segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Sœur Marie sobre o estado da Igreja

Madonna delle Milizie, Sicilia. Fundo: anjos por Guariento di Arpo
Madonna delle Milizie, Sicilia. Fundo: anjos por Guariento di Arpo
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs







Continuação do post anterior: Sœur Marie e a conversão universal vindoura



Nossa Senhora comanda a guerra ao mal


Um dia em que Sœur Marie caminhava para o santuário de Notre-Dame de la Délivrance junto com outras almas piedosas, as forças lhe faltaram.

Jesus então lhe disse que ela tinha necessidade da carruagem de Nossa Senhora, ao que Sœur Marie respondeu que não tinha coragem de fazer tal pedido.

Nosso Senhor lhe respondeu que Ele próprio pediria a carruagem à Sua Mãe.

E Sœur Marie “recebeu uma força tão grande, que era como se ela nunca se tivesse cansado, porque essa carruagem, que é a força divina, lhe foi dada para andar quando toda a força natural desfaleceu, embora conservasse sempre as mesmas sensações de cansaço, como se essa força não lhe tivesse sido dada”, registrou São João Eudes. (p. 369)

Nossa Senhora a chamava no dialeto da Normandia, minha ‘grande servidora’ e uma vez Cristo lhe apareceu perguntando para onde tinha ido sua Mãe.

Sœur Marie foi procurá-la e “viu-a vir sobre um carro de triunfo repleto de armas de toda espécie.

“Ela [Sœur Marie] se voltou para Nosso Senhor e disse: ‘Eis que vossa Mãe vem sobre um carro cheio de armas. O que Ela vai fazer com tudo isso?

“É que Ela vai para a guerra. (...)

“O que Ela vai fazer dessas armas?

Nossa Senhora vitoriosa em Lepanto. Igreja de Santa Maria Madalena, Sevilha, Lucas Valdez (1661 - 1725)
Nossa Senhora vitoriosa em Lepanto.
Igreja de Santa Maria Madalena, Sevilha,
Lucas Valdez (1661 - 1725)
“É para armar seus servidores, a fim de combaterem contra o Pecado. Ela dispõe alguns de uma maneira, outros de outra, alguns na ofensiva, outros na defensiva.

“Além disso, ela [Sœur Marie] viu um grande maço de pequenas chaves de ouro que Ela carregava no cinto.

‘O que Ela vai fazer com todas essas chaves?’ — perguntou a Nosso Senhor.

“Olha para a quantidade de pequenos armários nesse carro triunfal.

“Vede — diz Nosso Senhor —, essas são as chaves de todos esses armários que estão cheios de muitos prêmios diferentes que Ela distribui a seus servos quando eles combateram e obtiveram a vitória”. (pp. 371-372)

Marie des Vallées tinha uma devoção extraordinária pelo terço, que São João Eudes considerava a sua maior devoção.

Nosso Senhor lhe ensinou que o santo Rosário é o pão e o vinho da alma cristã. Todas as outras orações são como os frutos, os legumes e os doces de que o homem se alimenta.

“O rosário é a oração dos pobres e dos ignorantes que contem em si todos os tesouros da ciência e da sabedoria de Deus e dos santos”, dizia (p.377).

Quando algumas pessoas começaram a murmurar contra a festa do Coração de Maria, Nossa Senhora lhe ensinou que o Sagrado Coração de Jesus é também seu Coração, de maneira que comemorando a festa do Coração de Maria, celebramos também a festa do admirabilíssimo Coração de Seu Filho”. (p. 379)

Sœur Marie tinha tal ódio ao pecado, que chegava a dizer que se lhe fossem abertas as portas do Paraíso entraria não para gozar da glória, mas para fazer que os Apóstolos e os santos saíssem de lá e descessem à Terra para destruir o monstro do pecado e salvassem as almas.

São Paulo Apóstolo, Basílica de San Paolo fuori le mura, Roma
São Paulo Apóstolo, Basílica de San Paolo fuori le mura, Roma
Certa vez ela foi saudar o Santíssimo Sacramento exposto numa igreja.

Então Jesus Cristo aquiesceu, mas a advertiu de que no templo estavam também São Pedro e São Paulo, que ela tanto queria tirar do Paraíso.

Ela revidou, inquirindo sobre o que eles faziam no Céu sem virem a matar o pecado. Nosso Senhor contestou:

“Eu te garanto que eles têm mais vontade de vir do que você tem de que venham. E eles todos virão, com certeza, eles vão descer como nuvens de raios para esmagar o pecado.

“Então, que venham já!” — retrucou Marie.

“Eles virão no tempo da grande tribulação”.

Na igreja, quando São Pedro e São Paulo se retiravam, lhe perguntaram se ela queria enviar algum recado para o Céu:

“Sim — respondeu —, eu vos rogo apresentar meus cumprimentos aos santos que foram mais excelentes no ódio do pecado”. (p.387)

Todos os santos estão em cólera contra o pecador como um filho que está furioso contra aquele que apunhalou seu pai, anota São João Eudes. (p. 390)

De fato, São João Eudes conta que, quando ela passou pelo inferno, via todos os santos do Céu exultantes olhando-a e ameaçando-a com os rostos cheios de cólera como se fossem brasas.

E com o mesmo olhar a fitavam os condenados cheios de furor contra ela.

Estado moral do clero comparado a uma cloaca


Detalhe do Juizo Final, Stefan Lochner (c 1410–1451), Wallraf-Richartz-Museum, Colonia
Detalhe do Juizo Final, Stefan Lochner (c 1410–1451),
Wallraf-Richartz-Museum, Colonia
Antes de janeiro de 1645, Nosso Senhor lhe pediu rezar três ladainhas em três locais muito diferentes.

A primeira no meio da maior encruzilhada da cidade, a segunda no meio da fossa mais suja e fedorenta da cidade, e a terceira na igreja, em frente ao crucifixo.

“Fiquei muito surpresa com essa ordem e até vi a Virgem Maria, que naquela ocasião estava chorando amargamente. No entanto, isso deveria ser feito.

“Então fui primeiro à encruzilhada para rezar com meu livro de piedade em mãos a ladainha do Pai Eterno, como me foi ordenado.

“Depois fui procurar o local mais cheio de sujeira e mau cheiro que pude encontrar, e ali, no meio desse fedor e sujeira, rezei a ladainha do Filho de Deus, enquanto as crianças que me viam lá por muito tempo apontavam para mim, me vaiavam e jogavam pedras.

“Então fui à igreja para rezar a ladainha do Espírito Santo diante do crucifixo.

“Assim que eu o fiz, a Santíssima Virgem, que antes estava chorando, começou a me dizer com grande alegria: ‘Ó minha filha, você fez bem: cante agora a Regina cœli laetare alleluia etc.’

Então Nosso Senhor lhe explicou que “a primeira ladainha dita na encruzilhada fora da igreja era para chamar os infiéis à Igreja; a segunda foi para a conversão dos maus cristãos, e especialmente dos maus sacerdotes, porque Ele me disse:

“Estou na minha Igreja como numa cloaca cheia de sujeira e mau cheiro, isto é, no meio de cristãos e especialmente de sacerdotes, a maioria dos quais não é senão corrupção e fedor”.

Sœur Marie, respondeu, perguntando: “Por que Vós permaneceis no meio dessa imundície?”

E Ele respondeu: “É meu amor, minha caridade, minha misericórdia e minha divina paciência que me obrigam a fazê-lo”.


O diálogo nos ajuda a compreender as palavras de Nossa Senhora em La Salette:

“Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza.

“Sim, os sacerdotes atraem a vingança e a vingança paira sobre suas cabeças.

“Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho!

“Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança”. Cfr. O segredo de La Salette, texto completo em português

Prossegue São João Eudes com a narração:

“A terceira ladainha, dita diante do crucifixo na igreja, em honra do Espírito Santo, foi para obter o perdão que Ele deverá conceder pela grande efusão e transbordamento de graças que derramará sobre todas as almas no tempo da conversão geral” (p. 291).

Porém, os bruxos, que tantos malefícios lançavam contra Sœur Marie, acabariam sendo vítimas dos demônios.

Esses obrigariam os bruxos a destruir suas obras, porém os dolorosos tormentos com que os espíritos diabólicos flagelariam os bruxos, os ajudariam a se converterem. (p.295)

Numa outra ocasião, Sœur Marie viu Nosso Senhor se afastando da Terra que tinha vindo visitar.

Nossa Senhora lhe explicou que Ele chamava de “minhas terras” todas as nações que não são da sua Igreja. E falava da Igreja como “minha casa”.

Mas que, após ter visitado suas terras, partiu dizendo com tristeza e dor as palavras de Jó (10:22): “Esta terra de miséria e escuridão, onde habita a sombra da morte, onde tudo é sem ordem e em eterno horror” (p. 298-299)

Sobre o estado da Igreja


Em 1646, Nosso Senhor lhe mostrou uma cidade, neste caso a de Coutances, pela qual lhe pediu orações.

Essa cidade se lhe afigurava como uma urbe da época, pois as imagens divinas quase sempre eram de aparência temporal.

Depois Nosso Senhor lhe explicou o que significava a visão em termos simbólicos e, por fim, seu conteúdo espiritual.

“Nosso Senhor lhe disse que todo o mundo era como uma cidade cujo centro é a Igreja, que os bairros são aqueles grupos de pessoas catequizadas que vão à Igreja, e que as aldeias representam os infiéis.

“Ele lhe ordenou rezar três Gloria Patri pela Igreja.

“No primeiro, a Igreja pede varas para punir seus filhos; no segundo pede armas para defendê-la de seus inimigos, e no terceiro, força para derrotá-los.

“Mandou-lhe rezar o Aleluia três vezes pelos catecúmenos.

“O primeiro foi para pedir a Deus que encha suas memórias com os mistérios da nossa religião.

“O segundo para que ilumine seu entendimento para acreditarem n’Ele.

“O terceiro para que acenda suas vontades a fim de incendiá-las”.

Para os incrédulos, Ele ordenou que ela pronunciasse cinco vezes o Nome de Jesus, para que O conheçam pela fé, sejam purificados pelo batismo, recebam o pão da vida que os nutre, o dom da perseverança e cheguem à vida eterna. (p. 394)

Incêndio da catedral de Chartres em 4 de junho de 1836.  François Alexandre Pernot (1793-1865). Musée des Beaux-Arts de Chartres.
Incêndio da catedral de Chartres em 4 de junho de 1836.
François Alexandre Pernot (1793-1865). Musée des Beaux-Arts de Chartres.
Mas certo dia Nosso Senhor lhe disse: “O sol se eclipsou, a lua está coberta com um véu preto, as estrelas perderam a luz.

“Ele disse que esse sol de que falava representava todos os clérigos, do primeiro ao último, que a lua significava os nobres e os altos personagens, e que as estrelas representavam todos aqueles que estavam ligados pela fé ao céu da Igreja”. (p.394)


“Em 6 de março de 1645 lhe foi ordenado rezar por sua mãe, a Igreja, que está muito doente (...) e de rezar ao Filho de Deus para que realize as profecias do Magnificat” (p. 395).

Em 11 de março do mesmo ano, Nosso Senhor pediu a Sœur Marie “oferecer sua Paixão ao Pai Eterno e ao Espírito Santo, para obter do Pai que restabeleça a Igreja na sua santidade primeira, para que o Filho conceda aos sacerdotes a verdadeira ciência da verdadeira sabedoria e a verdadeira santidade; e ao Espírito Santo para que Ele acenda o fogo do amor e da caridade nos corações em que se apagou (...)

“Nossa Senhora lhe pediu oferecer a Paixão à Santíssima Trindade para obter do Pai que libere sua filha — a Igreja — que está possuída pelos diabos que são os pecados” (p. 397).

Nossa Senhora ainda lhe disse: “a Igreja não está doente de morte, mas Meu Filho lhe fará uma sangria e uma purgação, e ela sairá curada” (p. 398).

Na Missa, Nosso Senhor acrescentou: “Minha Esposa ficou leprosa. E Eu lhe digo que Ela vai se lavar sete vezes no rio Jordão e ficará bela e branca como uma criancinha (...) o Jordão é a penitência” (p. 398).

Acontecia-lhe com assiduidade que ao ouvir a voz de um sacerdote que cantava na igreja, mas que não vivia como padre, sentia nascer em si própria um movimento extraordinário ao qual não podia resistir e suscitava a exclamação interior: “Ó maldita voz, tu atrais a ira de Deus” (p. 419).

Numa outra ocasião, na catedral de Coutances, ouviu que o órgão tocava ao máximo por causa de um personagem importante que os clérigos queriam agradar, e cantavam alguns motetes para entreter-se.

Simultaneamente, Sœur Marie ouvia a voz de Nosso Senhor dizendo à Igreja: “Ó desavergonhada bastarda, você profana as coisas sagradas” (p.419).

Ela increpava as modas que enchiam de superficialidades a vida dos homens não só nas roupas, mas nos modos de falar, de se saudar, de arranjar as casas e jardins.

As maiores truculências iam para os religiosos e as religiosas que adotavam as modas do mundo.

Certa feita, Jesus Cristo lhe fez ver uma árvore belíssima numa pradaria muito atraente. Suas folhas eram muito densas e belas, mas cada uma escondia um anzol, e tremia.

E lhe explicou que essa árvore era como o mundo: as folhas simbolizavam as diversas volúpias com que o diabo prende as almas (p. 443).

São João Eudes escreve que no ano 1644, Marie repetia com frequência:

Hélas! Onde estamos? Estamos num deserto onde não vemos ninguém, onde ouvimos apenas animais uivando”.

“Então foi-lhe dado a entender que esse deserto é o mundo, porque restam muito poucos homens e está quase só povoado de animais, ou seja, de pessoas que levam vidas de brutos.

“Não se ouve mais falar a linguagem dos homens razoáveis e cristãos, mas a das bestas.

“Não se ouve outra coisa além de palavrões, blasfêmias, calúnias, maldições, imprecações, palavras sujas e coisas do gênero” (p. 443).


Continua no próximo post: A troca de vontades vivida por Sœur Marie


Nota: Todas as citações desta série de posts, salvo indicação em contrário, foram extraídas de “La vie admirable de Marie des Vallées et son abrégé rédigés par Saint Jean Eudes, suivis de conseils d’une grande servante de Dieu”, Centre Saint-Jean-de-la-Croix, Mers-sur-Indre, França, 2013, 693 páginas.

Coleção “Sources mystiques”, textos presentados e editados por Dominique Tronc e Joseph Racapé, CJM.


3 comentários:

  1. Muito interessante esse texto!
    Achei muito interessante aprender os significados da simbologia que Nosso Senhor Jesus Cristo usava nas visões de Marie des Vallées!!!

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  2. “Hélas! Onde estamos? Estamos num deserto onde não vemos ninguém, onde ouvimos apenas animais uivando”.

    O mundo de hoje, como na época de Marie des Vallées, se embruteceu. Quantas pessoas embrutecidas e violentas!

    Que, pelo menos os cristãos, possam dar o bom exemplo!

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  3. Boa noite
    Ao ler estes textos por onde perpassam conteúdos pavorosos sobre os servidores da Igreja assusta .
    Assusta pela semelhança entre as épocas em que se tem uma Igreja em crise de valores.
    Ns textos enviados tem se sempre almas escolhidas como soeur Marie e São João Eudes.Estão sempre conectados com Jesus e Nossa Senhora .
    Actualmente ,cada vez mais se sente ausência de servidores .
    Por esta ausência ,fica -se com a sensação viver-se n torre de Babel -participantes nas actividades mas inexperientes no "estar ao serviço do outro"
    Transpira-se falta de uma recatequisação.Triste.Assustador .
    Obrigada Professor .

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