segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Cardeal Pie: a ousadia do Anticristo
tentará os fiéis para a ‘religião nova’ do relativismo

“O desabrochar do Anticristo se fará conhecer vendo os homens malvados exultantes e reverdecidos”.
Os homens adorarão a besta da Terra e a Besta do mar, Museo Paul Getty
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Pois é preciso dizê-lo, na medida em que as sociedades irão se divorciando do cristianismo, o papel dos homens de bem, dos homens de fé, tornar-se-á cada vez mais impossível.

Ouvi ainda o nosso Santo Doutor [Santo Hilário de Poitiers]. Ele fala desses últimos tempos que Nosso Senhor anunciou que se aproximam e sinalizou seu caráter com a figura da figueira cujos galhos começam a amolecer.

“Com efeito, diz ele, se saberá que o Anticristo começa a despontar, a brotar: Antichristus autem frondescere noscetur; o desabrochar do Anticristo se fará conhecer vendo os homens malvados exultantes e como que reverdecidos: Antichristus autem frondescere quadam peccatorum exultantium viriditate noscetur.

“Pois haverá então uma nata de malvados, uma elite de perversos; e todas as vantagens, todos os favores e toda a consideração serão concedidos aos irreligiosos: Erit enim tum flos criminosorum, et honor facinorosorum, et gratia profanorum (Comment, in Matth., XXVI, 2)”.



Todo o texto que acabo de citar é digno de destaque; a última pincelada exprime ao vivo certas disposições, certas tendências que não são estranhas em nosso tempo: et gratia profanorum.

Em todos os povos do mundo, o sagrado foi colocado por cima do profano; e, em todas as nações cristãs, a ordem sacerdotal obteve a preeminência.

Naqueles tempos, pelo contrário, a suprema injúria para um homem do mundo, o motivo irremissível de exclusão, será ser reputado e qualificado de clerical; enquanto as melhores oportunidades, o título principal para um batizado obter favores e dignidades será o de ter-se conservado o mínimo possível preocupado com o seu batismo e se instalar na esfera do livre pensamento, da moral independente, a fim de ganhar uma posição entre os irreligiosos.

O que eu estou dizendo?

“Não olheis para nossos pecados. Não suportamos mais a Lei. Falai o que nós gostamos”
Ottheinrich-Bibel, Bayerische Staatsbibliothek, Cgm 8010, Folio300r_Rev17.
Será feito algo à maneira de uma religião nova, no seio da qual o irreligioso se tornará de alguma maneira sagrado e se arrogará uma missão transcendente.

O sinal típico dessa geração será ser anticlerical, de acordo com esta palavra do Senhor a seu profeta:

Populus enim tuus, sicut hi qui contradicunt sacerdoti (Ose. , IV, 4)

Contradizer, ridicularizar o sacerdote será a glória dessa época: glória tristemente ganha e duramente paga.

É por isso que eu quero vos dar a satisfação de ouvir uma segunda vez o texto de nosso doutor: Antichristus autem frondescere quadam peccatorum exultantium viriditate noscetur. Erit enim tum flos criminosorum, et honor facinorosorum, et gratia profanorum.

Ora, meus caríssimos filhos, qual será o dever da Igreja nesses tempos?

Não faltarão os filhos da mentira, os filhos que não querem ouvir a Lei de Deus: filii mendaces, filii nolentes audire legem Dei.

Tampouco faltarão os homens honestos, mas pusilânimes, que dirão aos que percebem as coisas: ‘Não olheis’: qui dicunt videntibus : Nolite videre; e àqueles que olham: ‘não olheis para nós no que se refere à boa ordem’: et aspicientibus : Nolite aspicere nobis quœ recta sunt. Não podemos mais carregar aquilo que é ordenado. Falai para nos dizer as coisas de que gostamos: Loquimini nobis placentia.

E se vós olhardes, que seja para ver junto conosco, como nós, para consagrar nossos erros: Loquimini nobis placentia, videte nobis errores (Joann., XVI, 13).


(Autor: Cardeal Louis-Édouard-François-Desiré Pie (1815 – 1880), “Discours prononcé à Rome, dans l'église de Saint André della Valle, 14janvier 1870, en la fête de l’évêque de Poitier et Docteur de l'Eglise”, in Oeuvres de monseigneur l'évêque de Poitiers, Tomo 6, Bibliothèque Nationale de France)

Notícia histórica do Cardeal Pie


O Cardeal Luis Eduardo Pie (1815 – 1880), foi bispo de Poitiers, França, elevado ao Cardinalato pela brilhante apologia da infalibilidade pontifícia no Concílio Vaticano I. Ele ficou famoso pelo seu “ultramontanismo” [literalmente = além das montanhas, apelativo dado aos franceses defensores do Papado] e pela sua ativa apologia do reinado social de Cristo Rei.

No Grande Seminário de Saint-Sulpice, em Paris, se destacou na polêmica contra os eclesiásticos “galicanos” [defensores de falsas prerrogativas do governo leigo francês, ou “galo”]. Ele foi ardido pregador contra o liberalismo, o relativismo e o livre pensamento condenado pelos Papas.

Em 12 de julho de 1843 escreveu uma carta que definia sua orientação autenticamente católica: “O partido neo-católico liberal é um filho da Revolução; e a Revolução é satânica na sua essência”.

Foi vigário da catedral e vigário geral da diocese de Chartres. Em 28 de setembro de 1849, o Papa Pio IX o nomeou bispo da diocese de Poitiers, ilustrada pelo ensinamento de Santo Hilário, Doutor da Igreja.

Ele resumia sua ação com a frase de São Paulo: instaurare omnia in Christo.

Exerceu grande influência sobre o conde de Chambord, pretendente legítimo ao trono da França. Foi muito hostilizado pelos bispos favoráveis a uma conciliação com o liberalismo positivista anticristão. Esses bispos defendiam um carunchado e insincero “cristianismo moderado”.

O bispo de Poitiers lhes respondia que “o diabo se chacoalha violentamente no seio do cristianismo moderado”, o qual segundo ele, era uma das mais danosas formas de subversão.

Ele tentou influenciar o imperador Napoleão III e lhe abrir os olhos diante do perigo que crescia contra a Igreja e contra a sociedade. Após infrutífera audiência em 15 de março de 1859, Mons. Pie anunciou profeticamente ao chefe de Estado o fracasso de seu reinado. O imperador foi deposto em setembro de 1870 após catastrófica derrota contra a Prússia protestante e iluminista.

Mons. Pie comparava o contrarrevolucionário Papa Pio IX ao próprio Cristo dizendo que o furor do inferno e do laicismo se desencadeou contra o Pontífice. Ele punha no boca do governo francês as insensíveis e cruéis palavras de Poncio Pilatos: Ecce homo !

Ele preveniu bispos e governantes para a vinda não remota do Anticristo preanunciada pela dissolução geral da sociedade cada vez mais liberal.

Mons. Pie foi perseguido e condenado pelo governo. Em 1863, denunciava a perseguição anticristã dizendo:

“O objetivo da Revolução [se referindo em primer lugar à Revolução Francesa de 1789 e seus sucedâneos] é o esmagamento do cristianismo na vida pública, a derrubada da ortodoxia social.

“Destruir os últimos restos do edifício antigo da Europa cristã. E, para que a demolição seja definitiva, abater a pedra angular em volta da qual ainda poderiam se articular os últimos restos subsistentes.

“Eis a obra na qual convergem abertamente as mil vozes da impiedade da nossa geração: a caotização à qual nos assistimos”.

Em 29 janeiro de 1879 foi elevado à dignidade de Cardeal pelo Papa Leão XIII. Roma quis premia-lo pelo seu brilhante atividade no Concílio Vaticano em favor do dogma da infalibilidade pontifícia, felizmente aprovado.

O cardeal Pie – “meu Mestre”, dizia São Pio X – profetizou, e eis aqui alguns textos que é bom redescobrir nestes dias.

A concordância com as mensagens de La Salette e Fátima se impõe por si mesma e dispensa comentários.

(Fonte: verbete Louis-Édouard Pie, Wikipedia, e idem).


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