me chamou a atenção esta citação: “São Rafael será enviado por Deus para curar os desesperados." Que possamos ter mais devoção a São Rafael Arcanjo!

    ResponderExcluir
  4. Agora no século XXI, está havendo um retorno muito forte da bruxaria, satanismo e ocultismo. Acredito que isso tenha a ver com a proximidade do Anticristo. Os cristãos precisam estar preparados para a guerra espiritual.

    ResponderExcluir
  5. Veja esse comentário de um padre português sobre o final dos tempos. Padre Vitor Sousa - A Vinda de Jesus Cristo se Aproxima! https://www.rainhamaria.com.br/Pagina/26578/Padre-Vitor-Sousa-A-Vinda-de-Jesus-Cristo-se-Aproxima

    ResponderExcluir
  6. Estou gostando muito dessa séria sobre a Soeur Marie des Vallées!!! Os sofrimentos que ela sofreu em decorrência dos feitiços que lançavam sobre ela são uma luz sobre os nossos tempos, pois hoje também há uma grande prática de bruxaria/ocultismo. A Soeur Marie des Vallées nos mostra que até mesmo os sofrimentos causados pelo demônio podem servir para nossa salvação. Mas ela era uma vítima pura. Agora coitados dos que devido ao pecado sofrem nas mãos de Satanás. Mesmo assim não é em vão, se buscam a salvação eterna. Que possam ser auxiliados por exorcistas. A força e a oração dos exorcistas trazem grande alívio e força nos sofrimentos. Que os bispos possam nomear mais exorcistas!

    ResponderExcluir
  7. Embora isto não se aplique ao caso da Soeur Marie des Vallées, pois ela fez uma opção livre pelo celibato, é comprovado pelos exorcistas que a pessoa possessa não consegue se casar. O Pe. Gabriele Amorth costumava dizer que a pessoa possessa que chega aos 40 anos sem se casar, depois disso não consegue mais. O demônio gosta de ver as pessoas na infelicidade e tristeza.

    ResponderExcluir
  8. "Assanharam-se contra ela vários sorciers (bruxos ou feiticeiros), entre os quais um sacerdote." Como é triste essa realidade: sacerdotes corrompidos e apóstatas que se entregam ao ocultimo, satanismo, etc. Quando o juízo de Deus cairá sobre esses sacerdotes infieis que servem ao demônio???

    ResponderExcluir
  9. Acredito que deve ser o demônio asmodeu que aparece no livro bíblico de Tobias. É preciso a devoção a São Rafael Arcanjo para se livrar dele...

    ResponderExcluir
  10. Vivemos uma época em que há uma grande decadência do clero! Por isso é muito consolador saber que eles (os sacerdotes) terão de prestar contas mais severas a Deus.

    ResponderExcluir
  11. Vamos rezar por eles. Os sacerdotes são muito tentados! O inimigo quer roubar a fé deles

    ResponderExcluir
  12. Triste realidade vivenciada hoje Muitos estão embriagados pelas tentações do mundo!

    ResponderExcluir
  13. Se formos pensar no tanto de bruxarias e feitiços que as pessoas fazem ou mandam fazer nos dias de hoje, a situação é muito preocupante!!! Fazem-se necessários muitos exorcistas! Não é à toa que o saudoso Pe. Gabriele Amorth propunha que todos os sacerdotes tivessem a faculdade de exorcizar. Pena que não foi atendido. Porém é muito triste a situação de tantas pessoas destruídas por magia negra.

    ResponderExcluir
  14. Veja! Achei interessante essa homilia! Las Señales de los Tiempos: ¿Quienes Van al Infierno?, ¿Se Hundirá la Barca? - Padre Carlos Spahn https://youtu.be/ZYGFThoD-v8

    ResponderExcluir
  15. Muito enriquecedor conhecer os fatos relacionados à vida da Soeur Marie des Valleés!!!

    ResponderExcluir
  16. Esta postagem é um capítulo de um apaixonante romance de grandes Santos. Maravilhoso!

    ResponderExcluir
  17. Não são todos, mas é terrível saber como as pessoas que procuram poder e outras benesses não se acanham em fazer recurso à bruxaria e à magia negra. Infelizmente o mundo de hoje não é muito diferente do de antigamente.

    ResponderExcluir
  18. A Igreja de hoje é muito preocupada com as questões sociais e de "gênero", porém deveria se voltar mais para o seu lado místico; o que inclui o combate ao ocultismo e à bruxaria, bem como o auxílio espiritual e o exorcismo para as pessoas necessitadas.

    ResponderExcluir
  19. Os textos lidos impressionam pelo seu conteúdo a remeter para o mundo satânico. Meditando os tem de se repensar o mundo actual . Enquanto houver almas abnegadas vivenciando se na oração ,Deus vai dando a oportunidade ao ser humano da reconciliação com o BEM e o Bom . Assusta os desmandos cada vez mais escabrosos. Professor Tive grandes problemas de saúde desde um HOSPITALIZAÇÃO a uma gastrite de carácter psicosomática gravísima .Vou sobrevivendo como Deus quer e os homens deixam .Daí a minha ausência .Peço ,por favor,a continuação das postagens .A seara é grande ,mas os ceifeiros vão escasseando . Dantes ,faltar á Missa era pecado mortal ,como não tendo em conta as regras para a COMUNHÃO .Agora até os políticos ousam manifestarem -se . Eu ainda tenho um ministro da Comunhão qdo possível . Fez se de Deus um mito de pés de barro aproveitado pelas esquerdas sem lei nem roque . Nossa Senhora cobre com o SEU manto a LUZ da Fé .

    ResponderExcluir
  20. Que triste Luís XIV ter recusado a promessa do Sagrado Coração de Jesus! Infelizmente, como ele, muita autoridades recusam a graça de Deus, fazendo aqueles que dependem de si caírem na desgraça!

    ResponderExcluir
  21. Muito interessante esse texto! Obrigado por partilhar ensinamentos tão interessantes. Gostaria de destacar o seguinte, pois vivemos em tempos onde a bruxaria e o ocultismo estão muito fortes e tendem a aumentar. “os feiticeiros— diz ela —, aliados aos demônios, têm muito mais poder para fazer sofrer do que os homens ou demônios sozinhos” (op. cit. p. 17) Por isso, é preciso que se forme um exército de almas santas na Igreja, incluindo sacerdotes exorcistas, para refrearem essa onda maligna.

    ResponderExcluir
  22. Estamos em tempos onde a bruxaria e o ocultismo aumentaram muito. Por isso, precisamos dos apóstolos dos últimos tempos. A propósito, vejam! Los Maleficios Aumentarán porque Entramos en una Batalla Decisiva [¿cómo protegerse?] https://youtu.be/RrJVBrqC1Lk

    ResponderExcluir
  23. Veja esse texto de um exorcista! Ele conta o caso de uma moça que foi vítima de feitiçaria e que vomitou um bolo. Parece ser algo sem sentido dizer isso, mas os possessos e as vítimas de feitiçaria costumam vomitar coisas. Exorcist Diary #152: The 70/30 Rule in an Exorcism https://www.catholicexorcism.org/post/exorcist-diary-152-the-70-30-rule-in-an-exorcism Já o caso da Soeur Marie des Valées é um caso bem particular, pois ela desempenhava a missão de vítima pela conversão dos pecadores.

    ResponderExcluir
  24. Texto muito interessante! Obrigado pelos ensinamentos interessantes. Como é bom conhecer novos santos.

    ResponderExcluir
  25. Gostaria de destacar dois pontos que me chamaram a atenção no texto. Marie des Vallées sofreu de uma possessão, mesmo não tendo culpa, pois era uma vítima inocente. A outros santos, aconteceu o mesmo como a Beata Eustóquia e Santa Gemma Galgani. Marie des Vallées sofreu neste mundo as penas do Inferno, porque tinha se oferecido como vítima a Deus. Devemos pensar aqui que algumas pessoas sofrem neste mundo as penas do Inferno por serem culpadas. Por isso, enquanto existe o tempo da misericórdia, que elas possam encontrar a Misericórdia de Deus.

    ResponderExcluir
  26. Assustador que possamos sofrer já neste mundo as penas do Inferno! Isso faz sentido se pensarmos que podemos também pregustar os gozos do Paraíso também já neste mundo. Se uma coisa é possível, a outra também é.

    ResponderExcluir
  27. Acredito que a maioria das pessoas não conseguiriam aguentar sofrer as penas do Inferno ainda neste mundo sem sucumbirem a um ato de desespero!!! Nesse sentido, a Soeur Marie des Vallées era assistida por algum sacerdote? Ela era submetida a exorcismos? Penso que tais ajudas seriam indispensáveis, se não estou enganado. Faço esses questionamento na busca caridosa da verdade e não em uma atitude cética.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como está escrito nos posts foi assistida até a morte durante 15 anos por São João Eudes, quem considerava esse apostolado uma das maiores graças de sua vida sacerdotal.

      Excluir
    2. Obrigado pela resposta! A heroicidade dos santos nos deixa perplexos. Mas tudo está guiado e orientado pela Sabedoria de Deus. Louvado seja Deus!

      Excluir
  28. Boa noite As minhas desculpas por ainda não acusar a recepção dos artigos enviados por motivos de saúde. Ao ler estes factos ,impressiona -se pelo conteúdo . Afinal , o ser humano não se corrige apesar das calamidades enviadas como tentativa divina de o acordar para uma vida espiritual. Deus tem vindo lentamente a alertar ...caminha-se de mal para pior .O ser humano está cego,surdo e mudo . Já nem há mais " S. Luís Maria Grignion de Montfort" Obrigada PROFESSOR

    ResponderExcluir
  29. Santa Míriam de Jesus Crucificado, uma santa carmelita, também foi uma santa que sofreu de possessão durante um período de sua vida.

    ResponderExcluir
  30. Muito interessante esse texto! Achei muito interessante aprender os significados da simbologia que Nosso Senhor Jesus Cristo usava nas visões de Marie des Vallées!!!

    ResponderExcluir
  31. “Hélas! Onde estamos? Estamos num deserto onde não vemos ninguém, onde ouvimos apenas animais uivando”. O mundo de hoje, como na época de Marie des Vallées, se embruteceu. Quantas pessoas embrutecidas e violentas! Que, pelo menos os cristãos, possam dar o bom exemplo!

    ResponderExcluir
  32. Ler este e outros textos relativos a manifestações de Deus é sempre motivo de espanto por tanta ignorância Este texto leva-me a pensar nesta época -constantemente se ouve falar num DEUS,PAI das Misericórdias quando afinal “Todas essas mudanças serão feitas no momento da conversão geral e então abriremos todos os pequenos canais que estão nas duas margens da torrente e as águas se espalharão por todos os lados e regarão toda a terra do universo”. Concluo que "o momento da conversão " fará um percurso em que o sofrimento é um anátema . Defacto ,esta época está eivada de sofrimento criado pelos desmandos tremendos em todos os campos desde desmandos científicos a desmandos de FÉ . está se constantemente a ter avisos de vária ordem desde climatéricos a incidentes inexplicáveis . Hoje não se vive -sobrevive-se em absoluta ignorância dos "sete pecados mortais" . Obrigada Professor

    ResponderExcluir
  33. Obrigado pela postagem e excelentes considerações. Em tempos apocalípticos saber que Nosso Senhor vai fazer brotar 5 rios de graças me faz lembrar as grandes vitorias do Bem sobre o Mal.

    ResponderExcluir
  34. Boa noite Ao ler estes textos por onde perpassam conteúdos pavorosos sobre os servidores da Igreja assusta . Assusta pela semelhança entre as épocas em que se tem uma Igreja em crise de valores. Ns textos enviados tem se sempre almas escolhidas como soeur Marie e São João Eudes.Estão sempre conectados com Jesus e Nossa Senhora . Actualmente ,cada vez mais se sente ausência de servidores . Por esta ausência ,fica -se com a sensação viver-se n torre de Babel -participantes nas actividades mas inexperientes no "estar ao serviço do outro" Transpira-se falta de uma recatequisação.Triste.Assustador . Obrigada Professor .

    ResponderExcluir
  35. Salve Maria Sr Dufour, Tenho acompanhado tudo que tens mostrado sobre a Vida de Soeur Marie de Vallees e a Troca de Vontades.... Tudo é Impressionante e mostra bem como Deus conduz o Mundo e Principalmente aqueles a quem Ama.... Há uma passagem na vida do Pe Reus que Nosso Senhor tira o Coração dele e troca com o do Pe Reus.... creio que deve ter lido em Suas Memórias, não? Que Mistérios Maravilhosos de como Deus conduz a História da humanidade.... Ele tem sempre o Comando chegando a "extremos"como os que fez com Soeur Marie, inclusive com os demônios que eram obrigados a não saírem de Sua Alma por ordem de Deus.... Fantástico!!! E fica claro também, que os demônios sofriam mais por Isso... Muito obrigado por nos dar esta oportunidade de Conhecer e Amar mais a Deus e como Ele conduz a História da humanidade! In Jesu et Maria,

    ResponderExcluir
  36. Me chamou a atenção o fato de a Consagração de Escravidão à Nossa Senhora ser baseada na oração da troca de vontades com Deus. "Na oração encontramos formulados os propósitos essenciais em que São Luís Maria Grignion de Montfort fez consistir sua consagração a Nossa Senhora."

    ResponderExcluir
  37. Acho que ninguém deveria se submeter a uma possessão demoníaca por vontade própria. Porém refletir sobre isso, nos faz pensar sobre o sentido do sofrimento. Que Deus tenha misericórdia dos possessos e das pessoas que carregam cruzes pesadas demais.

    ResponderExcluir
  38. Soeur Marie ,apaixonada por Cristo arrepia e surpreende -nos. Inquieta nos igualmente .Ao ler a sua integral entrega a Deus ,perturba saber -se desta entrega . No mundo actual ,esta entrega nem tem algum sentido .Sabe-se apenas de "carmelitas" aqui,além .E supõe se que a clausura ,uma forma de solução para problemas de ordem vária. Eu centro -me nas carmelitas de Fátima a quem recorro por motivos vários . Acredito plenamente na entrega a Deus de mulheres resilientes na FÉ que sem olhar para trás se devotam inteiramente a Deus pelos outros podendo ter uma vida de sucessos vários. Em áfrica conheci as "irmãs leigas" .Aqui ,tive quem me abrisse as portas das carmelitas de Fátima junto das quais deixo uma ladainha sem fim - estas mulheres de burel negro vem ao meu encontro num silêncio que alimenta o sopro de vida nas minhas memórias -uma grande árvore que o vento agita as folhas. Obrigada Professor por tanto que me dá Bem haja

    ResponderExcluir
  39. Me chamou a atenção esta frase: "Quando soube que estava possessa, aceitou de bom grado esse estado de sofrimento e humilhação como tendo sido escolhido e dado a ela por Deus como o meio mais limpo para sua salvação." Isso nos dá esperanças nos dias de hoje, nos quais é muito difícil encontrar um exorcista. Apesar da possessão os possessos não precisam de se julgar irrevogavelmente condenados ao Inferno. Deus sabe dos seus sofrimentos e do seu desejo de ser salvos. Penso que isso há de ser levado em conta para sua salvação. Se engana quem diz que todos os possessos estão definitivamente condenados ao Inferno. Exceto os casos de impenitência.

    ResponderExcluir
  40. Há outro aspecto a ter em conta: a possessão eventualmente ser causada pelo próprio, por ter contactado pessoas e frequentado locais inadequados. Aí precisa de uma boa Confissão, caso contrário...não sei não... Lógico que Sœr Marie não tinha esse problema

    ResponderExcluir
  41. O Padre Gabriele Amorth, em um de seus livro, (não me lembro qual) explicava que os possessos podem se dividir em dois grupos: os que têm culpa e os sem culpa. Os que têm culpa são os que cometeram algum pecado grave, e, como você bem mencionou, precisam de se confessar, e aqueles que não têm culpa mas que se tornaram possessos devido, por exemplo, a um malefício feito contra eles. Porém, sem banalizar a necessidade de confissão, creio que a misericórdia de Deus vá mais além, pois cada caso é um caso particular. Nesse sentido, o Pe. Malachai Martin, em seu livro sobre possessão, Hostage to the Devil, Reféns do Demônio em português, lembrava o triste destino dos possessos mal compreendidos: acabam sendo confundidos com doentes mentais, sendo submetidos a drogas psiquiátricas, sendo condenados a levar uma vida dopados e incapacitados.

    ResponderExcluir
  42. Acredito que a Igreja não tenha estatísticas sobre o número de possessos, mas que, pelo senso comum, podemos constatar que o número de possessos está aumentando. É preciso que os bispos deem uma resposta a esse fato, nomeando exorcistas para as suas dioceses.

    ResponderExcluir
  43. Obrigado por divulgar essa grande mística francesa: Soeur Marie des Vallées!!! Eu não a conhecia e fiquei muito edificado de conhecer sua vida e missão.

    ResponderExcluir
  44. "Eu disse a ela que no momento havia no meu interior uma presença da realidade de Jesus Cristo. "
    Uma frase que estremece a interioridade.
    Já não se sente essa presença. Cada vez mais se ausenta de Jesus Cristo.
    O dom do temor a DEUS sucumbiu...

    ResponderExcluir