segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A troca de vontades em Sœur Marie: um trabalho do Espírito Santo

Espírito Santo, capela do Rosário, Puebla, México
Espírito Santo, capela do Rosário, Puebla, México
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: A troca de vontades vivida por Sœur Marie des Vallées





São João Eudes, doutor da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, julga ver nela claramente o dedo de Deus e a marca do caráter de seu Espírito divino.

O grande ódio ao pecado e o amor muito particular de seguir em tudo e por tudo a vontade divina, numa época em que nada levava a isso, reinando pública e impunemente na Terra a corrupção e as abominações dos vícios mais execráveis.

O Espírito de Deus lhe deu desde a infância um extraordinário amor à castidade e uma proteção tão especial, que milagrosamente a libertou dos precipícios e da sujeira do pecado.

Quando soube que estava possessa, aceitou de bom grado esse estado de sofrimento e humilhação como tendo sido escolhido e dado a ela por Deus como o meio mais limpo para sua salvação.

Os feiticeiros lhe jogavam encantos todos os dias, mas ela os atraía sobre si por compaixão das moças que via se perderem por esse influxo diabólico.

Sœur Marie aceitou a troca de vontades por uma determinação puramente intelectual.

Ela não a viu em nenhuma forma ou figura, mas como uma verdade presente, tipo de visão que não está sujeita à ilusão, como ensina São Tomás, quem diz que a visão intelectual é o terceiro céu para onde São Paulo foi levado
(2.2, q. 173, art. 3 ad. 4).

Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes. Chapelle Notre Dame de la Roquelle
Soeur Marie des Vallées assiste à Missa de São João Eudes
na Chapelle Notre Dame de la Roquelle
O santo diretor afirma que não pode ver nela pecado algum, embora ela nunca acreditasse estar totalmente isenta.

E para provar como isso era possível, cita o exemplo de vários grandes santos.

São Clemente Alexandria diz que os Santos Apóstolos — confirmados na graça de Deus em Pentecostes — depois de receberem o Espírito Santo não cometeram nenhum pecado.

Alega-se que Nosso Senhor tirou do coração de Santa Catarina de Siena e colocou o Coração divino no lugar do dela.

Em outra ocasião, Ele lhe garantiu ter retirado a sua vontade e lhe dado a d’Ele, da qual ela nunca se separaria.

Segundo relatado no capítulo 5 de sua vida, Deus tomou posse total da alma, do coração, da vontade e de todos os poderes de Santa Catarina de Gênova, transformando tudo em Si mesmo, e foi Ele quem controlou e guiou todos os seus movimentos.

No capítulo 16, lê-se que Ele assumiu o livre arbítrio dela, que não fazia mais o que queria, mas apenas o que Ele gostava.

Santo Ambrósio (lib. 1 em Lucas: in initio), Santo Agostinho (De peccatorum meritis et remissione, lib. 2, cap. 6) as Escrituras todas que dizem que os justos caem sete vezes por dia, devem ser entendidos com esta restrição: se não houver um privilégio especial de Deus - nisi ex speciali Dei privilegio – como professa o Santo Concílio de Trento.

Esse Concílio, após anatematizar aqueles que digam que o homem pode evitar durante toda a vida todos os pecados, até veniais, acrescenta essas palavras: “senão por um privilégio especial de Deus”.



Continua no próximo post: Conselhos de Sœur Marie a São João Eudes


Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


4 comentários:

  1. Me chamou a atenção esta frase:

    "Quando soube que estava possessa, aceitou de bom grado esse estado de sofrimento e humilhação como tendo sido escolhido e dado a ela por Deus como o meio mais limpo para sua salvação."

    Isso nos dá esperanças nos dias de hoje, nos quais é muito difícil encontrar um exorcista. Apesar da possessão os possessos não precisam de se julgar irrevogavelmente condenados ao Inferno. Deus sabe dos seus sofrimentos e do seu desejo de ser salvos. Penso que isso há de ser levado em conta para sua salvação. Se engana quem diz que todos os possessos estão definitivamente condenados ao Inferno. Exceto os casos de impenitência.

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  2. Há outro aspecto a ter em conta: a possessão eventualmente ser causada pelo próprio, por ter contactado pessoas e frequentado locais inadequados. Aí precisa de uma boa Confissão, caso contrário...não sei não...
    Lógico que Sœr Marie não tinha esse problema

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  3. O Padre Gabriele Amorth, em um de seus livro, (não me lembro qual) explicava que os possessos podem se dividir em dois grupos: os que têm culpa e os sem culpa. Os que têm culpa são os que cometeram algum pecado grave, e, como você bem mencionou, precisam de se confessar, e aqueles que não têm culpa mas que se tornaram possessos devido, por exemplo, a um malefício feito contra eles. Porém, sem banalizar a necessidade de confissão, creio que a misericórdia de Deus vá mais além, pois cada caso é um caso particular. Nesse sentido, o Pe. Malachai Martin, em seu livro sobre possessão, Hostage to the Devil, Reféns do Demônio em português, lembrava o triste destino dos possessos mal compreendidos: acabam sendo confundidos com doentes mentais, sendo submetidos a drogas psiquiátricas, sendo condenados a levar uma vida dopados e incapacitados.

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  4. Acredito que a Igreja não tenha estatísticas sobre o número de possessos, mas que, pelo senso comum, podemos constatar que o número de possessos está aumentando. É preciso que os bispos deem uma resposta a esse fato, nomeando exorcistas para as suas dioceses.

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